COPA DO MUNDO

A Azzurra de Mussolini

A preocupação com a aprovação popular, somada aos recorrentes escândalos políticos, impunha ao regime fascista a necessidade de recuperar sua imagem perante a população italiana e a comunidade internacional

Nos anos de 1934 e 1938, foram realizadas a segunda e a terceira edições da Copa do Mundo organizada pela FIFA. Nessas competições, a Squadra Azzurra sagrou-se bicampeã mundial, consolidando seu lugar na história do esporte. Depois de uma apoteótica seleção uruguaia de futebol, vencedora da primeira edição do torneio em 1930 e bi-campeã olímpica em 1924 e 1928, era a vez degli azzurri assumir o protagonismo. Todavia, o torneio não ficou marcado pelos belos lances e gols memoráveis, mas pela tensão política e diplomática que vivia o mundo sob influência de líderes totalitários e autoritários, tendo papel central Benito Mussolini, o Duce italiano.

A Copa do Mundo é amplamente considerada como o maior e mais assistido evento esportivo do planeta, até mesmo mais que os Jogos Olímpicos, tendo impacto econômico e social global. Atualmente conta com a participação de 48 seleções. Em 1934, a Itália foi sede do torneio. Benito Mussolini empenhou-se na candidatura italiana no intuito de trazer os holofotes para si e provar a superioridade do fascismo italiano. Para tal empreitada, nomeou o general Giorgio Vaccaro no intuito de negociar com a FIFA, garantindo um investimento de pelo menos 3 milhões de liras no torneio. Curiosamente, a seleção uruguaia, campeã e sede de 1930, em protesto pela recusa na participação de várias seleções europeias naquela edição, optou em não participar, o que até os dias de hoje é um fato singular. Coube às seleções da Itália, Espanha e Áustria dividirem o favoritismo daquele campeonato, que contava com apenas dois países sul-americanos – Brasil e Argentina, o Egito – representando o continente africano, e os restantes europeus, totalizando 12 seleções. Com a aprovação da FIFA, a Itália seria a sede do torneio.

Foto: Domínio público

Benito Mussolini buscou popularizar o futebol na Itália através da Copa do Mundo, no intuito de propagar o regime fascista e ganhar o apreço popular e mundial. Outro fato curioso é que o esporte mais prestigiado e acompanhado pelos italianos não era o futebol, mas o ciclismo. Para isso, o partido fascista se utiliza do discurso que o futebol seria um esporte mais democrático e possível de ser praticado em comparação ao ciclismo, abrindo as portas para que a massa se interessasse em praticar e acompanhar o esporte. A preocupação com a aprovação popular, somada aos recorrentes escândalos políticos, impunha ao regime fascista a necessidade de recuperar sua imagem perante a população italiana e a comunidade internacional. Nesse contexto, o futebol, por meio da realização da Copa do Mundo, foi escolhido como um importante instrumento para projetar uma imagem positiva do regime e fortalecer sua legitimidade.

Embora seu nome não figure entre os membros do Partido Fascista, o craque italiano Giuseppe Meazza, principal destaque da seleção campeã de 1934, teve sua imagem frequentemente associada ao regime. Durante todos os jogos da Copa do Mundo de 1934, realizou a chamada “saudação romana”, gesto adotado pelo fascismo que consistia em erguer o braço direito à frente, com a palma da mão voltada para baixo e os dedos estendidos.

Na Copa do Mundo de 1938, disputada na França, Meazza voltou a realizar a saudação fascista antes e depois de erguer a Taça Jules Rimet, conquistada pela Seleção Italiana após a vitória na final do torneio. Esse episódio evidencia a estreita associação simbólica entre o principal ídolo do futebol italiano e o regime autoritário liderado por Benito Mussolini, revelando a utilização do esporte como instrumento de propaganda político-ideológica.

Mussolini é frequentemente apontado como um dos primeiros líderes políticos a explorar sistematicamente o esporte como ferramenta de propaganda e de legitimação de seu regime. Essa estratégia seria posteriormente adotada por outros governos autoritários, como o de Adolf Hitler na Alemanha nazista e, em diferentes contextos históricos, pelas ditaduras de Augusto Pinochet, no Chile, e do regime militar brasileiro, durante o governo de Emílio Garrastazu Médici.

Squadra Azzurra ou Camicie Nere?

Um fato que muitos se perguntam é o motivo pelo qual a seleção italiana joga com uniformes azul e branco, diferente das cores utilizadas em sua bandeira nacional. A cor remonta a Casa de Savóia, família real que liderou a unificação italiana no século XIX e governou o país até 1946. A escolha pelo Azzurro Savoia se deu por três motivos: era um símbolo de realeza, pois o azul era a cor oficial e dinástica da família, sendo adotado nos uniformes esportivos a partir de 1911, substituindo as camisas brancas originais; por tradição católica, pois o tom de azul faz referência ao manto azul da Virgem Maria em sua iconografia, símbolo de devoção da monarquia; como identidade nacional, pois o azul tornou-se a maior identidade esportiva do país.

Mussolini, tendo por intenção ligar a identidade da seleção italiana ao regime fascista, buscou também relacionar sua identidade visual, deixando semelhante seu uniforme ao usado pelas milícias fascistas, os “camisas negras”, impondo cor ao segundo uniforme da esquadra. O fascio, símbolo do fascismo, fora incorporado ao uniforme da seleção, figurando junto com o símbolo da Casa de Saboia nas camisas e, além disso, na Copa de 1938, a equipe usou uniformes inteiramente pretos. Somente com a morte do ditador fascista e com o fim da Segunda Guerra foi retirada a cor de seus uniformes, retornando o tradicional azul.

A mensagem de Mussolini era clara: assim como os camicie nere, a squadra azzurra não via o outro como adversário, mas como inimigo, podendo se utilizar da violência como modo de se alcançar a vitória. Exemplo disso foi a própria mudança de postura de Meazza durante esse período, se adaptando ao projeto do técnico Vittorio Pozzo: Meazza era classudo, um elegante jogador, mas se adequava ao sistema violento para jogar na seleção. O grande exemplo foi a semifinal da Copa de 1934, vencida pela Itália contra a Espanha pelo placar de 1-0, onde os italianos foram tão violentos, que, pelo menos, três jogadores espanhóis tiveram que deixar o campo machucados. Existia, portanto, uma simbologia explícita: a esquadra italiana, dentro de campo, era a representação desportiva dos camisas negras fascistas e, consequentemente, do fascismo.

“Eles vão arcar com as consequências”.

Reza a lenda que antes de um comício, um pouco antes da Squadra estrear na Copa de 1934, o Duce teria ameaçado discretamente os jogadores lembrando que a participação italiana seria algo muito bom, principalmente às suas vidas. Do mesmo modo, na final do torneio contra a Tchecoslováquia, Mussolini, que estava no Estádio, afirmou que os italianos garantiriam o máximo em campo, ou “arcariam com as consequências”.

Na Copa de 1938, sediada na França, às vésperas do estouro da Segunda Guerra Mundial, a Itália viajou para defender seu título e se tornar, até então, a maior vencedora da Copa do Mundo. Há registros históricos que relatam novas ameaças, como o do famoso caso do telegrama, direcionado aos jogadores, contendo a mensagem “vencer ou morrer”, como forma de garantir que dessem suas vidas pelo bicampeonato. Com a vitória na final por 4-2 contra a Hungria, em Paris, a seleção italiana manteve seu campeonato – e a vida de seus jogadores. Mussolini, além de instrumentalizar o esporte com fins de propaganda fascista, assumia em seu devaneio a posse da seleção italiana, através de sua marionete Vittorio Pozzo, e a Azzurra simbolizava a realização ideológica e política do fascismo.

O que restou?

Com o fim da Segunda Guerra, a morte de Mussolini e a queda do fascismo, foi expurgado o preto do uso de uniformes da seleção principal. O símbolo da Casa de Savóia deu lugar ao escudo da federação italiana de futebol. A Copa do Mundo só retornaria em 1950, com sede no Brasil, 12 anos após sua última edição. A Itália, que viria como bicampeã mundial, foi eliminada no estádio do Pacaembu contra a Suécia. Outro fator que marcou profundamente a pífia participação da azzurra naquela Copa: o acidente aéreo fatal envolvendo a equipe do Torino um ano antes, em 1949, conhecido como “Tragédia de Superga”, que fez perder grande parte daquela geração de ouro.

A Itália foi mais duas vezes campeã: 1982, marcado na memória dos brasileiros pela atuação apoteótica de Paolo Rossi, no 3×2 contra o Brasil, conhecido como “Tragédia de Sarriá”, e em 2006, com a geração de ouro liderada por Totti, Pirlo, Buffon e Cannavaro – eleito melhor jogador do mundo naquele ano.

Lamentavelmente a Squadra Azzurra vive uma era difícil, marcada pela não participação nas últimas três Copas do Mundo. Há quem diga que hoje pagam pelo carma dos anos de investimento ideológico no esporte por Mussolini. Fato é que seu uniforme na cor preta causa repulsa até os dias atuais, nem sendo mencionado ou uma possível releitura “retrô”. Algumas coisas precisam ser expurgadas da história, realmente.

 

Railson Barboza é doutor em Política Social (UFF) e Bacharel em Filosofia (PUC-Rio)]. Imortal da Academia Fluminense de Letras.

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