O SOFRIMENTO NEGRO, DEFINITIVAMENTE, NÃO COMOVE

Sobre a distância emocional e cognitiva de pessoas brancas

O que o público da exposição em Paris, o documentário e o dentista têm em comum? A indiferença. Pessoas brancas, sobretudo economicamente privilegiadas, para estarem neste lugar, criaram uma distância emocional e cognitiva dos problemas raciais

Foto da autora – exposição Corps et âmes, Paris, 2025

Em maio de 2025, visitei a exposição em Paris, CORPOS E ALMAS. Na primeira sala, logo na entrada, um vídeo emocionante do artista afro-americano Arthur Jafa, intitulado A mensagem é o amor, a mensagem é a morte (1960). Que soco no estômago! Cenas de corpos

negros sendo violentados e mortos pela polícia, corpos negros dançando, gemendo, sorrindo, sofrendo. São tantas as cenas de violência que sabemos de cor. Numa delas, a polícia atira contra um menino negro num parque. Em outra, uma criança de quatro anos aproximadamente, levanta as mãozinhas para o alto, como nas abordagens policiais, com o olhar vulnerável e assustado. Foi neste momento do filme que o meu olhar mudou de foco, pois três mulheres brancas pararam diante do telão e tiraram uma self, com a imagem no fundo. Comecei a reparar nos brancos naquele espaço fotografando as imagens sem, de fato, vê-las. Alguns fotografavam o filme, outros a si mesmos, outros ainda, o teto e o espaço. O conteúdo que se repetia, parecia indiferente para a maioria. As pessoas ali queriam uma experiência sensorial. O sofrimento negro, definitivamente, não comove.

No documentário brasileiro Dizer Adeus, realizado por Carolina Sá (2023) sobre a sua avó e a empregada negra, salta aos olhos a indiferença da mulher branca e burguesa para com a doméstica favelada. A senhora idosa, dona Terezinha, filha de fazendeiros, mora num apartamento em Copacabana e, Jaciara, trabalha para ela há 33 anos. A avó, nasceu em 1928, numa plantação de cacau e, depois que a mãe morreu, quando ela tinha apenas 9 meses, foi criada pelos tios e tias, “e um exército de empregados”, acrescenta Carolina Sá, que atua como narradora. Dona Terezinha conta a infância feliz, com um pai fazendeiro que voltava das suas viagens com histórias e presentes, a escola onde aprendeu a ser uma jovem exemplar e o casamento aos 17 anos. Jaciara nasceu em 1955, o pai nunca esteve presente, ela abandonou a escola aos 12 anos, não sabe ler nem escrever e, aos 30 anos, tinha quatro filhos de quatro pais diferentes que não os reconheceram. “A vida é assim”, diz parecendo aceitar o destino das duas. Por 33 anos Jaciara dormiu num quarto sem janela, sem quadros na parede, sem fotos, num espaço que é seu e não é. Ela entrava pelos fundos, pegava o elevador de serviço. Como diz no documentário, uma realidade onde as raças coabitam, mas não se misturam. Passar mais de 30 anos assim, o que faz com a psiquê de ambas? 33 anos e não sāo amigas, cada uma no seu mundo, dividindo o mesmo espaço, comendo em cômodos separados e até o alimento nunca foi o mesmo.

Em 2026, eu trabalhava num assentamento de Sem-teto em Goiânia quando conheci um dentista, que tinha um ônibus consultório e atendia gratuitamente pessoas necessitadas. Fui ao seu encontro e lhe pedi um mutirão com as famílias que eu assistia. Ele aceitou e formou a sua equipe, homens e mulheres da classe média, todos membros do Centro Espírita que ele frequentava. Foi num sábado de manhãzinha que o ônibus se instalou na entrada do assentamento, onde eu tinha passado a noite numa barraca de tábuas, casa de uma das lideranças da Pastoral da Criança. Foi ali também que as mulheres se prontificaram a preparar o almoço para o dentista e a equipe, como forma de agradecimento. Durante todo o dia ele atendeu e, tamanho foi o meu constrangimento quando ele me chamava para dentro do ônibus para ver a boca das pessoas e expor a “falta de cuidado” com os dentes, falando em alto e bom tom. Durante o almoço, mais constrangimentos. A equipe só conversava entre si, enquanto as mulheres ao redor, servindo e tentando agradar. Em nenhum momento eles se dirigiram a elas, se interessaram pela história do assentamento e as vidas que ali viviam, ou o que faziam para sobreviver. Nada. Terminamos a jornada e fui para casa, de carona no ônibus. No caminho, tentei colocar a questão da falta de interesse pelo público que eles atenderam o dia todo, falei da dificuldade de conseguirem emprego, da fome, do descaso do poder público, da violência da polícia que os expulsou de outra área, fazendo duas vítimas fatais. Para a minha surpresa, o dentista interrompeu-me e disse: “Tem que ver o que eles fizeram em outras vidas. Ninguém está numa situação dessas por acaso”. Eu tinha apenas 26 anos na época, fazia Ciências Sociais e tinha vindo da periferia de Belo Horizonte, também de um bolsão da miséria. Tentei argumentar como podia, usando o Deus que acreditava na época como um ser justo e misericordioso, não alguém que faz crianças passarem fome como punição para erros de outras vidas. Inútil. A tensão aumentou e tivemos que terminar ali. Nunca mais quis vê-lo de novo e sei que ele continuou a caridade depois daquele dia, recebendo, inclusive, homenagens públicas.

O que o público da exposição em Paris, o documentário e o dentista têm em comum? A indiferença. Pessoas brancas, sobretudo economicamente privilegiadas, para estarem neste lugar, criaram uma distância emocional e cognitiva dos problemas raciais. Ninguém, com sensibilidade e senso de justiça, aceita passivamente a ordem das coisas sem se indignar. E, a socialização para a indiferença se dá desde muito pequeno, quando crianças usam corpos e afetos de mulheres empobrecidas para o próprio cuidado, crescendo com elas, sem jamais perguntar onde moram, com quem deixam os filhos, se têm comida em casa. Brancos com dinheiro se blindam de saber e de intervir. Aí entram as mais variadas ideologias, desde o pagamento dos pecados de outras vidas, a lei da atração, o mérito pessoal, a falta de esforço, o karma, etc. Mesmo nas instituições de ensino, os colégios particulares impedem qualquer discurso libertador. Quando fui freira, numa conversa com um seminarista da ordem dos Maristas, famosa pela educação da pequena burguesia, ele demonstrou desconforto pelo fato do colégio, onde os ricos frequentam, evitar certos temas. E, em simultâneo, a ordem tinha projetos sociais para os pobres de cunho bastante libertador. Falamos de como a educação libertadora deveria ser pauta nos colégios ricos, não somente para os trabalhadores mal remunerados.

Bem, no Brasil, para que brancos convivam com a matança de negros nas favelas, com a exploração de mulheres nas suas casas, nas fazendas, nas fábricas, nos comércios, com a escala de trabalho 6×1, é preciso que o problema não os atinja e, para isso, emocional e cognitivamente, não se implicam.

Relendo o livro As almas do povo negro, do sociólogo W.E.B Du Bois, escrito em 1903, surpreendeu-me o trecho abaixo, que parece descrever o mundo de 2025. Numa distância de mais de um século, parece que brancos conseguiram se proteger bem do “problema negro”:

Agora, se alguém presta cuidadosa atenção verá que entre estes dois mundos, apesar de muito contato físico e intercâmbio diário, não existe quase nenhuma vida comunal ou intelectual ou ponto de transferência onde os pensamentos e sentimentos de uma raça podem entrar em contato direto e harmonia com os pensamentos e sentimentos da outra. (p. 167)

 

Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia, escritora, autora dos livros Cartas a um homem negro que amei e Ensaio sobre a raiva.

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