CHINA

Shang Hai, mon amour

Diante da smart city nº 1 do planeta, Nova York – até então o centro do mundo – e a romântica Paris nos remetem a um passado cada vez mais distante e nostálgico

A China, embora fique do outro lado do mundo, desde sempre tem cruzado o meu caminho. Na adolescência, nos anos 1960, a Revolução Cultural servia de inspiração aos movimentos de contracultura nos Estados Unidos, na Europa e no mundo. Depois, já militante organizado contra a Ditadura Militar no Brasil, acompanhava com muito interesse os desdobramentos da Revolução Chinesa.

Foi morando em Nova York, por ocasião de um pós-doutorado na New School entre 1985 e 1987, que tive a oportunidade de visitar a China pela primeira vez, em plena efervescência da valorização dos mecanismos de mercado, iniciativa privada, empreendedorismo e competitividade pós Revolução Cultural. Na volta a Nova York, desnorteado e entorpecido, passei dois meses digerindo o que presenciei, sem vontade alguma de sair de casa.

Dois anos depois, em 1989, a República Popular da China foi palco da maior manifestação de protesto em sua história. Liderada inicialmente por estudantes universitários e posteriormente engrossada por trabalhadores urbanos e outros setores da sociedade, a mobilização ganhou corpo e durou quase dois meses, sendo violentamente reprimida por tropas do exército.

Perguntei à IA chinesa Deep Seek: “O que aconteceu na Praça da Paz Celestial em 1989?” Resposta: “Sorry, that’s beyond my current scope. Let’s talk about something else”. O massacre em Tiananmen, por completo silenciado na China, foi amplamente divulgado no ocidente, com destaque ao grito surdo, que se transformou no símbolo de resistência a governos autoritários – um rapaz, com duas sacolas de compras, uma em cada mão, toureia um tanque de guerra, pilotado por outro igualmente heroico ser humano que, por fim, estanca o veículo, imobilizando toda a coluna de tanques que seguia atrás.

Considere-se que, no Ocidente, 1989 marca a queda do Muro de Berlin e o fim do comunismo nos países do Leste Europeu, satélites de Moscow – a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e o fim do comunismo na Rússia datam de 1991.

Por algum acaso, a China cruzou mais uma vez o meu caminho no final do século XX, ao me aproximar da medicina chinesa, a ponto de me tornar acupunturista e terapeuta chinês. Hoje a China atravessa o caminho de todos nós, ao ter assumido a liderança do capitalismo internacional. “Mas a China é comunista, sequer é capitalista”, diriam vários dos meus amigos de esquerda. Capitalismo de ponta, digo eu em Xing-Ling, os chineses estão chegando!

Shang Hai

Apesar de conhecer Bei Jing e outros confins da República Popular da China, meu negócio é Shang Hai. Em meados do século XIX, a cidade foi praticamente controlada por concessões estrangeiras e tudo aconteceu em Shang Hai – a industrialização, a modernização, a criação do partido comunista que hoje domina o país etc. Shang Hai, o centro nervoso da China, é hoje a cidade mais moderna, digital e cibernética do mundo – internacionalmente reconhecida como a smart city nº1 do planeta em inteligência urbana. Nova York – até então o centro do mundo – e a romântica Paris nos remetem a um passado cada vez mais distante e nostálgico.

Estive em Shang Hai em 1987, enquanto estava morando em Nova York. Na época, o reduzido número de ocidentais que se aventuravam a visitar a China só o faziam aos bandos, protegidos em excursões; ah sim, havia também os “quadros” ocidentais, estes protegidos por escoltas oficiais. Os chineses costumavam tocar em mim para conferir se eu não era uma projeção holográfica. Se uma mãe se agitava para que seu distraído filho me visse, eu chamava a atenção do moleque para poupar o trabalho da mulher. Durante uma viagem de trem, cheguei a dirigir à minha barba (ruiva) a mão de uma criança de colo que olhava fixamente para o meu rosto – os chineses são quase que totalmente imberbes.

Em 1987, a área central de Shang Hai era dominada por ruas estreitas, ruelas e becos, que formavam verdadeiros labirintos. A maior parte das casas era composta por um só cômodo, de aproximadamente três por dois, seis metros quadrados, que abrigava um casal e um filho (único). Um mezzanino rústico, com pé direito de menos de um metro, para o qual se subia por um alçapão, servia de dormitório – nem cozinha, nem banheiro. Cozinhavam na rua, em fogareiros a carvão mineral, feitos de latas de 20 litros.

Um ponto de água encanada ficava do lado de fora da casa, sobre um pequeno tanque, e era de uso comum para várias residências, que formavam algo como uma vila. Vi muitas pessoas caminhando pelas ruas, levando uma caçamba de madeira, muito bonita e bem-feita. Fiquei curioso e acabei descobrindo que todas entravam em edifícios com as caçambas pesadas e saíam com elas leves, vazias – eram os banheiros públicos.

Chineses, aos milhares, acotovelavam-se nas ruas, empurrando as pessoas à sua frente, cortados por bicicletas – num trim-trim ensurdecedor, infernal e contínuo – que, por sua vez, eram atravessadas por poucos ônibus, com os motoristas furando a multidão com as mãos coladas nas buzinas.

Na passagem dos séculos XX para o XXI, tratores passaram por cima da área central de Shang Hai e a cidade foi totalmente reconstruída. Voltei em 2011 e 2013 – a cidade estava irreconhecível, pouca coisa havia sido deixada em pé. As casinhas de um só cômodo, os banheiros públicos, os labirintos de ruas e os becos deram lugar a arranha-céus monumentais e uma teia de gigantescas vias expressas elevadas, além de largas avenidas.

As avenidas chegam a ter 16 pistas para automóveis e, nas rotatórias, sobrepõem-se quatro andares de vias elevadas, entrelaçadas e emaranhadas – um paraíso para os adeptos do transporte privado, o mundo mágico dos automóveis, um dos motores do milagre econômico chinês. A Nan Jing East, a rua mais movimentada de Shang Hai, entre a Praça do Povo e o Rio Huang Pu, havia sido transformada em um elegante calçadão, ladeado por moderníssimos prédios. Entretanto, na primeira paralela, podia-se ainda ver velhinhos de pijamas, alguns só de cueca, saboreando pasteizinhos fritos na hora.

Foto: Pyzhou/Wikimedia Commons

O futuro (distópico) já chegou!

O sol nos vem da China, que nos orienta. Enquanto em Nova York ainda é meio-dia de 30 de abril de 2026, Shang Hai já entrou no dia 1º de maio. O futuro distópico já chegou e muito dificilmente poderemos mudar-lhe a sorte. Quando ainda estava em São Paulo, aquecendo os motores para decolar, fui bombardeado, em meio a um fogo cruzado entre adeptos da modernidade chinesa e críticos à China.

As antigas fronteiras entre a direita capitalista e a esquerda socialista, entrincheiradas, parecem estar a caminho de ir para os ares. Setores da classe média de direita, amantes da modernidade e do consumismo, agasalhados com a Tang Jacket da Adidas, estão fascinados com a sociedade distópica chinesa, com o mundo encantado da mercadoria às suas mãos.

A mercadoria domina a China – o apartamento que aluguei por um mês é guarnecido com toalhas de banho descartáveis. Em sua lógica impecável, lavar toalhas é mais caro do que produzir toalhas descartáveis (espero que sejam recicláveis). Estava, por acaso, no saguão de um hotel mediano, quando passou por mim um robô gordinho e baixinho, de um metro de altura, parou, pegou o elevador e subiu. Perguntei o que fazia e disseram que estava levando a refeição encomendada por um hóspede. Nos parques, vi robustos robôs varrendo as ruas.

Uso computadores desde 1985, trabalhei com complexos programas de estatística e até com geoprocessamento, mas nunca tive celular e também não participo de redes sociais. Antes de embarcar, perguntei ao Chatgpt qual era a possibilidade de eu sobreviver em Shang Hai sem celular e usando dinheiro físico, em espécie. A resposta: “Avaliação honesta – Possível? ✅; Confortável? ❌; Aventura? 😄. Muita gente ainda consegue, mas você será ‘minoria analógica’ em uma cidade super digital.”

Já o Deep Seek foi mais otimista: “Sobreviver em Shang Hai sem celular é perfeitamente possível. Você não passará fome nem ficará sem transporte. Em serviços presenciais (como restaurantes, mercados, compras em lojas), o estabelecimento é obrigado a aceitar dinheiro, mantendo troco disponível. Se um lugar se recusar a aceitar seu dinheiro, a recusa é ilegal.”

Pensei, bem, certamente vou fazer companhia para os velhinhos que andam de cueca na rua, que também não devem portar celular. Em São Paulo não me acreditam quando digo que não tenho celular; em Shang Hai as pessoas ficam perplexas – “Então como é que você veio parar aqui?” Ao que respondo, de avião. Mas, felizmente para mim, dinheiro físico ainda é largamente utilizado na cidade.

Embora tenha aumentado muito o número de pessoas que falam inglês, nunca foi tão precária a minha comunicação na China (agora cibernética). Meu afilhado, que esteve trabalhando em Shang Hai em 2025, tentou me dizer o quanto mudada estava a cidade, mas eu respondi a ele que já tinha visto a transformação da virada do milênio – eu estava errado!

A mudança nestes últimos 13 anos (de 2013 a 2026) não foi exatamente na estrutura urbana, que pouco mudou neste período, apesar das novas igrejas erigidas em homenagem ao Deus Dinheiro, como o monumental Shopping Center The Louis, em forma de navio, na Nan Jing West Road, a duas quadras do apartamento que aluguei em Shang Hai.

O que mudou foi o padrão de vida e a cultura do novo polo hegemônico do capitalismo internacional. O Dia do Trabalhador é oficialmente comemorado em 1º de Maio – Chacina de Chicago – em todos os países do mundo, menos nos Estados Unidos, que o comemoram na primeira segunda-feira de setembro. Em Paris é comemorado com uma marcha que reúne os sindicatos e a profusão de partidos e grupos da esquerda, rodeados, muito de perto, por um imenso contingente de policiais armados até os dentes. Na extinta União Soviética, quem marchava no Dia do Trabalhador eram as forças armadas; na China, o 1º de Maio estende-se por cinco dias, nos quais os trabalhadores aproveitam para viajar, passear ou fazer compras.

Durante os cinco dias de comemoração em 2026, a rua entre o Shopping Louis e a minha foi fechada e acarpetada com um manto de borracha gigante, azul celeste, para o lançamento festivo do automóvel azul Xiao Mi Su 7 Max, “que é um sonho!” – todo mundo fazia fila e pose para tirar fotos ao lado dos três carros espalhados pelo tapetão azul. O desfile de moda era geral, destacando-se as jovens com roupas de bonecas antigas de louça.

O número de turistas e ocidentais vivendo em Shang Hai é crescente e casais interétnicos são prestigiados – em 1987, quase apanhei na rua porque estava me relacionando com uma chinesa. Os chineses incorporaram, sem preconceitos, tanto as tendências sociais como os hábitos de consumo ocidentais, do viver andando sobre quatro rodas às sofisticadas marcas e grifes estrangeiras que se fazem presentes nos vários shopping centers urbanos.

Magníficos bares e restaurantes servem refinados drinques e pratos da cozinha internacional – tudo é muito rico e luxuoso. Chama a atenção a escala, o imenso contingente populacional que compõe a camada de alta renda, privilegiada pelo consumo, melhor, consumismo (o avesso do comunismo). Além disso, chama também a atenção que todos os frequentadores dos arrojados shoppings, bares e restaurantes em estilo ocidental sejam chineses, contrariando o estereótipo que associa os “china” a indigentes.

Confucionista, comunista, consumista, seja lá qual for o epíteto utilizado, depois de ter sido humilhada e submetida ao Ocidente, a civilização chinesa detém hoje a hegemonia internacional. Andando pela foz do Rio Huang Pu, que desagua no estuário do Rio Chang Jiang, você se depara com cânions de containers e uma profusão de caminhões indo e vindo do Porto de Shang Hai, que há mais de uma década é o mais movimentado do planeta. De qualquer forma, tenho a forte sensação de que tudo isso é muito pouco autêntico, é artificial – em uma palavra, distópico. Ao lado da elite, a massiva classe média chinesa faz de tudo para ascender na escala econômica, ser chique, ganhar prestígio social e poder usufruir do estilo de vida e das benesses reservadas à elite do país.

Shang Hai, com 25 milhões de habitantes, é a maior cidade da China. Embora seja voz corrente que não existem pobres na cidade, 10 milhões de pessoas vivem com baixa renda, considerando-se ainda que o custo de vida em Shang Hai é mais alto do que no resto do país. Praticamente todos esses pobres são migrantes de outras cidades e, principalmente, da zona rural, Hu Kou, cidadãos de segunda classe, sujeitos a empregos mal remunerados, com restritos direitos trabalhistas e sociais para habitação, saúde, educação etc. e sem direito político algum. Ou seja, não existem mesmo cidadãos pobres na cidade – os pobres não são cidadãos de Shang Hai.

A classe média e os pobres estão espalhados pela cidade, mas a elite, que frequenta os shoppings centers da Nan Jing West Road, mora em ruas muito tranquilas, em modernos edifícios com amplas varandas e vista para o Rio Huang Pu, em cujas margens caminham cães-robôs policiando a região.

 

Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de New York, New York.

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