SOPHIE CALLE

Através das fotografias de Sophie Calle: as palavras não ditas sobre a vivência feminina

Livro Histórias reais revela a arte em dois diferentes formatos

O elemento da ‘mulher inconformada’ é uma história repetitiva e ambígua desde 1900, mas não deixa de ser prazerosa e extraordinária. Desde Simone de Beauvoir, Sylvia Plath e Clarice Lispector até Ottessa Moshfegh e Ariana Harwicz, a maioria dos leitores distinguem suas vozes em seus diferentes contextos para abordar a redescoberta do sexo feminino e as transformações nas relações familiares, perante diferentes movimentos feministas. Sophie Calle, por sua vez, não se cala e traz uma nova perspectiva sobre a vivência da mulher no mundo atual em Histórias reais, publicada pela Editora Relicário no Brasil agora em sua 2ª edição.

Obras como Meu ano de descanso e relaxamento, A mulher desiludida e Morra, meu amor são cada vez mais populares entre as comunidades de leitores que centram-se na protagonista, seja ela inconformada, furiosa ou entediada. Todas estas histórias, aparentemente ficções, são na verdade um retrato da mulher branca contemporânea, aquela que incomoda e reivindica direitos que dizem respeito apenas à elas, – por exemplo, em A redoma de vidro, a protagonista faz comentários racistas contra homens não brancos, mas continua a criticar o sexismo da sociedade americana. 

Sophie Calle, por sua vez, mesmo que retrate a vida desta ‘protagonista’ angustiada e perturbada, ela é, mais do que tudo, uma fotógrafa branca de classe média da capital da França. Ela não segue os padrões que outras obras de ficção que se popularizaram atualmente. A verdade é que ela é uma artista conceitual. Em Histórias reais, Calle ilustra a sua condição de mulher em fotos (na página esquerda) e palavras (nas páginas ímpares), divididas em capítulos de uma página, de forma vaga mas cheia de significados. A partir dos painéis de texto e fotografia, a artista evoca algo novo para as artes: a capacidade de transmitir emoções e sentimentos a partir de duas ferramentas imprescindíveis para a vida humana, as lentes e a caneta. 

Para compreender mais a fundo a obra, o Le Monde Diplomatique Brasil conversou com a tradutora e poeta Marília Garcia. “Uma das coisas mais interessantes da obra dela é justamente esse jogo que ela faz com essa encenação do real. Você fica sem saber se ela tá partindo de uma experiência, que de fato aconteceu, ou não”, afirma. 

A brasileira menciona que os contos de Sophie Calle possuem um ‘protocolo de leitura’, criado a partir da interdisciplinaridade das fotografias e literatura, além do formato da obra. Estes elementos propiciam que o leitor tenha uma experiência diferenciada à de uma exposição, por exemplo.

Sophie Calle Histórias Reais
Foto: Divulgação/Editora Relicário

A obra e seu propósito

Calle é uma artista vinculada ao movimento Oulipo, ou melhor, Ouvroir de Littérature Potentielle. Criado na década de 1960 por escritores e matemáticos franceses, o movimento tinha o objetivo de explorar a arte para além das autoimposições. Ou seja, Calle escreve de uma literatura experimental, que entrelaça a fotografia à literatura e vice-versa.

Garcia analisa que “embora a maior parte das obras dela trabalhe com a palavra escrita, ela fala com a arte conceitual, ou com modos de organizar e elaborar o material que ela tem e dialoga no campo da arte”. A conceitualidade da obra francesa é dividida em 5 partes: a introdução, ‘O marido’, ‘Monique’, ‘Souris’ e ‘Bob’. A partir desta divisão, é possível notar uma transformação do ‘eu’ em um longo período de tempo. Inicialmente, Calle centra as questões de descoberta sexual e do mundo, do fracasso de seu casamento, para então analisar a morte de sua mãe, o seu gato e seu pai. 

Outro fator diferencial é o formato do livro. A encadernação se apresenta em um novo formato: 10×19. O seu tamanho vertical proporciona uma leitura diferenciada e um olhar mais atento às fotografias e uma tipografia simples, que auxilia a compreensão complementar que as palavras dão às imagens, em uma interdisciplinaridade e formato híbrido. 

À respeito da encadernação, a tradutora brasileira esclarece: “eu tenho uma memória antiga do Histórias reais numa versão francesa muito parecida com esse formato que a Editora Relicário fez. Vários livros dela tem esse formato muito característico e muito diferente”.

As fotografias de Sophie apresentam um caráter propositalmente expositivo das palavras. Não se trata de fotos espontâneas, mas o complemento de elementos que criam a atmosfera da escrita com certa ironia e humor. Este é o caso, por exemplo, da história “O porco”, em que a foto trata-se da própria artista com um nariz de porco, sorrindo, e duas mãos desconhecidas com talheres na mão. O texto trata-se de um homem que comparou a sua forma de comer com a porquice.

Garcia conta que o livro Histórias reais foi, originalmente, uma exposição que chegou ao Brasil em 1994. “Ela pensava a fotografia como um texto, e o trabalho dela tem uma dimensão de convite à ação – ele expõe também o próprio modo de fazer”, afirma.

 

Regina Lemmi é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

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