A casa no morro - Final - Le Monde Diplomatique

LITERATURA

A casa no morro – Final

por Olivia Maia
30 de maio de 2008
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E eu não tinha uma droga de um par de algemas. Puxei o cadarço do meu
tênis e o usei para amarrar os pulsos de Joana. Apertei o nó com força.
Ela não resistiu. Pareceu-me que estava sorrindoOlivia Maia

O delegado conseguiu os mandados de busca e mandou uma equipe de
investigadores para a casa de Joana, na Freguesia. Da delegacia ao bar
eram algumas quadras e logo Iuri estava estacionando a viatura. No carro
de trás estavam o delegado e o Jaime, um dos investigadores
plantonistas.

“O pai está afundado em dívida”, o escrivão havia nos dito. Motivo o
suficiente? Ainda deixava muito por explicar. Que houvesse as pegadas e
o fio de cabelo. Era coincidência a ser investigada, mas.

Mas era moça tão pequena. Podia ter desarmado homem daquele tamanho?

O bar ficava em uma esquina. Era geminado por um dos lados, mas no outro
havia um muro que dava em uma área descoberta. Havia ali uma porta
estreita. Eram quase cinco horas da tarde e o bar estava todo fechado.

— Ela tem por onde fugir? – o delegado perguntou.

— Ela não vai fugir.

Iuri se adiantou e bateu na porta de aço. O som ecoou no interior do
bar, e acho que ouvi uns passos. Olhei meu parceiro e ele sacudiu a
cabeça.

— Joana! – ele chamou.

Nenhuma resposta. Eram só os ruídos da rua. O trem passou. Tive a
impressão de ouvir o som abafado de uma porta se batendo. Aproximei-me
da porta lateral e medi a altura do muro. Disse que ia subir e Jaime se
ofereceu para me ajudar. O delegado pareceu aborrecido, mas fez apenas
se afastar para perto de Iuri e da porta principal.

— Você vai sozinho? – Jaime perguntou.

— Você consegue subir depois?

– Acho que não tenho apoio. Vou tentar.

Jaime me impulsionou para cima e subi no muro. Aquele pedaço do terreno
era uma espécie de quintal estreito e descoberto. Havia um amontoado de
sacos de lixo e garrafas vazias em um dos cantos. Na parede oposta
alguns produtos de limpeza. A porta para o interior do bar estava
fechada. De um lado dessa porta havia um vitrô alto que devia ser um
banheiro. Do outro era um vitrô mais largo e mais baixo.

Voltei-me para Jaime e fiz um sinal de ok. Pulei para dentro.

Estive parado por algum tempo, tentando escutar qualquer coisa. Mas só
havia o som dos carros nas ruas e o murmúrio da cidade. Um telefone
tocou. O som veio de dentro do bar, alto e estridente.

Contei cinco toques. Então parou.

Se não por ali, Joana não tinha como fugir.

Mas ela podia não estar no bar, e o delegado havia mandado uma viatura
para sua casa.

Pensei em chamá-la. Que eu estava armado, não adiantava fazer graça. Que
só queria conversar. Aproximei-me da porta e testei a maçaneta. A porta
cedeu, e abriu-se uma fresta. Estava escuro do lado de dentro. E eu sem
uma merda de uma lanterna.

Ouvi um barulho atrás de mim. Jaime estava passando por cima do muro.
Pulou para dentro e tirou a arma do coldre. Fez um gesto para que eu
fosse na frente.

— O doutor mandou você não fazer merda.

Parecia-me um exagero. Que Joana houvesse matado Manuel com o revólver
que era dele. Por que acreditar que ela representava qualquer perigo?

Talvez a declaração de amor que Manuel tinha no bolso fosse para ela.
Podia ser? Se não por isso, por que ele se deixaria ser guiado para
outra cidade?

Ou ela havia se oferecido para ajudá-lo a fugir. Qualquer coisa que o
fizesse baixar a guarda. Não fazia sentido que Joana o subjugasse na
força.

— Você tem uma lanterna?

Jaime ergueu as mãos.

— Deve ter uma na viatura.

— E visão com poderes pra enxergar no escuro, você tem?

— Quer que eu vá na frente, Pedro?

— Não.

Tirei a arma da cintura e empurrei a porta com a ponta do cano. A luz de
fora iluminou um pedaço de parede e outra porta. Talvez o banheiro.
Espiei para dentro e vi um armário baixo na parede oposta. Algumas
caixas empilhadas sobre ele. Entrei. Da janela maior entrava uma luz
fraca. Era o suficiente para perceber que estava em outra área estreita,
revestida de azulejos. Ao lado do armário havia duas geladeiras de
cerveja, e na parede da porta, à minha direita, um balcão com um forno
microondas e um forno elétrico.

Seria pretensão chamar aquilo de cozinha.

Voltei-me para minha esquerda e espiei dentro do banheiro. A luz que
vinha de fora bastava para afirmar que estava vazio.

— Acende alguma luz – Jaime falou.

Encontrei um interruptor, mas ele não funcionou.

— Essa merda está queimada – falei.

— A rua tem luz?

— Como é que eu vou saber?

— Ela pode ter desligado a força. O quadro de luz deve ser por aqui.

Em frente do forno elétrico havia uma passagem para o que devia ser a
área principal do bar. Andei até ela e apontei a arma para a escuridão.

De onde eu estava via só uns contornos. O balcão que eu já conhecia. As
quatro mesas e as cadeiras empilhadas sobre elas. A máquina de suco de
laranja e a caixa registradora.

Passou outro trem.

Joana não estava ali. Ou se escondia, e então. Meus olhos demoraram até
se acostumar à falta de luz e dei alguns passos para dentro. Avancei em
direção às mesas. Era difícil distinguir os ruídos da rua de qualquer
coisa que pudesse vir dali de dentro. Talvez Jaime procurando pela droga
do quadro de luz.

Segui pela parede do bar e tentei abrir uma das portas de aço. Estava
muito bem trancada. Também a outra. Aproximei-me do canto direito do
balcão, que ficava quase encostado à outra parede. Alguém poderia se
esconder atrás da máquina de suco.

Merda. Queria sair dali. A busca era inútil e Joana era uma menina
pequena com rosto de quinze anos. Podia matar Manuel? Por uma arma alemã
de 1940?

E.

Não sei bem se ouvi antes o barulho ou se senti o ar se deslocando atrás
de mim. Ou se pensei que fosse Jaime. Mas havia então qualquer coisa
afiada encostada em meu pescoço, e a voz de Joana chegando por trás e
mandando que eu largasse a arma.

Estive paralisado por algum tempo. Pensando que Jaime entraria e daria
um jeito na situação, ou que não seria tão estúpido tentar um movimento
brusco para me livrar daquilo e desarmá-la. Era a lâmina de uma faca
grande e eu conseguia ver a ponta com o canto dos olhos, mal iluminada
com a luz tosca que entrava pela passagem da cozinha.

— Calma, menina.

— Bota essa merda no balcão – ela sussurrou.

— Fica calma. Eu só quero conversar. Não vou te machucar. Eu guardo a
arma, pode ser?

— Larga essa merda. Em cima do balcão.

Ainda quis imaginar um cenário em que eu poderia me desviar e tirar a
faca da mão de Joana. Ou que pudesse me afastar o suficiente para
retomar o controle. Mas que porra ela ia fazer?

Coloquei a arma sobre o balcão e vi que Joana a pegou. Senti o cano da
pistola em minhas costelas e Joana afastou a faca de meu pescoço.

— O que vocês querem aqui?

O lugar pareceu ficar mais escuro e ouvi a voz de Jaime me chamando.
Devia estar parado na frente da luz. Disse que não havia achado o
quadro. Permaneci calado, e Joana me cutucou com a arma.

Jaime quis saber o que estava acontecendo. Não sei se conseguia ver
alguma coisa.

— Ela está armada – falei.

— Calma aí, menina, a gente só quer conversar.

— Mentira – ela respondeu.

— A gente só quer saber o que você foi fazer na casa de Caieiras do
Manuel.

— Não sei de casa nenhuma.

— Claro que sabe. Diz pra mim: quanto é que você calça? Trinta e quatro
é um bom número pra alguém do seu tamanho.

Silêncio. Ouvi Iuri e o delegado conversando. Se entrassem ali a coisa
podia ficar feia. Merda. Quem ela achava que estava enganando? Que se
fizesse de desentendida e pedisse um advogado, não precisava apontar a
minha própria arma nas minhas costas.

— Você pularam o meu muro. Que porra de polícia é essa que vai
invadindo propriedade dos outros?

— A gente chamou. Você não respondeu.

— Eu estava ocupada.

Desligando a luz e se escondendo com uma faca de cozinha?

— A gente tem um mandado.

— Mandado de quê?

— Mandado de busca. Pra arma que você roubou do Manuel.

Ela riu. Espiei a entrada dos fundos com o canto dos olhos, tentando não
mexer muito a cabeça. Consegui distinguir a figura do Jaime, ao lado do
balcão. Ele mantinha as mãos erguidas na frente do corpo, mas a arma
apontava para o chão.

Aquilo não ia acabar bem.

— Não vão achar nada. Eu não roubei nada.

— Então colabora. Solta essa arma, menina, por favor. Isso não está te
ajudando em nada. Devolve ela aqui. Prometo que não vou te machucar.
Vamos conversar. A gente já conversou hoje de manhã, lembra? É só mais
uma conversa.

— Conversa porra nenhuma.

Bom mesmo seria acabar vivo. Se fosse ela quem atirou em Manuel, que
diabos eu podia esperar? Ela já havia disparado um trambolho com o dobro
do peso da arma que tinha nas mãos.

— Por favor, Joana. Prometo que não vou te fazer nada, mas larga essa
merda.

— Não roubei arma nenhuma.

— Eu acredito.

Na verdade havia acabado de roubar a minha arma. E de qualquer forma
isso não era nada bom.

— A gente pode provar que você esteve naquela casa do Manuel. A gente
só quer saber o que você foi fazer lá.

— Não roubei nada.

— Ok. Mas e esses seus machucados nas mãos? Como é que você machucou as
mãos?

— Cavando no meu jardim.

Sem dúvida um jardim que eu não ia querer ter em casa. Respirei fundo,
sentindo aumentar a pressão do cano da arma em minhas costelas.

— A arma do Manuel sumiu, Joana. É uma arma da Segunda Guerra. Dizem
que vale alguma coisa.

Ela riu outra vez. Que cutucasse as unhas com faca. Pouco me importava
sua imprudência quando não era minha 40 apontada para mim. Merda. E ela
estava rindo. Um riso nervoso. Eu sentia a ponta do cano tremer em
minhas costas. Espiei outra vez na direção do Jaime, mas não o vi.

— Não roubei arma nenhuma.

Pensei bem antes de continuar. O quanto fosse possível pensar naquela
situação. Onde diabos estava o Jaime?

— Mas matou o Manuel – falei. – Por quê?

Um silêncio. Não ouvia sequer algum ruído que pudesse me indicar o que
Jaime tinha em mente. Imaginava o dedo de Joana enfiado no gatilho. As
mãozinhas imprudentes que gostam de brincar com facas e armas de fogo.

— A gente sabe o que aconteceu, Joana. Vai ficar tudo mais fácil se
você colaborar, ok? Solta essa merda. Ninguém vai te fazer nada.

— Ele me atacou.

— O Manuel te atacou? Por quê?

— Ele me atacou.

— Mas ele estava armado?

— Eu tomei o revólver dele. Ele estava bêbado e pronto pra fazer o que
eu mandasse.

— Por quê? O que você fez?

— Ele disse que queria casar comigo.

Isso talvez explicasse a declaração de amor. Mas.

— Por que você levou ele até a casa?

— Ele estava bêbado. Mas depois veio pra cima de mim e eu me defendi. Eu não ia casar com aquele porco.

Ouvi o barulho de uma mesa se arrastando. Joana desencostou a arma de
minhas costas e disparou. Então um grito, e o tempo para que me desse
conta que continuava vivo. O ouvido zunia, mas eu não estava ferido.

— Puta merda! – Jaime gritou.

Virei-me e pulei sobre Joana, e dessa vez a vantagem era minha. Ela
apertou o gatilho outra vez antes de irmos ao chão. Arranquei a arma de
suas mãos e a segurei pelo braço.

Estavam batendo na porta de aço.

— Jaime?

— Merda! Essa vaca me acertou!

E eu não tinha uma droga de um par de algemas. Puxei o cadarço do meu
tênis e o usei para amarrar os pulsos de Joana. Apertei o nó com força.
Ela não resistiu. Pareceu-me que estava sorrindo. Eu estava meio surdo,
e não ouvi quando Iuri e o delegado também pularam o muro e entraram no
bar querendo saber que merda estava acontecendo. Coloquei Joana sentada
no chão e encostada no balcão. Ela me cuspiu na cara.

— Porco.

— Merda, Joana, você tem noção do que acabou de fazer?

Ela deu de ombros. Levantei-me. Quis saber se Jaime ia ficar bem. Ele se
levantou com a mão no ombro e alguns palavrões.

— Porra! Ela me acertou!
— Não foi nada – o delegado disse. – Pegou de raspão.

Meus olhos já estavam acostumados à escuridão, mas aquilo começava a me
irritar. Disse ao delegado e a Iuri que Joana havia confessado o crime.
Que matou Manuel para se defender. O que era, de qualquer forma,
bastante duvidoso. Havia ainda a Luger alemã de 1940.

— Agora a arma, Joana.

Ela riu. Outra vez os olhos de moleque. Que soubesse o que jamais nos
diria.

— Você sabe quanto vale aquilo?

— Mais que aquela merda de carro.

— Sabe?

— Foi o que disseram. Que vale mais que o carro. Mas o carro não deve
valer grande coisa.

— E você espera que a gente acredite nessa história de que ele te
atacou?

Joana afirmou com a cabeça.

— Você não está em posição pra fazer graça, menina – Iuri disse. – Você
matou um homem e feriu um policial com carga da polícia. Onde está a
arma?

– Eu comi.

— A gente sabe das dívidas do seu pai – falei. – Por isso você levou o
Manuel até a casa. Você ajudou ele a fugir e quis a sua parte.

O delegado bufou. Disse que resolvêssemos isso na delegacia. Eles já
tinham o suficiente pra deixar a menina presa. Que depois haveria a
perícia com as confirmações.

— Vamos – o delegado insistiu.

— Vocês podem procurar – Joana disse. – Não vão encontrar arma nenhuma.

Sorriu. E pensei que não havia motivo para tanto sorriso.

— A arma não existe.
— Como?
— Não existe. O filho da puta do Manuel inventou a arma. Ela não
existe.

O delegado se aproximou e lhe apontou um dedo na cara.

— Escuta, menina –

Mas não terminou a frase. Eu havia me virado para ele e não percebi
quando Joana ergueu-se em um pulo, livre das amarras. A luz que vinha da
cozinha se refletiu no que ela segurava. Foi o tempo de me dar conta que
vinha em minha direção com uma faca. Consegui puxar a arma do coldre.
Então um disparo, e ela caiu para trás. Bateu a cabeça no balcão e
deixou a faca lhe escapar das mãos.

Olhei em volta. Não tinha tanta certeza do que havia acontecido. O tiro
não havia partido de mim. Jaime segurava sua arma com uma só mão e ainda
a mantinha apontada na direção de Joana. Um resquício de ódio estampado
nos olhos. Murmurou qualquer coisa, mas eu estava surdo. O delegado
esfregou o rosto.

— Ah, merda.

Depois entendi. Joana havia usado uma faca pequena para se soltar.
Pareceu-me a mesma com que cutucava as unhas. A faca maior – a que
havia usado para me desarmar – estivera todo aquele tempo jogada no
chão, metida sob o balcão. Era um facão enorme e afiado, de cortar
laranjas.

Não saberia dizer o que Joana estava pensando quando pulou sobre mim. Ou
se havia falado a verdade. O tiro de Jaime lhe atingiu no peito e ela
morreu em instantes. Depois a burocracia, e a corregedoria. Rotina. Eles
costumam implicar quando uma menina de um metro e cinqüenta lhe toma a
arma das mãos e atira com ela em um investigador de polícia.

Joana ficou em minha cabeça por alguns dias. Que houvesse levado Manuel
até a casa porque o viu cometer o primeiro crime, e se oferecido para
ajudá-lo a fugir. Foi a explicação que encontrei. Iuri concordou. Mas
não encontramos a Luger. O pai de Joana não sabia de nada e continuava
afundado em dívidas. A esposa de Manuel repetiu o que Jônatas já havia
nos dito: nunca viu arma nenhuma.

Imaginei também que Manuel pudesse ter escondido aquilo muito melhor do
que havíamos pensado. Que a casa era uma desculpa, por



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