ESTADOS UNIDOS

Soft power: maquiando a realidade

Quando foi que os Estados Unidos abandonaram seu “hard power” considerando as guerras, invasões e golpes de Estado que eles perpetraram desde o final do século XIX até hoje?

O segundo mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos reabriu uma série de ações disruptivas no cenário internacional. Transitando entre declarações hostis e medidas coercitivas, as ações do governo Trump têm sido noticiadas pela imprensa internacional mainstream, com reverberação em nosso ambiente jornalístico doméstico, como evidência de que os Estados Unidos estão abandonando a sua política de soft power.

 

Passados meses desde que esses “avisos” sobre uma “nova” orientação na política externa estadunidense começaram a chegar até nós – a periferia do sistema global – se faz necessário entender melhor o que seria essa política que a Casa Branca estaria abandonando. O primeiro ponto a discutir é a origem e o significado do termo soft power.

Crédito: Chatham House, London/Wikimedia Commons

O cientista político estadunidense Joseph Nye, deparando-se com o que julgava ser uma nova era na divisão de poder global – que veio a ser denominada globalismo –, considerou que a nova ordem mundial nascente nos anos 1990 estava enterrando a bipolaridade e inaugurando a era da multipolaridade, o que tornaria demasiado custoso e ineficiente que os países utilizassem a força para alcançar os seus objetivos econômicos e políticos: seria mais bem sucedido aquele que oferecesse a maior capacidade de atração aos demais e angariasse para si adesões voluntárias aos seus propósitos.

 

Nye, que lecionou na Universidade de Harvard e faleceu recentemente, em 2025, chamava essa nova ordem diplomática de um “poder pela atração”, um “poder brando”, “soft power”. O termo representa a ideia de que a influência de um país sobre outros se garante pela cultura e pela informação, recursos não só opostos ao “hard power”, mas seus substitutos.

 

Os Estados Unidos, para Nye, teriam suficiente poder de atração para atuar pacificamente num cenário considerado globalizado e multipolar, o que dispensaria o uso da força militar ou de sanções e manipulações econômicas como meios de coerção para alcançar os seus objetivos.

 

Embora Nye tenha reconhecido, em artigo datado de 1990,1 a perda da liderança estadunidense na capacidade produtiva e tecnológica diante de seus concorrentes diretos (refere-se ao Japão e à Alemanha), Washington ainda assim não teria motivos para se preocupar, pois o poder de atração dos Estados Unidos seria superior aos demais países desenvolvidos, conduzindo-os assim a tomarem decisões que não afetassem negativamente os interesses estadunidenses.

 

Essas formulações de Nye ocorreram ao mesmo tempo em que formulações sobre a globalização reafirmavam as vantagens das desnacionalizações dos meios de produção e anunciavam o fim da história e a morte do imperialismo. Eram os anos 1990 e o liberalismo, sustentação teórica ao avanço sem freios do capital, oferecia os argumentos interpretativos para tratar o que o bloco capitalista considerava a “grande vitória” sobre o mundo socialista com o fim da Guerra Fria, dançando sobre os escombros da queda do muro de Berlim e o subsequente desmonte do bloco socialista.

 

A partir de então, o termo soft power passou a circular internacionalmente nas análises sobre a política externa estadunidense.

 

Contudo, algumas perguntas pairam sobre essas interpretações. Como se aplica a definição de soft power num mundo organizado por uma brutal diferença de desenvolvimento econômico, proveniente de exploração e expropriação de massas populacionais gigantescas? Quando foi que os Estados Unidos abandonaram seu “hard power” considerando as guerras, invasões e golpes de Estado que eles perpetraram desde o final do século XIX até hoje?

 

Este é o segundo ponto a ser destacado: precisamos falar de imperialismo, este conceito que insiste em não morrer.

 

O imperialismo foi analisado por Lenin2 no início do século XX a partir das formulações de Marx como um fenômeno resultante do avanço do capital sobre todas as esferas da vida social, operando expropriação e concentração de capitais em larga escala.

 

Considerando as formulações de Marx e Lenin, portanto, esse fenômeno deve ser compreendido como a forma operacional do capitalismo desde o início do século XX, em que a livre concorrência foi suprimida pelo monopólio, e a partilha do mundo tornou-se um imperativo na disputa por recursos naturais e humanos para a extração da mais-valia.

 

Nessa etapa da evolução do sistema, a predominância econômica de um país industrializado não se restringe à exportação de bens com valor agregado, sendo essencial haver a exportação de capitais, a chave central do funcionamento do imperialismo.

 

As transformações econômicas impostas pela etapa imperialista modificaram a política internacional. Se na primeira metade do século XX resíduos de uma política belicista entre potências capitalistas levou o mundo a duas grandes guerras, a segunda metade apresentou arranjos de contenção das disputas entre burguesias nacionais, tendo os Estados Unidos como arquiteto e executor de uma nova ordem mundial. Os acordos de Bretton Woods foram mecanismos que visaram essa contenção por meio da substituição do padrão ouro pelo padrão ouro-dólar nas relações comerciais internacionais, da criação do FMI e do Banco Mundial, da criação das Nações Unidas e do Plano Marshall para a Europa.

 

Nesse cenário, nas duas primeiras décadas do pós-Segunda Guerra Mundial, o fluxo de capitais foi controlado pelos Estados Unidos, o que lhe garantiu posição hegemônica no mundo, tendo o país alcançado grande desenvolvimento das forças produtivas e concentração de riqueza. Para alguns intérpretes, os Estados Unidos são o país imperialista por definição, pois nenhum outro reúne, ainda hoje, todas as condições objetivas para ser assim caracterizado.3

 

O terceiro ponto a se destacar: as características do exercício de poder imperialista. Como identificou Lenin, a dinâmica imperialista imprime dependência, mas também abre, às nações que importam capitais, possibilidades para a superação da dependência. Entretanto, a imposição de modelos de austeridade e controle fiscal como um mecanismo de controle e expropriação das economias dependentes gera tensões e conflitos que expõem as burguesias e Estados nacionais às pressões sociais. Dialeticamente, o imperialismo cria as condições para o anti-imperialismo.

 

Usando os termos cunhados por Nye para em seguida abandoná-los, o soft power não é capaz de exercer o controle social e manter a vantagem na concorrência econômica internacional que o imperialismo exige. O soft power só pode existir tendo o hard power como sustentáculo. Em outras palavras, soft power e hard power são faces da mesma moeda.4 Dito isto, daqui por diante, abandonaremos esses termos em prol de conceitos capazes de apresentar um retrato sem maquiagem da realidade.

 

Onde Nye vê poder brando (soft power) como alternativa ao poder que vem do uso da força, Antonio Gramsci vê o uso combinado entre consenso e coerção.

 

Embora Gramsci não tenha se dedicado a pensar especificamente o imperialismo, suas formulações permitem compreender as características do poder nessa fase. Analisando as condições político-culturais e ideológicas forjadas pela expansão capitalista, Gramsci revelou a ação imperialista por dentro das sociedades nacionais, identificando os mecanismos que as classes dominantes utilizam para manipular as reivindicações das classes subalternas de forma a transformá-las em apoio à dominação que combatem. Gramsci entendeu que a cultura é um importante organizador da vida social, uma das arenas essenciais na disputa pelas mentes e corações, mas nos alertou que o consenso se produz, também, com boas doses de coerção.5

 

Basta observar a realidade que nos cerca para entender que os avisos da imprensa sobre o abandono do soft power na política estadunidense não fazem sentido. Como nos ensina Gramsci, a política externa estadunidense busca hegemonia, o que significa fazer uso de coerção e consenso o tempo todo, dosando os pesos dependendo da resistência que encontram.

 

A poucos dias de uma das eleições mais importantes da história do Brasil, as declarações de ingerência dos Estados Unidos sobre o pleito, a vida política e a vida econômica do nosso país não poderiam ser mais concretas e explícitas. Foi-se a ilusão do soft power, ficou a realidade da força bruta de um imperialismo selvagem.

 

 

 

Josiane Mozer é doutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisadora pós-doc Fapesp na Universidade de São Paulo.

 

Daniel Azevedo Muñoz é doutor em História Contemporânea pela Universidad Autónoma de Madrid e jornalista formado pela Universidade de São Paulo.

 

Notas de Rodapé
1 Nye Jr., J. S. “Soft Power”, Foreign Policy, 80, 1990, p. 153-171.

2 Lenin, V. Imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo Expressão Popular, 2012.

3 Ver FURNO, J. Imperialismo. Rio de Janeiro: Da Vinci Editora, 2023.

4 MATTERN, J. B. Why “soft power” isn’t so soft: representational force and the sociolinguist
construction of attraction in world politics. Millennium, Journal of International Studies, 2005, vol.
33, n. 3, p. 583-612. Mattern faz uma análise da teoria de Nye, mobilizando referências linguísticas,
para demonstrar exatamente isso: soft power não é o oposto de hard power, mas sua extensão.

5 FONTES, V. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. 2. ed. Rio de Janeiro: EPSJV:UFRJ,
2010.

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