Pt or no PT: o antipetismo como valor simbólico de classe

PT or not PT

O antipetismo como valor simbólico de classe

por Victor Moreto
14 de dezembro de 2020
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A questão não passa pelo binarismo de ser ou não ser do PT. Não se trata da instituição, não se trata do Partido dos Trabalhadores, mas do adjetivo criado por bolsonaristas e neoliberais para definir tudo aquilo que não é patriarcado nem estado-mínimo: o “petista”

Não há saída possível contra o domínio da extrema-direita e da direita no Brasil que não envolva o Partido dos Trabalhadores. O PT como instituição e necessariamente como protagonista das articulações políticas no espectro nacional? Não. O PT, como uma ideia ou como símbolo do que representa o campo popular progressista.

Desde 2016, há uma narrativa de articulistas políticos liberais da grande mídia brasileira, endossada por muitos militantes e quadros importantes da esquerda nacional, que diz basicamente  que “precisamos nos livrar do PT porque o antipetismo é muito forte”. Realmente, como a estratégia do consórcio midiático-judicial de demonizar o PT funcionou, faria sentido sacrificar o partido para reerguer uma possibilidade de esquerda no país.

A princípio, faz sentido esta ideia. É sedutor resetar o jogo e começar do zero, com novos atores e novas roupas para se tentar recuperar parte de um eleitorado que seguiu com o centro ou com o centrão que, falemos abertamente, representam nada mais, nada menos, do que a velha direita brasileira.

Homem com bandeira do PT (Lula Marques/Agência PT)

Acontece que esta ideia revela um problema sutil e fundamental: o antipetismo não é só contra o PT, é também contra o PSOL, negras, negros, mulheres, aborto legal, população LGBTQIA+, quilombolas, candomblecistas,  socialistas, direitos humanos, comunistas e qualquer forma de representação simbólica que não seja a do “cidadão de bem”.

A figura do cidadão de bem é algo construído há décadas por um status quo que defende uma inexistente neutralidade política. A mesma neutralidade que vende o editorial do Globo/Folha/Estadão/Veja chamando de extremos Bolsonaro, Boulos e Lula, mas que vê com naturalidade (neutralidade) Doria, Covas, Maguito Vilela e Sebastião Melo.

A neutralidade não é um fato, é um projeto de discurso. O “político razoável” vem dos mesmos criadores do “ser apolítico”: uma construção ideológica. O razoável – ou o possível – para a ideologia diária construída por uma mídia hegemônica que, de certa forma, pautou o pensamento não só da classe média, mas também o das classes populares, é o de ser a favor de um Estado mínimo, de uma regulação quase nula da economia e de uma defesa incansável da meritocracia como valor basal.

Moral e bons costumes

É na seara da pauta moral que divergem extrema-direita e direita. O bolsonarismo não permite a cultura negra, a mulher dona do próprio corpo e o casamento LGBT; a direita liberal, sim. Claro, a direita liberal aceita se o negro, a mulher ou as gays forem condizentes aos modos de brancos e ricos.

E essa direita liberal, que é dona dos grandes negócios do país por herança familiar – sem nenhuma meritocracia em quase a totalidade dos casos, diga-se de passagem – precisa do maior mercado consumidor possível. E por isso todas as minorias que os bolsonaristas querem enviar para o exílio ou para o extermínio servem como mercado de consumo para um empresário médio.

O discurso do “cidadão de bem”, alimentado pelo Guga Chacra, pela Miriam Leitão e pelo Merval Pereira não é exatamente o mesmo do que é alardeado pelo Silas Malafaia, o Datena e o Olavo de Carvalho, mas em um ponto eles convergem: o neoliberalismo como valor inequívoco.

O razoável – e aí concordam Amoedo, Bonner e Bolsonaro – é que o Estado seja fraco e os serviços essenciais, como saúde, trabalho e educação, passem para a mão da iniciativa privada. Não importa que a grande maioria da população não tenha acesso a nenhum desses bens, como o que ocorre em todo paraíso neoliberal: miséria, condições precárias de emprego e assistência médica praticamente inexistente.

O neoliberalismo é a barbárie da era contemporânea. Esse é o extremismo. E no campo neoliberal, hoje em dia, convergem todas essas siglas: PP, PSD, PSL, PL, Avante, MDB, PSDB, DEM, PROS, Cidadania, Podemos, Republicanos, PSC, Solidariedade, PV, Patriotas, Novo, DC, PMN, PTC, PMB e PRTB.

Se somarmos todas e todos os vereadoras eleitos em 2020, em um total de 58.043, esse grande grupo soma 47.981, ou aproximadamente 83%. No campo progressista, considerando PT, PSOL, PCdoB, PDT, PSB e REDE, chegamos a 10.062 vereadoras e vereadores, aproximadamente 17%. [1]

Claro que esse é um dado de análise generalizante que não leva em conta as particularidades presentes em cada município do país. Não precisamos falar de uma cidadezinha do interior, basta falar do município do Rio de Janeiro, por exemplo. Em uma análise fria, para quem não sabe de nada do que ocorre entre a população carioca, a vitória de Eduardo Paes seria simplesmente a vitória do conservador DEM.

Porém, basta um passo atrás, em 2016, quando Marcelo Crivella (REP) – um fundamentalista religioso do tipo mais agressivo – fora eleito e, mais recentemente, cerrado fileiras explícitas com Bolsonaro, para perceber que, neste caso, a derrota contundente de Crivella, no berço do bolsonarismo, salta mais aos olhos do que a vitória de seu oponente.

Por outro lado, a vitória do PSB – ainda dentro do espectro progressista – em cidades como Recife, onde João Campos representa a oligarquia política que se faz mais próxima à direita neoliberal do que à esquerda, mostra que, sim, esses dados flutuam para ambos os lados. Basta lembrar que a bancada do PSB votou a favor do golpe de Dilma Rousseff e a ala pernambucana do partido endossou efusivamente a candidatura de Aécio Neves, incluindo um João Campos sorridente no palanque do tucano.

Sem contar que, no segundo turno das eleições municipais de 2020, a campanha contra Marília Arraes (PT) se deu nos mesmíssimos moldes da extrema-direita: panfletos e inserções apócrifas classificando-a de “aborteira”, a favor da “ideologia de gênero”, doutrinadora ideológica etc. Os “kit gay” e as mamadeiras fálicas voltaram com tudo e, ao que parece, com sucesso. Detalhe: não pelas mãos de bolsonaristas clássicos.

Muitos analistas políticos sustentam que as eleições municipais são muito diferentes da nacional. Pode ser. Isso, de alguma maneira, se verifica. No entanto, ao se comparar o mapa da votação na cidade de São Paulo, por exemplo, podemos perceber que a vitória, no segundo turno, de Bruno Covas (PSDB), por 59,38% contra 40,62% de Guilherme Boulos (PSOL), foi praticamente a mesma, nas mesmas zonas eleitorais, onde Jair Bolsonaro venceu por 60,38% contra 39,62% de Fernando Haddad, em 2018.

E aí voltamos ao “antipetismo”. Onde ele está? Alguns poderiam argumentar que o “petismo” colou no PSOL. E é verdade. Mas, de novo, o “petismo” como aspecto simbólico da esquerda colará sempre em quem se apresentar… como esquerda! Ou seja: por mais que alguns pessolistas tentem se dissociar do PT como o diabo foge da cruz, o eleitor médio não o vê com tanta diferença.

Outro argumento defendido por uma ala da esquerda é que o PT estagnou pelas denúncias de corrupção. Esse é o argumento vigente em grande parte do PDT até setores do PSOL: uma parte da classe média preocupada em se sair bem diante da opinião pública da sua própria classe acadêmica e intelectualizada.

Se o discurso da corrupção, única e simplesmente ele, fosse determinante para a derrocada de um partido, não teríamos o PP como o mais vitorioso dessas eleições. O partido de Paulo Maluf, maior envolvido no “mensalão” e na Lava Jato, passou de 495 prefeituras, em 2016, para 685, em 2020. Em números de vereadores, foi de 4.743 para 6.346 nessas eleições, um aumento de 34%.

O  discurso anticorrupção sempre funcionou e sempre vai funcionar contra quem representar uma opção progressista na história. Ele é primo-irmão do antipetismo: não é contra o PT, é contra a esquerda. Foi assim em 1950, no segundo mandato de Getúlio Vargas; em 1964, com João Goulart e a instauração da ditadura militar; em 1982, com Leonel Brizola no governo do Rio de Janeiro; em 2016, no golpe contra Dilma; e em 2017, na prisão de Lula.

Nunca importaram de fato as denúncias de compra da reeleição por Fernando Henrique Cardoso – com cifra de R$ 200 mil já alardeada aos quatro ventos -, nem a privatização de grandes empresas nacionais estranhamente a preço de banana, muito menos seu apartamento em Paris.

Importaram, sim, as denúncias contra Fernando Collor por um racha na elite. Não foram os caras pintadas que o retiraram da presidência: foi a pressão de uma velha oligarquia que queria voltar ao seu tradicional poder; movimento que, por vezes, volta a ser ensaiado por parte da classe dominante em relação a Jair Bolsonaro, como aconteceu com Donald Trump nos EUA. A conferir.

Não foram pelos “erros” – e não foram poucos – que o PT paga. Não faria sentido punir um partido votando em outro mais corrupto. O PT paga por um sucesso de um discurso de classe movido tanto pela mídia hegemônica neoliberal, pelos partidos e instituições ultraconservadoras e, pasmem, ajudados por um lacerdismo/udenismo de esquerda.

Quem já fez esse cálculo foi Ciro Gomes. Desde 2018, o primogênito dos Ferreira Gomes percebeu que o caminho mais fácil para se chegar ao Palácio do Planalto é o de se dissociar desse campo progressista minoritário do Brasil, rifando um eleitorado de esquerda, para se apresentar como uma opção viável entre os conservadores e liberais.

Como sabe não ter consenso no eleitorado progressista por pouca base política popular fora do Ceará, melhor apresentar-se como a peça à “esquerda” que falta à concertação nacional outrora apelidada de “somos 70%” para se cacifar como integrante de uma chapa que envolva DEM e PSDB. Recentemente, o próprio Ciro já admitiu isso em entrevista.

É um cálculo razoável e com chances de se viabilizar num segundo turno, compondo forças com Rodrigo Maia (DEM), mídia hegemônica na figura de Luciano Huck e, talvez, João Doria (PSDB), apostando na derrocada de um bolsonarismo em 2022, já que disputará o mesmo eleitorado do campo de centro-direita.

No entanto, para compor com essas forças, terá que deixar de lado seu projeto de nacional desenvolvimentismo e convencer seus seguidores – cada dia mais fidelizados, diga-se de passagem – a aceitar um ajuste de contas com o neoliberalismo.

O movimento de Ciro de se escorar no antipetismo – ele sabe – não é somente o de se distanciar da sigla. É fundamentalmente o de se afastar da esquerda vislumbrando um “mercado” maior, que é justamente o bolsão centro-direitista que sempre dominou o Brasil. Seu próprio núcleo duro mais fiel, PDT e PSB, perdeu 9% e 17% respectivamente em número de vereadores; e passou de 331 (PDT) e 403 (PSB) prefeituras, em 2016, para 314 e 252 em 2020: uma queda de 27%.

Movimento parecido Lula fez em 2002. Mas o cenário era radicalmente diferente: naquela ocasião, estava na bandeja da “concertação nacional”, amparada pelo momento na América Latina, uma ampliação dos direitos humanos bancados pelo Estado.

O que temos, hoje em dia, é uma direita neoliberal impondo sua agenda de destruição de direitos trabalhistas, de saúde e de educação pública diferenciando-se unicamente da extrema-direita pela pauta moral. E não parece nem um pouco disposta a abrir mão disso.

A única solução contra a barbárie neoliberal não é esconder-se no antipetismo. Isso, como já foi provado nessas eleições, só ajuda a consolidar a visão de que a centro-direita é o meio-termo. Quem estiver tranquilo em abrir mão de direitos trabalhistas e do caráter estatal do Banco Central para aparecer bonito no Jornal Nacional, que siga por esse lado.

Nesse campo, estão muitos dentro do próprio PT, capitaneados pelo ex-governador da Bahia, Jacques Wagner, que perdeu todas as eleições no seu estado, diga-se de passagem. Essa ala do PT – e aí falo da instituição em si somente neste parágrafo – que pretende preparar o partido para ser servido como uma via aceitável aos neoliberais, que já vislumbram o fim do bolsonarismo, tende a morrer e a se tornar uma legenda insossa, como o PSB vem se tornando ao se distanciar da rebeldia do legado de Miguel Arraes.

Para o campo progressista, a solução passa pelo contrário: valorizar as bandeiras de esquerda de peito aberto, passar a limpo os seus tabus trazendo a base da sociedade civil, como fez a campanha de Boulos em São Paulo e, mesmo que isso custe uma vitória, consolidar-se como uma alternativa a um projeto de poder que nomeou o “petismo” como entrave tanto para neoliberais, quanto para conservadores.

Não há como se lutar por uma sociedade mais justa tentando combater um preconceito trancando-o no armário ou fazendo questão de se parecer mais palatável ao agressor. Isso só justifica inconscientemente a razão de quem agride. É necessário ter altivez e coragem de se impor e perguntar de frente: “Ei, por que você não gosta de mim”?

A questão não passa pelo binarismo de ser ou não ser do PT. Não se trata da instituição, não se trata do Partido dos Trabalhadores, mas do adjetivo criado por bolsonaristas e neoliberais para definir tudo aquilo que não é patriarcado nem estado-mínimo: o “petista”.

Se tanto direita quanto extrema-direita têm um foco em comum, é a partir dele que devemos lutar. Por isso, não basta não ser antipetista. É necessário ser anti-antipetista.

 

Victor Moreto, graduado em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e doutorando em Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires (UBA).

[1] Acessado em https://resultados.tse.jus.br/oficial/#/eleicao/resultados em 5 de dezembro de 2020



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