A busca pela verdade deve ser feita no processo histórico

Em tempos de ascensão da mentira

A busca pela verdade deve ser feita no processo histórico

por Maiara Marinho
23 de abril de 2021
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A busca pela verdade deve estar acompanhada de um método de análise histórica, que compreenda os agentes e suas narrativas, quais disputas estão em jogo enquanto as mentiras são formuladas e que tipo de interesses elas estão atacando ou defendendo

O conceito de ‘verdade’ está bastante presente em nosso cotidiano. A crítica literária estadunidense Michiko Kakutani identifica a morte da verdade em parte pelo pensamento pós-moderno que nega “a existência de uma realidade objetiva”[1]. Em “A morte da verdade”, a autora demonstra como o discurso da direita que elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos foi construído sob as bases da relativização reconhecendo a verdade como algo inatingível. Mesmo com pesquisas científicas, dados e teorias consistentes sobre a realidade, a ideia de que tudo é uma questão de interpretação se solidificou na opinião pública e criou uma ambiência de que a realidade é aquilo o que cada indivíduo, individualmente, vê. Karl Marx adverte, em “A ideologia alemã”, que não é a teoria que faz a realidade, mas o contrário. Ademais, que a história é dialética e, portanto, se movimenta; “por um lado ela continua a atividade anterior sob condições totalmente alteradas e, por outro, modifica com uma atividade completamente diferente as antigas condições”[2]. Dessa maneira, conhecer a verdade implica em conhecer a história das coisas. Isto não quer dizer ter conhecimento de tudo, mas “conferir anterioridade ao objeto”[3], compreender a unidade e alcançar a verdade a partir do processo histórico.

É importante ressaltar que, se por um lado faz-se a crítica ao pensamento pós-moderno por compreender a verdade como algo inatingível, por outro lado, para a verdade dialética, definir a verdade como algo estático é decretar o fim da história. Para este último, a verdade existe, porém vista sob as lentes das transformações históricas. Isto implica em analisar, em cada período histórico, as relações entre os agentes da sociedade civil, política e o Estado, que representa a estrutura econômica. Parece uma tarefa árdua, por isso registrar a história e garantir a memória dos acontecimentos é fundamental.

Nesse sentido, as agências de fact-checking têm feito um trabalho minucioso de checagem de informações garantindo o acesso à verdade. A campanha eleitoral de 2018 foi um marco de disparos de informações falsas tornando o whatsapp um veículo de transmissão de notícias (não verdadeiras).

“Eu não acredito que estamos marchando por fatos” (Crédito: Unsplash)

Chegamos até esse contexto de relativização da verdade por consequência de uma série de fatores: a própria crise do capitalismo que escancara uma série de contradições e põe a sua própria verdade à prova, o avanço do pensamento pós-moderno relativista, a atuação consistente e duradoura da imprensa na elaboração de narrativas convictas de que as reformas neoliberais tirariam o Brasil da crise econômica, entre outros. A batalha em defesa da verdade exige uma atuação responsável com a informação, mas, como bem pontua o jornalista britânico Matthew D’Ancona, “é ingênuo pensar que a batalha contra pós-verdade será ganha recorrendo unicamente a técnicas de verificação rotineiras”[4]. Ou seja, é preciso conferir anterioridade ao objeto verificado.

Segundo o filósofo Mikhail Bakhtin, não sobra nada ao privar a consciência do conteúdo ideológico. O mesmo ocorre com a fala. Em outras palavras, analisar o conteúdo de um argumento de maneira isolada do caráter ideológico é não chegar, no fim das contas, a lugar algum. Dito isto, podemos constatar que, no que diz respeito à narrativa sobre a realidade, e considerando que as instituições que emitem opinião e são responsáveis pelas bases que formulam a opinião pública, embora ela também tenha vida própria, a narrativa que alçou discursos de ódio e elegeu presidentes negacionistas foi uma narrativa em defesa do capitalismo em seu estágio de crise.

Contudo, essa narrativa também não foi construída com a palavra como algo isolado e neutro. Nela, além das afirmações falsas sobre geração de emprego a partir do avanço da reforma trabalhista, para citar um exemplo, também esteve inserida a tentativa de criação de um inimigo público e, a seguir, soluções simples para tornar ascendente outra vez a taxa de lucro do capital. A verdade é que se a verdade vier à tona, o capitalismo terá um desafio enorme para manter sua hegemonia. Por esse motivo, as instituições responsáveis pela formulação de sentidos da realidade apresentam-na de maneira distorcida a fim de consolidar consensos em defesa do sistema econômico.

Os avanços sociais pós-FHC foram bastante significativos. O capitalismo brasileiro seguia o exemplo dos demais países mantendo uma relação amigável com algumas pautas sociais. Ou, em outras palavras, buscou manter sua hegemonia cedendo espaço. De toda forma, não tardou muito para que a verdade viesse à tona. Bastou o estouro da crise econômica em 2008 para que as mulheres, negros, indígenas, trabalhadores, tivessem ameaçados os poucos, ainda que significativos, direitos conquistados. Com isso, os governos petistas, ainda que com uma política conciliatória que favoreceu muito os bancos e a imprensa, não apresentaram uma abertura para reformas mais duras da maneira como a elite brasileira esperava. Sendo assim, a criminalização dos movimentos sociais foi reforçada nas narrativas que buscavam relatar e explicar as jornadas de junho de 2013 por alguns veículos da imprensa profissional. A narrativa do ódio converteu-se em um sentimento nacional antipetista reforçado na campanha política de Jair Bolsonaro (sem partido) em 2018.

Hoje a crise econômica está mais acentuada devido à crise sanitária. Cerca de 27 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), e o novo auxílio emergencial oferecido pelo governo está entre R$150 e R$375. Enquanto isso, o Brasil tem 11 novos bilionários segundo a lista da Forbes. Apesar de já somar mais de 350 mil mortes, muitas delas evitáveis, por Covid-19, com mais de 4 mil óbitos por dia, 111 pedidos de impeachment de Bolsonaro, somente nas últimas semanas o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as ações do presidente durante a pandemia. Tudo porque a verdade tem sido omitida e a realidade falseada para manter um sistema econômico que está destruindo o planeta, um sistema insustentável para a vida humana.

Para apreender a verdade a partir do processo histórico é preciso que ela seja apresentada de tal forma, com unicidade às ações e demonstrando de que maneiras as ações dialogam entre si e os desfechos que determinam. Seria simplista afirmar que há uma coerência harmônica nos acontecimentos e em suas consequências, pois os interesses são diversos e mesmo grupos com interesses em comum possuem divergências internas na condução das ações necessárias para se alcançar um determinado objetivo. Contudo, visto que a contradição e as divergências não significam falsidade, até mesmo elas devem ser consideradas na verificação da realidade. Esta é uma tarefa de profissionais da comunicação, historiadores e intelectuais de maneira geral; trazer memória à realidade e dar sentido aos acontecimentos.

Considerando todos esses aspectos, conclui-se que a busca pela verdade deve estar acompanhada de um método de análise histórica, que compreenda os agentes e suas narrativas, quais disputas estão em jogo enquanto as mentiras são formuladas e que tipo de interesses elas estão atacando ou defendendo. Desvendar a verdade, ainda que de um fato muito específico, implica em desvendar a história. Ademais, a batalha contra a pós-verdade pode resultar em uma recolocação das teorias e do pensamento, reposicionando a teoria crítica materialista e dialética no centro dos debates.

 

Maiara Marinho é jornalista e mestra em Comunicação e Cultura (UFRJ).

[1]  KAKUTANI, M. A morte da verdade.Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.

[2]  MARX, K. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 40.

[3] LEFEBVRE, H.; GUTERMAN, N. In: Vladímir Ilitch Lênin: Cadernos FIlosóficos. São Paulo: Boitempo, 2018.

[4] D’ANCONA, M. Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news. Barueri: Faro Editorial, 2018. p. 113.



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