STF E O CASO MASTER

Vorcaro, Cosimo e a verdadeira virtú de Maquiavel

O caso Master exemplifica que, no Brasil de Raymundo Faoro, como ninguém tem, quem tem manda em todo mundo

Preparando a minha aula de ética e política sobre o príncipe de Maquiavel abro os jornais e observo a granada de mão jogada pelo ministro do STF no campo da opinião pública. É fascinante e, ao mesmo tempo, tragicômico, ver a tampa do esgoto ser aberta na praça dos três poderes. De um lado, um ministro pressionado puxa o pino de segurança do artefato bélico e, como bem observou meu amigo analista do campo político, infringe a única lei implícita do corporativismo jurídico e dedura seus próprios colegas de toga. Violou a omertà do magistrado. 

Algo que se compara ao assassinato de Francisco Ferdinando em 1914 – estopim da Primeira Guerra, o tiro à queima roupa do ministro do STF culminará, ao ver de muitos, na maior crise política das instituições republicanas nesse grande ano eleitoral de 2026. Mais engraçadas ainda são as ramificações de outros atores do cenário institucional: cenas que envolvem whisky escocês, charutos e assentos em jatinho. Tudo isso me fez pensar o quanto o agente político Daniel Vorcaro, uma peça importante desse tabuleiro, se assemelha ao que Maquiavel chamara de virtù de Cosimo de Médici. 

Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Maquiavel é visto por aqueles que entendem de teoria política como o pensador que inaugura o Realismo Político, a realpolitik e a raison d’état. Palavras bonitas que demonstram, a meu ver, que a contemplação dos affairs institucionais inaugura um tratado muito importante sobre a ação e a ética na vida e na conduta política. Sua principal obra é O príncipe, que fala exatamente disso: a manutenção do poder, interesse nu e a insana e errônea percepção que os meios justificariam os fins. Muita gente por aí lê esta obra e deduz que o príncipe, para manter seu território, deve fazer o que for possível dentro e fora do limite ético – da boa moralidade – para se manter no controle do seu território. 

Daniel Vorcaro nunca foi um príncipe de Maquiavel nessa interpretação comum, não só porque ele falhou na missão de conquistar o poder político e mantê-lo, mas também porque está atrás das grades. Nem se pode afirmar que ele agiu com boas intenções, ou seja, não estamos falando de um indivíduo de boa moral na opinião pública. No entanto, ouso afirmar que Vorcaro possuía a famosa reputazione. O caso Master exemplifica, como bem comentou meu outro amigo de política, que, no Brasil de Raymundo Faoro, como ninguém tem, quem tem manda em todo mundo. Mas o que políticos querem ter? No caso, estamos falando de caronas em aviões particulares, de charutos – provavelmente cubanos pois são os mais estimados pelo seu alto valor inflacionado –, e whiskys Macallan que, por possuírem uma poderosa campanha de marketing, são alvos preferidos dos ricos e abastados. 

Contudo, voltemos a revisitar a história italiana e do porquê eu considero esta específica similitude. Por ironia da história, Cosimo foi um banqueiro e conduziu, depois do seu pai, o banco Médici, uma das principais instituições bancárias da Europa. Percebemos, ao ler O príncipe, que o sujeito, para alcançar o poder, deve, sobretudo, ter em posse a espada. Francesco Sforza – força na tradução – é o maior exemplo que Maquiavel dá acerca dessa virtù armada. Militar e condottiere italiano, virou duque de Milão pelo uso da força em 1450; nem pela fortuna ou por herança, alçou seu lugar ao sol por sua própria virtù. Porém, essa não é a história toda. Como escreveu Maquiavel em Discursos e histórias florentinas, Sforza precisou da ajuda financeira de um banqueiro muito abastado, que via com bons olhos a tomada de Milão – Cosimo de Médici. 

Cosimo reinou em Florença por trinta anos sem ocupar nenhum cargo público. Ele conquistou isso através do dinheiro que investia nas instituições públicas, que gerou o acúmulo do que Maquiavel chama de reputazione. Se engraçou com políticos, foi generoso e fez boas ações, pagou casamentos e obras públicas, mediou conflitos e através disso converteu os seus beneficiários em partidários das suas ações generosas. Quem bancou a produção de um filme da história do ex-presidente? Quem pagou viagem e emprestou aeronaves para membros do judiciário? Quem provavelmente deu de presente caixas de charutos Cohiba e garrafas de destilado escocês? 

Estamos diante do que Maquiavel entende como sucesso – mesmo que passageiro – da virtù desarmada. Cosimo não fingiu ser bom nem “bancou o herói”, ele, ao contrário, realmente praticava boas ações que lhe davam reputação. E, na época, a lei não permitia a condenação pública de tamanha generosidade, o que deixou seus rivais impotentes. Maquiavel fala aqui na ampliação da concepção de poder para além da força bruta, a incorporação da dominação através do consentimento fabricado por normas culturais. Algo que posteriormente Max Weber e Antonio Gramsci chamariam de hegemonia. 

Temos no Brasil um Cosimo oportunista fichado pela Política Federal e a maior elite do atraso de que nos demos conta, que quer ter o que não tem. Só Deus sabe do que será daqueles que venderam a sua alma por charutos Montecristo, whisky Macallan e assentos em aeronaves para viagens de compras luxuosas. Como disse outra vez o principal ministro envolvido nesse episódio tragicômico: de tédio e monotonia ninguém irá morrer neste ano de eleições, cada dia uma aventura. 

 

Michel Oliveira é professor de Ética e Política na Universidade de Brasília. 

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