Quando a crueldade vira currículo
Escolas, famílias e “panelas” de ódio em disputa pela formação das novas gerações
Ela não gostava de segundas-feiras. Na manhã de 29 de janeiro de 1979, Brenda Ann Spencer abriu fogo contra a escola em frente à sua casa, em San Diego. Matou o diretor, matou o zelador, feriu crianças e um policial. Quando perguntaram por que, respondeu apenas que não gostava de segundas-feiras. A frase percorreu o mundo, inspirou a Banda de rock punk Bottom Rats a compor o sucesso I Don’t Like Mondays e transformou um atentado em memória coletiva lembrando que “seu pai sempre pensou que ela era uma menina de ouro” (The Fine Art of Surfacing, 1979).
Ainda não existiam redes sociais. Não havia Discord, Roblox, smartphones nem algoritmos organizando comunidades de ódio, ou, “panelas”. Mas, o colonialismo já havia organizado o mundo entre vidas protegidas e vidas descartáveis. O fascismo já havia demonstrado a potência política da desumanização, e, como o mal, pode ser banal, corriqueiro. A misoginia e o racismo já ensinavam, havia séculos, que determinados corpos nasceram para ser disciplinados pela violência. O massacre em San Diego não inaugura a crueldade. Inaugura a percepção de que a escola também se tornaria um de seus palcos privilegiados.
Não é coincidência que parte das práticas mais organizadas nas comunidades de ódio sejam dirigidas contra as crianças, jovens e mulheres. As listas de “estupráveis”, os grupos de humilhação e as lições de estupro coletivo não são apenas aberrações de uma internet mal regulada: são a digitalização de uma pedagogia misógina muito mais antiga.
Os números mostram quais vidas têm sido menos protegidas. O Brasil registra um feminicídio a cada 05 horas e 25 minutos. As notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes superaram 59 mil casos anuais. Esse número mais que triplicou na última década. Mais de 70% dessas agressões acontecem dentro da própria casa da vítima, cometidas por pais, parentes e pessoas de confiança. A violência não vem só do desconhecido. Vem de dentro. Se a escola não nomeia isso também ensina algo sobre quais vidas importam. Mas crianças e jovens, além de alvos, se tornaram autores de atos crudelíssimos.
Quase cinco décadas depois de San Diego, os atentados às escolas deixaram de ser acontecimentos isolados. Muitos são estudados, copiados, financiados, celebrados e aperfeiçoados em comunidades digitais. Existem grupos dedicados a ensinar como atacar escolas, humilhar coleguinhas, filmar espancamentos coletivos e transformar o sofrimento em espetáculo. Estamos diante apenas da circulação do ódio? Ou, como se as escolas fossem um Coliseu pós-moderno, estamos diante de processos organizados de formação para o ódio?
Inicialmente, insistimos em procurar culpados fáceis. Primeiro foram os quadrinhos. Depois o rock. Vieram os jogos de RPG, os videogames e, mais recentemente, as redes sociais. A sucessão de culpados diz menos sobre esses meios do que sobre nossa dificuldade em reconhecer que a crueldade precisa ser ensinada.
Hoje, sabemos que a questão não é escolher um novo culpado. Em plataformas de jogos, como Roblox e, sobretudo, em comunidades organizadas no Discord, crianças e adolescentes encontram ambientes onde circulam narrativas, tutoriais, simulações e materiais voltados à violência, à preparação de ataques contra escolas, além de conteúdos de misoginia, humilhação e violência sexual. Não aprimoraram a crueldade, construíram uma infraestrutura capaz de organizá-la, acelerá-la, conectá-la e legitimá-la em escala global.
Esse processo não é uniforme. O ódio se globaliza, mas se enraíza de forma diferente em cada território, potencializando desigualdades locais já existentes, atualizando hierarquias coloniais e misóginas com novas linguagens. É o que poderíamos chamar de glocalização da crueldade: um fenômeno que é ao mesmo tempo planetário em sua infraestrutura e profundamente local em seus alvos. Assim, o ódio globaliza sua infraestrutura e territorializa seus alvos. O ódio pode ser digital e a comunidade transnacional, porém, as vítimas são sempre pessoas reais, em seus territórios, locais de existência.
Ao longo dos últimos duzentos anos, no mínimo, discutimos a escola e a família como as principais instituições responsáveis pela formação das novas gerações, em colaboração. Mais recentemente, surgiram outras escolas. Não possuem prédio, currículo homologado nem calendário letivo. Funcionam 24 horas por dia, atravessam fronteiras, recrutam adolescentes, produzem pertencimento e oferecem formação sistemática para o ódio.
As “panelas”, como as do Discord, deixaram de operar exclusivamente como grupos de conversa. São instituições concorrentes disputando diuturnamente a formação ética, política e afetiva das novas gerações. Convocam grupos de mais de mil crianças e adolescentes – dos 8 aos 14 anos, em sua maioria – para realizar rituais e atos de crueldade entre si e com animais.
Muitos ainda interpretam os ataques às escolas e a radicalização de adolescentes como problemas de “violência escolar”. Essa leitura é insuficiente. O que está em disputa são projetos concorrentes de formação humana. Os currículos mais eficientes na produção de pertencimentos já não são, necessariamente, aqueles organizados pelos sistemas de ensino.
Para defender essa hipótese, analisamos, em nossas pesquisas, fenômenos como uma atividade artística realizada com estudantes da educação básica, na qual surgiu o desenho de uma máquina destinada a matar professores. A pergunta que nos surgiu foi que sociedade ensina a imaginar professores como alvos. A violência já atravessava o cotidiano daqueles estudantes muito antes do desenho: nas operações policiais que fecham escolas, na precarização do trabalho docente, no discurso político que transformava professores em inimigos, na naturalização da morte de jovens negros. A máquina não nasceu da imaginação juvenil. Ela já estava funcionando na sociedade.

Em outra investigação acompanhamos a organização de um Clube da Luta dentro da própria escola. As lutas eram transmitidas pela internet e acompanhadas como entretenimento e casa de apostas. Admoestados, os estudantes envolvidos perguntavam ao diretor se seria melhor estarem furtando celulares ou “avacalhando a escola”. Não havia maldade abstrata nessa pergunta. Havia um horizonte profundamente limitado de possibilidades de reconhecimento. Não se pode confundir a sociabilidade violenta produzida pela sobrevivência em contextos de racismo, desigualdade e exclusão com os discursos organizados de ódio. Uma é sobrevivência. A outra é necrofilia.
Infelizmente, relatos de clubes da luta e sessões de espancamento coletivo continuam chegando de escolas em diferentes regiões do país e do mundo. Já não eram apenas nossas pesquisas mostrando esse fenômeno. O próprio cotidiano escolar passou a devolvê-lo, repetidamente, sob diferentes tendências, nomes e formatos.
Nesta direção, os dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE, IBGE, 2026) revelam que essa violência tem custo. Falamos de uma geração atravessada por sofrimento psíquico: cerca de 30% dos jovens de 13 a 17 anos se sentem tristes com frequência, e proporção similar aponta impulsos para machucar a si mesmos. E, para ensinar isso, também existem grupos organizados.
O neurocientista Sidarta Ribeiro, em conversa com Bruno Torturra[1], oferece uma chave para pensar o que está em jogo: “A relação presa-predador foi uma necessidade da escassez. Agora que não tem mais escassez, tem que prevalecer o amor, se não é perversidade.” E conclui: matar, hoje, “é uma escolha que leva a espécie como um todo para o buraco.” Matar, humilhar, agredir, concordamos, é um buraco sem fundo para a formação das novas gerações.
A escola pública continua sendo um dos poucos espaços em que crianças e adolescentes convivem com pessoas que não escolheram. Enquanto discutimos reformas curriculares, outras instituições escrevem currículos muito mais eficazes na produção de afetos, identidades e pertencimentos. O que está em questão, portanto, não é só o conteúdo do que se aprende, é a própria concepção de vida que se transmite.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, desde 1990, define que a responsabilidade pela formação das novas gerações é da família, do Estado e da sociedade. O que o ECA não previu, em 1990, foi que esse terceiro ator – a sociedade – pudesse se organizar sistematicamente para ensinar ódio, misoginia e morte a crianças de oito anos. As comunidades digitais de ódio operam exatamente nesse terceiro espaço, sem nenhuma das obrigações legais que o ECA impõe aos outros dois.
Diante disso, a reação das políticas públicas e da sociedade não pode ser simplista como a inclusão de conteúdos nos currículos, muito menos disciplinar. Retirar crianças da escola pelo homeschooling ou militarizá-la parte da mesma lógica equivocada: supõe que o problema da convivência se resolve eliminando o conflito ou impondo obediência. Mas ninguém aprende democracia, respeito e afeto em isolamento. Ninguém aprende a viver com a diferença apenas obedecendo, ou, pior, negando-a. A educação, e a formação, das novas gerações é também uma querela pela sobrevivência do que nos torna humanos.
Brenda Spencer disse que não gostava de segundas-feiras. Ficou na história como autora do primeiro de muitos tiroteios em massa em escolas e universidades que se espalharam pelo mundo. Rendeu-se à polícia com a promessa de um sanduíche. Hannah Arendt chamou de banalidade do mal a essa descoberta perturbadora: a crueldade não precisa de monstros. O mal prospera na normalidade, na indiferença, nas pequenas e profundas crueldades cotidianas.
Hannah Arendt e Brenda Spencer foram contemporâneas. Cada uma, à sua maneira, marcou a história. Desde então, muita coisa mudou. Uma das mudanças mais significativas foi a relação entre escolas, famílias e a educação das crianças e jovens. Hoje, escola e família disputam esse lugar com comunidades presenciais e virtuais organizadas para ensinar ódio, misoginia, racismo, humilhação e morte. É essa concorrência – muito mais do que a violência em si – que definirá a humanidade que aprenderemos a construir.
Então, perguntar por que existem ataques às escolas, bullying, clubes da luta, e tanta tristeza onde deveria haver reconhecimento, acolhimento e segurança, vale pouco. Pois, a pergunta deve ser quais respostas seremos capazes de construir, como sociedade, para disputar os projetos de formação humana que atravessam as vidas de nossas crianças e jovens.
Apesar disso, toda segunda-feira milhões de crianças e jovens acordam, vestem seus uniformes, colocam suas mochilas nas costas e atravessam os portões das escolas. Muitas delas vão buscar nessas escolas o acolhimento para as violências que sofrem em casa, nas ruas, por causa da desigualdade. Continuam acreditando que ali encontrarão um lugar para aprender, conviver e imaginar futuros.
Toda segunda-feira, estudantes carregam para os pátios das escolas as possibilidades de humanidade que estamos dispostos a ensinar, aprender e praticar. A decisão cabe sempre a nós, adultos.
Artigo elaborado a partir das pesquisas de Maria Luiza Süssekind e Vinícius Hozana (“O Clube da Luta e as muitas formas de ‘ser sujeito homem’”. Revista Diversidade e Educação, 2025).
Maria Luiza Süssekind é professora e pesquisadora com doutorado em Educação.
[1] Em Fluxo, 2020. https://www.youtube.com/watch?v=1OsWPTCHsIg

