Arte e ciência: o território híbrido de Ilca Barcellos
Ao longo de sua trajetória, Ilca Barcellos construiu uma obra que desafia a fronteira tradicional entre laboratório e ateliê, transformando procedimentos, vocabulários e imaginários da biologia em matéria plástica e poética
A cisão entre ciência e arte, longe de ser um dado da história, foi uma operação de poder que resultou na cristalização da ideia de uma incompatibilidade incontornável. Por um lado, a ciência representa um campo orientado pela objetividade e pelo pragmatismo, que busca, por meio de teorias testadas e protocolos experimentais, estabelecer verdades verificáveis. Por outro, a arte apresenta uma multiplicidade de modos de compreender o mundo e o universo, expressa em uma ampla variedade de formas, estilos e criações. Enquanto uma se dedica a investigar fenômenos compartilhados pela coletividade, a outra exterioriza as imagens e experiências que habitam o imaginário dos sujeitos.
O filósofo Hans Georg Gadamer observa, em A Herança da Europa (1989), que o continente assistiu a uma progressiva diferenciação das atividades intelectuais. Esse processo reduziu a atuação de polímatas e consolidou uma separação entre ciência e arte, assim como entre filosofia e religião.
Diversos criadores contemporâneos, no entanto, têm demonstrado o contrário. O artista italiano Giuseppe Penone, associado ao movimento Arte Povera, buscou redefinir a linguagem artística entre as décadas de 1960 e 1970 ao transformar o meio natural em objeto de investigação sob perspectivas formais, filosóficas e científicas. Se Penone aproximou a arte das ciências naturais, o astrônomo estadunidense Carl Sagan cultivou uma visão igualmente abrangente do conhecimento. Em obras como Cosmos (1980), torna-se evidente seu interesse por um saber interdisciplinar que ultrapassa os limites da especialização moderna.
Cientistas que dialogam com a estética e artistas que se aproximam do método científico convergem, assim, na tarefa de questionar a suposta impossibilidade de interlocução entre os diferentes saberes humanos.
Nos séculos XX e XXI, esse movimento de aproximação manifesta-se com vigor nas obras de Maurits Escher e em suas conexões com as elaborações do matemático Donald Coxeter, cuja investigação geométrica conferiu rigor científico à estética visual. No cenário brasileiro contemporâneo, a bioarte adquiriu contornos provocativos com artistas como Eduardo Kac, cuja criação de uma coelha fluorescente rompeu simbolicamente as fronteiras entre o laboratório e a galeria de arte.

No contexto brasileiro, outros exemplos não faltam. Médicos, biólogos e artistas plásticos vinculados à Fiocruz debatem e reivindicam os princípios do Manifesto ArtScience, elaborado por autores como Robert Root-Bernstein, Todd Siler, Adam Brown e Kenneth Snelson. O manifesto parte de duas premissas centrais: tudo pode ser compreendido pelo olhar da arte, mas essa compreensão será sempre incompleta; e tudo pode ser compreendido pelo olhar da ciência, embora também de modo necessariamente incompleto. Dentro dessa corrente, mas com uma singularidade destacada, a artista gaúcha Ilca Barcellos, nascida em 1955 e radicada em Florianópolis, consolida uma trajetória dedicada à fusão entre laboratório e ateliê. Sua produção ocupa lugar relevante no cenário nacional e internacional justamente nessa interface entre o fazer artístico e o pensamento científico, reafirmando a potência dessa integração e evocando constantemente uma poética da continuidade.
Após encerrar a carreira nas ciências biológicas, Barcellos passou a dedicar-se integralmente à construção de uma nova etapa, não abandonando, contudo, sua formação de base. Depois de anos habituada à leitura de imagens observadas em lâminas de microscopia e em diversos instrumentos das ciências experimentais, tornou-se uma espécie de tradutora entre a linguagem científica e a linguagem artística. Como ocorre em todo processo de tradução, ela mergulha no sistema de origem, interpreta seus códigos e os transporta para um novo campo expressivo.
Foi dessa transposição entre diferentes regimes de signos que surgiu o conjunto de esculturas denominado Ludo Transgenia (2007-2008). De modo semelhante ao tradutor que reorganiza palavras para compor um texto, a artista promove transferências genéticas entre espécies imaginárias, criando seres híbridos identificados por nomes de gênero e espécie, segundo a nomenclatura própria de uma “cienciarte”. Nesse território, as fronteiras entre o real e o ficcional são deliberadamente suspensas para dar forma a um universo singular, no qual pode surgir, por exemplo, um gato-cobra inexistente nos tratados de zoologia.
Posteriormente, a artista retoma a Ludo Transgenia e a desenvolve em outra direção. Seu interesse volta-se então para fenômenos como quebras cromossômicas, mutações e os chamados erros inatos de metabolismo, compreendidos não apenas como desvios, mas também como forças geradoras de novas formas. Aquilo que por vezes é classificado como aberrante revela-se, em sua perspectiva, como a emergência de outras combinações de vida capazes de reescrever no DNA possibilidades inéditas de existir. Dessa investigação nasce a coleção La Génétique Hédoniste, apresentada em exposições e em atividades de ensino de artes plásticas no Canadá francófono. Nela, o estranho e o insólito não são evitados. Ao contrário, tornam-se fonte de experiência sensorial e lembram que a própria estética da natureza há muito se libertou da exigência de perfeição que os humanos buscam conquistar ou impor.
Entre 2013 e 2014, reafirmando o diálogo constante entre arte e ciência, Barcellos recorre ao conceito de mise en abyme, formulado por André Gide, para conceber uma nova instalação em que as formas se contêm reciprocamente. Seres aparecem dentro de outros seres e parecem incluir também o olhar do observador. O princípio remete a estruturas que se refletem e se desdobram, como narrativas que guardam outras narrativas em seu interior.
A série, com curadoria do artista Fernando Lindote, explora o contraste entre materiais maleáveis, como tecidos e poliéster, e elementos rígidos, como garras em cerâmica, estabelecendo uma tensão constante entre flexibilidade e estabilidade. A exposição La Mise en Abyme, assim, conquistou espaço e reconhecimento na Galeria Un Jour D’Atelier, em Paris.

No ano seguinte, Ilca Barcellos apresentou a instalação Pulsar da Vida. Nessa obra, o diálogo se estabelece com formas elementares associadas ao surgimento e à renovação da vida. São configurações discretas, quase delicadas, mas dotadas de intensa potência transformadora, como se contivessem em estado latente a possibilidade de vir a ser. O pulsar aqui aproxima-se do conceito freudiano de pulsão de vida, entendido como a força que impulsiona os organismos à continuidade, ao movimento e à abertura para o novo. As obras sugerem, assim, algo da própria natureza dos seres vivos, como se figurassem uma atualização permanente da matéria orgânica.
Desde 2016, Barcellos vem realizando exposições com a colaboração de curadores consolidados no panorama artístico nacional como Walter de Queiroz Guerreiro e Juliana Crispe, além de participar de eventos fora do país. Suas obras integram acervos institucionais, entre eles o Museu de Arte Contemporânea de Cuba e o Museu de Cerâmica Artística de Aveiro, em Portugal.
Atualmente, sob curadoria do francês Marc Pottier, curador internacional radicado entre o Brasil e a França e reconhecido por projetos de arte contemporânea, Ilca Barcellos apresenta este ano, até 12 de junho, a exposição Paisagens Oníricas na Galeria da Casa Hurbana, em Florianópolis, com circulação prevista por outras cidades brasileiras. O conjunto reúne cerca de oitocentas esculturas suspensas, produzidas com a técnica do acordelado, além de outras peças que sugerem seres em diferentes estágios de transformação. A instalação propõe um campo visual em permanente mutação, no qual as formas não se apresentam como resultados definitivos. Cabe ao observador percorrer esse território de possibilidades e construir, a partir da própria experiência, as leituras que emergem da obra.

Como ocorre com outros artistas que transitam entre investigação científica e prática artística, o trabalho de Ilca Barcellos evidencia a afinidade estrutural entre esses dois campos do conhecimento. Arte e ciência podem ser pensadas à maneira dos gêmeos Cástor e Pólux, distintas em seus modos de atuação, mas profundamente vinculadas. Cada uma possui seu tempo próprio de elaboração e de reverberação cultural, embora ambas participem de um mesmo impulso humano de compreender e reinventar o mundo.
Fedra Rodríguez, nascida em Curitiba, em 7 de março de 1978, é tradutora, crítica de arte e escritora. Possui doutorado em Estudos da Tradução e atua no campo da literatura e da cultura desde 2006, com mais de 30 obras traduzidas, além de livros e artigos publicados em diversos veículos e países. Entre suas conquistas, destaca-se o 65º Prêmio Jabuti de Melhor Tradução (2023), obtido junto ao Coletivo Finnegans (Editora Iluminuras), pela tradução de Finnegans Wake, de James Joyce. Atualmente, é colunista da Revista Cult e participa das atividades da Fundación PROA de Buenos Aires.


Adorei o texto! E que incrível a arte da Ilca Barcellos!