O MUNDO ANDA COMPLICADO

O Brasil e a resistência democrática

O discurso de ódio, a perseguição às minorias e a banalização da violência deixam de ser desvios ocasionais para integrar estratégias permanentes de dominação política.

“O mundo anda tão complicado.” A frase, que poderia ser apenas um desabafo cotidiano, sintetiza o sentimento de inquietação diante de um cenário internacional marcado pelo fortalecimento de movimentos de extrema direita, pela radicalização do debate público e pela crescente normalização do discurso de ódio como instrumento de disputa política.

Os sinais desse processo multiplicam-se em diferentes partes do mundo. Nos Estados Unidos, iniciativas voltadas ao endurecimento do combate a organizações dos movimentos sociais classificadas como “extremistas” alimentam discussões sobre os limites entre segurança nacional, garantias democráticas e possíveis formas de perseguição política. Em diversos países, discursos ultranacionalistas, xenófobos e antidemocráticos conquistam espaço tanto nas instituições quanto nas redes sociais, transformando a intolerância em linguagem política. Na América do Sul, episódios como a queima de um boneco representando o jogador francês Kylian Mbappé, durante manifestações no Paraguai, revelam que o extremismo também se manifesta por meio de símbolos de exclusão e violência.

Esses acontecimentos não podem ser interpretados como fatos isolados. O filósofo Achille Mbembe observa que as novas formas de exercício do poder estabelecem mecanismos que definem quais vidas merecem proteção e quais podem ser consideradas descartáveis. Nessa lógica, o discurso de ódio, a perseguição às minorias e a banalização da violência deixam de ser desvios ocasionais para integrar estratégias permanentes de dominação política.

Na mesma direção, Angela Davis demonstra que racismo, misoginia, desigualdade econômica e violência institucional não constituem problemas independentes. São dimensões de um mesmo sistema de opressão que somente pode ser enfrentado por meio da ampliação da democracia, da participação popular e da defesa incondicional dos direitos humanos.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A América do Sul atravessa um período de intensas transformações políticas. Nos últimos anos, diferentes países da região assistiram à ascensão de governos conservadores ou de extrema direita, alterando o equilíbrio político do continente e aprofundando a polarização. Independentemente das particularidades nacionais, observa-se um ambiente de crescente contestação às instituições democráticas, de fortalecimento de lideranças personalistas e de intensificação das disputas ideológicas.

Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição estratégica. Em razão de sua dimensão territorial, peso econômico e influência diplomática, o país pode desempenhar um papel decisivo na preservação da estabilidade democrática regional. Mais do que uma disputa entre projetos partidários, o debate envolve diferentes concepções sobre o Estado, os direitos sociais, as liberdades públicas e o futuro da democracia constitucional.

Marilena Chauí adverte que o autoritarismo brasileiro não se manifesta apenas por meio de rupturas institucionais ou golpes de Estado. Ele também se expressa na naturalização das desigualdades, na intolerância, na desqualificação da política e na transformação do adversário em inimigo. Enrique Dussel, por sua vez, sustenta que uma política verdadeiramente democrática deve partir da defesa da vida e da dignidade dos povos, especialmente daqueles historicamente marginalizados.

Também permanece atual a advertência de Umberto Eco sobre o chamado “fascismo eterno”. Segundo o escritor italiano, o autoritarismo pode ressurgir sob novas formas, apropriando-se da desinformação, do culto à personalidade, da fabricação de inimigos internos e do descrédito sistemático das instituições democráticas.

Resistir, entretanto, não significa responder ao ódio com mais ódio. Significa fortalecer a educação pública, a cultura, a ciência, a democracia, os movimentos sociais e todos os mecanismos que ampliam a participação cidadã. Significa disputar ideias, defender os direitos humanos e impedir que diferenças políticas sejam convertidas em justificativa para perseguições, discriminações ou violências.

A história brasileira oferece importantes exemplos dessa capacidade de resistência. Da luta contra a escravidão às campanhas pela redemocratização, passando pelos movimentos populares, sindicais, estudantis, negros, indígenas e feministas, diferentes gerações demonstraram que a maior riqueza do país reside em sua diversidade e na permanente defesa das liberdades democráticas.

É nesse horizonte que muitos analistas situam a importância da continuidade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A sua reeleição representaria a possibilidade de consolidar o Brasil como um dos principais espaços de resistência democrática na América do Sul, em um contexto regional marcado pelo fortalecimento de governos de extrema direita em vários países. Sob essa perspectiva, Brasil e Uruguai figurariam entre os poucos governos da região identificados com agendas voltadas à ampliação dos direitos sociais e à preservação das instituições democráticas.

Ao mesmo tempo, esse cenário exige serenidade. Mais do que alimentar o medo, será necessário cultivar esperança, lucidez e saúde mental para enfrentar um período de intensas disputas políticas e informacionais. Nenhum ciclo histórico é permanente, mas sua superação depende da capacidade de organização da sociedade, do fortalecimento das instituições e da mobilização dos movimentos sociais.

Também será indispensável acompanhar criticamente as disputas geopolíticas internacionais e seus impactos sobre a América Latina. Ao longo da história, diferentes potências exerceram influência direta ou indireta sobre os rumos políticos da região, apoiando, em determinados contextos, intervenções que contribuíram para a desestabilização de governos e instituições. Compreender esses processos é condição necessária para fortalecer a soberania nacional e consolidar democracias mais sólidas.

O mundo, de fato, anda complicado. Mas a história também ensina que nenhum projeto autoritário é definitivo. A democracia não sobrevive por inércia: ela exige vigilância permanente, compromisso com a verdade, respeito às diferenças e disposição para construir consensos mínimos em torno da dignidade humana. Se conseguir reafirmar esses princípios, o Brasil poderá desempenhar um papel relevante não apenas como espaço de resistência democrática na América do Sul, mas como referência internacional na defesa dos direitos humanos em tempos de incerteza.

 

Ivandilson Miranda Silva é filósofo, Doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB e Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA.

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