Democracia em risco
O antissemitismo revela uma capacidade singular de atravessar campos políticos distintos e de se adaptar a diferentes linguagens ideológicas. Ele se mantém como estrutura explicativa em cenários marcados pela deterioração do espaço público, pela perda de confiança nas instituições e pela crise da imaginação democrática
O antissemitismo tem crescido no Brasil e no mundo, e esse crescimento é um sinal grave do tempo histórico em que vivemos. Trata-se de um fenômeno político e social que ultrapassa os judeus enquanto grupo específico e incide diretamente sobre o funcionamento das sociedades democráticas. O antissemitismo não é um problema dos judeus, mas um problema da democracia. Sempre que ele se intensifica, evidencia-se um processo de esgarçamento das instituições, de empobrecimento do debate público e de fragilização dos valores democráticos.
A história mostra que o antissemitismo emerge e se consolida em contextos de crise democrática. Ele funciona como uma gramática política capaz de dar sentido simplificado a realidades complexas, convertendo tensões sociais, econômicas e políticas em narrativas personalizadas e conspiratórias. Nesse movimento, os judeus passam a ocupar o lugar de explicação totalizante do mal-estar social, sendo representados como força oculta, articuladora e moralmente perversa.
O caso Epstein expressa com clareza essa dinâmica contemporânea. Na extrema direita, ele é mobilizado como atualização do libelo de sangue, reativando fantasias antigas sobre judeus associados a crimes hediondos, como a violência contra crianças. Em setores da esquerda, o mesmo episódio aparece associado à ideia de conspiração internacional, com Epstein sendo apresentado como agente do Mossad ou expressão de um suposto lobby judaico global, como afirmou Jesse de Souza. Em ambos os registros, o judeu surge como figura conspiratória que explicaria a degradação do mundo.

O antissemitismo revela, assim, uma capacidade singular de atravessar campos políticos distintos e de se adaptar a diferentes linguagens ideológicas. Ele se mantém como estrutura explicativa em cenários marcados pela deterioração do espaço público, pela perda de confiança nas instituições e pela crise da imaginação democrática. Sua persistência indica um mundo em que a complexidade social é substituída por fantasias de poder oculto e por narrativas de inimigos absolutos.
Ao deslocar a culpa dos problemas do mundo para os judeus, o antissemitismo retira do centro da análise aquilo que efetivamente precisa ser enfrentado. No caso Epstein, o debate estrutural sobre gênero, violência sexual, misoginia e as redes de poder masculino que sustentam esses crimes é soterrado por narrativas conspiratórias que transformam judeus em explicação totalizante. O mesmo mecanismo aparece quando incêndios na Patagônia são atribuídos a israelenses, quando a devastação da Amazônia é dissociada do extrativismo, do agronegócio e das elites econômicas nacionais, ou quando a violência armada no Brasil é explicada por forças externas, apagando o papel histórico das desigualdades, do racismo e das políticas de segurança. Nesse processo, a própria extrema direita norte-americana, suas redes, discursos e práticas concretas de violência e desestabilização democrática desaparecem da análise, substituídas pela busca de um mal absoluto que organize todas as angústias do mundo. Os judeus passam a ocupar esse lugar explicativo, enquanto as estruturas reais de poder, dominação e violência permanecem intocadas.
Enfrentar o antissemitismo significa enfrentar a própria crise democrática. A expansão desse ódio sinaliza sociedades mais vulneráveis ao autoritarismo, à desumanização e à violência política. Levar o antissemitismo a sério constitui um compromisso com a democracia, com a recusa das explicações conspiratórias e com a defesa de uma vida pública fundada na responsabilidade política e na dignidade humana.
Clara Ant, Clara Politi, Clarisse Goldberg, Daisy Perelmutter, Heidi Tabacof, Iara Czeresnia, Iris Kantor, Leana Bergel Friedman, Lia Sztulman,Lia Vainer Schucman, Patricia Tolmasquim e Tânia Caçula Baibich são integrantes do Judias e Judeus pela Democracia SP.


Parabéns as mulheres que escreveram esse belo texto. O machismo estrutural joga para escanteio a defesa do feminino e se apropria do tema para alucinar