A absurda corrida de Trump pelo Nobel da Paz
Considerando a paz sob uma perspectiva multidimensional, como justificar – sem resvalar no delírio ou na alucinação – a pretensão de uma pessoa como Donald Trump ao Prêmio Nobel da Paz?
Para além do seu óbvio delírio narcisístico, reforçado pela corte de bajuladores nacionais e internacionais em busca de favores, que razões teriam levado Donald Trump a acreditar na viabilidade de sua corrida pelo Nobel da Paz de 2025? Certamente não terá sido por serviços prestados em seu primeiro mandato, cujo maior legado foram o descaso na gestão da pandemia da Covid-19 e as mentiras sobre os resultados da eleição de 2020, que dificultaram a transição pacífica de poder nos EUA e funcionaram como um rastilho de pólvora para a explosão de violência conduzida por seus apoiadores na invasão ao Capitólio em 06 de janeiro de 2021.
Se o primeiro mandato não fornece qualquer substrato para a pretensão de Trump ao Nobel da Paz, resta a possibilidade, que as linhas restantes deste texto mostrarão ser infundada, de encontrar motivações para tal pleito em seu segundo mandato. O próprio Trump dá as pistas no discurso pronunciado em 23 de setembro na Assembleia-Geral da ONU: seu merecimento ao Nobel da Paz seria uma decorrência natural de sua atuação, em apenas “sete meses”, na resolução de “sete guerras intermináveis”. Um feito como esse, vangloria-se Trump, jamais foi realizado por nenhum chefe de Estado, país ou pela própria ONU, a quem acusa de produzir muitos relatórios, mas poucas ações.
Que “sete guerras intermináveis” seriam essas?
Em seu autodeclarado papel de peacemaker, Trump se atribui sete glórias no campo da resolução de conflitos por ter encerrado rapidamente as seguintes guerras: Israel e Irã; Paquistão e Índia; Armênia e Azerbaijão; Camboja e Tailândia; Kosovo e Sérvia; República Democrática do Congo (RDC) e Ruanda; e Egito e Etiópia. Sobre os louros reivindicados por Trump, cabem as seguintes observações:
- No caso de Israel e Irã, que durante doze dias no mês de junho de 2025 se atacaram mutuamente até que aeronaves americanas bombardearam as instalações de enriquecimento nuclear iranianas, o cessar-fogo ocorreu mais por um ato unilateral de guerra dos EUA em apoio a Israel e a ameaça de novos bombardeamentos sobre o Irã, do que por uma ação diplomática consistente para um acordo de paz formal e sustentável entre os dois países.
- No caso de Índia e Paquistão, no contexto das tensões provocadas por um ataque terrorista na região da Caxemira em abril de 2025, embora Trump tenha se apresentado como mediador, os dois Estados, na verdade, negociaram a cessação da violência diretamente entre seus militares. A Índia sequer reconhece alguma atuação de Trump nas conversações pelo cessar-fogo.
- No que se refere à Armênia e Azerbaijão, embora Trump tenha reunido os líderes dos dois países em Washington no mês de agosto de 2025 para uma declaração de compromisso com a resolução das disputas territoriais entre os dois Estados, nada indica, por enquanto, que ações efetivas nesse sentido tenham sido encaminhadas.
- Sobre as escaramuças na fronteira entre Camboja e Tailândia em maio e julho de 2025, reflexo de uma disputa fronteiriça antiga, Trump ameaçou interromper negociações comerciais com ambos os países como forma de pressão para um cessar-fogo. Porém, nada indica, para além das ameaças comerciais, que as raízes da disputa territorial tenham sido tratadas.
- No caso da Sérvia e do Kosovo, existe um longo esforço da União Europeia e dos EUA no sentido de manter a independência do Kosovo, que não é reconhecida pela Sérvia. Apesar desses esforços, o fato é que a situação permanece tensa, sem que qualquer mudança e, muito menos, que qualquer atuação relevante de Trump nessa questão tenha sido observada.
- No que se refere ao conflito entre RDC e Ruanda, embora os EUA e o Catar tenham mediado um acordo de paz entre esses países em junho de 2025, na prática os efeitos não saíram do papel e nada se alterou no leste da RDC, onde o movimento insurgente M-23, apoiado por Ruanda, continua a conduzir suas ações violentas e os combates continuam a ocorrer.
- Quanto à disputa de interesses entre Egito e Etiópia em torno da construção de uma barragem no Rio Nilo no lado etíope, o caso não vai além de uma antiga tensão latente resultante da gestão transnacional das águas do Nilo. Sobre esse caso, sequer se pode dizer que uma guerra estivesse ali em curso e que alguma disputa militar tenha sido solucionada pela suposta mediação de Trump.
Perante esse quadro, só mesmo uma pessoa autocentrada, na correria contra o tempo para conquistar um Nobel da Paz como um troféu para acariciar o seu próprio ego, seria capaz de reivindicar para si o mérito de ter resolvido, da noite para o dia, conflitos armados persistentes, enraizados em contradições profundas e complexas entre as partes ou, em grau de delírio ainda mais elevado, reclamar, como fez em alguns casos, os louros pelo término de guerras que nem sequer eram guerras e o reconhecimento por um papel mediador que é negado por uma das partes em conflito. Mesmo nos casos em que se verifica alguma atuação de Trump, os acordos alcançados são frágeis e os resultados por ele anunciados são inflados e exagerados.
A mais recente cartada de Trump como peacemaker
Entre o autodeclarado mérito de ter encerrado “sete guerras” em “sete meses” e a data prevista para anúncio do vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Trump deu seu último passo na corrida pelo Nobel: o plano de “20 pontos” para a paz entre Israel e o Hamas. Deve-se comemorar muito o cessar-fogo decorrente desse plano, que era urgente e necessário para interromper o genocídio da população de Gaza promovido pelo governo de Netanyahu desde outubro de 2023, abrir espaço para a troca de reféns e prisioneiros entre os terroristas do Hamas e Israel, e possibilitar a entrada de ajuda humanitária em Gaza. É problemático, porém, que o destino traçado para Gaza nesse plano seja o de um protetorado internacional governado por uma “Junta da Paz” presidida por Trump, sem qualquer menção à participação da ONU na Junta e na chamada “Força Internacional de Estabilização”. Igualmente problemático é o delineamento de um projeto neoliberal de reconstrução de Gaza, ancorado em interesses imobiliários internacionais, cuja feição já é amplamente conhecida pelas inúmeras postagens de Trump nas redes sociais desde início de seu atual mandato. Preocupante ainda é o papel secundário e subordinado previsto para a Autoridade Palestina e a exclusão da população local de Gaza dessa “Junta da Paz” e da definição do seu próprio futuro, bem como a ausência de qualquer sinalização consistente para a autodeterminação da Palestina – que fica apenas indicada para um momento incerto e indefinido no futuro, obviamente sujeito à avaliação externa da “Junta da Paz” de acordo com seus próprios critérios.
Assim, a julgar pelo conjunto do documento e pelo momento em que foi publicado, o que parece ser o seu objetivo imediato é funcionar como um plano de rendição do Hamas, de libertação de reféns e prisioneiros pelas partes, de contenção do ímpeto agressivo de Netanyahu – que passou a afetar os interesses norte-americanos no Oriente Médio, principalmente depois do ataque israelense a lideranças do Hamas na cidade de Doha, capital de um dos grandes aliados dos EUA na região – e, obviamente, de sustentação da candidatura de Trump ao Nobel da Paz. No mais, o plano prevê como objetivos de longo prazo um projeto externamente controlado de engenharia social neoliberal, controlado e conduzido sob tutela externa e liderança de Trump, a ser garantido por uma força internacional de estabilização – possivelmente com mandato de uso robusto da força militar para reprimir qualquer forma de resistência, como tem sido a tônica das diversas forças de estabilização implementados desde meados dos anos 1990 em zonas de conflitos. Com essas características e com as lacunas existentes no documento em relação ao processo de desarmamento, desmobilização e reintegração das forças do Hamas, ao papel político destinado ao Hamas e ao processo de autodeterminação da Palestina, penso que, para além dos resultados imediatos na mitigação da violência direta, há muitas lacunas a preencher para que esse plano possa ser considerado um acordo de paz abrangente e sustentável, que dê centralidade às demandas e à voz dos palestinos e transforme de forma duradoura as raízes mais profundas do conflito.
Trump não é um artífice da paz
Definir a paz, sem cair em abstrações e idealismos utópicos, é uma tarefa complexa. Mas podemos dizer, seguindo Johan Galtung, que a paz pode ser pragmaticamente pensada a partir de duas perspectivas gerais que se complementam. O primeiro caminho, mais estreito e convencional, é definir a paz negativamente a partir daquilo que ela se opõe: a violência direta e a guerra como sua forma de expressão mais extrema. O segundo caminho, mais abrangente e multidimensional, é definir a paz positivamente a partir daquilo que ela pode afirmar. Desse ângulo, a paz não se define pela mera oposição à violência direta e à guerra ─ ainda que esta continue a ser uma das suas dimensões necessárias ─, mas se expande para além desse horizonte, a fim de abranger iniciativas afirmativas que promovam a justiça social, a emancipação e as formas não violentas de organização das relações sociais, políticas e econômicas. Desse ângulo, a paz define-se pela redução de todas as formas de violência estrutural (que estão embutidas nas estruturas sociais injustas, resultantes das desigualdades na distribuição de recursos e de poder entre pessoas, classes sociais e nações) e de todas as formas de violência cultural (que se expressam na esfera simbólica da existência humana e cujo efeito é legitimar e normalizar as demais formas diretas e estruturais de violência por meio, por exemplo, de preconceitos, discursos de ódio, ideologias, fundamentalismos religiosos, etc.).
Assim, para além das ferramentas de paz negativa necessárias para cessar as manifestações mais visíveis e diretas da violência e da guerra – como negociação, mediação, produção de um cessar fogo ou de um acordo de paz, deslocamento de uma força de paz ou de estabilização, desarmamento, desmobilização e reintegração das forças beligerantes, etc. –, a expansão das medidas de paz em um sentido positivo requer um olhar igualmente importante para as raízes estruturais e culturais mais profundas que alimentam as divisões e as contradições que estão nos alicerces da violência direta e da guerra. Nesse sentido ampliado e aprofundado, mais do que um efeito contingente alcançado por um cessar fogo, a paz passa a ser vista como uma política em seus próprios méritos, definida por ações afirmativas voltadas para a transformação social e a produção de relações sociais menos desiguais, injustas e opressoras entre pessoas, grupos e classes sociais e nações. Isto envolve ações em áreas como direitos humanos; questões de gênero; desenvolvimento, redução da pobreza e combate à fome; bem-estar social; participação política; justiça social; educação para a paz; reconstrução pós-conflito, reconciliação e justiça de transição; questões ambientais; pluralismo e diversidade cultural; diálogo e compreensão em todos os níveis, do interpessoal, ao intersocial, ao internacional.

Considerando a paz dessa perspectiva multidimensional, como justificar, sem descambar para o delírio e a alucinação, a pretensão ao Nobel da Paz por uma pessoa como Donald Trump? Trump não é um artífice da paz, em qualquer sentido rigoroso desse termo. Seu compromisso é com a coerção, a ameaça e o uso efetivo da violência militar. Há várias indicações que nos autorizam a argumentar nesse sentido. A Secretaria de Defesa dos EUA foi renomeada como Secretaria de Guerra, sinalizando a reorientação ofensiva do seu aparato militar; o seu “plano de 20 pontos”, lançado como sua mais ambiciosa cartada pelo Nobel da Paz, tem a pretensão de interromper uma guerra e um genocídio que ele próprio, por ação ou indiferença, contribuiu para agravar. Suas ambições de expansão territorial, com ameaças de incorporação da Groelândia, do Canal do Panamá ou do Canadá, por exemplo, não se esgotam no campo das bravatas discursivas, mas cria novos focos de tensão ao colocar no ar a possibilidade de que a força militar possa ser usada para atingir esse fim. A “declaração de guerra às drogas” contra a Venezuela, artifício usado para realizar ações militares nas águas próximas ao território venezuelano e dar uma roupagem de legitimidade ao assassinato extrajudicial de pessoas em alto mar provenientes da Venezuela, agravam as tensões e militariza as águas da região, impondo um risco adicional que prejudica o trabalho de pescadores venezuelanos que dependem do mar para a sua subsistência. Mesmo quando Trump assume o “benevolente” papel de peacemaker, como ilustram algumas de suas supostas mediações nas “sete guerras”, a ameaça, a coerção e o uso de bombas não deixam de estar no rol de medidas por ele vistas como ferramentas legítimas de pacificação.
Quando se olha para a paz de uma perspectiva positiva, como justificar a pretensão ao Nobel da Paz por uma pessoa que em nada contribui para a redução das formas estruturais e culturais de violência, mas ao contrário, age para agravá-las? Suas práticas autoritárias e sua postura corrosiva em relação ao debate e às relações democráticas imprimem um clima de guerra civil dentro dos EUA. Suas políticas migratórias militarizadas, justificadas por uma retórica que dissemina a ideia de que os EUA estão sofrendo uma “invasão estrangeira”, submete a um regime de exceção uma parcela da população mais pobre de imigrantes. Sob o argumento fabricado de que várias cidades experimentam “crises de insegurança” e assemelham-se a “zonas de guerra”, é incutida na população a ideia da necessidade de uma “guerra contra o inimigo interno” – essa designação é do próprio Trump e tem sido usada seletivamente contra seus opositores políticos –, intensificando, assim, um processo de militarização e repressão em cidades norte-americanas. Como resultado, o espaço público tem sido submetido a medidas de vigilância e repressão conduzidas por soldados da Guarda Nacional ou das Forças Armadas que violam os direitos individuais das pessoas, principalmente daquelas que, sob os critérios discricionários dessas forças, são consideradas “desviantes”. As políticas de combate e reversão das medidas de promoção da diversidade, equidade e inclusão revelam-se especialmente nocivas às conquistas sociais históricas de parte da população, contribuindo para a naturalização de linguagens, narrativas e culturas violentas que perpetuam estruturas sociais injustas, discriminatórias e hierarquizantes. O esfacelamento de uma das maiores agências de ajuda humanitária do mundo – a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) – resultaram na redução drástica de recursos para programas de assistência humanitária, combate a epidemias e doenças como AIDS e malária e programas de combate à fome, com reflexos globais, principalmente nos países mais pobres. Todas essas ações de Trump, com seus impactos domésticos ou internacionais, agravam as desigualdades na distribuição de riqueza e de poder e naturalizam uma linguagem agressiva e discriminatória que produz e reproduz formas estruturais e simbólicas de violência.
Enfim, longe de ser um feitor da paz, Trump age como um catalisador de diversas formas de violência. Sob a máscara do patriotismo, Trump corrói o debate e as relações democráticas; reverte as políticas de promoção da diversidade, equidade e inclusão; reforça interesses econômicos dominantes e hegemônicos; distorce a paz e a diplomacia, instrumentalizando-as para fins de autopromoção; despreza o multilateralismo e suas instituições internacionais, com impactos desastrosos para o papel da ONU e de outras instituições internacionais; e, mesmo quando tenta assumir o papel de peacemaker, produz resultados que prometem mais do que podem cumprir. Assim, mais do que uma grande anedota política, sua pretensão ao Prêmio Nobel da Paz – sensatamente desconsiderada pelo Comitê Norueguês do Nobel – soa como um alerta sobre a banalização do mérito em tempos de desinformação, populismo e política como show.
Gilberto Carvalho de Oliveira é doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Coimbra, Portugal. Professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ.

