A casa no morro - Parte 4 - Le Monde Diplomatique

LITERATURA

A casa no morro – Parte 4

por Olivia Maia
24 de maio de 2008
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Iuri talvez se aborrecesse com minha afirmação. Ele preferia chegar
pelas bordas. Senti que me lançava um de seus olhares de censura, mas eu
estava prestando atenção na reação de Jônatas. O homem não se moveu. Não
havia como ficar mais branco. Porque havia desconfiado do que estava por
virOlivia Maia

— Quem é o infeliz?

— Manuel Silveira Aguiar.

— Esse não era o suspeito?

O delegado havia acabado de chegar. Enfiou um cigarro na boca e sua
última frase saiu quase incompreensível. O perito deu de ombros e lhe
entregou a carteira de identidade do morto. Depois se virou e foi passar
alguma ordem para o fotógrafo.

— É ele – respondi.

O corpo de Manuel ainda estava coberto de terra. Ele era um tipo grande,
e não seria de se espantar que alguma parte ficasse para fora quando
tentassem enterrá-lo. Havia quatro buracos ensangüentados em seu tórax.
Sua camisa talvez houvesse sido verde, e a calça jeans estava laranja. O
casaco se confundia com a terra.

Podia ser pior.

— Pelo menos não está faltando nenhum pedaço – falei.

O delegado me encarou sem tirar o cigarro da boca.

— Vai encontrar o que fazer, Pedro.

Mostrei o que havia descoberto. Próximo à cova rasa havia uma mancha
marrom no chão. Então um rastro que seguia em direção à casa, como se
algo tivesse sido arrastado. Alguém havia tentado apagar o rastro, mas
havia feito um trabalho mal feito.

Andamos até a porta que dava na cozinha. O rastro terminava ali.

— Você acha que o nosso suspeito foi morto aí dentro – o delegado
disse.

— Não. Tem um cachorro morto atrás da porta. Acho que mataram o
cachorro perto da cova e arrastaram pra cá.

— Por quê?

— Porque cavar uma segunda cova pro cachorro daria muito trabalho?

E porque um cachorro morto costuma chamar menos atenção que um homem de
um metro e oitenta com quatro tiros no peito. Era uma questão de lógica.
Dei de ombros.

O delegado não se convenceu. Virou-se e foi conversar com os dois PMs
que estavam parados no meio do terreno. Não havia mais o que ser feito
enquanto o perito e o fotógrafo estivessem fazendo seus trabalhos. Fui
até Iuri. Ele havia se enfiado dentro da viatura e não parecia
interessado em sair dali tão cedo.

– O que você acha? – perguntei.

– Não acho nada.

— Será que alguém seguiu ele até aqui? Alguém que viu ele matando o
outro?

– Por que alguém faria isso?

– Sei lá. Chantagem.

– Não sei se é a melhor das idéias chantagear homem armado.

– Ele estava bêbado.

– Bêbado e armado. O Américo vai demorar?

Américo era o perito. Era um que exagerava no perfeccionismo e levava
duas horas para fazer o que outros fariam em dez minutos. Diziam que os
promotores gostavam dele.

Mas minha paciência era curta.

— Ele sempre demora. Depois ainda vai entrar na casa. Isso vai durar um
dia inteiro.

— O que você sugere, Pedro?

— Estava pensando em descer e conversar com o tal do Jônatas outra vez.

— Pode ser.

Entrei no carro. Iuri bateu a porta e ligou o motor. Espirrou algumas
vezes e disse um palavrão. O delegado nos olhou como quem pede
satisfações. Respondi com um gesto vago que poderia significar qualquer
coisa. Foi o suficiente.

Descemos a estrada de terra.

Jônatas estava sentado na cadeira de praia em frente à borracharia.
Seguiu a viatura com o olhar, e havia em sua expressão algo de
ansiedade. Parecia que se preparava para se levantar a qualquer momento.
Foi o que fez. Eu e Iuri saímos do carro e ele nos encarou, esperando. O
rádio estava desligado e seguiu-se um silêncio. Ouvi uns ruídos
distantes. Talvez fosse a tal fábrica de tijolos.

— Encontraram o Manuel? – perguntou.

— Encontramos.

— Ele se encrencou? Vi os carros passando. E aquela viatura branca.
Polícia científica, não é?

— Escuta – Iuri interrompeu -, o senhor sabe se o Manuel tinha
inimigos? Se devia dinheiro pra alguém?

O rosto vermelho de Jônatas pareceu perder a cor. Ele coçou a barriga e
olhou na direção da casa no morro. Tornou a se sentar. Que então
houvesse se dado conta do que estava acontecendo. Iuri havia se traído
no tempo do verbo, mas talvez fosse pretensão imaginar que aquele
borracheiro perceberia a diferença.

Sacudiu a cabeça em uma negação.

— Manuel coleciona inimigos – disse. – O homem é um furacão. Se olhar
torto ele já quer briga.

– Ontem à noite foi só o carro do Manuel que subiu?

– Foi. E não ouvi descer. Ele está lá, não está?

– Está.

– Mataram o Manuel – falei.

Iuri talvez se aborrecesse com minha afirmação. Ele preferia chegar
pelas bordas. Senti que me lançava um de seus olhares de censura, mas eu
estava prestando atenção na reação de Jônatas. O homem não se moveu. Não
havia como ficar mais branco. Porque havia desconfiado do que estava por
vir.

Fez que concordou com a cabeça, e deixou crescer o silêncio e os ruídos
distantes. Depois quis saber como Manuel havia morrido.

— Baleado.

Ou. Pouco importava. Talvez ainda estivesse vivo quando foi enterrado.
Isso não cabia a nós dizer.

— Não ouvi tiro, ou… Ouvi? Não me lembro. Sempre ouço uns barulhos,
mas como vou saber? Minha audição não é mais a mesma.

— Sabe se o Manuel tinha um cachorro?

— Cachorro? Não sei disso não. Mas… Ele vinha pouco pra cá. O homem
ali da casa no meio da subida que tem uns vira-latas que são sempre
encrenca. Acho que o homem cria eles na corrente. Mas eles escapam. Já
uns três funcionários da fábrica foram mordidos.

— E sabe se o Manuel guardava alguma coisa naquela casa? – Iuri
continuou.

Jônatas franziu a testa e estreitou os olhos. Algo que se assemelhava a
um sorriso tentou se formar em seu rosto. A fama de pavio curto
costumava ser minha, mas era Iuri quem parecia mais impaciente. Fez um
gesto para que o homem respondesse.

— Ah!

— Que porra isso quer dizer? – perguntei.

— O Manuel é cheio das histórias. Diz que tem uma arma, como chama?
Sempre repete. Repetia. Uma arma velha. Alemã. É o que ele dizia.

— Ele guardava uma arma alemã na casa?

— Não é bem uma arma. É um troço que não funciona. Uma arma velha. Diz
que é só raridade. Peça de colecionador. Como era o nome? Lugan, Mugar.

— Luger – Iuri falou.

— Isso. A arma alemã. Dizia que valia muito. Mas ninguém nunca viu arma
nenhuma. Eu nunca vi. Acho que ele inventou.

Lembrei-me de Joana, a dona do bar, resmungando sobre as mentiras de
Manuel. O que sabíamos era isso: um tipo encrenqueiro que falava demais.
Colecionava inimigos e passagens na polícia.

E colecionava armas? Eu não havia encontrado arma nenhuma dentro da casa
abandonada.

Mas as gavetas reviradas.

— O pai era meio passado das idéias – Jonatas continuou -, gostava de
coisa de guerra. Diz que colecionava coisa de guerra. Não sei dizer. Não
entendo de guerra. Sou borracheiro.

* *

Podia ser qualquer um. Bastasse saber que havia essa arma. Peça de
colecionador. Quanto podia valer aquilo? Ou então uma coincidência
infeliz: alguém subiu para furtar a arma, topou com o Manuel. Podia ter
sido o borracheiro gordo.

Subimos para a casa em silêncio. Aproximava-se das três da tarde e
crescia o frio. Não havia vento, mas era o ar seco e gelado. E a poeira
levantada pela viatura na estrada de terra.

Iuri estacionou o carro e descemos. As janelas da casa estavam todas
abertas. O delegado conversava com Américo em frente à porta de entrada,
e o fotógrafo e os PMs não estavam à vista. Perguntei se havia algo
novo.

O perito tirou do bolso do casaco um pedaço de papel metido em um
plástico.

– Isso estava no bolso da vítima.

– Que merda é essa?

– Pareceu uma declaração de amor.

– Tem algum nome? – Iuri perguntou.

– Não. É um troço bem genérico. Parece que ele copiou pedaços de meia
dúzia dos poemas líricos do Camões.

– De quem?

– Camões, Pedro. Porra. O maior poeta da língua port –

Iuri estava segurando o riso. Olhou para Américo e sacudiu a cabeça. Que
me interessava poesia? Ou que a vítima fosse um imitador de poeta? Sabia
que era um bronco com fama de mentiroso. Bastava.

— Ah, vai se foder – o perito completou. – Quer ler?

— Não precisa.

Ele guardou o bilhete e fez um gesto para que o acompanhasse. Meteu o
lápis atrás da orelha e entrou na casa com a prancheta debaixo do braço.
Iuri preferiu ficar do lado de fora com o delegado.

O fotógrafo estava ao fundo da sala, e acenou com a cabeça quando me
viu. Disse a Américo que já podia mexer. Depois entrou na cozinha.

— Espero que tenha encontrado alguma coisa mais interessante que as
minhas pegadas – falei.

Sabia que se irritaria. Américo devolveu um sorriso cínico. A casa
iluminada era ainda mais feia. A tinta nas paredes estava descascando, e
mesmo do lado de dentro havia a poeira laranja que se grudava em tudo. O
pó fazia acreditar que a casa estivesse abandonada havia alguns meses.
No chão, reconheci minhas pegadas pelo formato da sola do tênis. Também
as do perito e do fotógrafo, mais cuidadosas, rodeando o espaço.

E então as pegadas que estavam ali quando entrei pela primeira vez.
Menores.

Menores?

— Pedro.

Américo mostrou a caixa de papelão vazia. Depois apontou a pilha de
papéis e revistas.

— Essas revistas não estão tão empoeiradas – falou. – Não estão jogadas
desse jeito há muito tempo. Acho que estavam guardadas na caixa. Pode
ser que a caixa estivesse em uma das gavetas.

— Então mexeram nisso recentemente.

— É o que parece.

Aproximei-me. Duas das revistas pareciam tratar de armas de guerra.
Armamentos da Segunda Guerra Mundial. Outra era uma revista de banca
sobre armas de fogo. Também uns recortes de jornais. Américo abaixou-se
e pegou uma foto enfiada em um plástico. Parte da foto estava amassada,
mas era possível ver a imagem com alguma clareza. Era uma pistola antiga
com um guarda-mato redondo e o cano fino.

Era, então?

– É uma Luger alemã – Américo falou.

— Como você sabe?

A fotografia devia ser algum pôster de revista e tinha o tamanho de uma
página. Américo colocou a foto em minhas mãos para que eu olhasse o
verso. Ali estavam as informações sobre a imagem. Tratava-se de uma
Luger Parabellum P.08. Semi-automática 9mm. A pistola da foto era de
1940. E seguia um texto longo que não tive paciência para ler. Devolvi a
imagem para Américo.

— Você entende dessas coisas? – perguntei.

— Um pouco.

— Sabe quanto vale uma arma dessas?

— Depende. Se estiver em boas condições pode chegar a mais de mil
dólares. Mas é difícil.

Olhei as revistas e recortes no chão. Algumas coisas estavam rasgadas,
como se pisoteadas.

E se o borracheiro Jônatas tivesse razão? Que não houvesse arma alguma?
Apenas recortes, uma fotografia de revista e a imaginação mirabolante de
Manuel. De um pai meio passado das idéias. Fosse isso algum resquício de
brincadeira infantil.

Ou o assassino havia encontrado a arma e ido embora.

Talvez. Parecia-me estúpido que Manuel fosse guardar uma peça de
colecionador em uma casa velha e abandonada, mas que diabos eu poderia
saber? Há alguma lógica em se guardar as coisas nos lugares menos
óbvios.

– E o que dá pra saber sobre quem entrou aqui? – perguntei.

Américo mostrou as pegadas.

– O sujeito calça 34 ou 35.

— Como é?

— Um tipo pequeno. Você olhou o carro?
— Olhei.

— O banco do motorista está muito pra frente. A vítima não caberia ali.
Aquele homem é enorme. Acho que alguém trouxe ele até aqui. Alguém muito
pequeno. Alguém que calça 34 ou 35.

Era o que estivera me incomodando. O tamanho das pegadas. E a chave do
carro jogada no chão. Mas por que alguém traria Manuel até aqui para
matá-lo?

Ouvi Iuri me chamando e saí da casa. Um dos PMs havia encontrado uma
arma jogada no matagal. Era um revólver velho e enorme. Américo saiu da
casa xingando o PM por ter mexido na arma sem luvas. O PM não pareceu
intimidado e entregou o revólver nas mãos do perito com um desculpa,
doutor pouco convincente.

— Trinta e oito – Américo falou. – Sete tiros. O tambor está vazio.

— Três na primeira vítima, quatro no Manuel – Iuri disse.

— Pode ser. – E voltou-se para o PM: – Onde estava essa merda?

O PM apontou na direção do matagal e Américo resmungou qualquer coisa
sobre impressões digitais.

O fotógrafo saiu pela porta da cozinha reclamando do cheiro e dizendo
que havia terminado. Achei que era o momento para mudar de assunto e
perguntei sobre o cachorro morto.

— Parece que morreu com uma pancada na cabeça. Acho mesmo que foi
arrastado até a casa. Tem umas pegadas de cachorro perto da cova.

Pensei no que o borracheiro havia dito. O cachorro escapa da casa do
dono e vai arrumar encrenca com quem está mexendo no terreno vizinho. O
que um cachorro saberia sobre limites de propriedade? Provavelmente
atrapalhou os planos do criminoso.

Américo estava entrando na casa pela porta da cozinha. Voltou-se para
nós.

— Tem mais uma coisa.

Fui atrás. O perito parou ao lado do cachorro morto. O cheiro era mais
suportável porque as janelas estavam abertas, e havia menos moscas. Iuri
se aproximou, mas ficou do lado de fora com a cara inchada e vermelha,
como se prendesse a respiração. Américo pegou algo que estava sobre o
balcão. Não estava ali antes.

Parecia uma boina. Não estava coberta de pó, embora estivesse suja.
Supus que fosse verde.

— Estava ali – disse, apontando um vão entre o balcão e a parede.

Tirou da boina um fio de cabelo castanho, comprido e encaracolado.

– E também isso.

Américo sorriu. Olhei Iuri e ele afirmou com a cabeça, que era seu jeito
de dizer que estava pensando o mesmo que eu. Porque havia Joana e



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