Brasil fomenta usinas de carvão mineral para geração de energia elétrica até 2040
Enquanto o cenário internacional aponta para a substituição progressiva dos combustíveis fósseis por alternativas mais limpas e competitivas, a política energética brasileira mantém e amplia subsídios ao carvão mineral
Dados do Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA) indicam que, em 2025, a geração de energia a carvão caiu 1,6% na China e 3% na Índia em relação a 2024, somando uma redução superior a 110 TWh. Esse movimento interrompe uma trajetória de crescimento contínuo do uso do carvão desde 1973, historicamente associada à expansão econômica desses países.
A queda ocorreu apesar do aumento da demanda por eletricidade, que foi suprida pela rápida expansão das fontes renováveis, especialmente solar e eólica. Na China, a geração térmica recuou pela primeira vez em uma década, enquanto na Índia o crescimento das renováveis superou o consumo adicional, reduzindo a participação dos combustíveis fósseis. Segundo o Carbon Brief, as fontes limpas passaram a substituir efetivamente parte da geração a carvão, e não apenas a complementar o sistema.
Por outro lado, o Brasil manteve – e reforçou – a geração de energia a carvão em 2025, sustentada por subsídios públicos crescentes. Apenas naquele ano, mais de R$ 1,22 bilhão foram repassados, via Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), a duas termelétricas a carvão no Sul do país, com destaque para o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda (SC) e a Usina Candiota III (RS). Esses empreendimentos, embora respondam por menos de 1% da geração elétrica nacional, continuam operando com tecnologias obsoletas, baixa eficiência e elevada intensidade de emissões de gases de efeito estufa.
O crescimento relativo da geração a carvão no Brasil não decorre de necessidade sistêmica, mas de uma política deliberada de subsídios, que se reflete no aumento do orçamento da CDE, previsto em R$ 52,7 bilhões para 2026, e na prorrogação das outorgas dessas usinas até 2040. Esse movimento resulta em custos diretos para os consumidores, que já destinam cerca de 18,5% da tarifa de energia para cobrir subsídios setoriais, incluindo fontes fósseis.
Essa estratégia revela uma incoerência estrutural com a Política Energética e Climática Nacional. Enquanto o Brasil reafirma compromissos internacionais de mitigação das mudanças climáticas e amplia sua capacidade instalada em fontes renováveis, mantém incentivos bilionários a uma das fontes mais poluentes da matriz elétrica. Entre 2020 e 2024, o país investiu, em média, 4,5 vezes mais recursos públicos no carvão mineral do que em energias renováveis, contrariando os objetivos de descarbonização, transição energética justa e redução das emissões de CO₂.
O resultado é uma distorção persistente: o carvão permanece artificialmente competitivo, apesar de seus elevados passivos ambientais, impactos sociais e contribuição marginal ao sistema elétrico. Assim, o caso brasileiro se consolida como um exemplo de desalinhamento entre discurso climático e prática regulatória, no qual o crescimento da geração a carvão e a continuidade dos subsídios fragilizam a credibilidade e a efetividade da política energética e climática nacional.

Mesmo diante de todo contexto de emergência climática que o Brasil enfrenta nos últimos anos com secas históricas, recordes de calor extremos, as maiores inundações e enchentes dos últimos 60 anos na Região Sul e as queimadas no Bioma Amazônia, o Governo brasileiro através do Ministério de Minas e Energia realizará em março de 2026 o Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência – LRCAP 2026. Para este certame haverá a contratação de termelétricas fósseis (óleo, gás natural e carvão mineral) cujos prazos contratuais variam de acordo com a modalidade, podendo chegar a até 10 anos para usinas existentes e até 15 anos para novos empreendimentos ou ampliações, o que pode estender a operação dessas plantas até a década de 2040.
Destaca-se, ainda, que há mais de 11 anos não havia no Brasil um leilão de energia para a contratação de usinas termelétricas a carvão mineral para abastecer a matriz elétrica nacional. No LRCAP 2026 foram cadastrados três projetos térmicas a carvão, que somam a potência de 1.440 MW; 311 projetos de térmicas a gás natural que somam a potência de 112.870 MW e 18 projetos de térmicas a óleo, que somam a potência de 2.843 MW.
O ano de 2026 já iniciou com a contratação da energia gerada pelo Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Santa Catarina, pelo Governo Federal, via Ministério de Minas e Energia. O contrato prevê o pagamento de R$ 1,89 bilhão ao longo de 15 anos de operação, um valor 62% superior à média praticada em leilões de usinas a carvão.
Entretanto, a negociação é alvo de críticas por omitir fatores cruciais. Em primeiro lugar, não foram considerados os impactos ambientais decorrentes da mineração de carvão no estado; segundo dados do Monitor do Carvão Mineral (gerido pelo Observatório do Carvão Mineral e pelo Instituto Internacional ARAYARA), esse passivo ambiental já atinge quase 10% do território catarinense. Além disso, o contrato ignora os riscos climáticos do empreendimento, que detém o título de maior emissor de gases de efeito estufa do sistema elétrico na Região Sul.
Em novembro de 2025, após a COP 30, a Presidência da República sancionou a Lei 15.269/25 oriunda da MP1304. Esta legislação, que deveria trazer uma modernização ao setor elétrico nacional, estabeleceu a contratação das usinas a carvão no Brasil até 2040. Neste rol de usinas fica contemplada a Usina de Candiota III que recebeu em 2025 mais de R$ 154 milhões (12,61% do subsídio da subconta do carvão da CDE), valor direcionado a um único fornecedor: a Companhia Riograndense de Mineração (CRM). A CRM é uma estatal vinculada à Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (SEMA-RS) – um caso único em âmbito global, no qual uma pasta de Meio Ambiente abriga uma mineradora de carvão.
O impulsionamento do setor carbonífero em 2026, blindado por legislações que garantem sua sobrevivência pelas próximas duas décadas, coloca o Brasil em um isolamento diplomático e ambiental perigoso. Ao ignorar as condicionantes climáticas em troca de uma conta de luz mais cara, o planejamento energético nacional falha com o consumidor e com as futuras gerações. A transição energética brasileira, até então vista como promissora, agora enfrenta o peso de um passado fóssil que se recusa a passar, mantido artificialmente pelo erário público sob o pretexto de uma segurança energética que as fontes renováveis já poderiam, com menor custo, garantir.
Juliano Bueno de Araújo é doutor em Riscos e Emergências Ambientais, PhD em Energia e diretor técnico do Instituto Internacional Arayara – Fundador do Observatório do Carvão Mineral
John Fernando de Farias Wurdig é engenheiro ambiental, mestre em planejamento urbano e ambiental, pós graduado em Políticas Públicas Ambientais e Gerente de Transição Energética do Instituto Internacional ARAYARA -Pesquisador do Observatório do Carvão Mineral
Hirdan Costa é advogada e economista, PhD em Energia, Doutora em Direito e Gerente de Energia Elétrica e Regulação do Instituto Internacional ARAYARA.
Referências:
EPE – EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA. Leilão de reserva de capacidade 2025 – Cadastramento
e Habilitação Técnica dos Projetos. 2025. Disponível em:
<https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-867/I
IPCC – PAINEL INTERGOVERNAMENTAL SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS. Technology-specific
Cost and Performance Parameters – Annex III. In: Climate Change 2014: Mitigation of Climate Change.
Contribution of Working Group III to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate
Change. Cambridge: Cambridge University Press, 2014. Disponível em:
<https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/02/ipcc_wg3_ar5_annex-iii.pdf>.
ARAYARA.org – INSTITUTO INTERNACIONAL ARAYARA. Análise de Risco Socioambiental e
Climático do 4º Ciclo de Oferta Permanente. 2023. Disponível em:
<https://mega.nz/file/HJAmFDBB#AgRwqycoX5MxWb5PSv6H_GQyQV6fKklEfKjlbvH6n58>.
MONITOR ENERGIA. Instituto Internacional ARAYARA. Disponível em:
<https://www.monitorenergia.org/>
ABSOLAR – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENERGIA SOLAR FOTOVOLTAICA. Energia Solar
Fotovoltaica no Brasil – Infográfico ABSOLAR (atualizado em 11/02/2025). 2025b. Disponível em:
<https://www.absolar.org.br/mercado/infografico/>.
BRASIL. LEI DA POLÍTICA NACIONAL DE MUDANÇA DO CLIMA.
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12187.htm


Bom-dia. Não sou especialista no tema, mas a diversidade da matriz e segurança energética nos períodos de estiagem da principal fonte de energia [hídrica] seja a principal razão. O simples fechamento, eliminaria uma cadeia de trabalho/empregos e o riscos de não mais poder ser retomada essa atividade. Essa participação na matriz energética do Brasil é extremamente minoritária e regionalizada, face ao menor poder calorífico do carvão nacional. Acredito que as medidas de controle das águas ácidas tenham evoluído os riscos às drenagens na região. No mais, entendo que quanto mais diversificada for a matriz energética mais seguro será pro país, evitando inclusive apagões, como vimos no passado. Lembro ainda que com a Guerra no leste europeu, países do velho continente retomaram a atividade em algumas unidades pra suprir necessidades básicas no fornecimento de energia. Apenas um comentário, sem qualquer radicalismo ou tendência ideológica