61ª Bienal de Veneza e o blues da contemporaneidade
Após duas edições consecutivas dando ênfase ao pluralismo e à diversidade (de gênero, étnica e social), neste ano a Bienal de Veneza apresenta uma mostra na qual predomina a ausência de um tema norteador explícito
No dia 25 de fevereiro, ocorreu a coletiva de imprensa que apresentou as bases da próxima Bienal de Arte de Veneza. O projeto, intitulado In minor keys (Em tons menores), assinado por Koyo Kuoh, foi excepcionalmente apresentado por sua equipe.
Morta no ano passado, a curadora de origem camaronense e nacionalidade suíça deixou em suspenso diversos aspectos do evento, como por exemplo, a premiação do Leão de Ouro pela carreira e a nomeação completa dos artistas participantes desta edição.
In minor keys tem como inspiração as tonalidades menores do blues. A mostra pretende servir de espaço de recolhimento e de contemplação, em resposta à cacofonia que vaga pelo mundo e que, diariamente, rola pelas telas dos nossos celulares, através dos já normalizados discursos supremacistas e das explosões de bombas.

Expressão artística de origem marginal, o blues, surgiu logo após a Guerra Civil norte-americana, no final do século XIX, como elemento de cura e de organização da vida cotidiana dos negros recém-libertos. A música ecoava o trauma e o sentimento de luta desses trabalhadores em uma sociedade que, embora aspirasse à modernidade, não abdicava da manutenção dos elementos que sustentavam a velha ordem.
Não demorou muito para a indústria fonográfica se apropriar dos sussurros e dos lamentos da classe trabalhadora negra, transformando o blues em um produto mainstream já no início dos anos 1920. Mas não exatamente as versões originais e, sim, as gravadas por artistas brancos.
Ao longo do século XX, o blues rompeu fronteiras, contaminando também a literatura, as artes visuais e o cinema. Não é sem razão que James Baldwin é o primeiro escritor citado no projeto curatorial de Kuoh. Outros citados são Toni Morrison e Gabriel García Márquez.

Se a atual dominância musical já não é mais aquela do século passado, dos contornos sociais e políticos que se delineiam mundo afora, dia após dia, não é possível dizer o mesmo. A escalonada dos movimentos nacionalistas e autoritários dos últimos anos, em nível global, retoma exatamente aquela atmosfera de início dos anos 1920. Um período que para os italianos entrou para a história como a “Idade da incerteza”.
Talvez seja essa a relevância de uma mostra que, através das frequências mais baixas, busca ser ressonância de traumas e, a um só tempo, antídoto para eles.
Após duas edições consecutivas dando ênfase ao pluralismo e à diversidade (de gênero, étnica e social), neste ano a Bienal de Veneza apresenta uma mostra na qual predomina a ausência de um tema norteador explícito. In minor keys é um título ambíguo que parece propositalmente ocultar a verdadeira intenção da mostra. É como se Kuoh nos deixasse uma mensagem quase cifrada: neste momento histórico, é preciso sussurrar para ser ouvido, para resistir, para continuar existindo.

A mostra pensada por Koyo Kuoh pretende ser um portal para um mundo onde habitam práticas curativas e alternativas. Serão 111 artistas, cujos trabalhos se aproximam porque exploram aspectos semelhantes ou porque compartilham ideias comuns.
A expografia compreenderá quatro partes. A primeira delas, denominada Altar, será centrada no trabalho de dois artistas, o senegalês Issa Samb e a norte-americana Beverly Buchanan. A segunda delas, intitulada Procissões, trará artistas que tratam de questões ligadas aos deslocamentos, diásporas, movimentos coletivos físicos ou espirituais. Na sequência, Oásis, terá a função de proporcionar ao público o recolhimento e a introspecção. Por fim, em Escolas, serão apresentados trabalhos de coletivos ou instituições que promovem práticas sociais.
Na lista de artistas convidados por Kuoh, entre outros, constam: o chileno Alfredo Jaar, os norte-americanos Laurie Anderson e Nick Cave, o francês naturalizado norte-americano Marcel Duchamp e os brasileiros Ayrson Heráclito, Dan Lie e Eustaquio Neves.
Em decorrência de sua morte prematura, Kuoh não teve tempo de selecionar artistas italianos. Fato sem precedentes, posto que a Bienal de Veneza, desde a sua origem, busca ser palco para a arte nacional.
Um artigo inédito do curador e pesquisador brasileiro Hélio Menezes constará entre os ensaios que integram o catálogo da mostra.

A Bienal de Veneza e a nova (velha) ordem mundial
Em sua fala, o atual presidente da Fundação Bienal de Veneza, Pientrantonio Buttafuoco, fez questão de contar aos presentes que no primeiro encontro entre ele e a curadora, ocorrido em Veneza, em 2024, ela revelou surpresa por ter sido convidada a dirigir a próxima edição do evento. Buttafuoco também primou por informar aos presentes que qualquer mal entendimento entre os dois tinha sido esclarecido.
A mão pesada do governo de Giorgia Meloni nas instituições culturais é amplamente conhecida desde a sua posse, em outubro de 2022.

Pavilhão Central nos Jardins da Bienal. (Crédito: Fabiana Ferreira Lopes)
Com o aparelhamento da RAI (empresa pública de rádio e de televisão) e a perseguição a jornalistas, o governo tenta escrever uma nova história, ou quem sabe repetir aquela dos anos 1920. A direção das principais instituições culturais do país está nas mãos de pessoas de confiança de Meloni. A Bienal de Veneza não é exceção.
Desde a sua fundação, em 1895, a instituição cumpre um importante papel diplomático. Foi nos Jardins da Bienal, que, em 1934, Mussolini recebeu Hitler pela primeira vez, selando a aproximação entre os dois regimes.
Em entrevista concedida ao jornal italiano Corriere della Sera, em agosto de 2025, Buttafuoco ao ser indagado sobre Meloni, respondeu: “É o regente à prova de uma orquestra que debutará em breve. No palco do mundo que está próximo a acontecer”. Complementando a sua visão sobre a chefe do governo, citou também a importância do Plano Mattei, assinado pela primeira-ministra e por países africanos, em 2024.
Para o governo italiano, o programa representa uma cooperação entre a Itália e o continente africano. De acordo com estudiosos de correntes pós-coloniais, o programa visa exclusivamente aos interesses energéticos europeus e à redução dos movimentos migratórios, perpetuando relações assimétricas entre as duas regiões.

Jornalistas presentes na coletiva de imprensa foram impedidos de realizarem perguntas. Na ocasião, a assessoria da Bienal explicitou que os pavilhões teriam completa autonomia para apresentar os próprios projetos. Uma praxe que destoa das coletivas anteriores, nas quais o presidente em exercício anunciava também a situação das participações nacionais.
Após a coletiva, jornais italianos confirmaram a presença de Israel, cuja mostra não ocorrerá em seu pavilhão nos Jardins, mas no Arsenal – complexo arquitetônico que abriga as mostras, a biblioteca e o arquivo da Bienal, além da marinha italiana.
Também a Rússia anunciou o seu retorno à exposição. A notícia suscitou a emissão de uma carta assinada por 22 países europeus a Buttafuoco. O documento solicita a retirada do convite ao pavilhão russo. Mas até o momento alcançou apenas a insatisfação pública do ministro da cultura, Alessandro Giuli, para com a ação de Buttafuoco, e a quase demissão da secretária representante do ministério na Fundação Bienal.
Desde o início da guerra na Ucrânia, a União Europeia defende que a Rússia deve ser banida de qualquer manifestação esportiva ou cultural. Por sua vez, Buttafuoco ratifica a participação russa, alegando que a arte é espaço para o diálogo.
A Bienal de Veneza permanecerá aberta ao público de 9 de maio a 22 de novembro.
Fabiana Ferreira Lopes é editora, tradutora e historiadora associada ao Instituto de história da sociedade e do estado veneziano (Fundação Giorgio Cini).


adorei saber, já fico ansiosa pela mostra