A América em primeiro lugar: o discurso de Donald Trump

POPULISMO E CRISE

A América em primeiro lugar: o discurso de Donald Trump

por Grupo de Pesquisa Discurso
11 de janeiro de 2021
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O presente texto faz parte da segunda fase da série de artigos do Grupo de Pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)” na qual realiza-se a análise dos porta-vozes dos discursos científico e negacionista ao lidar com a pandemia da Covid-19 a partir da análise de discursos desenvolvida por Laclau e Mouffe. Dessa forma, neste artigo será analisado um dos principais porta-vozes internacionais do discurso negacionista sobre a pandemia: Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América até finais de 2020.

O acontecimento pandemia teria a potencialidade de alterar a normalidade estabelecida pelas relações de poder dominantes, uma vez que coloca em suspense a formação hegemônica vigente, dando margem à disputa política de discursos – com suas narrativas nas dimensões nacional e internacional.

Na pesquisa maior procuramos reconstruir o campo discursivo sobre a pandemia com os principais discursos em disputa – o “negacionista” e o “científico”, que articulam com ênfases diferentes dois pólos temáticos: a sustentabilidade da economia e a sustentabilidade da vida. Este artigo, por sua vez, tem o enfoque particular de caracterizar um dos principais porta-vozes internacionais do discurso negacionista: Donald Trump.

O ator

Donald John Trump, homem, branco, 74 anos, nascido em Nova Iorque. Cursou Economia pela Wharton Business School, da Universidade de Pennsylvania, o que o levou a assumir a empresa de sua família em 1971 e tornar-se um grande empresário reconhecido nacionalmente pelo rendimento da Trump Organization. Em 2016, em meio a uma acirrada e polarizada corrida presidencial com Hillary Clinton, e contrariando as previsões da maioria dos analistas, Donald Trump foi eleito o 45º presidente dos Estados Unidos da América pelo Partido Republicano com 290 votos do total de 538 de eleitores no Colégio Eleitoral – apesar de sua opositora ter tido 300.000 votos a mais que ele.

Presidente Donald Trump durante a cerimônia de envio do navio-hospital USNS Comfort para Nova Iorque em março de 2020. (Crédito: divulgação Casa Branca)

Primeiramente, para a análise do discurso desse ator, deve-se atentar ao momento precedente à emergência do novo coronavírus e a postura estabelecida por Trump almejando a reeleição em 2020. Dessa forma, nota-se que ele procura enaltecer bons resultados alcançados durante seu mandato com finalidade de dar continuidade ao seu projeto pessoal e político de governo. Seguindo esse raciocínio, a adoção do discurso negacionista por Donald Trump cumpre o papel de minimizar os reflexos das crises provocadas pela pandemia de Covid-19 diante do poder inerente da maior economia do mundo[i].

A narrativa de identidade de Trump reforça seu perfil anti-establishment nacionalista construído no ideário de seus apoiadores desde 2016. Ao defender posturas mais protecionistas, é contrário ao envolvimento dos Estados Unidos em acordos internacionais desvantajosos, sendo crítico a globalização e buscando mecanismos que beneficiem a manutenção e criação de empregos para os estadunidenses. Nessa construção, seus apoiadores acreditam que por conta de seu sucesso empresarial, o magnata seria a liderança capaz de enfrentar a pressão da comunidade internacional com pulso firme – mesmo que suas medidas atacassem os direitos humanos – para promover prosperidade econômica e garantir os interesses e princípios morais da América em primeiro lugar.

Sua identificação como celebridade é valorada no imaginário de seus apoiadores mais fiéis, tendo em vista sua vida pública movimentada com participações em programas televisivos, filmes e a repercussão de seus acordos de divórcios milionários pela imprensa. Com essa última, mantém uma relação conturbada remontando aos seus tempos de figura pública cercada de paparazzis e presente em matérias sensacionalistas, levando-o a deslegitimar o papel da mídia. Consequentemente, ele usa suas redes sociais como principal via de comunicação, onde pode ser o protagonista. Nesse sentido, seus discursos o aproximam mais de um astro e o afastam da figura de político, sendo mais tolerável alguns deslizes por isso, já que usar piadas e sarcasmo ao tratar de temas sérios seria a maneira de Trump.

Ademais, suas falas e atitudes que atacam minorias étnicas e não valorizam pautas sociais, raciais e de gênero também encontram aderentes na porção mais conservadora da população. Essa parcela populacional é inflamada pela aversão ao multiculturalismo defendido pela globalização e pela conquista de direitos àqueles que ferem a moralidade da família tradicional como os radicais de extrema esquerda que estão cada vez mais desesperados e perigosos em sua busca para transformar a América em um país que você não reconheceria, um país no qual controlam todos os aspectos da vida americana. Reforçando a repulsa aos ideários socialistas e comunistas que têm reprimido todas as dissidências e exigido conformidade absoluta … Eles querem tirar seu dinheiro, tirar sua escolha, tirar seu discurso, tirar suas armas, tirar sua religião, tirar sua história, tirar seu futuro, e tirar, por último, a sua liberdade[ii]. Com essa recorrente retórica, a sua ala conservadora compartilha a inimizade com países autoritários e sem transparência como a China e a Rússia. Cabe mencionar também, escolha simbólica da figura de Trump enquanto homem, rico, branco em contraste com a figura mais progressista de Barack Obama.

Por outro lado, a construção desta identidade por Trump poderia ser caracterizada, no mínimo, como controversa pelos opositores. Envolto em episódios polêmicos como acusações de assédio sexual, falas racistas, xenofobia, ataques à imprensa e endosso às fakes newso presidente é muito questionado pela ala progressista desde sua candidatura por apropriar-se da sintomática sublevação do discurso de ódio.

Em suma, perante a ocorrência do novo coronavírus, o imaginário social retrata um líder ímpar, poderoso e de pulso firme que fará o que for preciso para manter o prestígio dos Estados Unidos para seus apoiadores, enquanto reflete a figura de um extremista inexperiente, que ataca os ideais representativos de cooperação e tolerância, para  seus críticos.

Davos 2020: Tudo sob controle na maior economia do mundo

O Fórum Mundial Econômico de Davos ocorreu em janeiro de 2020 e a ameaça do novo coronavírus não era alarmante entre a maioria das lideranças presentes. Embora o evento tenha ocorrido em um contexto anterior ao estabelecimento do status de pandemia, ele é elementar, tanto por ocorrer enquanto os Estados Unidos registravam o primeiro caso em solo nacional[iii] quanto por ser representativo diante das tensões precedentes a Covid-19. Isso porque, Donald Trump aspirando a sua reeleição, adotou uma postura otimista com relação aos resultados norte-americanos durante sua administração, demarcando assim, sua primeira performance.

Donald Trump no Fórum Econômico de Davos de 2020. Crédito: Divulgação Casa Branca)

Dessa forma, à luz dos resultados econômicos favoráveis e desemprego em queda histórica[iv], nada poderia deter a América e o vírus não seria preocupação, já que os Estados Unidos é o maior e mais poderoso país do mundo e conta com ótima qualidade de vida e melhores médicos. Assim, quando entrevistado pela CNBC, Trump fala sobre o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) que teria a competência necessária para manter a questão totalmente sob controle[v].

No âmbito da política externa houve uma breve flexibilização da tensão comercial entre Estados Unidos e China, com a assinatura da primeira fase de um acordo para suspender algumas taxas cambiais determinadas durante o período da Guerra Comercial[vi]. Tal fato justifica não só os incomuns elogios direcionados ao governo chinês em Davos[vii], como também demonstra uma estratégia de transparecer esse otimismo ao mercado mundial dada essa aproximação – na qual contava com vantagens para os americanos – entre superpotências econômicas. Assim, Donald Trump sai do Fórum Econômico Mundial confiante depois de apresentar as capacidades econômicas e qualitativas dos Estados Unidos da América e sua intenção é que não só o mundo, mas sobretudo, seus eleitores tenham essa percepção.

Portanto, essa visão otimista centrada na importância do crescimento e sustentabilidade econômica será um componente central do seu futuro discurso negacionista referente a pandemia que estava se construindo: América seria grandiosa demais para deixar-se afetar por apenas uma gripe. Todavia, o coronavírus seria o inimigo invisível – em grande medida, o algoz – de Donald Trump em 2020 e do seu projeto de reeleição

Politização do vírus e o poder da potência estadunidense

De volta ao solo nacional, Trump ainda não dá atenção aos primeiros casos da Covid-19 ignorando as medidas sanitaristas já recomendadas pelos principais profissionais de saúde, ao invés disso, ele segue sua agenda visando as primárias. Mesmo em meio ao avanço do vírus, ele não só reforça seu discurso negacionista, como também acusa os democratas de estarem politizando a pandemia e diz que: Essa é a nova farsa[viii] para uma multidão de apoiadores republicanos durante um comício na Carolina do Sul. Sendo essa, a segunda performance desse ator político, um dia antes da confirmação da primeira morte nos Estados Unidos[ix].

Anthony Fauci e Donald Trump durante coletiva da Força-Tarefa em março.(Crédito: Divulgação Casa Branca)

 

Com efeito, criado o antagonismo e a inerente oposição política para pressionar o chefe de Estado, viu-se a urgência de adotar ações para a desaceleração do contágio, uma vez que a falta de medidas de mitigação da pandemia poderia abalar sua popularidade. Em resposta a isso, o discurso negacionista é flexibilizado e ele decreta emergência nacional com o auxílio da recém-criada Força Tarefa de Coronavírus da Casa Branca, sob liderança do vice presidente Mike Pence e com a presença de renomados sanitaristas como o infectologista Anthony Fauci e a Dra Deborah Birx.

Conquanto, Donald Trump tranquiliza a população predominantemente por meio da valorização de elementos nacionais, sobretudo por seu povo forte e resiliente, e que por conta do poderio e aptidão norte americana, sua administração fará o necessário para enfrentar essa adversidade sem grandes dificuldades. Exemplifica-se assim, o pronunciamento nacional na Casa Branca do dia 11 de março, logo após a Organização Mundial da Saúde declarar o status de pandemia oficialmente[x].

Nessa fala pública, o presidente não só evoca ideais patrióticos, como também ressignifica seu slogan eleitoral de 2016 na passagem: Nunca hesitarei em tomar as medidas necessárias para proteger a vida, a saúde e a segurança do povo americano. Sempre colocarei o bem-estar da América em primeiro lugar. Essa prática discursiva, portanto, reforça a associação entre a adoção de uma postura relativista sobre a pandemia para atender os interesses políticos do inquilino da Casa Branca dos últimos anos, pois ele utiliza frases que o fizeram conhecido nacionalmente nesse novo e adverso contexto. Assim, há a manutenção de suas falas eleitorais e uso de um tom, que à primeira vista aparenta ser incisivo, com o intuito de transparecer inalterabilidade política e controle. Mas quando analisado à luz das contribuições de Chantal Mouffe (2020), denota um tom emocional, mais próximo dos axiomas etnonacionalistas característicos do populismo de direita[xi], igualmente presente em suas redes sociais[xii].

Dessa forma, é bastante frequente, tanto em falas públicas quanto nas redes sociais a supervalorização do poderio norte-americano enquanto grande potência econômico-militar ocidental. Nessa dimensão, o presidente utiliza da narrativa patriótica como aporte para adotar mecanismos necessários para que a América fique em primeiro lugar. O exemplo disso foi a aplicação do “The Defense Production Act (DPA)”[xiii], com o intuito de alocar equipamentos de proteção individual para uso doméstico em prol da defesa nacional e, consequentemente, em detrimento de compradores externos[xiv]. Tal medida gerou duras críticas internacionalmente.[xv]

Nessa perspectiva, no que tange a política externa, apesar da recente atenuação da Guerra Comercial com a China, Donald Trump reforça um antagonismo ao responsabilizar o país asiático pelo que seria o vírus chinês intencionalmente criado[xvi]. Seguindo essa vertente, Trump começa também a questionar a atuação da Organização Mundial da Saúde frente à pandemia. Dentre várias queixas, ele alega demora na identificação do surto, falta de informação sobre a origem, assim como, lentidão ao notificar a potencialidade pandêmica à comunidade internacional.

Nesse sentido, ele acusou a OMS de omitir informações em condescendência com a falta de transparência chinesa e, até mesmo, de ser pro-China o que infringiria o caráter multilateral esperado de uma organização supranacional. Com efeito, ele ameaçou cortar o financiamento destinado a essa agência, pois estaria em desacordo com os interesses estadunidenses, tais quais a soberania e autonomia nacionais na resposta à Covid-19.

As demandas antagônicas ocupam as ruas

A primeira vista, o presidente norte americano faz pronunciamentos oficiais que ora tratam com seriedade ora minimizam a gravidade da pandemia quando analisados em conjunto com as demais articulações discursivas. Essa aparente contradição pode ser observada quando ele ressalta a referência do país por ter profissionais capacitados[xvii] e ao frisar o seguimento das medidas recomendadas pela Força Tarefa em coletivas de imprensa regulares. Desse modo, Trump segue uma estratégia de delegar a esses agentes a responsabilidade de lidar com a seriedade e, em certa medida, pessimismo no enfrentamento à pandemia. Enquanto isso, ele tenta transparecer otimismo perante a questão, devido ao preparo inerente do país mais poderoso do mundo[xviii] sob sua administração.

Nessa perspectiva, ele adota uma postura que pode, por vezes, parecer ambígua na tentativa de diminuir o impacto da pandemia em seu ano eleitoral. Até porque, Trump poderia perder apoiadores não só por conta das inúmeras mortes, mas sobretudo pela retração econômica – tão temida em virtude da sua retórica economicista America Great Again – que ele aponta ser culpa das medidas de isolamento adotadas pelos governadores[xix]. Mesmo depois de ter aprovado as recomendações do Guia 15 dias para diminuir a propagação[xx]que se estendeu para 30 dias[xxi]– cuja primeira diretriz era: Escutem e sigam as instruções das autoridades estaduais e locais.

Destarte, a terceira performance analisada neste artigo ocorre no lançamento do plano de reabertura econômica chamado Abrindo a América novamente[xxii] no dia 16 de abril, confrontando-se com as políticas de isolamento social estaduais[xxiii]. Seguindo essa lógica, Trump usou as mídias sociais para pressionar essa abertura pedindo a liberdade de alguns estados como Minnesota, Michigan e Virgínia (todos governados por democratas). Por conseguinte, grupos apoiadores tanto de eleitores republicanos quanto da extrema-direita protestaram pelo fim do isolamento mais restrito que, em tese, estaria negando-lhes liberdade individual[xxiv]. Assim, nessa performance, evidencia a tensão política pelo fato de o presidente ir contra a decisão dos governadores e inflamar manifestações, evocando um ideal tão prezado pelos estadunidenses como a liberdade, no momento em que os Estados Unidos tornava-se o epicentro mundial da pandemia com 675.648 casos e 36.506 mortes[xxv].

 

Presidente Donald J. Trump, vice presidente Mike Pence e membros da Força Tarefa durante coletiva de imprensa de atualização sobre a pandemia em abril. (Crédito: Divulgação Casa Branca)

 

Uma escalada de episódios retrataram essa dissonância também entre os membros da Força Tarefa e o presidente. O principal alvo das desavenças é o infectologista Anthony Fauci, o qual repetidas vezes corrigiu as colocações de Trump[xxvi], como no emblemático caso da recomendação de hidroxicloroquina como uma virada no jogo contra a Covid-19. Sobre o medicamento, Fauci disse que não foi feito um ensaio clínico controlado[xxvii] e, ainda comentou em uma entrevista, que ele não pode pular na frente do microfone e empurrá-lo para baixo nas coletivas, deixando para corrigir o presidente depois[xxviii].

Um exemplo de performance que evidencia essa desarmonia entre o presidente e as autoridades de saúde pública ocorreu no dia 23 de abril – mesma data que o país registrou 878.911 casos e 52.153 mortes[xxix]. Nessa ocasião, Trump sugeriu que injetar desinfetante e luz solar são medidas de combate ao coronavírus[xxx] e, logo depois, foi refutado com o discurso científico de Deborah Birx dizendo que tais sugestões não são efetivas como um tratamento. A médica fica visivelmente incomodada quando filmada por câmeras no local e o chefe de Estado retrata-se dias depois ao dizer que tinha se colocado de forma sarcástica[xxxi].

As divergências entre os especialistas que assessoram o governo e o presidente, são não só um exemplo da polarização que acontece na sociedade – entre aqueles que adotam o discurso científico e os que acreditam no negacionismo – mas também acabam por recrudescer esse antagonismo. Ou seja, entre aqueles que acreditam na sustentabilidade econômica e os que defendem a garantia da sustentabilidade da vida como forma também de conseguir a sustentabilidade econômica. No entanto, apesar dos traçados de fronteira ficarem mais evidentes, o contexto faz surgir nos dois pólos a urgência de tomar as ruas, o que à primeira vista pode ser entendido como uma demanda similar, mas um olhar mais atento expõe que são diametralmente opostas.

Por um lado, os manifestantes pró-reabertura econômica subjugavam o vírus e quebravam o isolamento social, em carreatas de SUVs com cartazes exaltando os Estados Unidos como Terra da Liberdade[xxxii], alguns inclusive empunhando armas. Por outro, manifestantes anti-Trump se viram obrigados a ir às ruas para protestar após o assassinato brutal de George Floyd pelo policial Derek Chauvin, apesar de cientes dos perigos da Covid-19, o que evidencia que a luta contra a violência policial transcende esse fato e é uma forma crucial de defesa da vida – ponto nodal articulado no discurso científico. Afinal, cabe considerar como sintomático da violência, em meio a pandemia de um vírus que compromete a respiração, que Floyd tenha morrido enquanto suplicava dizendo não consigo respirar.[xxxiii]

Manifestantes usando máscaras protestam contra o racismo e violência policial após o assassinato de George Floyd. Junho/Miami. (Crédito: Mike Shaheen / Wikimedia)

 

Tal caso ocorreu no dia 25 de maio e somou-se aos diversos registros de assassinatos de cidadãos negros pela polícia norte-americana, o que desencadeou protestos diários em consonância com movimento Black Lives Matter em vários estados. Nesse ponto, vale apontar a performance ocorrida em Washington no dia 31 de maio – seguindo pela madrugada -, quando manifestantes cercaram a área externa da Casa Branca levando o presidente, sob a orientação do serviço de inteligência, a se abrigar em um bunker no subsolo enquanto as luzes externas se apagavam[xxxiv].

Sobre o ocorrido, Donald Trump negou que teria se recolhido em um bunker, mas só teria passado rapidamente para averiguação[xxxv]. Segundo ele, os protestos antirracistas teriam sido tomados por anarquistas profissionais, multidões violentas, incendiários, saqueadores, criminosos, grevistas e antifascistas. Ademais, perante a continuidade dos protestos em diversos estados, ele ainda reforça o antagonismo aos governadores nas suas práticas discursivas. Por exemplo, ao ameaçar usar milhares e milhares de soldados fortemente armados, forças militares e policiais para resolver rapidamente a turbulência, por meio da aplicação da “Insurrection Act of 1807”[xxxvi] para fazer valer a lei e a ordem, se os governadores dos Estados falhassem em agir.  Assim, há indícios da formação de novos antagonismos a partir de um corte relacional antagônico, sendo pertinente identificar quem são os receptores favoráveis ao discurso negacionista de Donald Trump, ou melhor, para quem esse discurso é direcionado?

De uma forma geral, suas falas são endereçadas a seus compatriotas que compartilham a visão de grandeza dos Estados Unidos e do povo americano. Mas também, seus textos, tuítes, performances e ações executadas levam-no a ser compreendido por sua base eleitoral mais fiel e que conhece a maneira de Trump, menos como um político e mais como uma personalidade, acreditando em suas palavras dada sua postura antissistema consolidada ao longo dos anos.

Nesse aspecto, o paralelo com uma particularidade de sua base é inevitável, como o caso dos mais avessos às informações fornecidas pela mídia histérica que apenas quer atacar o presidente e não passa dados confiáveis sobre a epidemia. Além disso, seguindo o padrão de polarização e com as recentes insurreições populares, a delimitação do seu núcleo duro de apoiadores se concentra naqueles que têm inclinação republicana; classe média e baixa, sobretudo de estados interioranos do setor agrícola; brancos com postura mais conservadora, ou seja, não tão compromissados com pautas sociais como a discussão sobre combate ao racismo, direito ao aborto e universalização do serviço de saúde. Tendo em vista que, o foco principal seria a prosperidade econômica e não interferência do Estado nesses aspectos.

Mesmo com clara delimitação entre o nós e eles, os possíveis aderentes ao discurso de sustentabilidade da economia desse chefe de Estado podem ser àqueles beneficiados com a autorização da Lei CARES[xxxvii], um mega plano econômico de 2 trilhões de dólares com a finalidade de evitar recessão. Tendo em vista que seria destinado a diferentes setores da sociedade como famílias de baixa renda, pequenas e médias empresas, sua aprovação seria desfrutada tanto pelos produtores rurais de seu núcleo duro, quanto pelos defensores do isolamento social em situação de vulnerabilidade social. De acordo com Trump, a medida teria feito democratas e republicanos se unirem e colocarem os EUA em primeiro lugar[xxxviii].

A análise de discurso

Após essa contextualização inicial acerca das principais práticas discursivas e criação de antagonismos, nota-se uma riqueza de elementos suficientes para abordar a análise do discurso de Donald Trump, proposto por Laclau e Mouffe, por meio dos marcos interpretativos de Errejón Galván a seguir[xxxix].

 

O marco diagnóstico do discurso de Donald Trump aponta que o principal problema não é a gravidade do vírus propriamente dito, o qual não teria chance contra os americanos[xl], mas sim a possibilidade de estagnação econômica depois de anos de prosperidade no setor que conta com os índices de desemprego mais baixos da história[xli]. Desse modo, Trump constrói uma narrativa de que o poderio estadunidense como a maior economia em qualquer parte do mundo seria suficiente para combater a Covid-19. No entanto, a injustiça inevitável seria a perda de vidas estadunidenses, não só pela pandemia, mas caso houvesse um fechamento desnecessário da economia. Trump afirma, inclusive, que vamos perder algumas pessoas pela gripe, mas vamos perder mais ainda colocando o país em uma massiva recessão econômica ou depressão. Teremos suicídios aos milhares. Dizendo ainda que: Pessoas morrem – trinta e seis mil – de gripe, mas nunca fechamos o país por causa da gripe[xlii].

Em consonância, a falta de transparência da China sobre a origem do vírus e a ineficiência da OMS se tornam um entrave para a estabilidade americana. Assim, a emergência do vírus estaria acompanhada de oportunismo dos adversários internacionais e nacionais, os quais estariam usando de uma nova farsa[xliii] para desestabilizar a administração do presidente. Revelando a perversidade deles ao tentarem se beneficiar diante da possível crise sanitária, econômica e social.

No marco do prognóstico de Trump, destaca-se como dimensão vencedora a sua forma de administração da crise, no que ao seu ver estaria garantindo o legado de prosperidade econômica e dando continuidade ao projeto de fazer a América Grande de Novo. Um exemplo disso é quando declara que: Fechamos a fronteira, como vocês sabem, muito, muito cedo para as áreas problemáticas. No Twitter, ele ainda acrescenta que tal medida teria sido importante para salvar empregos[xliv]. No mais, em outra ocasião, ele diz ainda que nenhuma nação está mais preparada ou é mais resiliente do que os Estados Unidos;  temos a melhor economia, o sistema de saúde mais avançado e os médicos, cientistas e pesquisadores mais talentosos do que qualquer lugar do mundo[xlv]. Para ele, isso seria o suficiente para deter o avanço da pandemia sem afetar a liberdade do povo americano.

Em contrapartida, o traçado de fronteira estaria delimitado naqueles que impedem o sucesso de Trump como: o vírus chinês; a falta de transparência na China; postura internacional chinesa como propaganda; a interferência da OMS; o oportunismo democrata; mídia alarmista e tendenciosa; grupos extremistas anti-fascistas que só querem a desordem; espionagem internacional para obtenção de vantagens no desenvolvimento da vacina; adversários comerciais e políticos.

Seguindo essa lógica, Trump utiliza slogans para enaltecer o poder da hegemonia americana, assim como os resultados de sua administração antes da emergência do coronavírus. Os Estados Unidos como a maior economia do mundo que, além de um país poderoso, preza pela democracia e liberdade de seu povo. Vale mencionar que essas nominações já estavam presentes em seu discurso eleitoral desde o início do ano, como já explorado na performance de Davos, por conseguinte, a repetição dessas falas no contexto da pandemia cumpre o papel de minimizar a centralidade dessa pauta da saúde.  Exemplifica-se assim, a retomada recorrente dos lemas América em Primeiro Lugar (America First) e a ressignificação do América Grandiosa de Novo (America Great Again) para Manter a América Grandiosa (Keep America Great) – os quais tornam-se potenciais significantes vazios – ressaltando o compromisso de Trump com a imagem construída ao longo dos últimos anos e a qual seria digna da confiança dos estadunidenses novamente. Portanto, a proposta geral de solução da crise provocada pelo vírus perpassaria necessariamente pela continuidade do governo de Donald Trump.

Ademais, o marco de motivação é estabelecido a partir da distinção dos conteúdos morais com enfoque na manutenção do poder dessa potência, seja contrariando o isolamento social para evitar retração econômica, seja pela continuidade das operações militares pela zona de influência na América Latina – caso da Venezuela. Nesse aspecto, os interesses norte-americanos ainda obedecem à lógica de antes da pandemia, novamente evidenciando o negacionismo pela certa inalteridade da postura no setor de defesa e segurança internacional.

Em compensação, o conteúdo moral contrário, pró-cooperação internacional defendida pela OMS representa justamente um ideal da globalização, tão criticada pela identidade anti-establishment de Trump. Isso porque, em seu discurso há elementos que se assemelham aos ideais expressos no Destino Manifesto, sendo essa uma crença da qual os americanos estariam destinados a grandes feitos, assim como aqueles realizados pelo próprio Donald Trump. Afinal, ele seria o presidente do país que é de longe o número um do mundo e, para reconstruir essa grandiosidade histórica, ele utiliza lemas dos pais fundadores e constitucionais da América como uma forma de moralização que o diferencia dos presidentes antecessores mais recentes, principalmente Barack Obama.

Como já abordado anteriormente, Donald Trump possui articulações discursivas por vezes ambíguas quando o assunto é a sustentabilidade da vida. Evidenciadas pelo fato de que mesmo negando a seriedade da situação, ele decretou emergência nacional; concordou com a formação de uma Força-Tarefa com especialistas da saúde, deixando a cargo deles o anúncio de medidas mais impopulares. Além de promover a elaboração de um Guia de Contenção da Propagação da Covid-19, no qual havia flexibilidade para que os governadores decidissem quais medidas restritivas deviam ser adotadas com base na situação epidemiológica local. E ainda, aprovou o CARES Act destinando auxílio financeiro para trabalhadores, empresas e sistema de saúde.

Por outro lado, anunciou a suspensão do financiamento destinado a OMS e incentivou a procura por medicações, ainda que sem comprovação científica como a hidroxicloroquina e o remdesivir. Bem como, destinou recursos e fez uso da Lei de Produção de Defesa para garantir suprimentos básicos aos EUA, causando prejuízo no abastecimento internacional de equipamentos de proteção individual. Por último, na corrida para produção de uma vacina, ele segue o comportamento contrário à cooperação internacional, uma vez que não concorda que a vacina seja um bem universal, mas sim privado[xlvi]. A exemplo do subsídio e compra de lotes de vacinas, em fase de desenvolvimento, dos laboratórios Pfizer e BioNTech através da “Operation Warp Speed Vaccine”[xlvii]. Em suma, o presidente buscou saídas que colocassem os Estados Unidos da América em primeiro lugar.

 

Quem são eles e quem somos nós?

O discurso negacionista de Donald Trump levantou críticas tanto da comunidade internacional quanto nacionalmente[xlviii]. Resultando em antagonismos próprios da circunstância pandêmica nessas duas dimensões. Desse modo, a demarcação do eles e nós, após a apresentação dos marcos interpretativos, faz-se necessária para uma melhor compreensão. Sendo o eles a representação de tudo de negativo no discurso do ator, assim como o nós enquanto tudo de positivo. Como pode ser analisado nos quadros e diagramas abaixo:

 

O discurso negacionista de Donald Trump constrói o eles a partir do ponto nodal Vírus Chinês que reúne as articulações de diversas demandas de sujeitos, levando a composição de uma cadeia de equivalências contendo a ascensão da China no cenário internacional; ameaça à soberania; globalização e concorrentes comerciais; autoritarismo; livre trânsito de pessoas de qualquer índole, inclusive criminosos e terroristas; anti-Trump – ataque personalista a administração da pandemia; isolamento total; gastos sociais desnecessários; desemprego; grupos violentos; mídias tradicionais da fake news; políticos tradicionais e democratas.

Logo, a partir das falas de Donald Trump, é inevitável perceber que ele faz uma analogia do vírus enquanto representação do seu principal concorrente geopolítico, sobretudo devido à postura multilateral oportunista da China. Mas também, toda cadeia de equivalência retrata as características avessas a Trump, simbolizando tudo aquilo que estaria impedindo o sucesso do país pautado em uma perseguição por quem não acredita, em última instância, na figura e capacidade dele.

Em contraposição, a construção do nós parte do ponto nodal América em primeiro lugar que também reúne as articulações de diversas demandas de sujeitos, resultando na cadeia de equivalências: Manter a América Grandiosa; defesa nacional; Protecionismo, valorização do indivíduo e autonomia; democracia; controle rigoroso das fronteiras e proteção à população estadunidense; Força Tarefa contra a Covid-19; terra da liberdade e isolamento vertical; economia em crescimento; proteção aos empregos; nacionalistas, conservadores, família tradicional, fazendeiros, manufatureiros prejudicados com altas taxas dos acordos internacionais; novas mídias/redes sociais com comunicação direta com o eleitorado; figura ímpar de Trump; republicanos. Então, os esforços visando a defesa dos interesses e lemas nacionais seriam suficientes para superar as crises, principalmente na permanência de Trump como líder. Simultaneamente, com  a permanência do prestígio da grande potência mundial.

 

Após os levantamentos dos antagonismos do discurso do chefe de Estado norte-americano, nota-se a identificação das demandas do nós no ponto nodal América em primeiro lugar. É imperioso ressaltar que, a ressignificação do bordão eleitoral de outrora e sua utilização na conjuntura ocasionada pela Covid-19, destaca a perda do significado original dele e suas contínuas readequações seriam para dar conta da falta constitutiva que se opõe eficazmente aos ideários criticados por Donald Trump desde 2016. Portanto, é o ponto nodal que pode ser usado, tanto em seu negacionismo sobre a pandemia quanto para representação de qualquer referência a Trump. Configurando, dessa maneira, um significante vazio[xlix].

O tom do discurso de Trump, apesar das articulações variantes, confirma seu negacionismo. Primeiramente, no seu desdém sobre tratar a doença como algo que estava longe das preocupações e não representava mal, apenas uma gripe. Apesar da criação da Força Tarefa, o tom científico estaria associado exclusivamente aos profissionais dessa organização e não a Trump. Como pode ser observado pelo tom emocional claramente no pronunciamento oficial, de quando a Covid-19 recebeu o status de pandemia, ao evocar elementos nacionais norte-americanos como forma de tranquilizar a população. Por último, exemplificando essa lógica de afastá-lo do tom científico, há a utilização de sarcasmo na performance que sugere a ingestão de desinfetante como medida para combater o coronavírus.

Outrossim, uma característica notória do discurso negacionista é a reafirmação da maioria dos antagonismos apresentados. Isto é, apesar de ter algumas particularidades, as demandas antagônicas pré-existentes à ocorrência do novo coronavírus. Consequentemente, nota-se sua intensificação. A exemplo da polarização entre democratas e republicanos, a qual estende-se na opinião dos americanos sobre o papel da cobertura midiática, mesmo no que diz respeito a Covid-19. Visto que, segundo a pesquisa realizada pelo Pew Research Center[l], a percepção sobre a mídia tem obedecido as divisões partidárias de antes da pandemia.

 

A voz de Trump

Donald Trump aponta a mídia tradicional como pertencente ao eles antagônico, uma vez que, em suas palavras, na mídia tradicional eu não tenho voz e as redes sociais têm sido importantes pra mim por me darem voz. Seguindo essa lógica, é em seu perfil do Twitter que a reprodução das falas negacionistas são mais evidentes.

Antes de elencar a extensão cibernética do negacionismo de Trump, vale comentar que ele acusa a mídia tradicional de partidarismo e de ataques direcionados a ele. Dessa forma, ao longo de seu mandato, ele aliou-se a veículos midiáticos mais conservadores e costuma hostilizar a liberdade de expressão da imprensa em suas redes sociais[li]. Nesse aspecto, ele é criticado não só pelos profissionais da área de comunicação, como também por representantes de órgãos supranacionais. Ao exemplo da entrevista cedida para a Reuters, na qual David Kaye – relator especial da ONU para a liberdade de expressão – acusou a Casa Branca de atacar sistematicamente a mídia tradicional e promover a disseminação de notícias falsas. Em resposta, o porta-voz da Casa Branca, Judd Deere disse à Reuters que nenhum outro governo foi tão transparente quanto o do presidente Trump, e esperamos que todas as notícias sejam justas e precisas complementando com o presidente não vai desistir de expor as mentiras.

Sobre a pandemia, além do tuíte contendo as características nacionalistas dos americanos como mecanismo de combater o novo coronavírus, a timeline do perfil pessoal de Trump estava mais centralizada na pauta político-econômica e menos na divulgação de informações sobre o combate à pandemia. Mas vale lembrar das vezes que ele utilizou da plataforma para publicar informações falsas sobre a Covid-19 como a que crianças seriam imunes[lii],  ou ainda, o retuíte do vídeo postado pelo Breitbart, no qual um grupo denominado America’s Frontline Doctors afirmava que a hidroxicloroquina é cura da Covid-19 e os estudos que questionam sua eficácia são falsa ciência[liii]– posts esses que foram excluídos ou ocultados pelo Twitter. Com efeito, apesar de Trump acusar o Twitter e Facebook de censura, ele continua usando essas redes para reproduzir informações imprecisas, atacar a mídia convencional e, de modo geral, a seguir as articulações discursivas do negacionismo. Portanto, Donald Trump diz usar as redes sociais para dialogar com os cidadãos americanos de forma mais direta. Ou será que ele as utiliza para criar narrativas que o beneficiem perante seus seguidores?

A demonstração da predominância do negacionismo em seu posicionamento, dá-se também de forma performática, tendo em vista que a primeira vez que Donald Trump aparece publicamente de máscara – e uma das poucas -, ocorre 6 meses depois da chegada da epidemia em solo americano. Nessa data, os Estados Unidos registravam 3,83 milhões de casos confirmados e 141.947 mil mortos, segundo dados do Our World in Data – Reprodução Twitter

 

 

Os reflexos do negacionismo e a disputa pela hegemonia

Ao examinar as práticas discursivas de Donald Trump, nota-se que seu principal desafio foi tentar manter a popularidade em alta com base na argumentação dos bons resultados econômicos em seu mandato, considerando a influência que isso poderia ter para a determinação do pleito de 2020. Para isso, ele constrói uma narrativa de uma grande nação, inclusive ao dizer que o país lidera o mundo em número de testes[liv]. No entanto, a principal liderança conferida aos Estados Unidos foi do país com maior número de casos e mortes confirmadas no mundo, se mantendo nesse posto pelo maior espaço de tempo. Desse modo, embora Trump tenha tentado reduzir a magnitude da crise sanitária, a realidade ceifou milhares de vidas norte-americanas. Ocasionando uma crise social e, por conseguinte, tornando as circunstâncias da corrida eleitoral ainda mais adversas para ele.

Sobre a resposta de Trump ao coronavírus, a pesquisa Ipsos da Reuters de setembro[lv] mostrou que 54% dos entrevistados desaprovam totalmente sua condução, enquanto 42% aprovam totalmente. Ainda no mesmo estudo, 54% reprovam seu trabalho como presidente e 41% aprovam. Porém, quando questionados sobre sua gestão econômica, Trump tem aprovação de 50% dos entrevistados contra 45%, sendo essa a sua maior área de aprovação, seguida pela de oferta de empregos. Vale comentar também que para os entrevistados, a esfera que merece maior atenção dentre os problemas enfrentados pelos Estados Unidos é a questão econômica e, em segundo lugar, a saúde pública. Desse modo, mais do que representar a taxa de reprovação, esse levantamento evidencia que o apelo do discurso de Donald Trump sobre a sustentabilidade econômica ecoa em uma base de apoiadores.

Ainda assim, de acordo com as pesquisas, a área da saúde constava como segunda principal demanda, até porque os Estados Unidos não conta com um sistema de saúde universalizado e gratuito mesmo em meio a pandemia, o que evidencia o porquê da centralidade do assunto para os estadunidenses. Em resposta a isso, às vésperas da eleição, Donald Trump lançou o “America First Health Care Plan”[lvi], aparentando fazer frente ao “Affordable Care Act” – comumente conhecido como Obamacare.

O anúncio do plano ocorreu no dia 24 de setembro, o que pode ser entendido como uma tentativa de reverter a opinião pública, já que Trump poderia tê-lo feito em qualquer período dos últimos três anos ou, ao menos, no início da pandemia como uma espécie de agenda a ser seguida. Dadas as circunstâncias, o presidente foi acusado de alinhar suas pretensões políticas com as medidas de combate a Covid-19. Como no caso do fechamento rápido de fronteiras para áreas problemáticas, à época a senadora Kamala Harris comentou no Twitter que o presidente estaria politizando descaradamente esta pandemia ao executar a sua agenda anti-imigrante [lvii].

O mandatário persistiu em seu posicionamento negacionista mesmo após se infectar com o novo coronavírus. Depois de comparecer em uma série de eventos da campanha eleitoral, Donald Trump tuitou no dia 02 de outubro[lviii] que, juntamente com Melania Trump, havia testado positivo para Covid-19 e começariam a quarentena e recuperação imediatamente. Entretanto, no dia seguinte, ele publicou um vídeo comentando seu status de saúde e agradecendo os profissionais de saúde, povo americano e aos diversos líderes mundiais por suas condolências. No qual diz ainda que como um líder, não teve escolha apesar da alternativa dada de ficar trancado na Casa Branca, sob recomendações. Nunca saia, nem vá ao Salão Oval, não veja pessoas, não fale com as pessoas e eu não posso fazer isso. Eu tenho que estar na frente, esta é a América. Estes são os Estados Unidos, o maior país do mundo, o país mais poderoso do mundo[lix].

Nessa mesma fala, o presidente atribui certa importância ao trabalho que estava fazendo às vésperas da eleição, o que justifica a sua urgência na melhora do quadro de saúde. Então, ele retoma um de seus significantes vazios na passagem: Tenho que voltar, porque ainda temos que tornar a América Grande Novamente. Fizemos um trabalho muito bom nisso, mas ainda temos etapas a percorrer e temos que terminar esse trabalho e eu voltarei. Acho que voltarei em breve e estou ansioso para terminar a campanha da forma como foi iniciada, e da maneira como temos feito e os números que temos alcançado. Temos muito orgulho disso.

 

STOP THE COUNT!

Conquanto os Estados Unidos tenham a tradição de reeleger seus presidentes, apesar de quase garantida antes da pandemia, ela não veio a suceder.  No acontecimento pandemia, a disputa entre os discursos negacionista, encarnado politicamente em Trump e o científico defendido pelos governadores democratas e pelo candidato Biden teve a potencialidade de colocar em suspense a hegemonia tanto no que toca ao plano internacional como na eleição doméstica.

Na dimensão internacional, o discurso negacionista teve eco em países administrados por líderes com características correspondentes ao que Chantal Mouffe (2018) define como populismo de direita. Segundo o qual, o fazer político obedece às cadeias de equivalência pautadas em demandas como a anti-globalização, representando a insatisfação popular ao projeto neoliberal concatenada à narrativa de soberania nacional[lx]. Nessa perspectiva, a influência do negacionismo de Trump é percebida em dois atores. São eles,  Boris Johnson – que, inicialmente, cogitou não determinar nenhuma política de mitigação do alastramento do vírus no Reino Unido, mudando de ideia ao ter acesso ao relatório feito pela Imperial College of London que estimava 500 mil mortes em caso de ausência total de medidas[lxi] – e Jair Messias Bolsonaro.

Além de ser admirador pessoal declarado de Donald Trump, o presidente brasileiro reproduziu um discurso negacionista, inclusive com condutas semelhantes ao tratar a Covid-19 como uma gripezinha, criticar o isolamento social, atacar a mídia convencional e promover a cloroquina como tratamento. Com efeito, esse alinhamento praticamente incondicional – digno de uma paixão, uma vez que afasta-se do campo racional – levou o Brasil a seguir os Estados Unidos no posto de epicentro da Covid-19 no continente americano. Evidenciando que mesmo nesse momento adverso, a potência estadunidense ainda possui influência regional, sobretudo nos Estados com governantes conservadores. Para exemplificar esse pareamento, há a não adesão ambos ao acordo de cooperação internacional aprovado pela resolução da ONU com finalidade de garantir o acesso global a medicamentos, vacinas e equipamentos médicos para enfrentar uma pandemia de coronavírus[lxii]. Ressaltando portanto, a abordagem politizada da crise sanitária preconizada pela Organização Mundial da Saúde[lxiii].

Sobre esse aspecto, Donald Trump foi mal visto por líderes políticos e pela comunidade científica internacional. Segundo a Nature[lxiv], o presidente falhou de maneira desastrosa  no controle da Covid por ter tentado politizar as agências governamentais e purgá-las da expertise científica.  E, também, que Trump afirma colocar ‘America First’. Mas em sua resposta à pandemia, Trump se colocou em primeiro lugar, não a América. A revista científica Lancet também dissertou que A América recuou de sua posição de liderança antes proeminente e abandonou sua beneficência[lxv], indo de acordo com diversas declarações de que os Estados Unidos teria deixado um vácuo de liderança no sistema internacional. As colocações de ambos veículos foram feitas com o intuito de rechaçar a postura de Trump e declarar apoio a Joe Biden à presidência.

A corrida eleitoral à Casa Branca precisou sofrer adaptações diante do novo coronavírus. Mesmo que Trump tenha continuado sua campanha encontrando multidões em comícios pelo país, para tentar atrair e engajar seu eleitorado, foi estimulada pelos estados a alternativa de votação por correio com o propósito de evitar aglomerações.[lxvi] A decisão foi prontamente criticada por Donald Trump, o qual acusou que tal medida aumentaria as chances de fraude eleitoral e que recorreria do resultado caso perdesse. Como também afirmou que a eleição deveria ser definida com os votos contados no mesmo dia, ou seja, no dia 3 de novembro e sem considerar os votos por correspondência. Por conta disso, diante da apuração ao final do primeiro dia, Donald Trump publicou EU VENCI em seu perfil do Twitter.

No entanto, para sua insatisfação, seus apelos para que parassem a contagem de votos não foram atendidos e Joe Biden foi eleito o 46º presidente dos Estados Unidos da América no dia 7 de novembro ao final da apuração. Os resultados das pesquisas eleitorais já preconizavam a vantagem de Biden sobre Trump meses antes da definição do pleito, ficando em aberto apenas como seria o comparecimento eleitoral, principalmente devido ao voto ser facultativo. Entretanto, no ano marcado por insurreições anti-racistas e expressa insatisfação quanto a condução da pandemia, mobilizações como VOTE e VOTE HIM OUT ganharam as redes sociais, pedindo que votassem contra Trump.

De acordo com a pesquisa do Edison Research[lxvii], em aspectos demográficos dos entrevistados, o perfil dos eleitores de Trump assemelha-se ao da eleição de 2016, sendo  majoritariamente homens, brancos, na faixa dos 50-64 e acima de 65 anos, sem diploma universitário, conservadores e republicanos. Em oposição ao eleitores de Biden, que são mulheres, negros, latinos, asiáticos, LGBTQIA+, na faixa etária entre 18 e 29 anos, com diploma universitário, liberais e democratas.

Quando perguntados sobre a condição econômica do país, 84% dos eleitores de Trump responderam “excelente” contra 16% de Biden. Em contrapartida 87%  dos eleitores de Biden consideram a economia “pobre” contra 10% de Trump. O que evidencia a ressonância do discurso pautado na economia de Donald Trump.

Em outro aspecto, quando questionados se o racismo nos Estados Unidos era um problema, 87% dos eleitores de Biden (contra 11% de Trump) acreditam que o racismo é o maior problema do país. A questão racial deve ser levada em consideração, uma vez que apenas 12% dos pretos votariam em Trump frente a 87% que preferem Joe Biden. Dentre esses números, vale mencionar que 9% das mulheres negras tendem a apoiar Trump, contra expressivos 90% a favor de Biden. Tal fato seria reflexo direto do silêncio do presidente sobre os constantes episódios de violência racial. Isso posto, em outro levantamento, este feito pelo Pew Center Research, o sentimento de esperança aumentou entre a população racializada após o dia 3 de novembro[lxviii].

Sobre o enfrentamento ao coronavírus, Biden passa mais confiança para lidar com o seu impacto na saúde pública. Ainda segundo o Pew Center Research, 58% dos americanos estão muito ou um pouco confiantes em Biden, em comparação com 39% que confiam em Trump. Somando-se também, a percepção de que ele deve ter a oportunidade de restaurar a confiança na verdade, nas evidências, na ciência e em outras instituições da democracia, curar uma nação dividida e começar a tarefa urgente de reconstruir a reputação dos Estados Unidos no mundo[lxix].Dessa forma, apesar da acusação de fraude eleitoral feita por Donald Trump – o que é consoante a sua recorrente negação das circunstâncias que não beneficiem-no. Infere-se que a disputa pela hegemonia entre o discurso de sustentabilidade econômica e sustentabilidade da vida também influenciou na determinação eleitoral nos Estados Unidos da América.

Considerações Finais: Inimigo Invisível?

Até a conclusão deste artigo, os Estados Unidos ainda era o epicentro mundial da Covid-19 com 21.342.187 casos e 361.900 mortes confirmadas[lxx]. Sendo Trump, o ator político responsável, em grande medida, por essa triste colocação da América em Primeiro Lugar.

Assim, conclui-se que as práticas articulatórias de Donald Trump lhe conferem um caráter negacionista sobre a abordagem da pandemia de Covid-19. Majoritariamente, ele fez pronunciamentos apelando ao emocional do povo estadunidense, com lemas patrióticos – o que é uma característica central de seu discurso – que diminuem a importância da questão da saúde e ciência para exaltar o nacionalismo, o poder e a sustentabilidade da economia.

Nacionalmente, percebe-se a criação de novos antagonismos, por conta das demandas antirracistas, em uma disputa entre o que seria os antifascistas e a lei e a ordem. Dessa forma, é  possível perceber uma reconfiguração dos pólos antagônicos diante da postura de Trump de condenar manifestantes defensores da democracia e justiça social enquanto o mesmo incitou continuamente protestos contra o resultado eleitoral. Levando ao extremo exemplo da invasão realizada por seus apoiadores ao Congresso dos Estados Unidos no dia da cerimônia oficial de posse de Joe Biden[lxxi]. Sobre o ocorrido, Donald Trump não repudiou, mas declarou que são coisas e eventos que acontecem quando uma sagrada vitória eleitoral é cruelmente retirada de grandes patriotas e que NÓS somos o partido da Lei e da Ordem[lxxii]. Tais colocações levaram a equipe do Twitter a exigir a remoção das publicações, que violavam repetida e gravemente a política de integridade cívica[lxxiii], sob pena de bloqueio da conta pessoal de Trump por 12 horas. Seguindo esse padrão, Mark Zuckerberg comunicou que Donald Trump está banido do Facebook e Instagram até pelo menos o fim de seu mandato[lxxiv].

 

Publicação de Trump, a qual foi removida da plataforma, sobre as invasões no Capitólio: Estas são as coisas e eventos que acontecem quando uma sagrada vitória eleitoral esmagadora é tão sem cerimônia e cruelmente retirada de grandes patriotas que foram mal e injustamente tratados por tanto tempo. Vá para casa com amor e em paz. Lembre-se deste dia para sempre! (tradução própria) – Reprodução Twitter

 

Externamente, a pandemia reconfigurou e recrudesceu tensões geopolíticas já existentes. Seguindo essa lógica, a efêmera aproximação com China foi substituída pela hostilidade, xenofobia e teorias conspiratórias. Nessa perspectiva, Trump não economizou ao determinar que a culpa é da China, questionou a parcialidade das organizações internacionais e outros países que alinharam-se a narrativa de prezar pela solidariedade sem questionar os interesses chineses ao ocultar os dados sobre o surgimento da epidemia e a possível vantagem geopolítica do país asiático com isso.

Nesse sentido, enquanto um representante do populismo de direita, Trump utiliza da paixão para exacerbar a defesa de uma soberania nacional que, suspostamente, estaria alinhada às pretensões do povo americano. Ele afasta-se novamente da razão, ao usar a ciência apenas quando lhe é conveniente, sobretudo com intenções políticas, mesmo em meio ao crescimento constante dos números de casos de Covid-19 desde a chegada do vírus nos Estados Unidos. Em última instância, em todo o seu mandato – sobretudo, em seus últimos meses no exercício -, Donald Trump valorizou ideais de uma nação mítica e manejou intencionalmente a irracionalidade ao culpabilizar inimigos invisíveis (KONDER, 2009).

Portanto, o comportamento de Donald Trump aparenta obedecer um negacionismo enquanto práxis ao prontamente negar assédios, negar denúncias políticas, negar a cooperação internacional, negar o pluralismo, negar o aquecimento global, negar a violência racial, negar a justiça social, negar a gravidade da pandemia. E, por último, ele nega a sua derrota eleitoral ao dizer Eu venci.

Larissa Rodrigues Ferreira, Jorge O. Romano, Ana Carolina Aguiar Simões Castilho, Caroline Boletta de Oliveira Aguiar, Érika Toth Souza, Juana dos Santos Pereira, Myriam Martinez dos Santos, Pâmella Silvestre de Assumpção, Vanessa Barroso Barreto, Thais Ponciano Bittencourt, Liza Uema, Paulo Augusto André Balthazar, Annagesse de Carvalho Feitosa, Eduardo Britto Santos, Daniel Macedo Lopes Vasques Monteiro, Daniel S.S. Borges, Juanita Cuellar Benavídez, Renan Alfenas de Mattos e Ricardo Dias são pesquisadoras e pesquisadores do grupo de pesquisa “Discurso, Redes Sociais e Identidades Sócio-Políticas (DISCURSO)” vinculado ao Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade e ao Curso de Relações Internacionais do DDAS/ICHS da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, registrado no CNPq e com apoio de ActionAid Brasil.

[i] Metodologicamente, ao longo do texto, colocamos em itálico palavras ou significados tanto expressos nas práticas discursivas dos porta-vozes como aquelas que achamos adequadas, em termos de significado, pelo trabalho analítico e que gostaríamos de destacar.

[ii] THE WHITE HOUSE. President Trump Delivers Remarks at Conservative Political Action Conference. YouTube, 29 fev. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jWxTh5ktUuA&list=PLRJNAhZxtqH-fd1x12yYa-hKuxoZ8Npnz&index=89&ab_channel=TheWhiteHouse

[iii] HENEGHAN, Carl. The first case of COVID-19 in the USA. CEBM, 30 jul. 2020. Disponível em: https://www.cebm.net/study/the-first-case-of-covid-19-in-the-usa/

[iv] THE WHITE HOUSE. President Trump Holds a Press Conference. YouTube, 22 Jan. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tWZuQHLowmo&list=PLRJNAhZxtqH-fd1x12yYa-hKuxoZ8Npnz&index=114&ab_channel=TheWhiteHouse‌

[v] BELVEDERE, Matthew J. Trump says he trusts China’s Xi on coronavirus and the US has it ‘totally under control’. CNBC, 22 jan. 2020. Disponível em: https://www.cnbc.com/2020/01/22/trump-on-coronavirus-from-china-we-have-it-totally-under-control.html

[vi] ROUBICEK, Marcelo. O que está no acordo comercial entre EUA e China. E o que ficou de fora. Nexo Jornal, 15 jan. 2020. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/01/15/O-que-est%C3%A1-no-acordo-comercial-entre-EUA-e-China.-E-o-que-ficou-de-fora

[vii] Ibidem, nota 7.

[viii] Cabe comentar brevemente que Donald Trump possui histórico de denominar como farsa (tradução livre de “hoax”) contestações sobre a sua administração, como o caso da tentativa de impeachment levantada no início do ano, da qual ele foi absolvido. A performance ocorrida nas primárias pode ser acessada em: Full rally: Trump rally in South Carolina ahead of primary (FOX). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ScIbOKXT5n4.

[ix] ACEVEDO, Nicole; BURKE, Minyvonne. Washington state man becomes first U.S. death from coronavirus. NBC News, 29 fev. 2020. Disponível em: https://www.nbcnews.com/news/us-news/1st-coronavirus-death-u-s-officials-say-n1145931

[x] THE WHITE HOUSE. President Trump Addresses the Nation. YouTube, 11 mar. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6a1Mdq8-_wo&list=PLRJNAhZxtqH-fd1x12yYa-hKuxoZ8Npnz&index=67&ab_channel=TheWhiteHouse

[xi] FERNANDES, Ricardo C. Chantal Mouffe: “A melhor forma de combater o populismo de extrema-direita é com o de esquerda”. Autonomia Literária, 10 fev. 2020. Disponível em: https://autonomialiteraria.com.br/chantal-mouffe-a-melhor-forma-de-combater-o-populismo-de-extrema-direita-e-com-o-de-esquerda/

[xii] Donald J. Trump on Twitter: “Americans are the strongest and most resilient people on earth…We will remove or eliminate every obstacle necessary to deliver our people the care that they need, and that they are entitled to. No resource will be spared”. Disponível em: https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1238603402457812992?s=20

[xiii] Em síntese, a Lei de Produção de Defesa (tradução própria) dá autoridade ao presidente para trabalhar com o setor privado na garantia dos suprimentos necessários à defesa nacional em casos emergenciais. No caso da pandemia de covid-19, a lei possui respostas específicas que podem ser conferidas em: Applying the Defense Production Act | FEMA.gov., 13 abr. 2020. Disponível em: https://www.fema.gov/news-release/20200727/aplicacion-de-la-ley-de-produccion-de-defensa. .

[xiv] Para mais detalhes sobre a primeira aplicação da medida, conferir: Memorandum on Allocating Certain Scarce or Threatened Health and Medical Resources to Domestic Use. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/memorandum-allocating-certain-scarce-threatened-health-medical-resources-domestic-use/. Acesso em 25/07/2020.

[xv] LISTER, Tim et al. Pandemia de coronavírus desencadeia disputa global por máscaras de proteção. CNN, 05 abr. 2020. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2020/04/05/pandemia-de-coronavirus-desencadeia-disputa-global-por-mascaras-de-protecao.

[xvi] BBC. Coronavirus: Trump stands by China lab origin theory for virus. BBC, 01 maio 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-us-canada-52496098

[xvii] Ibidem, nota 12.

[xviii] Ibidem, nota 12.

[xix] LEVINE, Ally J. U.S State Responses To the Novel Coronavirus. Reuters, 24 mar. 2020. Disponível em: https://graphics.reuters.com/HEALTH-CORONAVIRUS-USA/0100B5LQ46H/index.html.

[xx] WHITE HOUSE. 15 Days to Slow the Spread. The White House, 16 mar. 2020. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/articles/15-days-slow-spread/.

[xxi] WHITE HOUSE. POTUS-Coronavirus-Guidelines_30-DAYS. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2020/03/03.16.20_coronavirus-guidance_8.5x11_315PM.pdf.

[xxii] WHITE HOUSE. Opening Up America Again. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/openingamerica/

[xxiii] Vale conferir o porquê das medidas de contenção da Covid-19 não terem sido tomadas nacionalmente em: Why There’s No National Lockdown – The Atlantic. Disponível em: https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2020/03/why-theres-no-national-lockdown/609127/

[xxiv] A questão constitucional sobre a liberdade é algo caro aos norte-americanos por remeter a independência do país. Para mais, conferir: FIUZA, Guilherme et al. Por que os Estados Unidos são a terra da liberdade. Gazeta do Povo, 9 out. 2019. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/por-que-os-estados-unidos-sao-a-terra-da-liberdade/

[xxv] Número de casos (e mortes), dentro desse recorte temporal, foram retirados do “Coronavirus Pandemic Data Explorer – Our World in Data”. Disponível em: https://ourworldindata.org/coronavirus-data-explorer?yScale=log&time=2020-03-01..2020-04-16&country=IND~BRA~RUS~FRA~GBR~ITA~TUR~ESP~ARG~COL~DEU~MEX~POL~IRN~USA~DOM~PAN&region=World&casesMetric=true&interval=total&aligned=true&smoothing=0&pickerMetric=total_cases&pickerSort=desc.  Acesso em 16/05/2020.

[xxvi] BEHRMANN, Savannah;SANTUCCI, Jeanine. Trump and Fauci: a timeline of their relationship during COVID. USA TODAY, 28 out. 2020. Disponível em: https://www.usatoday.com/story/news/politics/2020/10/28/president-donald-trump-anthony-fauci-timeline-relationship-coronavirus-pandemic/3718797001/

[xxvii] FLAHERTY, Anne; PHELPS, Jordyn. Fauci throws cold water on Trump’s declaration that malaria drug chloroquine is a ‘game changer’. ABC News, 20 mar. 2020. Disponível em: https://abcnews.go.com/Politics/fauci-throws-cold-water-trumps-declaration-malaria-drug/story?id=69716324

[xxviii] COHEN, Jon. ‘I’m going to keep pushing’. Anthony Fauci tries to make the White House listen to facts on the pandemic. Science, 22 mar. 2020. Disponível em: https://www.sciencemag.org/news/2020/03/i-m-going-keep-pushing-anthony-fauci-tries-make-white-house-listen-facts-pandemic

[xxix] Curva referente às mortes confirmadas. Para conferir o número de casos confirmados, basta selecionar o parâmetro na parte superior do gráfico “Coronavirus Pandemic Data Explorer – Our World in Data”. Disponível em: https://ourworldindata.org/coronavirus-data-explorer?yScale=log&time=2020-03-01..2020-04-23&country=IND~BRA~RUS~FRA~GBR~ITA~TUR~ESP~ARG~COL~DEU~MEX~POL~IRN~USA~DOM~PAN&region=World&deathsMetric=true&interval=total&aligned=true&smoothing=0&pickerMetric=total_cases&pickerSort=desc,

[xxx] GUARDIAN NEWS. Trump floats dangerous coronavirus treatment ideas as Dr Birx looks on .YouTube, 24 abr. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BalDN6iGYpE&ab_channel=GuardianNews.

[xxxi] TIMM, Jane C. Trump says he was being sarcastic with comments about injecting disinfectants. CNBC, 24 abr. 2020. Disponível em: https://www.nbcnews.com/politics/donald-trump/trump-says-he-was-being-sarcastic-comments-about-injecting-disinfectants-n1191991.

[xxxii] Descrição da fotografia de Alyson McClaran para Reuters. Photos of the month: April. Disponível em: https://www.reuters.com/news/picture/photos-of-the-month-april-idUSRTX7GUMJ.

[xxxiii] Dado o escopo do artigo e a linha de análise proposta, não será possível aprofundar as complexidades as quais os assuntos do assassinato do George Floyd e sua relação com luta antirracista demandam. Ficando a cargo de um próximo trabalho focado exclusivamente nessas temáticas.

[xxxiv] MANGAN, Dan et al. Trump admits he went to White House bunker during George Floyd protests, but claims it was just for a brief ‘inspection’. CNBC, 3 jun. 2020. Disponível em: https://www.cnbc.com/2020/06/03/george-floyd-protests-trump-claims-he-went-to-white-house-bunker-for-inspection.html.

[xxxv] George Floyd Death: Trump Denies Protests Forced Him Into Bunker. BBC, 3 de jun. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-us-canada-52911267.

[xxxvi] MONTANARO, Domenico. What Is The Insurrection Act That Trump Is Threatening To Invoke?. NPR, 1 jun. 2020. Disponível em: https://www.npr.org/2020/06/01/867467714/what-is-the-insurrection-act-that-trump-is-threatening-to-invoke.

[xxxvii] WHITE HOUSE. President Donald J. Trump Is Providing Economic Relief to American Workers, Families, and Businesses Impacted by the Coronavirus. 27 mar. 2020 Disponível em: https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/president-donald-j-trump-providing-economic-relief-american-workers-families-businesses-impacted-coronavirus/.

[xxxviii] AFP. Coronavírus: Trump promulga megaplano econômico de US$ 2 trilhões. UOL, 27 mar. 2020.  Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2020/03/27/trump-promulga-megaplano-economico-por-covid-19.htm

[xxxix] Ver: LACLAU, E. Los fundamentos retóricos de la sociedad. Buenos Aires: FCE, 2014; LACLAU, E. La Razón populista. Buenos Aires :Fondo de Cultura Económica. 2007;  MOUFFE, C. Agonística. Pensar el mundo políticamente. Buenos Aires: Fondo da Cultura Económica. 2014; e Galván, I. E.: La lucha por la hegemonía durante el primer gobierno del MAS en Bolivia (2006-2009): un análisis discursivo. Madrid: Universidad Complutense, tesis de doctorado, 2012.

[xl] Ibidem, nota 12.

[xli] THE WHITE HOUSE. President Trump Holds a Press Conference .YouTube, 22 jan. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tWZuQHLowmo&list=PLRJNAhZxtqH-fd1x12yYa-hKuxoZ8Npnz&index=114.

[xlii] THE WHITE HOUSE. Remarks by President Trump, Vice President Pence, and Members of the Coronavirus Task Force in a Fox News Virtual Town Hall. 24 mar. 2020. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/remarks-president-trump-vice-president-pence-members-coronavirus-task-force-fox-news-virtual-town-hall/

[xliii] Ibidem, nota 7

[xliv] TRUMP, Donald J. “In light of the attack from the Invisible Enemy, as well as the need to protect the jobs of our GREAT American Citizens, I will be signing an Executive Order to temporarily suspend immigration into the United States!”. 20 abr 2020. Twitter: @realDonaldTrump. Disponível em: https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1252418369170501639?s=20

[xlv] Ibidem, nota 12.

[xlvi] ROMANO, Jorge O et al. A eternização do presente e o futuro pós-pandemia. LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL, 24 ago. 2020. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-eternizacao-do-presente-e-o-futuro-pos-pandemia/#_ednref23

[xlvii] HSS. gov. Trump Administration Announces Framework and Leadership for ‘Operation Warp Speed’. 15 mai. 2020. Disponível em: https://www.hhs.gov/about/news/2020/05/15/trump-administration-announces-framework-and-leadership-for-operation-warp-speed.html

[xlviii] Vale comentar que ao longo da análise foi observada que a suspensão da hegemonia causada pelo acontecimento pandêmico possuía duas dimensões – nacional e internacional – no caso dos Estados Unidos, uma vez que há uma justaposição de antagonismos do cenário nacional com os antagonismos de uma corrida presidencial e as tensões geopolíticas construídas  do sistema internacional. Para fins de simplificação, será apresentada apenas uma tabela de eles e nós, mas pedimos atenção para esses dois âmbitos ao longo do texto.

[xlix] Significantes vazios: elementos de um discurso que devido à sua universalização perderam seu significado exato. Segundo Laclau (1996), isso se dá quando, numa prática articulatória, a cadeia de equivalências (elementos/momentos articulados) expande polissemicamente seus conteúdos, inflaciona-se sobremaneira de sentidos. É um significante vazio em função de sua natureza polissêmica que faz com que este esvazie seus conteúdos específicos.

[l] American’s Views of the Media During the Coronavirus Outbreak. Disponível em: https://www.journalism.org/2020/05/08/americans-views-of-the-news-media-during-the-covid-19-outbreak/

[li] ROMANO, Jorge O et al. As mídias, a reprodução dos discursos negacionista e científico e a reconfiguração política em curso. LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL, 23 jul. 2020. Disponível em: https://diplomatique.org.br/as-midias-a-reproducao-dos-discursos-negacionista-e-cientifico-e-a-reconfiguracao-politica-em-curso/

[lii] Facebook and Twitter restrict Trump accounts over ‘harmful’ virus claim. BBC, 6 ago. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/news/election-us-2020-53673797

[liii] LESKIN, Paige. Trump is retweeting complaints of censorship after Facebook, YouTube, and Twitter take down hydroxychloroquine video. BUSINESS INSIDER, 28 jul. 2020. Disponível em: https://www.businessinsider.com/trump-censorship-claims-twitter-youtube-facebook-hydroxychloroquine-doctors-video-removed-2020-7

[liv] GEARAN, Anne et al. Trump claims U.S. outpaces world in coronavirus testing, but numbers tell different story. THE WASHINGTON POST, 11 mai. 2020. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/national/coronavirus-trump-testing/2020/05/11/c08766dc-938b-11ea-82b4-c8db161ff6e5_story.html

[lv] Reuters/Ipsos Core Political Survey: Presidential Approval Tracker. 2 set. 2020. IPSOS, 02 set. 2020. Disponível em: https://www.ipsos.com/en-us/reutersipsos-core-political-survey-presidential-approval-tracker-09022020

[lvi] THE WHITE HOUSE. Executive Order on An America-First Healthcare Plan. The White House, 24 set. 2020. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/executive-order-america-first-healthcare-plan/.

[lvii] HARRIS, Kamala. “Trump failed to take this crisis seriously from day 1. His abandonment of his role as president has cost lives. And now, he’s shamelessly politicizing this pandemic to double down on his anti-immigrant agenda. Enough, Mr. President. The American people are fed up”. 21 abr. 2020. Twitter: @SenKamalaHarris. Disponível em: https://twitter.com/SenKamalaHarris/status/1252433848949866498.

[lviii] TRUMP, Donald J: “Tonight, @FLOTUS and I tested positive for COVID-19. We will begin our quarantine and recovery process immediately. We will get through this TOGETHER!”. 2 out. 2020. Twitter: @realDonaldTrump. Disponível em: https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1311892190680014849?s=20

[lix]  TRUMP, Donald J. 3 out. 2020. Twitter: @realDonaldTrump. Disponível em: https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1312525833505058816?s=08

[lx] Mouffe, Chantal. Por um populismo de esquerda . Verso Books, 2018.

[lxi] ADAM, David. Special report: The simulations driving the world’s response to COVID-19. NATURE, 2 abr. 2020. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-020-01003-6

[lxii] SOUZA, Érika et al. Ciência x desinformação: o discurso da Organização Mundial da Saúde. LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL, 17 dez. 2020. Disponível em: https://diplomatique.org.br/ciencia-x-desinformacao-o-discurso-da-organizacao-mundial-da-saude/

[lxiii] SPUTNIK.’Politizaram a pandemia’: OMS alerta que crise da COVID-19 segue em aceleração. Sputnik, 22 jun. 2020. Disponível em:https://br.sputniknews.com/europa/2020062215741517-politizaram-a-pandemia-oms-alerta-que-crise-da-covid-19-segue-em-aceleracao/

[lxiv] NATURE. Why Nature Supports Joe Biden for US president. NATURE, 14 out. 2020. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-020-02852-x

[lxv] LANCET. The US Election 2020.  The Lancet, 31 out. 2020. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)32260-1/fulltext

[lxvi] Nos Estados Unidos, o processo eleitoral é integralmente organizado pelos estados. No que diz respeito à modalidade de votação por correspondência, cada um decide como vai organizar os votos por correio e não há legislação federal sobre o assunto.

[lxvii] THE NEW YORK TIMES. Election Exit Polls. The New York Times. Disponível em: https://www.nytimes.com/interactive/2020/11/03/us/elections/exit-polls-president.html

[lxviii] NOE-BUSTAMANTE, Luis. Latino and Black Americans Less Angry , More Hopeful about the state of the U.S. PEW RESEARCH CENTER, 9 dez. 2020. Disponível em: https://www.pewresearch.org/fact-tank/2020/12/09/after-the-election-fewer-latino-and-black-adults-feel-angry-and-more-are-hopeful-about-the-state-of-the-u-s/

[lxix] Ibidem, nota 65.

[lxx] JOHN HOPKINS. COVID-19 Map – Johns Hopkins Coronavirus Resource Center. Disponível em: https://coronavirus.jhu.edu/map.html. Acesso dia 07/01/2021.

[lxxi] EL PAÍS. Manifestantes invadem o Capitólio dos EUA estimulados por Trump e Washington tem toque de recolher. El País, 6 jan. 2021. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2021-01-06/ao-vivo-manifestantes-invadem-o-capitolio-dos-eua-estimulados-por-donald-trump.html

[lxxii] TRUMP, Donald J: “I am asking for everyone at the U.S. Capitol to remain peaceful. No violence! Remember, WE are the Party of Law & Order – respect the Law and our great men and women in Blue. Thank you!”. 6 jan 2021. Twitter: @realDonaldTrump. Disponível em: https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1346912780700577792

[lxxiii] “As a result of the unprecedented and ongoing violent situation in Washington, D.C., we have required the removal of three @realDonaldTrump Tweets that were posted earlier today for repeated and severe violations of our Civic Integrity policy”. 6 jan 2021. Twitter: @TwitterSafety. Disponível em: https://twitter.com/TwitterSafety/status/1346970430062485505

[lxxiv] G1. Facebook e Instagram bloqueiam conta de Trump por tempo indeterminado. G1, 07 jan. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2021/01/07/facebook-bane-conta-de-donald-trump-por-tempo-indeterminado-diz-mark-zuckerberg.ghtml

KONDER. Leandro. Introdução ao Fascismo. 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.



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