A DEMOCRACIA SE MANIFESTA TAMBÉM NA VIDA MONETÁRIA ÍNTIMA DAS FAMÍLIAS

A dívida como prova da democracia

A dívida doméstica deixou de ser apenas um indicador macroeconômico para se tornar um vetor de subjetivação política, um terreno onde se disputam adesões, ressentimentos e expectativas de futuro

Em abril de 2026, pela primeira vez desde que o indicador começou a ser medido, mais de quatro em cada cinco famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida. O percentual de 80,9% marcou o maior índice de endividamento desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), conduzida pela Confederação Nacional do Comércio. Não foi um pico isolado: foi o quinto mês seguido de recordes, com o índice avançando ainda mais em maio, para 81,6%. Esses números descrevem não um acidente de percurso, mas a consolidação de um regime doméstico de endividamento permanente – uma economia da família brasileira que já não se organiza em torno da poupança, e sim da gestão contínua do que se deve.

O deslocamento é estrutural. Segundo o Banco Central, a parcela da renda familiar comprometida com o pagamento de dívidas saltou de cerca de 22% em 2019 para 29,7% ao final de 2025 – quase um terço do orçamento doméstico já comprometido antes mesmo de chegar à geladeira, ao aluguel ou à conta de luz. O endividamento total das famílias, em relação à renda acumulada, atingiu o recorde histórico de 49,9%. Além disso, o endividamento total das famílias, em relação à renda acumulada, atingiu o recorde histórico de 49,9%. O montante das dívidas das famílias corresponde a praticamente metade de sua renda anual, evidenciando o crescente peso do sistema financeiro sobre os orçamentos domésticos.

Diante desse quadro, o Governo Federal relançou, em maio, o Novo Desenrola Brasil – Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias, instituído pela Medida Provisória 1.355/2026 –, um mutirão de renegociação que promete fôlego a famílias, estudantes e pequenos negócios sufocados pelo crédito.

Essa tensão não é exclusiva do Brasil, nem nova. A dívida das famílias voltou a se infiltrar na disputa eleitoral brasileira como, seis anos antes, já havia atravessado a eleição que levou Lula ao terceiro mandato – e reaparece agora que ele busca a reeleição. As finanças domésticas ocupam lugar cada vez mais central na política contemporânea, e não apenas no Brasil. É difícil compreender a ascensão de Gabriel Boric no Chile sem considerar o profundo mal-estar provocado pelo elevado endividamento das famílias chilenas, legado de um modelo que privatizou áreas como educação, saúde e previdência e fez do crédito um mecanismo para suprir a ausência do Estado. Da mesma forma, a crise política espanhola que impulsionou o surgimento do Podemos não pode ser compreendida sem as mobilizações dos hipotecados. A indignação diante dos despejos conferiu à Plataforma de Afetados pela Hipoteca uma centralidade política que os partidos tradicionais não foram capazes de antecipar.

O que esses episódios revelam, tomados em conjunto, é uma mutação maior na relação entre sociedade e política: a dívida doméstica deixou de ser apenas um indicador macroeconômico para se tornar um vetor de subjetivação política, um terreno onde se disputam adesões, ressentimentos e expectativas de futuro. A campanha eleitoral brasileira é apenas mais um episódio dessa mutação mais ampla – não seu ponto de origem nem sua exceção.

Endividados: chaves de leitura a partir da experiência argentina

Em Endividados. Como as finanças cotidianas formam a democracia (Ateliê de Humanidades Editorial, 2027), analiso a experiência argentina dessa mutação global e proponho chaves de leitura que podem ajudar a decifrar o que está em jogo também no caso brasileiro.

Com base na tradição foucaultiana, que concebe o neoliberalismo como uma forma de governamentalidade capaz de reconfigurar os indivíduos como unidades de capital responsáveis por sua própria gestão, um conjunto expressivo de estudos tem demonstrado como o crédito, a dívida e a gestão dos riscos operam como técnicas de governo e de condução das condutas. No entanto, essa perspectiva deixa relativamente inexplorada uma dimensão fundamental: a maneira pela qual os próprios Estados e governos passam a ser avaliados politicamente a partir das experiências financeiras vividas por seus cidadãos.

Endividados é um livro sobre como as democracias contemporâneas passaram a ser avaliadas por seus cidadãos – e sobre porque a vida financeira íntima das famílias se tornou o instrumento mais sensível dessa avaliação

Este livro propõe uma sociologia política do dinheiro. Ele argumenta que a dívida das famílias não se limita a organizar o consumo ou o orçamento doméstico; ela também organiza a percepção e o julgamento políticos. A capacidade – ou a incapacidade – de honrar os pagamentos torna-se uma prova cotidiana da credibilidade do Estado, da competência do governo e do valor das promessas coletivas. Nesse sentido, as famílias endividadas não reproduzem simplesmente lógicas financeiras; elas interpretam e avaliam o desempenho político dos governos democráticos por meio de suas obrigações financeiras. Chamo a essa configuração de economia moral do acompanhamento democrático.

Os governos conduzem a melodia principal – definem a política econômica, formulam promessas públicas e estabelecem os termos da vida coletiva –, mas dependem do acompanhamento social para sustentá-la. Esse acompanhamento não é um único instrumento. É composto por múltiplas vozes e registros: petições dirigidas a presidentes, ações judiciais movidas por devedores, mobilizações de bairro, escolhas eleitorais, negociações informais com credores e a gestão silenciosa dos orçamentos familiares em condições de escassez. Cada uma delas constitui um modo distinto de acompanhamento – ou de sua retirada. O que as torna analiticamente equivalentes não é sua forma, mas sua função: todas são maneiras de conceder crédito a um governo, ou de atribuir culpa a ele, pelas condições financeiras da vida cotidiana.

A democracia não se manifesta apenas nas instituições, nos partidos ou nas eleições, mas também na vida monetária íntima das famílias. É ali, na frontera, onde os significados morais e políticos do endividamento se encontram com as expectativas dirigidas ao Estado, que a confiança – ou a desconfiança – na promessa democrática se decide dia após dia.

Foto: Divulgação

Uma sequência histórica: da democracia indexada à democracia sob Milei

Meu argumento é que a dívida das famílias tem constituído uma arena fundamental por meio da qual os cidadãos atribuem crédito ou responsabilidade aos governos democráticos argentinos desde 1983. Ela medeia a relação entre Estado e sociedade, moldando não apenas as condições materiais de vida, mas também as expectativas morais e políticas a partir das quais os argentinos avaliam seus sucessivos governos.

Ao longo dessas quatro décadas, é possível reconstruir como o endividamento das famílias na Argentina se converteu em um ponto de observação privilegiado a partir do qual se pode compreender a interação entre as aspirações sociais, as promessas democráticas e uma economia cada vez mais aprisionada em suas próprias contradições estruturais. Cada ciclo político desde o retorno da democracia na Argentina pode ser lido nessa chave – inclusive, aquele que levou ao governo do atual presidente de extrema direita, Javier Milei.

Democracia Indexada (1983-1989). A crise da dívida externa e a alta inflação marcaram o início dos anos 1980 na América Latina. Na Argentina, a redemocratização ocorreu nesse contexto, após a ditadura de 1976-1983. O governo de Raúl Alfonsín foi posto à prova por uma onda crescente de endividamento hipotecário: famílias não conseguiam manter os pagamentos em dia por causa da inflação, e as classes médias entravam numa espiral sem precedentes de declínio social.

Democracia neoliberal: dívida e promessa de estabilidade (1991-2001). O plano de convertibilidade do governo peronista de Carlos Menem uniu dívida familiar e dívida soberana: enquanto a primeira crescia, a segunda garantia a estabilização e as reformas neoliberais que ampliaram o consumo – imóveis, eletrodomésticos, carros, viagens –, financiado externamente pelo Estado. A crise de 2001 encerrou o ciclo: ambos os tipos de dívida se tornaram impagáveis e as ruas se encheram de protestos.

Democracia pós-neoliberal: dívida e promessa de inclusão (2003-2015). Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia e os Kirchner na Argentina prometeram corrigir os efeitos do neoliberalismo, apoiados no boom das commodities. O cartão de crédito tornou-se passaporte de consumo para setores historicamente excluídos: enquanto o Estado argentino pagava sua dívida soberana, novas dívidas familiares sustentavam a promessa de inclusão – um ciclo dependente de condições voláteis.

A dívida na democracia pró-mercado (2015-2019). Mauricio Macri sucedeu esse ciclo com créditos hipotecários e inclusão financeira como bandeiras pró-mercado. Após forte desvalorização do peso – não evitada por novo empréstimo do FMI –, as rendas evaporaram e as dívidas aumentaram; pedir emprestado a parentes e usar o cartão para comida, remédios e aluguel tornou-se cada vez mais comum. O estrangulamento da dívida soberana e familiar catalisou a mudança de governo.

Democracia sob a pandemia e a alta inflação (2019–2023). A dívida contraída durante a pandemia e o retorno da inflação a patamares superiores a 100% ao ano ajudam a explicar o descontentamento social e o crescente apoio à extrema direita. Ao contrário de outros países, que ampliaram o endividamento público para financiar as medidas de enfrentamento da emergência sanitária, o governo argentino teve de negociar a dívida soberana herdada, o que restringiu sua capacidade de implementar políticas de assistência social. Como consequência, intensificou-se o endividamento das famílias, cada vez mais voltado à preservação das condições mínimas de reprodução da vida cotidiana. Nesse contexto de exaustão econômica e desgaste moral, emergiu Javier Milei, canalizando o ressentimento contra a classe política e prometendo libertar o país da inflação e do peso da dívida.

A dívida de sacrifício e a ascensão de Milei

Em dezembro de 2023, Javier Milei chegou ao poder montado sobre um estado de espírito coletivo, que tinha nome próprio nas pesquisas: exaustão moral. Não era simplesmente a pobreza, nem a inflação isolada, nem a desvalorização – era a sensação de ter feito tudo certo (trabalhar, poupar, sacrificar-se) e, ainda assim, não alcançar; a percepção de correr no lugar, de se esforçar sem que o esforço rendesse frutos.

Em 2023, oito em cada dez argentinos concordavam com uma afirmação contundente: “Diante dos problemas da inflação, dependemos do nosso esforço e sacrifício.” Quase a mesma proporção dizia se matar de tanto trabalhar sem que a inflação lhes permitisse chegar ao fim do mês – números mais altos entre quem já havia votado em Milei nas primárias.

Minhas pesquisas de 2023 mostravam esse estado de espírito difundido transversalmente: quem pedira emprestado para comer e a classe média que não chegava ao fim do mês, compartilhavam a sensação de que o esforço próprio não encontrava retorno institucional – de que as dívidas não eram o preço de algo, nem o degrau para lugar nenhum, mas simplesmente o preço de permanecer no lugar. Para não cair

Leonardo, professor, descreve essa transformação com precisão: passou de contrair dívidas para comprar eletrodomésticos – a antiga dívida da inclusão, promovida pelo kirchnerismo como símbolo de pertencimento e ascensão social – a endividar-se para comprar alimentos. O mesmo cartão de crédito, o mesmo mecanismo de financiamento, havia mudado de significado: já não representava um degrau em direção a uma vida melhor, mas um recurso emergencial para evitar a queda.

Ricardo, comerciante, chamava seus débitos de “dívidas de empobrecimento”, em oposição à lógica de tudo aquilo pelo qual havia trabalhado ao longo da vida. Em um contexto de inflação superior a 90% em 2022 e a 200% em 2023, as dívidas acumuladas não desapareceram; ao contrário, sobrepuseram-se e se multiplicaram.

Essa é a dívida de sacrifício: dívida sem aspiração, que não leva a lugar nenhum – o preço de sobreviver.

O que define esse regime não é só sua magnitude, mas seu sentido acumulado: a dívida aspiracional cria um vínculo entre esforço presente e promessa de futuro; a dívida de sacrifício é seu oposto, o preço de permanecer no lugar. Quando essa experiência se repete governo após governo, algo se rompe na relação entre os lares e a política. O devedor de sacrifício sente que fez sua parte e que o Estado não cumpriu a dele – assimetria que gera uma superioridade moral sobre a classe política: “nós nos viramos sozinhos, eles não fizeram nada.” Foi exatamente essa superioridade moral que Milei soube ler, nomear e capitalizar.

O candidato

A campanha de Milei foi, no sentido mais preciso da palavra, uma campanha sobre o sacrifício: traduziu em linguagem política a sensação de que o sacrifício individual não encontrava contrapartida no Estado, e de que esse Estado, era em si o obstáculo. A proposta da motosserra era uma promessa de reciprocidade invertida – se as famílias haviam sacrificado enquanto os políticos esbanjavam, agora os políticos também sacrificariam. A “casta” pagaria; o ajuste seria para cima.

O sacrifício vivido sem retorno nem reconhecimento converte-se, em política, numa demanda: que outros também sacrifiquem, a começar pelo Estado. A dívida de sacrifício não determina o voto, mas molda uma paisagem moral em que a ruptura radical deixa de parecer loucura e passa a parecer a única opção razoável. Foi o trampolim: instalou o estado de espírito a partir do qual essa ruptura pôde tornar-se moralmente plausível antes de politicamente viável. A experiência financeira acumulada de milhões de lares preparou o terreno; Milei a leu – não como irracionalidade, mas como resposta coerente a anos de promessas não cumpridas.

O governo de Milei herdou um regime de dívida de sacrifício – e o aprofundou. O ajuste fiscal traduziu-se em corte de subsídios, aumento de tarifas e retração do salário real; as famílias que já se endividavam para sobreviver viram os números piorarem, com inadimplência em alta, cartões que deixaram de alcançar e planos de pagamento se multiplicando.

A promessa implícita do sacrifício coletivo – de que a “casta” pagaria – chocou-se com uma realidade mais dura: nos ajustes estruturais, quem mais paga são sempre os que menos têm. As famílias que votaram esperando que outros sacrificassem descobriram que o sacrifício continuava sendo, como sempre, o delas.

O que os números não dizem

Os dados de inadimplência que circulam na mídia se apresentam como indicadores econômicos. E o são. Mas são também outra coisa: o registro de uma ruptura moral que leva décadas se construindo e que Milei, longe de resolver, estendeu sob uma nova promessa. Sua aparição na agenda pública não é casual: quando a dívida dos lares sobe até se tornar visível para a mídia, é porque já faz tempo que é insuportável para as famílias. O debate público chega tarde; a experiência financeira cotidiana chegou antes.

Segundo dados do Banco Central da República Argentina, a taxa de inadimplência no crédito passou de 2,5% em dezembro de 2024 para 9,3% em dezembro de 2025. Em março de 2026 – dado mais recente disponível –, alcançou 11,5%, o maior patamar registrado em mais de vinte anos.

Em apenas doze meses, a inadimplência entre as famílias praticamente triplicou, com um aumento de 8,3 pontos percentuais. Os empréstimos pessoais concentram o nível mais elevado de atrasos dos últimos quinze anos. A deterioração, contudo, não se restringe ao sistema bancário: nas carteiras digitais e nas entidades financeiras não bancárias – às quais recorrem aqueles que já não conseguem acesso ao crédito tradicional – a inadimplência supera 30%.

A sociologia da dívida ensina algo que a economia costuma esquecer: o momento em que uma família não consegue pagar, não é apenas um evento financeiro, mas o momento em que se ativa a pergunta sobre a responsabilidade. Quem tem a culpa – o devedor que não soube se administrar, o governo que não controlou a inflação, ou o sistema que prometeu o que não podia cumprir?

Na Argentina de hoje, essa pergunta volta a estar disponível: os lares que se endividaram para sobreviver, que esperaram que o ajuste de Milei trouxesse estabilidade e veem a inadimplência se acumular sem que o horizonte se abra, estão nesse limiar moral em que o sofrimento privado busca uma explicação pública e um responsável político.

Dívida, democracia e o futuro

A Argentina e o Brasil podem, mais uma vez, olhar-se em espelho, como tantas outras vezes na história. Os alarmes soam dos dois lados da fronteira em torno do aumento das dívidas das famílias.

Endividados mostra que, quando a democracia não consegue garantir estabilidade monetária, previsibilidade temporal ou proteção econômica, a dívida das famílias deixa de integrar e passa a excluir. O que funcionava, em outros contextos, como mecanismo de inclusão por meio do crédito tornou-se, aqui, um mecanismo de erosão moral e política – resultando numa crescente perda de confiança na capacidade do Estado de proporcionar um senso de ordem para o futuro, e abrindo caminho para soluções extremas e a promessa radical de “recomeçar do zero”.

O endividamento cotidiano, a inflação persistente e a fragilidade econômica alimentaram um clima de frustração que abriu espaço para opções políticas radicais e antissistema. A ascensão de uma figura que se apresenta como ruptura e punição em relação ao sistema político não é um desvio inesperado, mas a culminação de um longo processo: a tradução política de décadas de instabilidade na reprodução material da vida.

Compreender como as famílias vivem, administram e sentem as dívidas – e como essas experiências moldam sua relação com a política – é, portanto, essencial para pensar o futuro da democracia. Uma sociedade sobrecarregada por dívidas corrói as expectativas sobre o futuro que as democracias prometem; a dívida devora essas expectativas por dentro e mina a ilusão de um amanhã melhor – sua ficção mais necessária e insubstituível.

A política progressista chegou tardiamente a essa compreensão na Argentina. Resta esperar que sua contraparte brasileira esteja mais bem preparada para enfrentar essa transformação da democracia.

 

Dr. Ariel Wilkis é decano (diretor) da Escola Interdisciplinar de Altos Estudos Sociais (EIDAES) da Universidade Nacional de San Martín (UNSAM), pesquisador independente do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (CONICET) e diretor do Centro Franco-Argentino da Universidade Nacional de San Martín (CFA-UNSAM).

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