COMO SE DESCREVE A PERDA DE UMA ÁRVORE QUE JÁ ESTAVA DE PÉ QUANDO OS AVÓS DOS NOSSOS AVÓS AINDA NÃO TINHAM NOME?

As 600 oliveiras de Nabatiyé e as eleições brasileiras

Como é possível um libanês bater no peito com orgulho de sua origem e apoiar no Brasil um governo que é conivente com a destruição dos seus patrícios? 

Seiscentas oliveiras chegaram à Justiça francesa na forma de queixa judicial. Árvores libanesas, plantadas ao norte do Litani. Segundo o proprietário, algumas tinham aproximadamente 500 anos, acompanhando gerações, mudanças de governo e sucessivas estações. A família as cultivava havia duzentos e cinquenta anos. Dois séculos e meio. De oito a dez gerações. Tataravós e seus antepassados colheram, podaram, acompanharam. Contudo, entre 29 de junho e 20 de julho, imagens de satélite denunciam que elas foram arrancadas dos seus berços seculares, inclusive com as raízes. Crime de guerra. Mais um. 

O PNAT, Ministério Público Nacional Antiterrorista francês, em Paris, recebeu a denúncia. A instituição, que começou a funcionar em 2019, tem competência também para crimes de guerra e crimes contra a humanidade. É um órgão da Justiça francesa, encarregado da investigação e da acusação perante os tribunais competentes. 

O denunciante, franco-libanês, pediu anonimato e atribuiu ao Exército israelense o arrancamento das oliveiras familiares no distrito de Nabatiyé. A AFP informa ter consultado a queixa. A suspeita de que as árvores tenham sido levadas para Israel ainda não está comprovada, mas as 600 árvores não estão em solo libanês. Onde estariam? 

Crédito: APLH, PROTECT LEBANESE HERITAGE/Wikimedia Commons

Como se descreve a perda de uma árvore que já estava de pé quando os avós dos nossos avós ainda não tinham nome? 

Uma contabilidade pode avaliar a produção, a madeira, o custo de reposição. A memória familiar precisa de outras medidas. Precisa contar quem plantou, quem podou, quem esperou a primeira colheita. Precisa reconhecer o trabalho que um homem deixou para outro continuar. Uma árvore antiga oferece à família algo que poucos bens conseguem oferecer: a presença material de quem já morreu. 

No Líbano, a oliveira participa da vida real. Dá azeitonas e azeite; seu óleo entra na fabricação tradicional de sabão. O aproveitamento alcança o que permanece depois da prensagem: o bagaço, chamado jift, pode ser seco e utilizado como combustível para o aquecimento doméstico. As famílias armazenam esse material para enfrentar o inverno, que é rigoroso. 

A mesma colheita pode, portanto, alimentar a casa e ajudar a aquecê-la. Quando o olival desaparece, essa cadeia cotidiana se rompe. O prejuízo entra pela cozinha, pelo trabalho, pela preparação do inverno. E permanece no lugar vazio onde a família reconhecia sua história. 

Além da Bíblia, o Talmud judaico e o Alcorão valorizam sobremaneira a oliveira. Portanto, a árvore extrapola o símbolo religioso, posto que pertence às três correntes mais significativas da região, constituindo um patrimônio civilizacional. 

Arrancadas. As 600. 

No Brasil, que abriga a maior diáspora libanesa do mundo, com ditos mais de oito milhões de libaneses e descendentes, essa situação merece profunda reflexão. Quem manifesta simpatia por práticas atribuídas às forças israelenses deveria examinar concretamente o que está disposto a defender. O apoio a um Estado exige discernimento diante dos atos de seus governantes e de seus militares. 

A quem invoca a Bíblia como fundamento de suas escolhas públicas, cabe ler também suas advertências sobre as árvores. Cabe lembrar o estrangeiro, o órfão e a viúva, a quem Deuteronômio 24:20 deixa os frutos restantes da oliveira. Cabe reconhecer que o sofrimento de uma família libanesa tem valor próprio, independentemente da bandeira que o eleitor brasileiro prefira. 

Menciono as árvores para não falar das gentes, das mulheres e jovens, dos sonhos, todos oriundos da mesma raiz de que provenho. 

Como posso olhar com simpatia um grupo político que acena para a bandeira de um inimigo meu? Que enaltece as práticas genocidas condenadas pelo mundo inteiro? Como é possível um libanês bater no peito com orgulho de sua origem e apoiar no Brasil um governo que é conivente com a destruição dos seus patrícios? 

Agora, mais do que nunca, compreendo Gibran Khalil Gibran quando sentenciou: “Vós tendes o vosso Líbano, e eu tenho o meu”. 

Mas, voltando às árvores, se a investigação confirmar o arrancamento denunciado, terá de identificar seus autores e examinar sua responsabilidade. A família, porém, já colocou diante de nós uma questão que ultrapassa o processo: como reparar o tempo? 

Uma muda pode ser plantada. Cinco séculos não podem ser replantados. 

Ao mencionar as seiscentas oliveiras, que o artigo, o tribunal e o eleitor brasileiro consigam enxergar também as mãos que as cuidaram. A justiça começa pela disposição de olhar, em qualquer lugar do mundo. 

  

Renata Abalém é filha de libaneses maronitas de Zgharta/Ehden. Advogada e Diretora da Câmara de Comércio Brasil-Líbano.

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