Um samba infinito do Andaraí a Cannes
Em 2025, ainda moro na mesma casa em que estava em 2017, no Andaraí, [mas] o momento é bem diferente. Neste ano, estou me preparando para apresentar a estreia mundial do meu novo filme, Samba infinito, no 78º Festival de Cannes
A primeira vez que inscrevi um filme no Festival de Cannes foi em 2017. Naquele ano, a competição de curtas recebeu 4.843 filmes e selecionou 9. O meu não foi um deles, e hoje penso: ainda bem. Era um filme do qual me orgulho por ter feito, uma etapa importante na minha trajetória, mas do qual, com o tempo, passei a me distanciar. Na época, eu tinha 18 anos e estava no segundo ano da faculdade de cinema. Estudava de manhã como bolsista e passava as tardes vendo filmes, editando materiais, tentando realizar curtas independentes. Nos fins de semana, a rotina mudava: era hora da labuta. Fotografei e filmei dezenas de festas de criança, formaturas, aniversários de 15 anos e casamentos, a maioria na Zona Oeste do Rio, entre os bairros de Jacarepaguá, Taquara e, às vezes, Cidade de Deus.

Crédito: Arquivo pessoal
Em 2025, ainda moro na mesma casa em que estava em 2017, no Andaraí, um bairro pouco mencionado da Zona Norte do Rio de Janeiro. Talvez aqui seja mais conhecido por ter o Samba do Trabalhador e um hospital municipal. Apesar de a casa ser a mesma, o momento é bem diferente. Neste ano, estou me preparando para apresentar a estreia mundial do meu novo filme, Samba infinito, no 78º Festival de Cannes, na competição de curtas da Semaine de la Critique. Não é exagero dizer que é o sonho de uma década se realizando. Afinal, Cannes é o lugar onde tantos artistas que admiro estrearam seus trabalhos: Jacques Demy, Claire Denis, Bob Fosse, Leos Carax, Glauber Rocha, Michael Haneke, Kleber Mendonça Filho, entre tantos outros… todos eles habitam a Croisette. Todo cineasta quer que seu filme alcance algum público, e Cannes sempre foi a maior vitrine do cinema autoral. Aplausos cronometrados, vaias, gritos aos premiados, um tapete vermelho trocado diariamente… Essas coisas não são cinema. Mas é um glamour que caminha de mãos dadas com um lugar onde faz muito sentido sonhar estar – e não posso mentir: vejo tudo isso com fascínio.
Entre 2017 e 2025, realizei oito curta-metragens, dos quais os cinco primeiros foram filmes sem orçamento algum, feitos com equipe enxuta e equipamento quase amador. Ainda assim, comecei a circular por alguns festivais e fui tentando me profissionalizar, mesmo sem nenhuma ponte direta com a indústria cinematográfica. O ponto de virada da minha carreira foi em 2021, quando, depois de anos com dezenas de projetos rejeitados em editais, recebi meu primeiro aceite, por meio da Lei Aldir Blanc. Tínhamos R$ 50mil e alguns meses para realizar o curta Fantasma neon. Essa cifra pode parecer alta para quem não trabalha com cinema, mas quem é da indústria sabe: realizar um filme musical com cinco diárias de gravação inteiramente externas, com dança, música original, dezenas de locações e atores não é exatamente algo simples. Projetos maiores do que o orçamento acabaram se tornando meu padrão: meu produtor Rafael Teixeira que me perdoe. Fantasma neon estreou no 74º Festival de Locarno e ganhou o Leopardo de Ouro de curta-metragem. Acho que meus produtores me perdoaram depois disso.
O Festival de Locarno abriu muitas portas para mim. Através da rede deles, conheci o pessoal da Les Valseurs, que, anos depois, se tornou a co-produtora francesa de Samba infinito. Nosso curta é uma coprodução franco-brasileira, realizada com o apoio da RioFilme, CNC e France Télévisions, através das produtoras Baraúna Filmes, Les Valseurs e Pseudo Filmes. Foi preciso a parceria de muitas pessoas e instituições para viabilizar esse filme, e, graças a esses apoios, tive a oportunidade de realizá-lo da maneira que eu desejava. Dirigir o elenco deste curta foi, particularmente, uma das grandes honras da minha carreira. O filme é profundamente inspirado no repertório artístico e na filosofia de Gilberto Gil, então tê-lo no elenco foi uma alegria imensa. Ao lado dele, os talentos luminosos de Camila Pitanga e do nosso protagonista, Alexandre Amador, formam um trio que brilha na tela.

Crédito: Arquivo pessoal
Samba infinito segue um gari enfrentando o luto pela perda da irmã enquanto cumpre suas obrigações de trabalho durante o Carnaval carioca. Em meio à folia dos blocos de rua, ele encontra uma criança perdida e decide ajudá-la. Os temas do trabalho e da cidade são vertentes que muito me interessam e estão presentes em outros projetos da minha filmografia. Meus pais trabalham como motoristas particulares autônomos, então a ascensão dos aplicativos e a uberização do trabalho tiveram consequências diretas para aqueles mais próximos de mim. Testemunhar isso, somado aos anos de trabalho como fotógrafo autônomo, me inspirou a investigar esses assuntos. É um tema pessoal, mas que ressoa de forma universal, e creio que esse seja um dos fatores pelos quais os filmes têm encontrado sucesso em festivais.
Alguns festivais por vezes informam os realizadores de que seus filmes estão “pré-selecionados”, ou, no termo em inglês, shortlisted. Ou seja, dentre os milhares de inscritos, seu filme passou por uma espécie de triagem e agora está pleiteando as vagas com outras trinta ou quarenta obras. De início, é uma grande felicidade saber que seu filme está perto da seleção, mas o período de espera entre o recebimento dessa notícia e a seleção final pode ser bastante ansiogênico. Um ótimo estresse: mas, de toda maneira, um estresse. Nem sempre o final é como se deseja. Isso tudo é para dizer que eu já estive na pré-seleção de Cannes antes, e não chegamos à fase final. Faz parte da jornada, e aquele outro filme ainda teve uma carreira bonita, mesmo estreando em outro festival. É uma honra imensa estar lá agora, mas é importante dizer: seguimos fazendo cinema, de uma forma ou de outra.
Depois de quase uma década dirigindo, escrevendo e produzindo filmes, estou emocionado em saber que vou estrear um curta em Cannes justamente num momento em que o cinema brasileiro volta a ganhar destaque e atenção. Há quem prefira fingir naturalidade, como se tivesse parado ali por acaso, mas eu prefiro ser honesto: essa conquista é fruto de anos de trabalho meu e de muitas pessoas que caminham comigo. Vindo do Andaraí, de uma família de classe trabalhadora sem vínculo com as artes, essa seleção em Cannes não veio do nada. O cinema é um trabalho de muitas mãos, e, por esse sonho coletivo da nossa equipe ter se tornado realidade, é fundamental destacar a importância das políticas públicas, dos editais e de todos os artistas e técnicos que caminharam comigo ao longo desses anos.

Crédito: Arquivo pessoal
Sigo vendo este momento como o começo da caminhada. Pessoas da indústria dizem que um festival é lugar de pensar no próximo filme, não apenas no que se apresenta. Pode soar mercadológico, mas num festival com um mercado tão forte quanto Cannes, tem sentido. Este ano, o Brasil é o país de honra no Marché du Film, o mercado de Cannes. Espero que eu, e tantos outros cineastas brasileiros, possamos conseguir apoio para os próximos projetos. Eu chego com o projeto do meu primeiro longa-metragem, uma expansão do universo de Fantasma neon, que conta com o apoio do Projeto Paradiso, Locarno Residency e Hubert Bals Fund.
Entre sonhos futuros e os desafios que virão, há a alegria imensa de compartilhar Samba infinito com o mundo. Estou muito feliz que este filme estreará em Cannes. A jornada nem sempre foi flores, afinal, a arborização do Andaraí poderia ser melhor. Mas tive a sorte e o privilégio de contar com ótimos parceiros nesse caminho. Cinema é muita gente!
Leonardo Martinelli, cineasta brasileiro com filmes exibidos em mais de trezentos festivais de cinema de todo o mundo, escreveu este artigo em colaboração com o Projeto Paradiso, fundação filantrópica que apoia talentos do audiovisual brasileiro. Faz parte da Rede Paradiso de Talentos e, em 2022, recebeu uma Bolsa Paradiso após ser selecionado para a Locarno Residency para desenvolver o longa-metragem Fantasma Neon, baseado em seu curta-metragem homônimo.

