A atávica corrupção no Brasil
As campanhas anticorrupção dos amigos do alheio
Quando eu estava escrevendo O Sistema de Saúde no Brasil, entre os vários militantes do SUS que colaboraram com a redação, um amigo escreveu, “eu não vejo outro caminho senão combatermos a corrupção”.
Então vamos lá…
Um amigo médico ganhou um hospital público de presente. Depois ele foi avisado de que 10% do faturamento do hospital seria direcionado a ele, 5% a título de salário indireto e 5% que ele deveria encaminhar para a caixinha do governador. Ele ficou reticente e o mensageiro disse, “qual é, você quer ficar com os 10% só para você?” Quando meu amigo falou de seu constrangimento, o outro disse, “então você vai ter que voltar para o seu posto de saúde lá das bibocas, porque nós precisamos dos 5% do faturamento do hospital para nos garantir no governo”.
Salários indiretos alimentam executivos do governo e office-boys. Funcionários de baixo escalão compram apartamentos, mas não conseguem dormir direito, preocupados com o fisco descobrir que não têm fonte de renda legal. Presentinhos inocentes seduzem pessoas de bom gosto. Empreiteiros passam pelas secretárias atônitas e entram nos gabinetes dos secretários de governo sem usar a maçaneta, empurrando a porta com o pé. Todos querem ser convidados a participar da festa e os parlamentares só se dignam a examinar os projetos encaminhados pelo executivo se devidamente azeitados.
Uma amiga, que casou com um discípulo meu e da qual fui padrinho de casamento, conversando comigo, mencionou o “mensalão”. Eu disse que não sabia o que era “mensalão” e ela ficou boquiaberta, porque me considerava um “guru” e como é que eu não sabia o que era “mensalão”? Repeti, não sei o que é “mensalão”. E ela então me explicou.
Nunca participei do governo, embora sempre estivesse próximo a pessoas que assumiram cargos de ministro e de outras instâncias do poder. Então comecei a contar para a minha afilhada algumas coisas que eu sabia sobre corrupção no país, do governo e dos políticos. Aí ela ficou novamente de queixo caído e disse, “mas você não é corrupto”. E eu respondi, “mas eu também nunca participei do governo”, e acrescentei, “é por isso que eu não tomei conhecimento do tal do mensalão, porque a corrupção no país é atávica, não me surpreende”. Campanhas para acabar com a corrupção no país só têm servido para políticos corruptos fritarem “políticos indesejados”.

Um amigo, muito competente e incorruptível, que sabia dizer não quando outros diziam sim, ganhou a presidência do BNDES. Mas não conseguiu fazer outra coisa que não ficar pulando rasteiras e tentar se equilibrar enquanto puxavam o seu tapete… até que, depois de seis meses à frente do banco, o dono de um poderoso órgão de imprensa conseguiu afastá-lo do cargo. A empresa não poderia receber empréstimos subsidiados, porque não se enquadrava nos critérios técnicos do BNDES, não era indústria e não estava pleiteando recursos para investimentos produtivos, mas para capital de giro. Além disso, o poderoso órgão de imprensa estava mal das pernas e também não poderia passar por nenhuma avaliação de risco – mas quem perdeu o braço de ferro foi o meu amigo incorruptível.
Formalmente, a Dilma sofreu um impeachment por “pedaladas”, mas a massa, alucinada pela mídia, bateu panelas e saiu às ruas para afastá-la por corrupção. Depois, quando seu vice em exercício foi denunciado, agora sim, por corrupção, o congresso considerou que o país não aguentaria mais um impeachment (além de que o PT já estava fora do governo).
Quando o Lula foi preso por corrupção em 2018, um amigo meu de infância, jornalista, me perguntou, com o dedo em riste, se o Lula era corrupto e eu, sabendo com quem estava falando, respondi que sim. Aí ele perguntou se lugar de corrupto era na cadeia, e eu respondi que sim. Depois, quando ele baixou o dedo e sossegou, acrescentei – “Mas o Lula não está preso por corrupção, está preso para não participar das eleições. Se fossem prender todos os políticos corruptos, não iria sobrar um.” Meu ex-amigo, olhando para mim com cara de asco, disse que conhecia todo o processo do Lula, nas minúcias, com ares de quem conhecia até a cor das ceroulas do tal fidedigno juiz anticorrupção. Triplex no Guarujá, sítio em Atibaia, merrecas! A Dilma e o Lula são ladrões mesmo, querem roubar as regalias das elites encasteladas em sua cultura do privilégio. Oxalá, assim seja…
Contudo, a corrupção não é prerrogativa exclusiva dos governos e dos políticos. Atinge também as empresas privadas, instituições filantrópicas, igrejas e pessoas físicas. Um amigo meu foi recentemente reintegrado pela Justiça do Trabalho numa empresa de grande porte. A firma apresentou à justiça valores subestimados de salários e valores superestimados de juros, de forma a “economizar” o recolhimento de INSS do empregador. E, como o funcionário iria se beneficiar recolhendo imposto de renda somente sobre os salários subestimados, a empresa ainda descontou essa “economia” para si, para não favorecer o empregado. Fiquei estarrecido com a ousadia da instituição de se expor a crime contra a Previdência Social e a Receita Federal, mas uma amiga comum, que é incapaz sequer de pensar em cobiçar o que lhe é alheio, quando soube, achou muito divertida a postura da espertinha direção da empresa acima de qualquer suspeita. Um amigo, Juiz do Trabalho, comentou que fraudar o sistema previdenciário e a arrecadação fiscal é um comportamento usual, mesmo entre instituições filantrópicas.
Falando em justiça, e essa coisa chamada de delação premiada, o que significa? Delatar é um comportamento abominável em si só – premiá-la, então? Para se beneficiar, ganhar favores com o beneplácito do Ministério Público? Como é que a justiça pode incentivar uma conduta indecorosa como essa? Eu nem acredito que corretivos funcionem, mas, por mim, a pena de criminosos delatores deveria era ser alongada. Eu que me recusei a entregar companheiros, até sob tortura…
Conheci um empresário que deu um tombo num banco estatal no valor de R$3 milhões. Quando foi processado por inadimplência, disse que sua dívida era tão somente de dois milhões e setecentos mil, porque trezentos mil ele teve que dar para o gerente aprovar o financiamento do banco para sua empresa, que não tinha condição alguma de ser aprovada em qualquer avaliação de risco. Delatou o gerente que lhe “fez o favor”, embora não fosse devolver ao banco nem os três, nem os dois e setecentos.
Nota: tudo isso é invenção – a vida é uma ficção!
Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos.

