UMA HISTÓRIA CONSTRUÍDA SOB O SIGNO DO APAGAMENTO COLONIAL

A arte de Sérgio Adriano H. como contrafísica do racismo epistêmico

Ao recusar a moderação e o silêncio historicamente impostos aos corpos negros, o artista Sérgio Adriano H. mobiliza a imagem para uma “contrafísica” que desestabiliza o racismo epistêmico e convoca o espectador a enfrentar as fissuras de uma história construída sob o signo do apagamento colonial

Em diferentes religiões e culturas, e também nas ciências, a escolha do caminho do meio é associada ao equilíbrio, à frugalidade e à moderação. Para o artista visual Sérgio Adriano H., no entanto, esse significado foi compreendido e posteriormente reavaliado de outra forma. Não como a virtude da temperança, mas como a experiência concreta de viver dentro de limites impostos por suas origens familiares e pelo contexto social em que se desenvolveu. Filho de mãe negra e pai branco, nascido em 1975 em Joinville, Santa Catarina, um estado particularmente marcado por uma tradição social e cultural hegemonizada pela branquitude, o “caminho do meio” revelou-se menos uma decisão e mais uma condição imposta.

Sua formação em Filosofia, aliada ao desenvolvimento de processos de criação em diferentes materialidades e linguagens, constitui um ponto de inflexão em sua trajetória pessoal e profissional. Esse deslocamento orienta o artista em direção a uma posição determinada por si próprio. Ao afastar-se da moderação, do silêncio e da economia de presença historicamente exigidas do povo preto, Sérgio Adriano H. passa a orientar sua produção não para a resposta, mas para a formulação de questões. Sua obra inscreve-se em um contexto marcado por estruturas coloniais de apagamento e pelo epistemicídio de culturas não eurocêntricas. Nesse sentido, seu objetivo central consiste no resgate de narrativas que dialogam com sua trajetória e com a busca por outros valores, ao mesmo tempo em que tensionam a história do Brasil tal como foi institucionalmente construída, a partir do apagamento de comunidades e grupos historicamente subalternizados.

Essa potência já foi amplamente reconhecida em mais de 140 exposições realizadas no Brasil e no exterior, assim como em prêmios e homenagens que atestam a relevância de seu trabalho em diferentes instâncias. Entre eles, destacam-se a Medalha Cruz e Sousa, em 2022, a Trajetória Cultural Aldir Blanc SC, recebida em 2020, e a Medalha Victor Meirelles, Personalidade Artes Visuais, concedida em 2018 pela Academia Catarinense de Letras e Artes. Esse reconhecimento, no entanto, não cristalizou sua produção, que permanece em constante processo de reinvenção, articulando imaginação crítica, desconstrução e perspectivas decoloniais.

Série: História do Brasil, marco 2020. Fotoperformance em São Miguel do Gostoso
Crédito: Fedra Rodríguez

Esse movimento contínuo de criação marcou a abertura de 2026, com a participação simultânea do artista em exposições coletivas realizadas em diferentes cidades brasileiras. Em Florianópolis, integrou a mostra Territórios [Im]permanentes, no Museu de Arte de Santa Catarina, sob curadoria de Maria Helena Rosa Barbosa e Álvaro Henrique Fieri. Em São Paulo, participa de CORpo–MANIFESTO, no Centro Cultural Banco do Brasil, com curadoria de Juliana Crispe e Claudinei Roberto da Silva. No Rio de Janeiro, sua obra está presente na exposição Adiar o fim do mundo, na Fundação Getulio Vargas, com curadoria de Ailton Krenak e Paulo Herkenhoff. Em Campinas, apresenta-se em Nada como um dia depois de outro, no Museu de Arte Contemporânea José Pancetti. Já em Joinville, apresenta Presenças Insurgentes: Corpos, Territórios e Memórias, no Instituto Internacional Juarez Machado, exposição com curadoria de Juliana Crispe e do próprio artista.

A partir do uso de diferentes suportes, como objetos, fotografias e vídeos, a produção de Sérgio Adriano H. investiga dimensões existenciais atravessadas por sistemas simbólicos que organizam e legitimam determinadas noções de verdade. Seus trabalhos tensionam temas como a finitude, a construção da identidade racial, a violência e os mecanismos de invisibilização, articulando experiências individuais e coletivas.

Verde-Amarela, 2022: Livro-seleção colado à tira de chinelo e lama de barragem, corrego do feijão de Brumadinho.
Crédito: Fedra Rodríguez

A dimensão política e social de sua obra emerge do engajamento direto com a (des)territorialidade dos corpos, da observação do cotidiano que reverbera ecos históricos. Por meio de fotografias, instalações, performances e objetos cotidianos, como cabos de vassoura, livros e louças antigas, o artista constrói situações de fricção que convidam à reflexão crítica sobre passado, presente e futuro, compelindo a deslocamentos e à adoção de novas posturas diante de realidades marcadas por desigualdades históricas e por processos persistentes de exclusão e colonialismo normatizado.

A obra de Sérgio Adriano H. emerge de um estado de vigília crítica em que o onírico não funciona como fuga, mas como força de desorganização do real. Não se trata de uma imaginação idealista, tampouco de um exercício de utopia abstrata, mas de um gesto que reconhece na imagem um campo ativo de produção de mundo. A imagem, aqui, não representa. Ela opera. Ela intervém. Ela reabre aquilo que foi naturalizado como verdade, expondo as fissuras de regimes simbólicos construídos para se manterem incontestáveis.

Como afirma o filósofo Emanuele Coccia em A vida sensível (Cultura e Barbárie, 2010, tradução de Diego Cervelin), ao ocupar o centro da experiência perceptiva, a imagem desloca o primado da razão instrumental e instaura uma relação que antecede a mediação conceitual. O encontro com a obra produz um impacto imediato, anterior à interpretação, no qual o corpo do espectador é afetado não apenas sensorialmente, mas politicamente. Trata-se de uma experiência infrarracional, na qual percepção, afeto e memória se entrelaçam, desestabilizando os modos hegemônicos de ver, conhecer e nomear o mundo.

É nesse campo de fricção que a produção de Sérgio Adriano H. afirma a existência de uma pluralidade epistêmica sistematicamente negada pela modernidade colonial. Sua obra se inscreve em um projeto de enfrentamento às hierarquias do saber que sustentaram o colonialismo, o racismo e a própria ideia de humanidade como categoria excludente. Ao recusar a centralidade das epistemologias eurocêntricas, o artista convoca práticas de conhecimento que não se organizam a partir da separação entre corpo e pensamento, estética e política, imagem e vida.

A crítica ao racismo epistêmico que atravessa sua produção não aparece como ilustração conceitual, mas como operação material. Cada trabalho exige diálogos interfilosóficos capazes de sustentar a coexistência de múltiplos regimes de sentido. O que se afirma não é apenas a diversidade de interpretações, mas a legitimidade de outros modos de produzir verdade, memória e existência. Nesse horizonte, o universo que a obra propõe não pode ser senão plural.

Sua prática não se limita à denúncia histórica da escravização da população negra no Brasil, nem à exposição das violências macro e micro que dela derivam e persistem no presente. O ponto central é compreender que o genocídio foi inseparável do epistemicídio. Nas Américas, africanos e seus descendentes foram impedidos de pensar, rezar, conhecer e existir segundo suas próprias cosmologias. A interdição do pensamento foi, e segue sendo, uma estratégia fundamental de dominação.

Livros, enciclopédias, dicionários e manuais escolares, frequentemente apropriados pelo artista como matéria de trabalho, carregam as marcas desse projeto de inferiorização epistêmica. Esses dispositivos, apresentados historicamente como neutros, funcionaram como tecnologias de poder destinadas a sustentar a ficção de uma inferioridade social, econômica e biológica do negro, situada abaixo daquilo que o pensamento colonial definiu como humano.

Ao reinscrever esses materiais em sua prática artística, Sérgio Adriano H. desmonta o mito da branquitude e do eurocentrismo como fontes exclusivas de legitimidade epistemológica. Em confronto direto com séculos de produção do negro como sujeito da “zona do não ser”, para usar a formulação de Frantz Fanon, sua obra convoca o espectador a um reposicionamento radical. Cada exposição se torna um espaço de rearticulação da memória, no qual fragmentos do passado são recolhidos não para restaurar uma origem perdida, mas para sustentar outras formas de narrar o presente e de imaginar futuros que escapem à ainda vigente lógica colonial da exclusão.

Série Palavras Tomadas Ordem e Progresso, fotoperformance, 2008.

 

Exposições de Sérgio Adriano H. em cartaz

São Paulo

CORpo–MANIFESTO (exposição individual)

Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB São Paulo
Curadoria: Juliana Crispe e Claudinei Roberto da Silva
Visitação até 9 de fevereiro de 2026
Entrada gratuita

Rio de Janeiro
Adiar o fim do mundo (exposição coletiva)
Fundação Getulio Vargas – FGV Arte
Curadoria: Ailton Krenak e Paulo Herkenhoff
Visitação até 21 de março de 2026
Entrada gratuita

Campinas
Nada como um dia depois de outro (exposição coletiva)
Museu de Arte Contemporânea José Pancetti (MACC)
Curadoria: Gabriel Ferreira Zacarias
Visitação até 12 de fevereiro de 2026
Entrada gratuita

Florianópolis
Territórios [Im]permanentes – Acervo MASC (exposição coletiva)
Museu de Arte de Santa Catarina – MASC
Curadoria: Maria Helena Rosa Barbosa e Álvaro Henrique Fieri
Entrada gratuita

desCOLONIZAR 2023. Escultura oratório em marchetaria e terra do Quilombo dos Palmares

Fedra Rodríguez, nascida em Curitiba, em 7 de março de 1978, é tradutora, crítica de arte e escritora. Possui doutorado em Estudos da Tradução e atua no campo da literatura e da cultura desde 2006, com mais de 30 obras traduzidas, além de livros e artigos publicados em diversos veículos e países. Entre suas conquistas, destaca-se o 65º Prêmio Jabuti de Melhor Tradução (2023), obtido junto ao Coletivo Finnegans (Editora Iluminuras), pela tradução de Finnegans Wake, de James Joyce. Atualmente, é colunista da Revista Cult.

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