O PRIMOGÊNITO DO MESSIAS

A frágil autoridade evangélica de Flávio Bolsonaro

No último mês, a agenda de campanha de Flávio em eventos evangélicos tem se intensificado. Registros compartilhados em suas redes sociais mostram o investimento em associações de sua imagem como homem de fé, que compartilha repertórios de uma experiência comunitária em igrejas

A queda de nove pontos percentuais de Flávio Bolsonaro entre os evangélicos nas intenções de voto para a Presidência da República, registrada pela pesquisa Quaest poucos dias após a sua participação na Marcha para Jesus 2026, produziu uma enxurrada de perguntas e explicações. Além das repercussões sobre o Caso Master e vínculos com Daniel Vorcaro, tem sido recorrente uma comparação com Jair Bolsonaro: Flávio não teria o mesmo carisma do pai.

Portanto, carisma seria um aspecto importante na construção pública de uma identidade religiosa capaz de produzir reconhecimento.

Se a pergunta sobre a legitimidade da identidade evangélica nos parece pouco produtiva, o desafio está em compreender como essa identidade é construída publicamente e quais elementos permitem que ela seja reconhecida como legítima por outros evangélicos.

Sua trajetória religiosa pode ajudar a pensar essa questão.

Embora existam registros de que Flávio frequentava igrejas batistas desde a juventude, sua presença pública como evangélico ganha visibilidade apenas em 2016, quando participa, ao lado do pai, de um batismo no Rio Jordão. Mais do que um rito de ingresso em uma comunidade de fé, aquele episódio foi amplamente percebido como um gesto simbólico de aproximação entre Jair Bolsonaro e o universo evangélico em um momento decisivo de sua projeção política, na véspera de 2018.

O primeiro batismo realizado segundo os ritos de uma igreja local acontece apenas em 2024, quando Flávio e sua esposa, Fernanda Bolsonaro, são batizados na Comunidade das Nações, em Brasília – DF, fundada pelo Bispo JB Carvalho.

Em janeiro de 2026, já como pré-candidato à Presidência, e 10 anos após o primeiro batismo, ele retorna ao Rio Jordão para renovar o rito. Nas redes sociais, afirma que já era batizado, mas desejava renovar sua fé justamente no lugar onde, segundo a tradição cristã, Jesus foi batizado.

A viagem reúne um conjunto significativo de imagens. Além do Rio Jordão, Flávio aparece no Muro das Lamentações, usando quipá e realizando uma oração lida pelo celular. Cada um desses elementos comunica pertencimento religioso, mas também permite perguntar como determinadas performances produzem autenticidade pública.

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Algo semelhante pode ser observado na centralidade dos símbolos judaicos. O Rio Jordão, o Muro das Lamentações e o uso do quipá dialogam com uma gramática religiosa amplamente difundida entre segmentos neopentecostais brasileiros, que atribuem especial valor espiritual à Terra Santa. Ao mesmo tempo, quando esses símbolos aparecem concentrados em viagens e cerimônias públicas, tornam-se parte de uma performance religiosa que busca produzir visibilidade e reconhecimento.

No último mês, a agenda de campanha de Flávio em eventos evangélicos tem se intensificado. Registros compartilhados em suas redes sociais mostram o investimento em associações de sua imagem como homem de fé, que compartilha repertórios de uma experiência comunitária em igrejas. No palco da Marcha pra Jesus, Flávio foi acompanhado pelo público ao entoar Hino da Vitória, canção que se tornou clássica no fim da década de 1990, gravada pela cantora Cassiane.

Dias depois, outro registro seu acompanhando animadamente a letra da mesma música durante culto de uma Assembleia de Deus em Belém (PA) passou a circular em diferentes perfis voltados a notícias do universo gospel. A repetição no curto espaço de tempo aponta para a construção pública de quem busca reconhecimento coletivo a partir de um dos elementos mais centrais ao imaginário evangélico: a música gospel. Repetir a letra, no entanto, aponta para as limitações de Flávio em mostrar domínio sobre o álbum completo.

A aposta de Flávio em driblar acusações de que seria um “falso evangélico” busca se concretizar através de uma inserção mais orgânica, em que se mistura repertórios mais diretamente religiosos, como a oração, os símbolos judaico-cristãos e a música gospel, com discursos sobre moral e família. Se, de um lado, suas falas públicas nesses eventos têm repetido jargões utilizados por políticos evangélicos da extrema-direita – como a ênfase na “batalha espiritual” para explicar a polarização com a esquerda –, por outro, os recorrentes esforços em pedir orações por Jair Bolsonaro e repetir frases de campanha do ex-presidente, como “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, vinculam sua imagem à do filho escolhido, herdeiro eleito para vingar injustiças feitas contra o pai.

Há, porém, um aspecto que atravessa toda essa trajetória. Ela nunca se afasta da figura de Jair Bolsonaro. O primeiro batismo acontece ao lado do pai. A renovação do batismo repete um gesto anteriormente realizado por ele. Nas redes sociais, Flávio escreve que “mais uma vez” segue seus passos. Em um culto recente, afirmou não ter dúvidas de que Jair Bolsonaro é “um escolhido de Deus” e que sua missão ainda não terminou.

Sua narrativa religiosa parece organizar-se menos em torno de um chamado próprio do que dar continuidade de uma missão herdada.

Essa construção dialoga com uma imagem profundamente presente nas tradições bíblicas: a do filho mais velho, responsável por preservar o legado da família. Mas as próprias narrativas bíblicas relativizam continuamente essa lógica. A herança pode ser transmitida; a eleição, não. O reconhecimento da vocação nunca decorre automaticamente da sucessão familiar. Talvez aí esteja um dos principais desafios de Flávio Bolsonaro.

Durante a ascensão política de Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro exerceu um papel decisivo como mediadora religiosa de sua candidatura. Sua trajetória de fé, sua linguagem de oração e sua imagem pública como mulher evangélica ofereceram inteligibilidade religiosa a uma liderança cuja identidade confessional sempre foi marcada por ambiguidades. Em muitos momentos, Michelle não apenas acompanhava Jair Bolsonaro; ela produzia mediações que tornavam sua candidatura reconhecível dentro do universo evangélico.

Flávio disputa esse mesmo espaço em condições bastante diferentes. Sua trajetória religiosa é mais recente, sua narrativa permanece fortemente ancorada na figura paterna e sua construção pública não conta com uma mediação equivalente.

O retrato de família pintado nessa pré-campanha do presidenciável permanece incompleto. Seus registros em eventos religiosos até agora não mostram a esposa ao seu lado. A imagem de Fernanda Bolsonaro como uma mulher discreta, com poucas aparições públicas ao lado do marido, contrasta com o comando familiar e autoridade religiosa adotados por Michelle durante as campanhas de Jair Bolsonaro. Sua presença nos púlpitos, em pregações solo para mulheres ou simplesmente acompanhando o marido, realçava o lugar destinado à esposa sábia e virtuosa, que edifica o lar ao servir à igreja.

Diante dessas e outras lacunas, o fortalecimento de uma identidade evangélica para Flávio – que, vale ressaltar, também não se vê compensado pelo apoio de Michelle – multiplicam-se batismos, viagens a Israel, cultos, participações em grandes eventos evangélicos e demonstrações públicas de fé.

Talvez estejamos observando, menos a consolidação de uma identidade religiosa, do que um esforço contínuo de produção pública de autenticidade. E essa autenticidade não pode ser decretada. Ela precisa ser reconhecida.

É justamente aí que reside um ponto frequentemente negligenciado no debate público sobre evangélicos e eleições. Ao contrário da imagem de um eleitorado passivo, conduzido exclusivamente por lideranças religiosas, os próprios evangélicos participam ativamente da produção da legitimidade política.

Essa mudança de foco devolve agência a um grupo frequentemente retratado no debate público como uma massa homogênea conduzida por suas lideranças. A construção da legitimidade religiosa não depende apenas da estratégia dos candidatos nem da chancela de pastores influentes. São eles que observam trajetórias, compartilham testemunhos, reconhecem coerências e incoerências, interpretam performances religiosas e atribuem – ou não – categorias como “chamado”, “testemunho” e “unção” às lideranças que disputam sua confiança.

Sob essa perspectiva, o desafio de Flávio Bolsonaro talvez não seja convencer os evangélicos de que professa a mesma fé. Há apenas quatro meses para as eleições, parece não haver tempo de produzir uma trajetória religiosa que seja reconhecida como portadora de autoridade própria. Afinal, heranças familiares podem ser transmitidas. Mas legitimidade religiosa, como tantas vezes mostram as próprias narrativas bíblicas, nunca é apenas herdada; ela precisa ser continuamente reconhecida por uma comunidade de fé.

 

A Casa Galileia é uma organização da sociedade civil brasileira focada em engajar públicos cristãos (católicos e evangélicos) na defesa da democracia, dos direitos humanos e da justiça socioambiental. (https://casagalileia.org/)

 

Andréa Laís é socióloga, assessora de campanhas e pesquisa da Casa Galileia. Doutora em Ciências Sociais e pesquisadora da religião.

Lorena Mochel é antropóloga, assessora de pesquisa na Casa Galileia. Pesquisadora de pós doutorado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

 

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