ENTREVISTA

Entre o silêncio e a resistência: a trajetória de Marina, um corpo que a História deixou marcas

Mil novecentos setenta cinco é o primeiro romance do escritor Cristiano Santiago Ramos, publicado pela Editora Patuá. O autor estreou na literatura em 2015, com o livro de poemas Muito Antes da Meia-Noite

O novo livro de Cristiano Santiago Ramos narra a trajetória de Mariana, uma jovem militante durante a Ditadura Militar brasileira, cuja vida é marcada pela repressão, pela perda e pelo silêncio. Construído a partir da memória, do trauma e da violência política, o romance entrelaça experiências individuais e coletivas para refletir sobre as cicatrizes deixadas pelo autoritarismo.

O título da obra guarda um detalhe significativo, que pode passar despercebido à primeira vista. Mais do que indicar um ano, ele também sugere uma contagem regressiva. Escrito por extenso, 1975 seria Mil Novecentos e Setenta e Cinco. No título do romance, porém, a conjunção “e” é suprimida, resultando em Mil novecentos setenta cinco.

A ausência da conjunção deixa o título com um tom diferente. Mais do que indicar um ano, ele também sugere uma contagem regressiva, o que reforça a sensação de tensão e de que algo está prestes a acontecer ao longo da narrativa. Além disso, o desaparecimento das conjunções dialoga com os desaparecidos durante o período ditatorial.

O romance trata a ditadura não apenas como acontecimento político, mas como experiências psicológicas e familiares que continuam atuando no presente. Por esse motivo, Marina não é apenas uma testemunha da História, mas representa um corpo que a História deixou marcas.

No fim do livro, aparece mais uma narradora, uma familiar da protagonista, de uma geração diferente. Essa mudança de perspectiva mostra como o trauma atravessa o tempo e alcança aqueles que não viveram diretamente os acontecimentos da ditadura.

Confira a entrevista:

Como foi feita a escolha do título do livro?

No livro tem a referência de mais três obras que foram publicadas em 1975, então essa já era uma primeira camada de significado. Mas Mil novecentos setenta cinco é um livro construído por coincidências e acasos que, de algum modo, acabaram se encaixando.

Quando pensamos ou estudamos a ditadura, 1975 costuma ser visto como um ano indecifrável. O romance é uma obra de ficção que reúne acontecimentos de diferentes momentos. A luta armada, por exemplo, já havia sido praticamente dizimada em 1974, mas o livro atrai fatos anteriores, posteriores e até situações que jamais aconteceram. Achei que essa liberdade era importante para a narrativa.

Também me interessava o fato de 1975 ser um momento de transição. Geisel anunciava uma abertura “lenta, gradual e segura”, mas o aparelho de repressão, tortura e violência permanecia em funcionamento. Ao mesmo tempo, a esquerda buscava novos caminhos após o fracasso da luta armada: reorganizar a oposição democrática, retomar os movimentos de base, fortalecer o movimento estudantil e, nos anos seguintes, impulsionar a campanha pela anistia? Havia muitas dúvidas e poucas respostas.

No título, porém, fiz uma escolha deliberada: suprimi a conjunção “e”. Em vez de Mil Novecentos e Setenta e Cinco, ficou Mil novecentos setenta cinco. Essa ausência carrega um sentido simbólico e remete, para mim, aos desaparecidos políticos – àquilo que falta e nunca pôde ser recuperado.

Além disso, a data deixa de ser apenas uma referência histórica e passa a sugerir uma contagem regressiva: 1.975. E é uma contagem regressiva que, de certo modo, ainda não terminou. Não enfrentamos plenamente as questões do nosso passado, e elas continuam produzindo efeitos no presente. A conta chegou – e chegou alta.

Ao escolher 1975 como cenário da narrativa, o livro dialoga com um momento em que a violência da ditadura se tornou ainda mais evidente para a sociedade, especialmente após o assassinato de Vladimir Herzog. De que forma a memória desse período influenciou a construção da obra e o desenvolvimento dos personagens?

Totalmente. A Marina, por exemplo, é uma personagem construída a partir de muitas mulheres. Ela é uma colagem muito afetuosa de diferentes trajetórias, experiências e referências. A Marina que ficou no romance reúne fragmentos de muitas mulheres que atravessaram aquele período.

Foto: Divulgação

O próprio ano de 1975 também funciona assim. Embora seja o centro da narrativa, ele reúne acontecimentos de diferentes momentos da ditadura. O romance não busca reconstruir um único ano de forma documental, mas condensar experiências, memórias e tensões que se espalham por todo aquele período.

Ao construir a Marina, percebi que ela não carrega apenas a violência da ditadura, mas também as marcas de uma sociedade profundamente patriarcal. Um aspecto importante da personagem: sua gravidez imaginária, desencadeada pelo trauma da violência sexual que sofreu. Não deixo isso explícito de forma direta no romance, mas há sinais ao longo da narrativa, como a ausência da menstruação e a dúvida constante sobre uma possível gravidez. É uma maneira de mostrar como a violência permanece inscrita no corpo e na memória.

O escritor Sidney Rocha escreveu uma frase muito bonita sobre isso, que está na quarta capa do livro. Ele diz: “De certo modo, somos todos filhos da Marina.” Acho uma síntese poderosa. Talvez sejamos mesmo filhos de todas essas Marinas – mulheres que resistiram, enfrentaram a violência e deixaram um legado que ainda precisamos reconhecer.

O silêncio é um elemento central da obra. Em nenhum momento ele representa uma ausência de sentido. Pelo contrário, tive a impressão de que ele remete justamente ao que a violência política tentou apagar. É isso mesmo ou essa foi uma interpretação minha?

Não, é exatamente isso. O silêncio é quase um romance dentro do romance.

Um amigo escritor me disse uma vez que, de todos os livros de literatura brasileira que ele já havia lido, este era um dos que davam ao silêncio um papel mais importante. Gostei muito dessa leitura, porque era justamente o que eu buscava.

Desde o início, eu não queria escrever um romance em fluxo de consciência, pelo menos não no sentido tradicional. Numa situação como a vivida pela Marina, isso não seria possível. O que existe são fragmentos, flashes. Estamos o tempo inteiro sendo interrompidos: um grito, um barulho, um telefone, uma lembrança. Os pensamentos surgem aos pedaços, e só muito depois tentamos organizá-los.

Quis que o leitor experimentasse um pouco dessa sensação. Por isso a narrativa é feita de trechos curtos, separados por silêncios. São esses intervalos – os “dialetos do silêncio”, como o próprio livro os chama – que convidam o leitor a completar o que não foi dito: imaginar o que Marina está vivendo, refletir sobre si mesmo ou simplesmente buscar um sentido para aquela experiência.

O silêncio também ajuda a criar o ritmo do romance. A história acontece em apenas sete dias, e eu queria que a leitura transmitisse essa sensação de urgência, quase de vertigem. Queria que fosse um romance com a intensidade de um conto, algo que se movesse entre o disparo que abre a narrativa e o desfecho, mantendo o leitor sempre em estado de tensão.

Além disso, os silêncios carregam outras camadas de significado. Algumas eu gosto de comentar; outras prefiro deixar que sejam descobertas por quem lê. Acho bonito quando alguém termina o livro e diz: “Vou voltar e reler”. Significa que percebeu que ainda havia algo escondido ali.

Gosto muito de ouvir como cada leitor se relaciona com esses vazios. Afinal, o silêncio nunca é apenas ausência; ele também é um espaço de memória, de imaginação e de construção de sentidos.

O livro retrata a Ditadura Militar e, recentemente, o Brasil voltou a discutir ameaças à democracia após os acontecimentos que marcaram os últimos anos. Como é escrever e falar sobre esse tema hoje, em um cenário político ainda tão polarizado?

Houve um jornalista que me chamou a atenção para algo que, até então, eu não havia percebido com tanta clareza. Ele disse que, durante praticamente todo o romance, a narrativa evita o confronto direto. A Marina não faz grandes discursos, não adjetiva seus adversários nem transforma a história em um manifesto. A posição dela – e também a minha – está evidente, mas ela aparece por meio da experiência vivida, não da retórica.

No final, porém, isso muda. Há a cena da entrevista, que dialoga com o Roda Viva, e ali o personagem Tiago deixa de representar apenas um indivíduo. Ele passa a condensar diferentes figuras e discursos que marcaram a história política brasileira. A narrativa se torna mais direta e mais confrontativa.

O jornalista me perguntou por que essa mudança acontecia. A resposta está justamente na narradora. Em determinado momento, percebe-se que quem conta a história não é mais a Marina, mas sua sobrinha. Na verdade, ela sempre esteve narrando. Ela reconstrói a trajetória da tia a partir de diários, anotações e outros materiais que encontrou. Não se trata de uma narração póstuma, mas de uma reconstrução da memória.

Essa mudança também marca uma diferença geracional. Durante a ditadura, a arte precisou recorrer às metáforas, às analogias e às entrelinhas para escapar da censura. Escritores, músicos e artistas desenvolveram uma linguagem cifrada para conseguir dizer aquilo que não podia ser dito de forma explícita. Isso produziu obras extraordinárias e um período de enorme riqueza estética.

Hoje, no entanto, o contexto é outro. Tenho a impressão de que as novas gerações já não estão tão dispostas – ou talvez não tenham mais o repertório – para decifrar esse tipo de linguagem. E isso não é uma crítica; é uma constatação de que as formas de comunicação mudaram. Cada geração estabelece uma relação diferente com a arte e com a memória.

Por isso, senti que o romance também precisava refletir essa transformação. Ele começa mais sutil, mais insinuado, e termina assumindo um tom mais direto. Essa mudança não acontece por acaso: ela acompanha a passagem de uma geração que precisou falar por metáforas para outra que sente necessidade de nomear as coisas de maneira mais explícita.

 

Maíra Oliveira Graça é editora assistente do Le Monde Diplomatique Brasil.

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