A alta sociedade e o baixo-império - Le Monde Diplomatique

Escândalos na frança

A alta sociedade e o baixo-império

por Serge Halimi
1 de agosto de 2010
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Serge Halimi

Uma avalanche de revelações vem causando estupefação na França… Dirigentes políticos cultivariam amizade com homens e mulheres de negócios. Os segundos estariam financiando os partidos dos primeiros e suas respectivas campanhas. Em troca, eles obteriam uma redução substancial de impostos. Mais estupendo ainda: a diminuição dos encargos fiscais sobre as rendas elevadas (cerca de 100 bilhões de euros em dez anos) teria beneficiado, sobretudo… as rendas elevadas, protegidas desde 2006 por um “escudo” criado com essa finalidade. Por fim, estaria crescendo o número de governantes interessados em comprovar por conta própria os rigores da nova lei comum: ao trocar de carreira, eles optam pelo mundo dos negócios, em detrimento do sindicalismo.

Com isso, o “caso Bettencourt” tornou visível algo que já era evidente. Em abril passado, quando os repórteres investigativos estavam distraídos, e com eles os professores de virtude, Bernadette Chirac1 ingressou no conselho de administração do LVMH, o grupo do setor do luxo de propriedade de Bernard Arnault, a principal fortuna da França. Exatamente no mesmo momento, Florence Woerth2 descolava um cargo de administradora na Hermès, ela que já se vinha dedicando – sem que isso provocasse qualquer alvoroço – a gerenciar as finanças de Liliane Bettencourt, a segunda maior fortuna da França. Eric Woerth reagiu, afirmando: “Eu sou ministro da igualdade entre homens e mulheres; portanto, seria um equívoco querer frear a carreira da minha mulher […] paralelamente à minha3.” Ninguém o condenaria por prezar pelo desenvolvimento profissional da sua mulher, mas tampouco houve alarme com o “paralelismo” assim traçado entre o percurso de uma gestora de grande fortuna interessada em obter uma “otimização fiscal” nas ilhas Seychelles e o de um ministro dos assuntos sociais que se prepara para amputar a aposentadoria dos pobres. Tudo isso ocorreu antes do “caso Bettencourt”. As relações entre o dinheiro e o poder eram exatamente o que elas são hoje. Mas, na época, tudo ia bem.

Portanto, vale não menosprezar as virtudes pedagógicas do “escândalo” atual: um jovem e ambicioso secretário de Estado para o emprego que tira proveito de uma viagem oficial a Londres para implorar a gestores de fundos especulativos que financiem seu grupelho pessoal chamado “Novo Oxigênio”; uma taxa de impostos sobre a renda situando-se entre 1% e 6% por ano no caso da Sra. Bettencourt4 (o escudo funciona…); uma jornalista estrela que descola uma entrevista no canal de TV aberto TF1 com a proprietária da L’Oréal, e que explica: “Eu a conhecia por ter jantado com ela e seu marido na casa de amigos comuns. Também chegamos a nos encontrar por ocasião de exposições”.

Para que este caso tentacular se torne o Colar da Rainha5 da nova oligarquia francesa, será necessário, entretanto, que ele desemboque no fim das promiscuidades entre o público e o privado, sem esquecer os “bons entendimentos” dos jornalistas que, com isso, formalizaram em contrato sua conivência com o dinheiro. Em contrapartida, o tumulto do último mês de nada terá servido se a esperança de purificar um ambiente de baixo-império levar a eleger como presidente um irmão siamês de Nicolas Sarkozy. Por exemplo, o diretor-geral do Fundo Monetário Internacional6. As grandes fortunas celebrariam a vitória de um socialista de negócios num outro Fouquet’s7. E tudo recomeçaria.

Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).



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