As cidades como território de fabulação da esperança para as mulheres
O avanço conservador está dado com o resultado das eleições deste ano. É neste momento que imaginar outras formas de ocupar o espaço público ganha contornos de disputa sobre quem tem direito ao futuro e como construí-lo para o bem viver em comum
Um luto coletivo: foi isso o que viveu a parte da população brasileira que sabe dos danos que governos de extrema-direita causam para a classe trabalhadora, para os direitos sociais e para a liberdade, com o resultado do pleito em outubro. O cenário eleitoral de 2026 colocou os partidos ultraconservadores, alinhados a uma agenda abertamente contrária aos direitos das mulheres, a ocupar os postos que determinam as prioridades e o tom do debate público pelos próximos anos. E pode até parecer que as decisões tomadas em Brasília e nos governos estaduais estejam distantes do cotidiano dos municípios, mas são nas cidades e quem mais circula por elas que o resultado vai se fazer sentir primeiro. Pois são esses congressistas que vão bater o martelo sobre leis e orçamentos e isso significa definir repasses que sustentam creche, transporte, unidade básica de saúde e abrigo para mulheres em situação de violência, por exemplo. Quem votou pela construção de um país melhor para todo mundo, foi dormir – se conseguiu dormir – com a sensação de que não adianta mais lutar.
Por mais duro que seja reunir forças agora, é preciso lembrar que esse sentimento de desânimo se torna politicamente útil ao extremismo. O medo é uma das ferramentas mais antigas dos projetos autoritários e funcionou como combustível durante toda a campanha, seja nos pânicos morais em torno da escola e da família, seja na fabricação de inimigos internos, quase sempre identificados com as mesmas pessoas que já vivem à margem. Passada a eleição, ele muda de endereço e vai morar do lado de cá, entre as mulheres que temem perder direitos que levaram quase um século para sair do papel; do voto feminino, em 1932, à Lei Maria da Penha, em 2006. Uma população que tem medo, se recolhe e deixa de ocupar a rua fica, consequentemente, mais fácil de ser governada. Recusar o desânimo, por isso, já é um gesto político. Significa não entregar também o nosso cotidiano àqueles que gostariam de nos ver isoladas dentro de casa. Fomos buscar na história de São Paulo, na filosofia e na experiência das próprias mulheres que fazem a vida urbana funcionar, pistas de que a cidade pode ser também território de fabulação da esperança. Fabular não como forma de escapismo do presente, mas sim de um lugar onde se imagina e se pratica um futuro diferente daquele que parece decidido.

Ler o medo com precisão
Antes de falar de esperança, é preciso falar de quem tem mais a perder. Porque a mesma notícia impacta de jeitos muito diferentes a vida de uma mulher branca, de classe média, que mora perto do metrô e a de uma mulher negra que sai de casa às cinco da manhã, na periferia, para chegar ao trabalho às oito. As opressões de gênero, raça e classe não são camadas independentes que se somam, elas se cruzam e produzem experiências que nenhuma delas, isoladamente, conseguem explicar. Um corte no programa de creches pode significar, para quem tem dinheiro, um ajuste no orçamento e a busca por uma alternativa privada. Para quem não tem, significa escolher entre trabalhar e deixar o filho com alguém. O sucateamento da atenção básica em saúde, para uma, quer dizer apertar um pouco o dinheiro do mês e marcar uma consulta particular; para outra, talvez seja madrugar numa fila sem garantia nenhuma de atendimento.
O medo que sentimos diante do cenário político precisa ser entendido com precisão porque não é uma emoção genérica, igual para todas. Se queremos construir uma resposta coletiva, precisamos ouvir quem conhece os efeitos das decisões públicas na pele. A periferia costuma sentir primeiro e com mais força as consequências de políticas que, no debate público, ainda aparecem como números abstratos.
Em O espírito da esperança: contra a sociedade do medo, o filósofo sul-coreano, radicado na Alemanha, Byung-Chul Han descreve o nosso tempo como um período em que o medo foi transformado em clima permanente e em ferramenta de governo. Ele corrói a confiança, alimenta o individualismo e é uma porta escancarada para deixar entrar o controle em troca de uma promessa de segurança. E, como já dissemos, uma sociedade de pessoas isoladas é uma sociedade fácil de administrar. Han também fala sobre a distinção entre esperança e otimismo. Para ele, o otimista fica inerte, pois tem a expectativa de que as coisas se resolvam por conta própria. A esperança, ao contrário, nasce num lugar no qual não há garantias de um final favorável, se move porque olha para o que ainda não existe e se lança em direção a ele: “(…) a esperança representa um movimento de busca”, ele escreve. O filósofo também diz que a esperança tem algo de ação e de abertura, cria laços, porque ninguém tem esperança sozinho por muito tempo: “O medo não cria comunidade, não traz um nós. Nele, cada um está isolado em si só. A esperança, por outro lado, contém uma dimensão de nós (…) O sujeito da esperança é um nós”.
Há uma proximidade entre essa ideia e o “esperançar” do educador e filósofo brasileiro Paulo Freire, que nos convida a sair de um lugar passivo para se colocar em movimento. Esperar, no sentido de aguardar, é o que se faz no ponto de ônibus. Esperançar é o que acontece quando o ônibus não vem e as pessoas se organizam para reivindicar uma linha ou um horário.
Pode parecer pequena, mas essa diferença muda tudo, especialmente em um momento que convida aos dois extremos. Há quem já esteja contando os anos até a próxima eleição, sem a garantia de que ela acontecerá. E há quem tenha desistido antes de começar, convencida de que tudo está perdido. As duas posturas têm algo em comum: entregam o futuro pronto, como se ele já estivesse escrito. Esperançar é recusar essa entrega, é olhar com honestidade para as perdas que vêm por aí, sem diminuí-las, e mesmo assim insistir que o desfecho não está dado. É construir com todo mundo para todo mundo.
Lições de mulheres que fabularam nas brechas
Olhar a história das mulheres que vieram antes de nós pode nos ajudar a alimentar esse esperançar que Paulo Freire nos deixou como herança e que se torna fundamental no enfrentamento de tempos obscuros. Serve também para reconhecer que as pessoas que raramente aparecem nos relatos oficiais também produziram cidade, política e conhecimento. A memória de quitandeiras, lavadeiras, doceiras, vendedoras ambulantes, costureiras, que estiveram nas ruas de São Paulo, do século XIX, é uma prova de que a cidade pode ser reinventada por quem está fora dos lugares oficiais de poder. Uma das historiadoras mais importantes do país, Maria Odila Leite da Silva Dias, passou anos garimpando documentos para contar como era a vida das mulheres que estavam à margem. Em Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX, ela fala de uma cidade sustentada, no dia a dia, por mulheres escravizadas, que trabalhavam “ao ganho” pelas ruas. Mulheres forras e mulheres brancas pobres, muitas delas chefes de família, criando filhos sem marido, num tempo em que a lei e a moral as tratavam como dispensáveis. Vidas afetadas pela escravidão, pela pobreza, pelo controle moral e pela vigilância da Câmara e da polícia, que multava e perseguia quem vendia sem licença ou ocupava o lugar que não lhe era permitido pela polícia de costumes. Essas mulheres improvisaram e encontraram maneiras de fazer a cidade acontecer por meio de redes de vizinhança, de empréstimo, de cuidado mútuo com as crianças. Aprenderam a ocupar o espaço público nas brechas da fiscalização, a negociar, até burlar quando necessário. Essa também era uma forma de poder.
É importante dizer que essas histórias não devem ser transformadas naquele clichê edificante sobre mulheres que dão conta de tudo. A capacidade de improvisar não torna justa a ausência de direitos. O que as constatações de Maria Odila nos permitem ver, é que as mulheres criam formas de presença, mesmo quando querem restringi-las. É difícil não fazer um paralelo desses estudos com a discussão das cozinhas solidárias que se multiplicaram na pandemia, ou as mães que organizam revezamento para buscar as crianças na escola, as redes de mulheres que se avisam pelo celular quando uma delas não chegou em casa. A história não se repete, mas nos lembra que a gente já fez isso antes. A fabulação de um futuro melhor nas cidades brasileiras sempre teve rosto de mulher, e muitas vezes rosto de mulher negra e pobre.
A calçada como espaço político para elas
Num cenário em que as decisões tomadas no centro do poder parecem cada vez mais distantes e hostis, principalmente para as mulheres, a escala da rua, do quarteirão, do bairro ganha peso de ferramenta política. Historicamente, os levantamentos apontam que nós fazemos mais viagens a pé e mais translados encadeados entre rotinas de cuidado, trabalho e deslocamentos obrigatórios para a sobrevivência. E é nesse ir e vir que a gente se reconhece umas nas outras, que colocamos em prática o código secreto das mulheres, em que basta uma troca de olhares para atender um pedido de ajuda, um acolhimento por medo. É na calçada, na troca com a vizinhança que nascem as associações de moradores, os mutirões, os coletivos culturais, as hortas comunitárias. Nada disso substitui política pública, e é importante que se registre. Mas essa trama de relações é o que permite pressionar, fiscalizar, denunciar e resistir quando essa política pública falha.
A escritora e ativista canadense Jane Jacobs, em Morte e vida de grandes cidades, chamou atenção para a importância da vida nas calçadas e da presença de pessoas que observam, usam e compartilham a rua. Ocupá-la é um gesto de esperança na medida em que confiamos na presença do outro. A caminhada de uma mulher pelo bairro, à noite, só acontece porque ela sabe que tem vizinhos e comerciantes de olho; uma praça que volta a ter gente depois de ser abandonada, espalha o desejo de cuidado e pertencimento ao redor dela; tudo isso é cidade sendo fabulada, inventada de baixo para cima.
Para as mulheres, a calçada é também o lugar onde se aprende a decidir. Durante muito tempo, as escolhas sobre a cidade foram tomadas em gabinetes onde quase não havia mulheres, e menos ainda negras e da periferia. O encontro na rua inverte essa lógica, porque aproxima a decisão de quem vai viver de verdade às consequências dela. Uma conversa no portão pode virar uma pauta importante da reunião de moradores e, dali uma reivindicação entregue à Câmara Municipal. É nesse percurso da conversa até a decisão coletiva que a fabulação ganha corpo. Imaginar juntas uma cidade melhor assume a forma concreta de uma lista de prioridades definida por quem conhece o território, quem faz parte da comunidade, e sabe de verdade o que funciona e o que não funciona. Num período em que as instâncias de poder tendem a se fechar, manter aberto esse espaço de deliberação, na rua e entre vizinhas, garante que as mulheres sigam participando das decisões sobre o lugar onde vivem, mesmo quando não são convidadas para elas.
Imaginar o que ainda não existe
Uma das armadilhas mais eficazes de projetos autoritários é convencer as pessoas de que não há alternativa (ou de que a única que existe é a proposta por eles). Que as desigualdades são naturais, que os serviços públicos são ruins mesmo e que a cidade sempre foi e será dividida entre áreas valorizadas e áreas condenadas à precariedade. Hoje, parece mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. É o que o pensador britânico Mark Fisher chamava de “realismo capitalista”. Quando essa ideia é martelada até que se torne crença, a política passa a ser entendida como administração do inevitável.
É contra esse bloqueio que tem se formado, nos últimos anos, um campo de pensamento que reúne pesquisadoras, artistas, ativistas e urbanistas em torno das chamadas imaginações pós-capitalistas. A proposta é simples de colocar em palavras, mas difícil de praticar: exercitar a capacidade de pensar outras formas de organizar a vida em comum, a economia, o cuidado, a moradia, o tempo. A literatura e a arte têm um papel importante nesse sentido. A escritora estadunidense Ursula K. Le Guin lembrou, num discurso famoso de 2014, ao receber uma homenagem do National Book Awards, que “Tempos difíceis estão por vir, e precisaremos das vozes de escritores capazes de vislumbrar alternativas ao nosso modo de vida atual, de enxergar além da nossa sociedade dominada pelo medo e suas tecnologias obsessivas, e até mesmo de imaginar fundamentos reais para a esperança.(…) Vivemos no capitalismo, cujo poder parece inescapável – mas o mesmo se podia dizer do direito divino dos reis.”. Se o poder dos reis, que parecia imutável, deixou de ser, toda estrutura humana pode ser contestada e transformada.
Para as mulheres, esse exercício tem uma dimensão muito concreta. O trabalho de cuidado, que a economia tradicional não contabiliza e que recai majoritariamente sobre nós, pode ser o primeiro lugar onde essa imaginação pode começar. Uma cidade pensada a partir do cuidado teria creches perto de casa, transporte que considera os trajetos fragmentados de quem leva filho à escola antes de ir ao trabalho, iluminação nas ruas por onde as mulheres de fato caminham, praças com banheiro, serviços de saúde que funcionam no horário de quem trabalha. Nada disso é utopia. São escolhas de orçamento, decisões políticas que podem ser disputadas mesmo quando o poder parece estar todo do outro lado. E que podem se tornar reais. Fabular, nesse contexto, ganha seu sentido mais forte, que é o de contar uma história que ainda não aconteceu com tanta precisão que ela passa a parecer real. Toda conquista democrática que hoje parece óbvia foi um dia uma ideia considerada impossível que alguém insistiu em contar até virar realidade.
O amor como prática política
Pode soar estranho terminar um texto sobre eleições, cortes orçamentários e serviços públicos falando de amor. Mas foi bell hooks quem nos ensinou que essa estranheza é, ela mesma, um sintoma do problema. Em Tudo sobre o amor: novas perspectivas, a escritora e professora estadunidense recusa a ideia do amor como sentimento individual, restrito às relações íntimas. Para ela, amar é uma escolha e uma prática, feita de cuidado, compromisso, conhecimento, responsabilidade, respeito e confiança. “Para garantir a sobrevivência humana em todos os lugares do mundo, mulheres e homens se organizam em comunidades. Comunidades alimentam a vida”, defende.
hooks propõe que essa ética do amor saia da esfera privada e ocupe a vida pública para se perguntar o que estamos construindo. Uma sociedade orientada pelo amor, no sentido político que ela propõe, seria aquela capaz de reconhecer a dignidade de todas as pessoas e de se organizar para protegê-la. Uma cultura dominada pelo medo e pela ganância torna o amor quase impossível, porque nos ensina a desconfiar e a competir, e a tratar a vulnerabilidade como fracasso. O antídoto, para hooks, está em reconstruir comunidades em que o cuidado seja compartilhado.
Lido ao lado de Byung-Chul Han, o pensamento de bell hooks completa um raciocínio: se o medo isola, o amor, entendido como prática, reconecta. É na cidade, com sua densidade de encontros, que essa reconexão é mais possível. E é nessa reconexão que podemos sonhar juntas. Não se trata de transformar a comunidade em uma imagem idealizada, sem conflitos, mas sim em um espaço de pessoas que vivem com dignidade, inclusive com problemas. Tudo isso é esperança em movimento.
É preciso estar atenta e forte
Os próximos anos podem ser difíceis. Direitos que pareciam consolidados já começaram a ser questionados; alguns serviços públicos que já funcionam com dificuldade podem piorar. Discursos misóginos podem ganhar legitimidade e tornar a vida cotidiana mais hostil. Mulheres negras e periféricas, que já convivem com a ausência de proteção há tempos, podem sentir primeiro e com mais intensidade os efeitos de decisões que atingem a população inteira escalonadamente. Reconhecer isso faz parte de qualquer esperança que se pretenda séria.
Mas a história das cidades brasileiras, de São Paulo em particular, é também a história de mulheres que encontraram brechas onde muita gente não via saída. Assim como elas no passado, podemos transformar a rua onde moramos, a nossa vizinhança e, atualizando para os tempos de hoje, o celular, em instrumentos de sobrevivência e de invenção. Essas mulheres lembradas pela historiadora Maria Odila Leite da Silva Dias fabularam contra todas as evidências do momento, futuros que depois se tornaram o presente. E não fizeram isso porque eram fortes, mas sim porque precisavam agir em condições difíceis. Agora é hora de proteger a nossa capacidade de imaginar, mesmo quando tudo convida a desistir. E agir também. Coloque na lista: participar de audiências públicas, conhecer quem mora nas ruas ao redor da sua, descobrir quais são e apoiar os coletivos que atuam no bairro, acompanhar de perto o que a Câmara Municipal vota, ouvir com atenção quem está na linha de frente das periferias e seguir as lideranças que já estão lá. Está liberado descansar um pouco também, buscar acolhimento naquele grupo de amigas no celular (menos para trocar notícias ruins e mais para combinar o que fazer com elas).
Não sabemos que cidade teremos daqui a alguns anos. A esperança não é uma previsão e a imaginação não garante vitória. Mas o futuro continua em disputa e a vida coletiva pode ser reinventada quantas vezes forem necessárias. A cidade continua sendo nossa. Continua sendo o território onde a esperança das mulheres é fabulada, praticada e defendida, um quarteirão de cada vez. É reconhecer o medo sem deixá-lo decidir tudo. É imaginar outra cidade e começar, juntas, a construí-la.
Graziela Salomão e Larissa Saram são jornalistas no veículo Mulheres e a Cidade.
Referências
Byung-Chul Han, O espírito da esperança: contra a sociedade do medo (Vozes)
Paulo Freire, Pedagogia da esperança (Paz e Terra)
Maria Odila Leite da Silva Dias, Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX (Brasiliense)
bell hooks, Tudo sobre o amor: novas perspectivas (Elefante)
David Nemer, Tecnologia do oprimido: desigualdade e o mundano digital nas favelas do Brasil (Milfontes)
Jane Jacobs, Morte e vida de grandes cidades (WMF Martins Fontes)
Mark Fisher, Realismo capitalista (Autonomia Literária)
José Paulo Guedes Pinto; Fabio Luis Barbosa dos Santos e Thais Pavez (orgs.), Imaginações pós-capitalistas (Editora Hedra)

