A biodiversidade é de comer? - Le Monde Diplomatique Brasil

MONOTONIA ALIMENTAR

A biodiversidade é de comer?

por Terena Castro e Raisa Pina
23 de maio de 2022
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A falta de diversidade de alimentos em nosso prato imposta pelo atual sistema alimentar também condiciona a homogeneização das paisagens. A soja, por exemplo, um ingrediente cada vez mais presente nos produtos alimentícios, segue ocupando áreas que uma vez já foram Cerrado nativo e biodiverso.

O Brasil e suas dimensões continentais abrigam a savana mais biodiversa do mundo, o Cerrado. O bioma está presente em 11 estados, além do Distrito Federal, ocupando cerca de 24% do território nacional. Essa área equivale à extensão dos países Portugal, Espanha, França e Itália juntos, sendo habitada por, pelo menos, 25 milhões de pessoas. Parte dessas pessoas constituem mais de 2 mil comunidades tradicionais de geraizeiros, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, indígenas etc, responsáveis pela manutenção de culturas e tradições ancestrais, além da conservação da natureza. Ao lado dessa riqueza cultural, coexistem centenas de espécies de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes, além de milhares de espécies de plantas, das quais boa parte só pode ser encontrada em suas paisagens.

Com tanta biodiversidade, fica a pergunta: diante do aumento dos casos de fome no país, alguma coisa dessa riqueza natural é de comer? Cadê o Cerrado no meu prato?

Gueroba, coquinho-azedo, baru, cagaita, araticum, buriti, jatobá, pequi, mangaba, babaçu são alguns exemplos de espécies do Cerrado que estão (ou já estiveram em algum momento) presentes no prato dos cerratenses. Contudo, a monotonia alimentar provocada, sobretudo, pela hegemonia da indústria alimentícia nas últimas décadas, vem ofuscando tanta diversidade.

A perda da variabilidade genética de espécies alimentícias é um fenômeno que ganha cada vez mais intensidade. Enquanto no início do século XX havia o registro de 307 variedades de milho utilizadas para alimentação no mundo, em um período de 80 anos esse número passou a ser de apenas 12 variedades.  Sabe-se hoje que somente vinte espécies vegetais são responsáveis pelo fornecimento de 90% dos alimentos consumidos no mundo, sendo que três delas — trigo, milho e arroz — fornecem mais da metade.

A falta de diversidade de alimentos em nosso prato imposta pelo atual sistema alimentar também condiciona a homogeneização das paisagens. A soja, um ingrediente cada vez mais presente nos produtos alimentícios, segue ocupando áreas que uma vez já foram Cerrado nativo e biodiverso. Em 2016, o bioma era responsável por 38,5% de toda a área destinada a uso agrícola do país, considerando o cultivo não apenas da soja, mas de outras commodities como o milho, o algodão e a cana de açúcar. Em 2019 a área destinada apenas ao cultivo da soja no bioma subiu para 18 milhões de hectares, o que equivale a 9% de todo o Cerrado, sendo que a maior parte dessa produção teve como destino a exportação para países estrangeiros.

Há quem comemore esses números, sob afirmação de que refletem o nobre papel do Brasil de ser o celeiro do mundo. Que celeiro é esse que não consegue armazenar nem arroz e feijão para a sua população? O estoque público de feijão mantido pela Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, já está zerado há alguns anos; o de arroz passou de 1 milhão de toneladas em 2010 para 21 mil toneladas em 2020, o que equivale a 0,2% do consumo anual brasileiro.

Um dos fatores que contribui para a diminuição da disponibilidade desses alimentos básicos é a redução da área utilizada para a sua produção. De acordo com a Conab, a área plantada com feijão passou de 4.288 hectares de 2003/04, para 2.927 ha de 2019/20; para o arroz, no mesmo período, a área passou de 3.654 ha para 1.666 ha. Ou seja: a soja está tirando do prato dos brasileiros não apenas a riqueza da biodiversidade local, mas também atacando a base comum da alimentação nacional. Há menos arroz e feijão hoje porque a terra tem sido destinada para soja que alimenta estrangeiros e animais.

alimentos
Área de cerrado desmatada para plantio no município de Alto Paraíso (GO).(Créditos: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Medidas como manutenção de estoques públicos de alimentos e incentivo à produção de diversidade alimentar são exemplos de políticas públicas de garantia de segurança alimentar e nutricional e do direito humano à alimentação adequada que vêm sendo destruídas, ano após ano. Em menos de uma década, o Brasil, que havia saído do mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2014, por ter menos de 5% da sua população em estado de subalimentação, voltou a ser um dos países com mais pessoas passando fome no mundo.

Em 2021, 117 milhões de pessoas se encontravam em situação de insegurança alimentar no país, o que representa 55% da população brasileira. Dessas, 19 milhões se encontravam em situação de insegurança alimentar grave. Os números são preocupantes e desumanos, ainda mais com quintais nativos tão diversos.

A biodiversidade do Cerrado tem um papel muito importante a cumprir na jornada que se apresenta de zerar a fome no país. Pesquisas recentes destacam o alto valor nutricional de diversos alimentos presentes no bioma, e ainda assim, esses alimentos seguem pouco divulgados. Algumas políticas públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), incentiva a aquisição para os estudantes das escolas públicas, de alimentos produzidos localmente e que estejam de acordo com a cultura, as tradições e os hábitos alimentares. Entretanto, as barreiras para a inserção desses alimentos em circuitos comerciais são grandes.

Atualmente, tramita na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados um projeto de lei para instituir a Política Nacional para manejo sustentável dos frutos e produtos nativos do Cerrado (PL 1970/2019). Essa é uma iniciativa que pode impulsionar a produção e o consumo dos produtos do Cerrado, contribuindo para a redução da fome no país. A aprovação da matéria representaria um esforço do poder público para alimentar melhor sua população.

Quem produz a diversidade alimentar para o povo brasileiro é a agricultura familiar, os povos e as comunidades tradicionais que, apesar de não possuírem os mesmos subsídios dados à agricultura de larga escala, são cobrados da mesma maneira na hora de cumprir normas sanitárias para o beneficiamento de produtos in natura nas agroindústrias. A simplificação dessas normas para esse público é bem-vinda, ainda mais considerando que poderia beneficiar tanto quem produz, quanto quem está com fome, a consumir alimentos mais saudáveis.

O Dia Mundial da Biodiversidade foi celebrado no dia 22 de maio, que o poder público e a sociedade possam não apenas celebrar e homenagear a riqueza natural do Cerrado e dos outros biomas brasileiros, mas principalmente que seja uma data de reflexão sobre o país que se quer construir. Não é possível ter gente passando fome em uma terra tão farta. Como diz o verso conhecido de Caetano Veloso, gente é feita para brilhar, não para morrer de fome.

 

Terena Castro é Engenheira florestal (USP), doutora em Política Social (UnB) e assessora técnica do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN).

Raisa Pina é doutoranda em Antropologia Social (UnB) e assessora do ISPN.



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