Quem ensinou o professor a ter medo?
Que tipo de escola estamos construindo quando ensinar determinadas coisas exige coragem?
A escola diante do pânico moral
Uma professora recebeu o convite para participar de uma pesquisa sobre gênero e sexualidade na escola e pediu para conhecer as perguntas antes de aceitar, outra teve medo, medo esse não de responder errado. Não de não saber o conteúdo ou de ser entrevistada. Medo de que sua participação pudesse chegar à escola onde trabalhava e produzir algum tipo de repercussão. Ela estava vinculada à rede por contrato emergencial, e não por concurso público.
Uma terceira participante chegou a desistir depois de saber o título da pesquisa e compreender que teria de falar sobre gênero e sexualidade. A pesquisa ainda nem havia começado. Não havia sala de aula, não havia família reclamando, não havia reunião com direção, não havia denúncia. Havia apenas uma pergunta, e já havia medo.
Foi assim, de maneira quase involuntária, que o medo entrou na minha pesquisa sobre o ensino de gênero e sexualidade nas escolas públicas da região do Vale do Rio Taquari, no Rio Grande do Sul. Eu pretendia investigar currículo, práticas pedagógicas, BNCC, formação docente. Acabei encontrando algo mais incômodo que é fruto da nossa época: professores calculando o risco de falar.
O problema, portanto, não parece ser apenas o que professores sabem ou deixam de saber sobre gênero e sexualidade. É o que eles imaginam que pode acontecer se falarem. Existe uma diferença considerável entre não abordar determinado assunto porque você considera que ele não pertence à sua aula e não abordá-lo porque está tentando descobrir, antes, se terá problemas por fazê-lo. No primeiro caso, estamos diante de uma escolha pedagógica. No segundo, diante de uma pedagogia do medo.

O laboratório do conservadorismo na região dos Vales
O medo docente não se produz no abstrato. Ele ganha contornos concretos no território. A pesquisa foi realizada no Rio Grande do Sul, com participação de docentes da região dos Vales. E falar desse território importa porque as disputas sobre escola, família, religião, gênero e sexualidade não acontecem apenas dentro da sala de aula. Elas atravessam comunidades, igrejas, redes sociais, instituições e espaços de poder.
O Vale do Taquari, em particular, tornou-se um território politicamente marcado pela força da direita bolsonarista. Em 2022, uma publicação do jornal regional A Hora chamou a região de “um vale bolsonarista, forte e resistente”: Jair Bolsonaro venceu em 37 dos 38 municípios do Vale no segundo turno, e em 14 deles ultrapassou 70% dos votos. Em Lajeado, alcançou 66,28%; em Estrela, 72,19%; em Encantado, 69,35%.
A disputa sobre a escola na Região dos Vales também se articula a iniciativas de caráter religioso e político que buscam ocupar espaços públicos e institucionais. Um episódio que chama atenção é a atuação do movimento Aviva Universitário, que, segundo informações levantadas durante esta investigação, também promoveu ações de evangelização dentro de uma escola pública estadual em Cruzeiro do Sul.
Há ainda outro movimento menos visível, mas igualmente revelador: a tentativa de levar práticas religiosas para dentro dos espaços institucionais da política local. Em contato com a equipe de uma vereadora de um dos municípios da região, tive acesso à informação sobre a existência de projetos relacionados ao uso do espaço legislativo para a realização de rituais religiosos.
Não são episódios equivalentes, nem devem ser tratados como se fossem parte de uma única organização ou estratégia coordenada. Mas ajudam a iluminar um mesmo terreno de disputa: quem pode ocupar o espaço público, com quais discursos e sob quais autoridades?
Esses dados eleitorais e políticos da região, sozinhos, não explicam o que acontece dentro de uma escola. Mas ajudam a localizar o debate. O professor que teme abordar gênero e sexualidade não trabalha em um vácuo político. Trabalha em uma comunidade atravessada por disputas sobre autoridade familiar, religião, costumes, currículo e o próprio papel da escola pública. É nesse território que o medo ganha endereço.
A matemática da autocensura e a precarização docente
Há uma pergunta que parece simples, mas que talvez diga muito sobre o momento político e social que estamos vivendo: o que pode um professor dizer em sala de aula sem precisar, antes, se defender por ter dito?
A gestão da fala na sala de aula responde a uma aritmética perversa. Ensinar conteúdos tradicionais da Ciências e Biologia como fotossíntese, mitose, meiose ou fisiologia vegetal raramente exige que um professor monte uma estratégia defensiva preventiva ou explique previamente à comunidade porque abordará tais tópicos. Já a abordagem de gênero, sexualidade, diversidade e afetividade exige o cálculo constante de variáveis externas: a escolha milimétrica de cada termo, a reação imediata dos estudantes, o risco de prints e gravações fora de contexto e a inevitável circulação de denúncias em grupos de mensagens.
É uma matemática curiosa. Quanto mais controverso o assunto parece ser, maior a quantidade de cálculos necessários antes de abrir a boca.
A pesquisa empírica, que combinou levantamento quantitativo com entrevistas em profundidade, registrou a dimensão desse fenômeno nas escolas públicas gaúchas: 40,7% mencionaram medo de retaliação; 44,4% apontaram pressão das famílias e 37% citaram a ausência de apoio da gestão escolar. Entre os principais agentes associados à resistência às discussões sobre gênero e sexualidade apareceram famílias e grupos religiosos. Não se trata de transformar percentuais em uma explicação total da escola.
Esse ambiente de vigilância atinge com gravidade desproporcional os profissionais em situação de vulnerabilidade trabalhista. Para professoras contratadas temporariamente, estagiárias ou docentes em estágio probatório, a ameaça de demissão ou não renovação de contrato transforma o controle ideológico em instrumento direto de gestão do trabalho. A precarização das relações de trabalho na escola pública converte-se, assim, em solo fértil para o silenciamento.
O medo tem conteúdo
Esse medo, contudo, não é uma abstração homogênea. Ele possui conteúdo, rosto e desdobramentos concretos no cotidiano escolar. Uma das professoras entrevistadas na pesquisa sintetizou o dilema com uma certa clareza:
“Eu tenho um pouco de receio de trabalhar com isso”.
Ela não se referia a um debate teórico sobre identidade ou diversidade, mas à abordagem de situações de agressão e violência doméstica vivenciadas por seus próprios alunos.
Aqui o debate ganha sua dimensão mais dramática: gênero e sexualidade não chegam à escola apenas como pautas afirmativas, mas como revelação de abusos, maus-tratos, vergonha e sofrimento velado. A professora sabia que havia crianças em sua turma sofrendo violência no ambiente familiar, mas hesitava em abordar o tema por não saber como aquilo repercutiria na criança ou se haveria respaldo institucional caso a família reagisse. A escola, que deveria ser o porto seguro para a denúncia e a proteção da infância, vê sua função protetiva paralisada pela apreensão.
Em outro relato, a apreensão assume uma forma diferente:
“Às vezes eu fico com medo de trabalhar porque penso que a gente vai estar influenciando em determinadas coisas”.
Neste caso, a docente trabalha sob a sombra de um dos mitos mais eficazes da cruzada reacionária: a ideia de que abordar gênero e sexualidade em sala de aula teria o poder mágico de “induzir” ou “produzir” nos estudantes comportamentos e identidades que eles jamais teriam espontaneamente. Se falar passa a ser interpretado como doutrinar ou influenciar, o professor aprende rapidamente que a prudência exige o silêncio.
Outro participante da pesquisa expôs a dimensão tática do problema ao relatar que, ao chegar ao conteúdo de sexualidade no 8º ano, recorre ao livro didático “até como uma proteção”:
“Eu começo com o que está no livro para não ficar como algo que eu levei de fora”.
A cena revela uma mudança profunda no lugar ocupado pelo docente: o material didático deixa de ser apenas um recurso para ensinar e passa a funcionar como mecanismo de legitimação. Na escola gerida pelo pânico moral, não basta ensinar; é preciso ter uma autoridade atrás de si, seja uma página do livro, uma habilidade da BNCC ou um documento oficial para apresentar como salvo-conduto. É nesse ponto que o medo deixa de ser apenas uma emoção individual e passa a organizar a prática pedagógica. Esse participante esteve durante a entrevista acompanhado pela supervisora pedagógica e também manifestou receios diante de determinadas temáticas. Aqui, o contexto importa. Falar sobre gênero e sexualidade não acontece no vazio. A fala do professor está atravessada por relações hierárquicas, vínculos profissionais, famílias, gestão, colegas, comunidade e pela possibilidade permanente de repercussão.
Três docentes, três situações distintas: uma teme o impacto de trazer à tona a violência doméstica; outra teme ser acusada de “influenciar” as escolhas dos alunos; uma terceira busca no livro oficial um salvo-conduto. O medo muda de forma, mas produz o mesmo resultado: a contenção da fala e a administração do silêncio.
Não se trata simplesmente de professores inseguros, despreparados ou conservadores. Trata-se de professores trabalhando em um ambiente no qual determinadas palavras carregam consequências antecipadas.
A legitimidade pelo jaleco e o livro didático como escudo
Diante do patrulhamento, os educadores constroem táticas de sobrevivência institucional. Uma das estratégias mais recorrentes é a busca por uma legitimidade conferida pela autoridade médica. O estudo revelou que temas chancelados pelo discurso biológico e sanitário, como anatomia do sistema genital, puberdade, prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e métodos contraceptivos possuem ampla aceitação pedagógica.
A sexualidade é autorizada a entrar na sala de aula quando “veste o jaleco” do saber biomédico. Enquanto a abordagem higienista do corpo-máquina é tolerada, qualquer inflexão que alcance a diversidade sexual, as identidades de gênero, a afetividade ou os direitos reprodutivos é imediatamente acusada de “doutrinação” ou ideologização. Em um dos relatos mais ilustrativos da pesquisa, uma professora narra ter sido convocada pela direção escolar no início da carreira sob a indagação:
“que história é essa de que você vai ensinar sexo para os alunos?”.
Ao responder
“eu não vou ensinar sexo, vou ensinar sobre sexualidade”
A docente explicitou a violência da operação discursiva promovida pelo pânico moral, que reduz a educação cidadã à pornografia ou à perversão.
A diferença entre as duas expressões parece pequena. Politicamente, não é. “Ensinar sexualidade” foi convertido em “ensinar sexo”. E, nesse deslocamento, uma aula sobre corpo, relações, cuidado, prevenção, diversidade ou direitos pode ser transformada em uma suspeita: a de que o professor estaria ensinando crianças a fazer sexo. A acusação não precisa ser formalizada para produzir efeito. Basta que o professor saiba que ela pode aparecer. É aí que o medo começa a organizar a prática docente.
O pânico moral não precisa proibir
É aqui que a ideia de pânico moral se torna importante. Não porque tudo o que acontece na escola possa ser explicado por ela. Nem porque toda família que questiona uma abordagem sobre sexualidade esteja necessariamente envolvida em uma cruzada política. O conceito ajuda a compreender outra coisa: como determinados temas passam a ser apresentados como ameaças que exigem vigilância, contenção e defesa.
No Brasil, a expressão “ideologia de gênero” cumpriu parte desse papel no debate público. Ela passou a condensar diferentes temores em uma única expressão: medo de sexualização infantil, medo de doutrinação, medo de perda da autoridade familiar, medo de transformação dos papéis de gênero.
O que interessa aqui não é apenas a disputa em torno da expressão. É o efeito que ela produz. Quando ensinar sobre diversidade pode ser interpretado como doutrinação, o professor passa a precisar provar que não está doutrinando. Quando falar sobre sexualidade pode ser confundido com ensinar sexo, o professor precisa provar que não está “ensinando sexo”. Quando acolher um estudante LGBTQIA+ pode ser apresentado como incentivo a uma identidade, o professor precisa provar que acolhimento não é incentivo. A aula deixa de ser apenas aula, vira defesa prévia.
A censura invisível e a pedagogia dos algoritmos
O curioso é que o efeito mais eficiente do pânico moral não seja proibir. O que aparece na pesquisa é mais sutil: uma professora evita um assunto, outra modifica uma atividade, outra prefere trabalhar apenas a dimensão biológica, outra espera que a pergunta venha dos estudantes para então responder. A censura mais bem-sucedida ocorre quando o educador aprende a ponderar, a recuar e a se calar antes mesmo de qualquer questionamento.
E existe ainda uma situação mais radical: a pessoa pensa em participar de uma pesquisa sobre o assunto e desiste porque teme que alguém descubra. A censura começa quando alguém aprende a se autocensurar. E é justamente por isso que ela é tão eficiente. Não é preciso uma ordem explícita, basta a possibilidade de uma consequência.
Existe, entretanto, um detalhe que talvez torne todo esse esforço de silenciamento ainda mais contraditório. Os estudantes têm internet e a educação sexual se torna terceirizada para o mercado e para o ecossistema digital. Eles não esperam a BNCC, não esperam o livro didático, não esperam a formação continuada, não esperam a autorização da direção.
Se a escola não responde, alguém responde. Pode ser um influenciador, pode ser um vídeo de trinta segundos, pode ser um meme, pode ser o grupo da família, pode ser uma postagem produzida justamente para provocar medo. Com a indústria pornográfica movimentando cerca de US$ 100 bilhões anuais1, os algoritmos das redes sociais entregam diariamente a adolescentes conteúdos hipersexualizados, misóginos e desprovidos de qualquer dimensão afetiva, ética ou de consentimento. Há uma ironia trágica nessa dinâmica: vigia-se e pune-se a professora que aborda prevenção, proteção contra violência e respeito em sala de aula sob o pretexto de “proteger a infância”, enquanto se entrega essa mesma infância, sem mediação ou crítica, à pedagogia desregulada dos algoritmos do capital.
Quem ensinou o professor a ter medo?
Quem ensinou?
A família?
A gestão?
A religião?
A política?
As redes sociais?
Os discursos sobre “ideologia de gênero”?
A precarização do trabalho?
A ausência de respaldo institucional?
Provavelmente não existe um único culpado.
O medo não chega à escola vindo de um único lugar, ele circula. Ele é o resultado de uma engrenagem que articula o avanço do fundamentalismo religioso, a desinformação orquestrada, a omissão de órgãos gestores, a precarização do trabalho docente e a captura das subjetividades pelas redes digitais.
Não falar sobre o ensino de gênero e sexualidade na educação pode carregar uma política inteira. Porque o silêncio não significa que gênero e sexualidade desapareceram da vida dos estudantes. Significa apenas que a escola abriu mão de disputar o sentido dessas experiências. E, quando a escola se cala, alguém ocupa o espaço. A pergunta, portanto, não deveria ser apenas o que um professor pode dizer sem ser atacado. Talvez precisemos perguntar algo mais incômodo: que tipo de escola estamos construindo quando ensinar determinadas coisas exige coragem? Porque, quando uma professora precisa pensar duas vezes antes de participar de uma pesquisa, quando um professor precisa de um livro didático para provar que está apenas ensinando, quando falar sobre violência produz medo e quando responder a uma pergunta sobre diferença pode parecer um risco profissional, já não estamos discutindo somente gênero e sexualidade.
Estamos discutindo as condições da própria docência. Defender a liberdade de ensinar, a autonomia pedagógica e o direito a uma educação sexual plural e emancipatória é, em última análise, defender o cumprimento da Constituição e a garantia da democracia.
Anita Regina Kerber Diniz é formada em Biologia e estudante de mestrado acadêmico na área da Educação. Seu Trabalho de Conclusão de Curso discutiu as relações entre currículo, gênero e sexualidade, olhando especialmente para a BNCC e para as práticas docentes.
Notas de Rodapé
1.INSTITUTO POLITEIA. Pesquisadores discutem os custos sociais da pornografia. Gazeta do Povo, 26 abr. 2024. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/instituto-politeia/pesquisadores-custos sociaispornografia/#:~:text=Segundo%20estimativas%20da%20professora%20de,cerca%2014%20milh%C3%B5es%20de%20lares.

