SÃO PAULO É UMA CIDADE ENORME, RICA, COMPLEXA E DESIGUAL

A cidade que cabe no Minhocão

Em um território organizado pela lógica da propriedade privada e do lucro, os melhores terrenos são destinados a quem pode pagar. O espaço público gratuito acaba ficando com o que resta

Um dos parques mais querido do centro de São Paulo é um viaduto. O que isso revela sobre a cidade que temos e sobre os direitos que ainda não conquistamos. 

Há uma coisa interessante em morar perto do Minhocão. Aos finais de semana, ele está aberto às pessoas: é possível caminhar sem pressa, fazer exercícios, levar os cachorros para passear, encontrar amigos ou simplesmente ficar. Não é preciso consumir nada, pagar ingresso ou comprar algo para justificar a própria presença. É possível simplesmente estar. 

Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

Eu faço isso com frequência. Caminho, levo meus cachorros, passeio com meu parceiro e ando de skate. Já fiz inclusive aulas gratuitas de skate voltadas para mulheres, em uma iniciativa que buscava ocupar um esporte historicamente associado aos homens e criar condições para que mais mulheres experimentassem a modalidade. 

Também gosto de olhar para cima. Os prédios têm arquiteturas, épocas e histórias diferentes. Há grafites, janelas, varandas, roupas penduradas, plantas. Ali, podemos observar uma parte da cidade que normalmente atravessamos depressa, de dentro de um carro, de um ônibus ou do metrô. 

Há algo de bonito em tantas pessoas diferentes compartilharem um espaço para fazer coisas banais, não é à toa que o Minhocão já foi chamado de “Praia dos Paulistanos”. Em determinados horários, os carros dão lugar a pessoas e o concreto se transforma, temporariamente, em lugar de encontro e lazer. E talvez seja justamente por ser bom que seja também um tapa na cara. 

São Paulo é uma cidade enorme, rica, complexa e desigual. Boa parte da experiência cotidiana acontece em deslocamentos: trabalhar, estudar, cuidar, atravessar distâncias. Quando sobra algum tempo, quase nunca há um espaço próximo onde seja possível viver a cidade sem precisar pagar por isso. Costumamos tratar praças, parques e calçadas como um bônus oferecido se houver sobra de orçamento, mas a forma como uma cidade permite o descanso, a convivência e o contato com o ar livre afeta diretamente a saúde e o pertencimento. O lazer não está separado dos outros direitos; ele se mistura a eles. 

O problema não é gostar do Minhocão. É perceber que precisamos de uma exceção urbana para experimentar algo que deveria fazer parte da vida cotidiana. 

O Elevado Presidente João Goulart foi construído para dar velocidade ao automóvel. Inaugurado em 1971, são 3,4 quilômetros de concreto armado rasgando o centro de São Paulo. As pessoas que moravam ao lado eram um detalhe do projeto. 

Contudo, em 1976, após intensas reclamações de moradores, a estrutura passou a ser fechada durante a madrugada. Com o tempo, as janelas de fechamento ampliaram-se, e foi nessas brechas que a vida apareceu. Muito antes de qualquer lei, a população apropriou-se do viaduto como espaço de lazer. Apenas em 2018, a Lei Municipal 16.833 oficializou o Parque Municipal do Minhocão, prevendo incentivo a atividades culturais e a criação de um conselho gestor com participação popular. 

Pesquisas com frequentadores indicam que a grande maioria utiliza o local para caminhadas e atividades físicas, chegando a pé a partir dos bairros vizinhos. Contudo, esses dados não precisam ser transformados em uma celebração do viaduto, nem demonstram que ele resolveria os problemas de lazer ou saúde da cidade. O futuro do viaduto segue em debate: já foi tema do Plano Diretor, de ações judiciais e de planos de governo. Não vou entrar nessa disputa aqui. O que me interessa é o que o Minhocão, do jeito que existe hoje, revela sobre a cidade, e por isso falo dele como símbolo. Serve para explicitar o tamanho da carência que o cerca. 

Em seu ensaio clássico, Henri Lefebvre escreveu que o direito à cidade é o direito à vida urbana, à apropriação do espaço e à participação nas decisões sobre ele. Não basta ter acesso a um lugar: importa quem o decide, quem o usa e em que condições. Em um território organizado pela lógica da propriedade privada e do lucro, os melhores terrenos são destinados a quem pode pagar. O espaço público gratuito acaba ficando com o que resta (o resíduo de uma obra viária, o canteiro entre duas pistas). O Minhocão é uma dessas sobras que a vida reocupou. 

Mesmo no centro, uma região com infraestrutura e serviços inacessíveis à maior parte das periferias, o direito à cidade permanece incompleto. E o entorno do viaduto está longe de ser homogêneo: reúne diferentes classes sociais, moradores de habitações precárias e pessoas em situação de rua. 

Como apontam pesquisadores do LabCidade, intervenções urbanas no Minhocão trazem consigo a contradição da valorização imobiliária. A criação do parque melhora a qualidade de vida, mas pressiona os custos de moradia, arriscando invisibilizar e expulsar os moradores de menor renda. Defender o direito à cidade, portanto, não significa pedir “mais parques” abstratamente, mas questionar para quem eles são feitos e quem poderá continuar morando ao seu redor. 

Essa disputa não é apenas social e econômica, mas também de gênero e corpo. Como discute Leslie Kern ao propor a ideia de uma cidade feminista, o desenho urbano nunca foi neutro; ele foi estruturado a partir das rotinas e necessidades de um perfil específico de sujeito universal (masculino, jovem e adulto). Quando pensamos em mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência, fica evidente que aquilo que parece apenas urbanismo também é uma questão de poder. 

Penso nisso ao me lembrar das aulas gratuitas de skate para mulheres no viaduto. Aprender a andar de skate em um espaço público, junto de outras mulheres, não é apenas aprender uma modalidade esportiva. É experimentar o próprio corpo em movimento, ocupar visivelmente um território historicamente masculinizado e construir confiança. O acesso ao espaço urbano abre possibilidades concretas de emancipação. 

Quem tem renda compra alternativas para o que a cidade nega: o clube, a academia, o condomínio fechado, o final de semana fora. Quem não tem, fica com a escassez. A cidade falha com os dois grupos, mas a possibilidade de contornar essa falha depende diretamente do bolso. 

Essa escassez se desdobra também na questão ambiental. O Minhocão oferece céu aberto e horizonte em uma área hiperdensa, mas sua experiência de natureza é tida como limitada: falta vegetação, sombra e solo permeável. Diante das ondas de calor e eventos climáticos extremos, tratar arborização e espaços abertos como itens acessórios deixa de ser um erro de planejamento e passa a ser uma ameaça real. 

O viaduto coloca em xeque a própria ideia tradicional de progresso urbano, durante muito tempo associada ao fluxo rápido de veículos e à fluidez do tráfego. Basta fechar os acessos aos carros para perceber que a mesma estrutura de concreto pode responder a outra lógica: no lugar da velocidade, a convivência; no lugar do corredor de passagem, a infraestrutura social. 

Reconhecer a importância dessa transformação não significa ignorar os impactos sobre os moradores do entorno, tampouco equiparar a realidade do centro às carências profundas das periferias. No entanto, o fato de uma região central e relativamente privilegiada precisar transformar um viaduto em sua “praia” revela um problema estrutural. Se até ali a convivência gratuita exige um arranjo de exceção, a arquitetura da cidade inteira precisa ser repensada. 

O Minhocão nos permite imaginar outros usos para a cidade. O que parece natural foi construído por decisões políticas, econômicas e urbanísticas, e aquilo que foi construído pode ser disputado e transformado. O desafio é fazer com que essas possibilidades não dependam de exceções, nem existam apenas onde já há melhores condições de acesso. 

Durante muito tempo, perguntamos como fazer os carros passarem. Talvez seja hora de perguntar como queremos viver aqui. Se precisamos transformar um viaduto em parque para encontrar um espaço de convivência, lazer e liberdade, o problema não é o Minhocão. É a cidade que construímos ao redor dele. 

 

Mariana Cardoso dos Santos é internacionalista e mestra em Sociedade e Fronteiras. Atua em projetos sociais com foco em emergências humanitárias, mudanças climáticas e proteção de direitos. 

 

 

Referências 

BRASIL. Câmara dos Deputados; INSTITUTO PÓLIS. Estatuto da Cidade: guia para implementação pelos municípios e cidadãos. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2001. 

KERN, Leslie. Cidade feminista: a luta pelo espaço em um mundo desenhado por homens. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2021. 

LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. Tradução de Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro, 2001. 

NOGUEIRA, Rodrigo Hisgail de Almeida; MODESTO, Bruno Temoteo; BARTHOLOMEU, Teresa; FORJAZ, Cláudia Lúcia de Moraes. Características de frequentadores do Parque Minhocão-SP. Journal of Physical Education, v. 33, e3314, 2022. DOI: 10.4025/jphyseduc.v33i1.3314. 

OTERO, Guido; HARKOT, Marina Kohler; SANTORO, Paula Freire. A invisibilidade dos mais pobres no PIU Minhocão. LabCidade, São Paulo, 4 set. 2019. Disponível em: https://www.labcidade.fau.usp.br/a-invisibilidade-dos-mais-pobres-no-piu-minhocao/. Acesso em: 13 out. 2026. 

PÓLIS – INSTITUTO DE ESTUDOS, FORMAÇÃO E ASSESSORIA EM POLÍTICAS SOCIAIS. O 

direito à cidade: construindo uma agenda de políticas públicas. São Paulo: Instituto Pólis, 2015. TAVOLARI, Bianca. Direito à cidade: uma trajetória conceitual. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, 

  1. 35, n. 1, p. 93-109, 2016. DOI: 10.25091/S0101-3300201600010005.
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