REORGANIZAR O SENSÍVEL

Mônica Anjos: Ancestralidade, território e criação negra no centro da moda contemporânea

A construção do padrão estético no Ocidente não é neutra nem aleatória. O racismo organizou seus valores a partir de uma lógica europeia, definindo o que seria aceito como belo, aceitável e desejável. Esse processo opera como ferramenta de poder, limitando o acesso de determinados grupos a espaços de reconhecimento, prestígio e mercado. A estética, nesse sentido, não atua apenas no campo simbólico. Ela organiza hierarquias, regula comportamentos e orienta escolhas sociais.

Os indivíduos passam a desenvolver decisões e preferências a partir de padrões sociais previamente estabelecidos. A questão central não está apenas na escolha individual, mas na construção histórica desses referenciais. A estética, enquanto campo filosófico, dedica-se ao estudo do belo, da negação da beleza e dos valores visíveis que estruturam o mundo sensível. Na tradição ocidental, a beleza se expressa na forma e carrega atributos morais e espirituais que, uma vez naturalizados pelo imaginário social, se transformam em regra.

Esse padrão se materializa nas instituições, nos mercados e nas indústrias culturais. O que se convencionou chamar de racismo estrutural é a presença contínua dessa lógica em todas as esferas da vida social. No mercado da moda, isso se expressa de maneira direta. Não existem critérios universais para definir o que é belo, mas há convenções comerciais muito bem delimitadas. Corpos brancos, altos e simétricos ocupam o centro. Outras estéticas são tratadas como exceção, exotismo ou cota.

Mesmo quando pessoas negras acessam esse mercado, sua presença costuma ser minoritária, com piores remunerações e menor poder de decisão. A indústria utiliza essa presença para cumprir um papel social mínimo, sem questionar a hegemonia estética branca. Responsabilizar indivíduos negros por esse funcionamento é um erro recorrente. A opressão não se desmonta por ações isoladas. Sem organização coletiva, não há deslocamento estrutural possível.

A história brasileira oferece exemplos consistentes de enfrentamento a esse padrão. Abdias do Nascimento utilizou a arte como estratégia política ao criar o Teatro Experimental do Negro, propondo uma nova estética e uma nova ideia de humanidade. Na Bahia, o bloco Ilê Aiyê instituiu a Noite da Beleza Negra como ação direta contra o padrão racista do belo. Essas experiências apontam para um princípio fundamental. Apenas a ação coletiva é capaz de desorganizar o racismo e produzir novos cenários, novos padrões e outros arranjos de mercado.

É nesse campo de disputa que se insere a trajetória de uma estilista nascida no Rio Vermelho, território onde o sagrado, a rua, a festa e a memória se entrelaçam cotidianamente. Ter nascido ali não é um dado periférico. O território atravessa a forma de criar, pensar e ocupar o mundo. O ateliê localizado na Rua da Paciência materializa essa relação direta entre origem, cidade e linguagem estética. Não é apenas um espaço de trabalho, mas um lugar vivo, atravessado pelas dinâmicas culturais do bairro.

A marca que se estrutura a partir desse espaço desenvolve um trabalho autoral ancorado na cultura afro-brasileira, sem recorrer à caricatura ou à folclorização. As referências estão presentes, mas passam por traduções contemporâneas. Trata-se de uma moda que dialoga com memória, espiritualidade e cotidiano, sem se desconectar do mercado nem do debate público. Essa coerência de percurso permite situar sua criadora entre as dez figuras mais relevantes da moda brasileira atual, não por excesso de adjetivos, mas pela consistência do que constrói.

Moda
Crédito: Thiago Rosarii

Ao longo dos anos, esse trabalho circulou por eventos nacionais, passarelas, exposições, festivais culturais e encontros que discutem moda, identidade e diversidade no Brasil. A presença em circuitos ligados à São Paulo Fashion Week, semanas de moda no Rio de Janeiro e programações institucionais confirma o alcance nacional da proposta. Ainda assim, não há ruptura com a origem. A Bahia permanece como ponto de partida e de retorno. O território não funciona como cenário, mas como estrutura.

A moda tem um papel direto na formação de costumes, na legitimação de gestos e na valorização de culturas. Ela educa o olhar, organiza desejos e naturaliza referências. Por isso, é um terreno permanente de disputa simbólica e econômica. Nesse cenário, o trabalho desenvolvido por Mônica atua como força de deslocamento. Ao disputar o imaginário e o mercado, sua prática fortalece a presença negra na moda brasileira, abre caminhos para novos estilistas negros e negras e se torna referência concreta para quem busca criar a partir da própria identidade sem abrir mão de circulação e sustentabilidade. Suas ações e projetos não se limitam à criação autoral. Eles movimentam a economia local, geram trabalho, renda e oportunidades, impactando diretamente a vida de profissionais e famílias que orbitam esse ecossistema criativo. Trata-se de uma atuação que compreende a moda não apenas como linguagem estética, mas como ferramenta de reorganização social, econômica e cultural.

Essa compreensão ampliada da moda como prática cultural ganha forma concreta no projeto Cantos para Yemanjá. Realizado entre 29 de janeiro e 2 de fevereiro, no Rio Vermelho, o evento reuniu moda, música, gastronomia e expressões da cultura afro-brasileira em diálogo direto com a celebração dedicada a Yemanjá. O ateliê se transformou em espaço de convivência, rito e encontro, conectando criação estética e vida comunitária.

Produzir esse evento foi participar de um gesto coletivo que articula estética, território e ancestralidade sem artificialidade. Passaram pelo espaço artistas como o Cortejo Afro, Majur, DJ Rick Nogueira, Jann Souza, Hiran e Ana Paula Albuquerque interpretando o repertório dos Os Tincoãs, acompanhada de Gabi Guedes e Felipe Guedes.

No dia 2 de fevereiro, a programação se conectou diretamente com a rua e com a festa popular, encerrando com o Banjo Novo.

O Cantos para Yemanjá não se apresenta como evento isolado. Ele sintetiza uma forma de pensar moda como ação coletiva, em diálogo com a cidade, com a história e com os enfrentamentos estéticos que atravessam o Brasil. Ao final, o que se coloca em cena não é apenas uma marca ou uma criadora, mas um modo de reorganizar o sensível, disputando padrões e reposicionando a estética negra no centro da criação contemporânea.

Herlon Miguel é bacharel em Administração. Especialista em comunicação Estratégica pela Universidade Federal da Bahia. Escritor e produtor cultural, atua na interface entre palavra e ação, fazendo da escrita um instrumento de formação, reflexão e transformação social. Idealizador da Escola de Literatura Negra, voltada à formação e ao lançamento de autoras e autores negros, também fundou o Negrito LAB, espaço dedicado à comunicação e ao pensamento crítico sobre raça, cultura e política. @miguelherlon

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