A ciência e a origem do novo coronavírus: um debate necessário

Reflexão

A ciência e a origem do novo coronavírus: um debate necessário

por Maurício Abdalla e Máximo Sandín
9 de junho de 2020
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A pandemia da Covid-19 precisa trazer ao debate, além das questões relacionadas à economia, política e sociedade, o papel social da ciência, seu sequestro pela indústria e a submissão de seus conhecimentos aos interesses de mercado

 

Um falso dilema

Há um conhecido aforismo que diz que “em tempos de guerra a primeira vítima é a verdade”. Permitam-nos parafraseá-lo como forma de introduzir a reflexão que queremos apresentar neste artigo: em tempos de irracionalismo, a primeira vítima é a lógica. Quando as regras da argumentação lógica são manipuladas em função de interesses, o caminho possível para a verdade é bloqueado e as discussões acabam por nos conduzir ao centro de um labirinto em que, quanto mais andamos, mais nos perdemos.

Em um mundo dominado por fake news, manipulação planejada das consciências, fragmentação da informação, pós-verdade, ideologização do conhecimento e guerra de narrativas em função de interesses, as falácias e sofismas tendem a substituir o esforço sincero e desarmado de se entender o mundo de forma coerente e consistente.

Uma falácia argumentativa muito frequente na atualidade, que tem deformado a lógica em vista de interesses e dificultado a compreensão de questões centrais para a humanidade, é o chamado “falso dilema”. Seu objetivo é induzir as pessoas à aceitação da verdade de uma proposição em função do absurdo ou falsidade que representa uma alternativa anteposta a ela como única possível.

Sua estrutura é simples e segue a lógica formal. Parte-se, primeiro, de uma premissa disjuntiva, que na lógica tem a forma de “ou A, ou B”. Em seguida, extraem-se suas consequências logicamente necessárias, que são: negando-se A, B é verdadeiro (e vice-versa); aceitando-se A, B é falso (e vice-versa). Contudo, as conclusões lógicas só são corretas, no que diz respeito ao conteúdo, quando a premissa é verdadeira, ou seja, quando A e B representam realmente as únicas alternativas possíveis.

A falácia ocorre quando a formalidade lógica é preenchida com proposições que não formam uma disjunção na realidade, ou, dito de outra forma, que não são as únicas alternativas possíveis no mundo real. Por exemplo, “ou você é a favor do linchamento (A) ou é a favor do crime (B)”. A falsidade material da disjunção é evidente, e não precisamos perder tempo explicando-a. Porém, ao se aceitar a premissa, como comumente fazem os defensores do linchamento, a conclusão é necessária: você tem que escolher uma das alternativas; negando-se uma, aceita-se automaticamente a outra. Daí, a conclusão equivocada de que quem é contra linchamentos defende o crime, ou, de modo reverso, quem é contra o crime tem de ser a favor do linchamento.

Quando usadas intencionalmente, utilizando-se de conteúdos que nem sempre são de domínio de pessoas não-especializadas e lançando mão do princípio de autoridade de especialistas, as falácias se tornam sofismas poderosos capazes de convencer até as pessoas mais instruídas.

Um sofisma desse tipo tem dominado a discussão a respeito da origem do novo coronavírus (SARS-CoV-2), causador da pandemia da Covid-19. A questão ultrapassou os limites de um debate científico e tem sido submetida a uma guerra de narrativas, ideologias e interesses, com consequências sérias nas políticas públicas de combate à pandemia. Além disso, uma delicada e importante questão sobre os riscos e limites da pesquisa científica e suas relações com interesses econômicos, que deveria estar na ordem do dia, tem sido ocultada pela barreira do mesmo falso dilema, conforme veremos.

Em um contexto de guerra de narrativas, disputas ideológicas e interesses econômicos, a investigação sobre a origem e as causas da mutação do coronavírus que criou o tipo causador da pior pandemia mundial desde 1918 envolveu-se em um falso dilema que tem aprisionado pessoas sensatas em um labirinto intelectual, dentro do qual cada passo em busca da saída torna o caminho ainda mais emaranhado. Nesse ambiente discursivo, a coerência, amplitude, profundidade e fidelidade cientifica das análises cedem lugar ao esforço para se vencer a guerra de narrativas e preservar interesses.

O sofisma se fortalece, por um lado, em função do pouco conhecimento científico-natural sustentado por grande parte dos setores intelectualizados que não são das áreas das ciências naturais. De modo geral, esse conhecimento se limita ao jornalismo científico ou à literatura de divulgação da ciência e depende totalmente do princípio de autoridade, encarnado em um número limitado de cientistas ou em pouquíssimos artigos de renomadas revistas especializadas que conseguiram romper o círculo restrito da comunidade científica para ganhar destaque em outras mídias mais populares.

Por outro lado, a falta de formação filosófica e sociológica de grande parte dos cientistas naturais impede que eles próprios percebam a ciência de maneira crítica, o que os leva a não compreender (ou, se compreendem, a não revelar) as conexões entre a produção científica – tanto em suas bases teóricas, como em sua aplicação e resultados – com os poderes e interesses que configuram a sociedade. Muitos ainda creem em uma ciência neutra e livre de interesses socioeconômicos, mesmo com toda crítica ao ideal científico positivista feita pela filosofia e sociologia da ciência desde a primeira metade do século XX.

Esses elementos adicionais fazem com que o labirinto fique repleto de placas informativas produzidas tanto pelo jornalismo científico quanto por revistas especializadas, distribuídas de maneira aleatória, que mais confundem do que realmente apontam a saída, pois dão apenas uma ilusão do conhecimento do caminho. E nada é pior para quem está perdido do que a fé em placas incompletas ou situadas em lugar errado.

A falácia do falso dilema que envolve a possível origem do novo coronavírus aparece da seguinte forma:

 

Ou,

A. “É um vírus fabricado intencionalmente em laboratórios secretos por cientistas malévolos e desconhecidos da comunidade científica, a serviço do comunismo chinês ou do capitalismo global, com objetivos ocultos e distantes de todas as atividades científicas, sociais e empresariais conhecidas”;

Ou,

B. “É um vírus de origem espontânea, resultante de um processo plenamente natural, explicado apenas pelas leis que regulam a natureza”.

Dada a premissa disjuntiva, ou se aceita A, negando-se B (e vice-versa); ou se nega A, aceitando-se B (e vice-versa). E aqui se encontra a origem de todos os entraves para um debate profícuo e desarmado sobre o tema.

O irracionalismo da nova extrema-direita mundial, representado por figuras públicas importantes como o presidente estadunidense Donald Trump ou o seu pajem brasileiro Jair Bolsonaro, fez com que se espalhasse a primeira hipótese (A), popularizando a ideia de um vírus criado pelo “comunismo chinês” para derrubar os líderes da extrema-direita e impor uma ditadura comunista global. Essa tem sido a teoria conspiratória de maior alcance e relevância na opinião pública, pois é propagada pelos dois presidentes citados, seus apoiadores e suas redes digitais de manipulação de opiniões por meio de fake news.

Embora em menor número e com importância quase nula na formação da opinião pública, também se acham entre os que se situam à esquerda no espectro político aqueles que pensam ser o novo coronavírus uma criação totalmente planejada em algum obscuro e secreto laboratório de pesquisas militares ou de empresas de um submundo desconhecido para ser usado como arma estratégica dos capitalistas em algum objetivo planejado.

Resta óbvio que a aceitação dessas ideias implica uma negação da alternativa B. Porém, dois motivos são extremamente fortes para que se rejeite a primeira hipótese da disjunção falaciosa (a alternativa A).

Primeiro, por ser apresentada de uma maneira ficcional e simplória, como se a ação humana sobre a mutação de um vírus só pudesse se dar na forma de uma conspiração militar ou empresarial secreta, por meio da contratação de cientistas de má índole e sem reconhecimento na comunidade científica para trabalhar em laboratórios subterrâneos, nos moldes das fantasias hollywoodianas. Por essa mesma razão, também se deve rejeitar a maneira ingênua de se relacionar o vírus ao capitalismo sustentada por algumas pessoas de esquerda.

O segundo motivo para se rechaçar a alternativa A é por ela reforçar uma fantasia criada pela extrema-direita para justificar o seu negacionismo em relação às medidas protetivas recomendadas pelos especialistas e pela OMS para se conter o alastramento da pandemia. Sustentados nessa narrativa simplista, alguns governantes e parte da população fazem coro aos clamores das corporações empresariais e financeiras para se manter a engrenagem de acumulação econômica em pleno funcionamento – sem se importar com quantas vidas serão sacrificadas em função disso. Por mais que falte conexão lógica entre a fantasia conspiratória da extrema-direita e a negação das medidas protetivas – afinal, ainda que fosse um vírus “comunista”, por que deveríamos deixar de nos prevenir contra ele? –, em tempos irracionalistas a narrativa que sustenta o negacionismo tem-se mostrado eficaz e, por isso, deve ser realmente combatida.

Porém, – aqui está a armadilha – os setores críticos e progressistas da sociedade, vendo-se na obrigação de combater os delírios da extrema-direita, acabaram por aceitar ingenuamente a falácia do falso dilema e passaram a sustentar e defender a alternativa B como única forma possível de enfrentar a narrativa negacionista. Admitiram a premissa que estabelece uma disjunção equivocada e, consequentemente, foram forçados a aceitar sua consequência lógica. Dado o absurdo da primeira hipótese e a necessidade de se combater o negacionismo da extrema-direita, restou apenas a aceitação e defesa acrítica da segunda alternativa.

Como resultado, qualquer pessoa que questione a alternativa B – como faremos neste artigo – é acusada de estar de acordo com a primeira hipótese e passa a compor a lista daquelas cujas ideias devem ser combatidas e rejeitadas, antes mesmo de se conhecê-las em detalhe. E todos acabamos perdidos no labirinto do entendimento.

O problema é que com a aceitação da alternativa B – ou seja, ao se dar como verdadeira e fora de questão a hipótese de que a mutação que deu origem ao SARS-CoV-2 é apenas um fenômeno natural sem relações com a ação humana – perde-se na análise da pandemia mundial duas de suas dimensões fundamentais, que também compõem seu caráter sistêmico: o problema da ciência na sociedade de mercado e a questão ecológica.

A tentativa de abordagem sistêmica da pandemia tem sido exitosa, em parte, quando se entende o fenômeno não apenas como um problema sanitário, mas também econômico, político, social e cultural. Há entendimentos de que a pandemia revelou a insuficiência da economia de mercado para resolver os problemas fundamentais da humanidade; de que o sistema político e os representantes eleitos cumprem papel fundamental no fracasso ou sucesso das medidas de combate a seus efeitos; de que a desigualdade social é uma das principias causas do número de vítimas no mundo e de que é preciso mudar comportamentos sociais para se enfrentar ameaças que atingem a todos e dependem de atitudes conscientes por parte da população.

Porém, por causa da armadilha do falso dilema e da aceitação ingênua da hipótese de causa natural, os aspectos ecológico e científico, que são elementos essenciais para a compreensão do fenômeno em sua totalidade, ficam excluídos do debate e todos que desejam trazê-los à discussão séria e consistente são vistos com as mesmas suspeitas com que se olham os propositores de teorias conspiratórias fantasiosas.

As dimensões cientifica e ecológica que a pandemia nos coloca só podem ser compreendidas quando se entende que é possível negar também a alternativa B da disjunção falaciosa: o novo coronavírus pode não ser resultado espontâneo de um processo puramente natural, mas sim produto da intervenção inconsequente do ser humano sobre a natureza, por meio de uma atividade científica guiada por interesses econômicos. E isso, de maneira alguma implica na aceitação da narrativa conspiratória dos negacionistas da extrema-direita. Dito de forma mais clara: há outras maneiras de se compreender o fator humano na criação do vírus causador da pandemia da covid-19 sem que seja necessário aderir a fantasias simplistas. A reflexão que faremos a seguir está toda amparada em conhecimentos científicos de acesso a qualquer pessoa interessada.

 

Os vírus, a ciência e o mercado

Um fenômeno bastante conhecido pelas ciências biológicas é a existência de uma “barreira específica” que impede que os vírus que infectam certas espécies de animais e plantas sejam capazes de infectar células de espécies diferentes. É isso que evita que doenças virais, por exemplo, de um cachorro possam contaminar o ser humano, e vice-versa, ou que carnívoros que se alimentam de outros animais contraiam seus vírus. Dada a presença ubíqua dos vírus na natureza, cumprindo papéis fundamentais no complexo fenômeno da vida, a existência da barreira específica é um dos fatores fundamentais para a evolução.

Descobriu-se que o mecanismo responsável pela barreira é a necessidade de combinação entre uma molécula receptora presente nas células, que é diferente para cada célula específica, e a proteína que cada tipo de vírus carrega em seu invólucro. Os vírus possuem em seu capsídeo (o invólucro dentro do qual se encontra o material genético) uma proteína ligante, diferente em cada vírus, que se conecta apenas a um tipo determinado de molécula receptora de algumas células e, apenas com essa combinação, conseguem inserir nelas o seu material genético. Como cada célula específica possui receptores distintos, elas possuem um controle que só permite a entrada dos vírus que carregam o “ingresso” adequado em seu capsídeo. Por isso, os vírus sempre se relacionam a espécies e não são capazes de infectar células cujas moléculas receptoras não se conectem à sua proteína ligante.

A infecção é o processo em que um vírus que possui o “ticket de entrada” para a célula certa se prende à membrana celular, insere o seu material genético (DNA ou RNA) e utiliza o mecanismo celular para se reproduzir e produzir as proteínas que são codificadas por seu genoma. Apesar do que comumente se pensa, a infecção só resulta em enfermidade em poucos casos, pois os vírus agem em toda a parte e possuem inúmeras funções essenciais na natureza1.

Para que a barreira específica seja cruzada, ou seja, para que um vírus de uma espécie animal adquirira capacidade de penetrar células de outra espécie, não basta apenas que esses vírus tenham contato físico (como no caso de um animal se alimentar de outro) ou que ocorram mutações aleatórias em seu material genético. É preciso, primeiro, que a parte do genoma que codifica a proteína ligante de seu invólucro seja modificada para produzir exatamente uma proteína que coincida com a molécula receptora de outro tipo de célula.

Porém, além da já difícil coincidência entre as moléculas de ligação, há outras barreiras que precisam ser quebradas para que um vírus específico seja capaz de infectar células de outro hospedeiro: 

 “A produção e propagação de um vírus infeccioso também é específica em relação ao hospedeiro. As múltiplas barreiras do hospedeiro para infecção exigiriam, cada uma, uma ou mais mutações correspondentes no vírus, tornando a barreira do hospedeiro ainda mais difícil de ser cruzada.” (Grifos nossos)2.

Se cada barreira (que estão enumeradas no artigo citado) exige uma ou mais mutações para ser ultrapassada, o conjunto de mutações necessárias para que um vírus salte de uma espécie para outra não é um fenômeno simples que pode ser explicado com suposições simplistas como a de uma mutação aleatória pontual, o hábito alimentar de algum povo ou o mero contato físico entre diferentes espécies. Os mecanismos conhecidos pala ciência revelam que a ultrapassagem da barreira específica é um fenômeno extremamente raro e de baixa probabilidade na natureza.

Porém, no interior dos laboratórios se fazem experimentos constantes de hibridização do genoma de vírus diferentes e de modificação de suas proteínas ligantes. Por meio de engenharia genética, os vírus são manipulados por recombinação do RNA de vírus de um ou dois animais, tomando como base um tronco de vírus humano. Os resultados desses experimentos são vírus híbridos que não existem na natureza, capazes de infectar hospedeiros distintos e com grande virulência. Esses vírus de laboratório recebem o nome de “quimeras” – em referência ao mostro da mitologia grega cujo corpo era formado por partes de diferentes animais.

A produção de vírus quimeras é um processo difícil e complexo, que utiliza enzimas de bactérias para cortar e unir sequências de RNA de vírus de espécies diferentes em lugares bem específicos. Algo praticamente impossível de acontecer ao acaso na natureza.

Os defensores desses experimentos os justificam pela necessidade de se conhecer o potencial de infecção de novos vírus e, eventualmente, antecipar a elaboração de contramedidas (principalmente vacinas) para o caso das mutações, que só se conseguem com muito esforço nos laboratórios, ocorrerem espontaneamente na natureza e causarem uma pandemia. Fica, por enquanto, no ar a pergunta: se é um fenômeno tão raro e improvável na natureza e de difícil consecução mesmo com os mais avançados conhecimentos e instrumentos da ciência atual, por que esperam com tanta preocupação que ele ocorra espontaneamente no mundo natural?

Experimentos de criação de vírus quimeras com alta virulência realizados em laboratórios de biotecnologia vêm sendo publicados há anos nas principais revistas especializadas. Sua realização também já gerou inúmeras polêmicas na comunidade científica com respeito aos riscos e benefícios de se levar a cabo tais experiências. Por razões de brevidade, citaremos apenas alguns exemplos ilustrativos3.

Em outubro de 2005, a revista Nature publicou um informe, cujo título era “O vírus da gripe de 1918 foi ressuscitado4”. Conforme a revista, pesquisadores reconstruíram o vírus da chamada “gripe espanhola”, responsável pela pandemia que matou mais de 50 milhões de pessoas em 1918, e o modificaram para que infectasse ratos a fim de estudar seus efeitos. Segundo os defensores da pesquisa, “a recriação de uma das doenças mais mortais já conhecidas poderia nos ajudar a prevenir outras pandemias”. Mas os críticos dentro mesmo da comunidade científica já advertiam sobre a possibilidade de que os experimentos pudessem, na verdade, “desencadear uma pandemia”.

O informe registra os riscos apontados por cientistas:

“Outros [cientistas] têm levantado a preocupação de que os perigos da ressurreição do vírus são grandes demais. Um especialista em biossegurança disse à Nature que o risco de que a cepa recriada escape é muito grande, quase uma certeza. E a publicação da sequência completa de seu genoma dá a qualquer nação rebelde ou grupos de bioterroristas toda a informação que eles necessitam para fabricar a sua própria versão do vírus (grifos nossos).

Façamos uma pequena reflexão. O especialista em biossegurança ouvido pela Nature – que certamente não é qualquer um para que a revista lhe tenha dado crédito – afirma que a possibilidade de que esses vírus escapem é “quase uma certeza” e aponta para o perigo de que as informações sobre como criá-los caiam em mãos erradas, como “nações rebeldes” (rogue nations) e “grupos de bioterroristas”.

A pré-formação de nosso imaginário imediatamente relaciona as “mãos erradas” a países que compõem o “eixo do mal” definido pelos EUA ou a alguma nação cuja configuração sociopolítica seja diferente da que estamos habituados no Ocidente. E os grupos que poderiam usar os vírus manipulados para propósitos escusos são sempre identificados com organizações de extremistas islâmicos ou de terroristas de países em situação de guerra civil.

Geralmente não pensamos como risco o fato de tais informações poderem estar nas mãos da única nação do mundo a ter lançado uma bomba nuclear sobre outra; que submete centenas de milhares de pessoas ao sofrimento, doença e morte com bloqueios econômicos ideológicos impostos a outras nações; que não se importa em tirar a vida da população de países invadidos ou de mandar dezenas de milhares de seus próprios cidadãos para a morte em guerras que têm como único objetivo enriquecer a indústria de petróleo e armas; que mantém um campo de concentração em Guantánamo violando todos os acordos e convenções sobre direitos humanos e direito internacional. Também não se pensa em uma nação que pratica limpeza étnica na Palestina e usa armas químicas proibidas pela Convenção de Genebra contra uma população sem exército.

Embora essas nações desrespeitem repetidamente decisões da ONU e não deem muita importância a tratados e ao direito internacional, não se costuma incluí-las – nem a seus aliados – no rol das “nações rebeldes”. Se, contudo, pensarmos em suas ações sem o véu ideológico que obscurece o pensamento, concluiremos que o risco sobre o qual nos adverte o especialista em biossegurança ouvido pela Nature não é apenas de que as informações sobre os vírus caiam em mãos de certas nações, mas de estarem disponíveis a qualquer nação que possa detê-las na atualidade.

Pensemos agora nos grupos perigosos que poderiam obter as informações sobre vírus com alto poder de contágio e letalidade para as usarem de acordo com seus propósitos, sem se importar com as vidas humanas que poderiam ser sacrificadas em função de seus objetivos. Certamente nos vêm à mente os grupos terroristas, narcotraficantes, máfias e as diversas formas de crime organizado espalhadas em diferentes países. Nas mãos de organizações cujo dinheiro se alimenta da morte de centenas de milhares de pessoas pelo mundo, informações sobre vírus letais manipulados em laboratório representariam um risco que ninguém deseja correr. Por isso, sentimo-nos seguros quando o conhecimento científico e os laboratórios estão sob a proteção e patrocínio das indústrias de fármacos e de biotecnologia, que costumamos pensar como empresas “limpas”, cujo propósito é defender a humanidade das enfermidades e proteger-nos contra as ameaças das bactérias e vírus.

Ocorre que, no mundo real, uma boa parte do capital da indústria farmacêutica e de biotecnologia pode estar também nas mãos de grupos criminosos, que lavam o dinheiro de suas atividades ilícitas em empresas legais e rentáveis. A rota do dinheiro ilícito gerado pelo crime organizado passa, de forma ilegal, por operadores legais (principalmente bancos e empresas off-shore em paraísos fiscais) e chegam à legalidade por meio de investimento em capital produtivo. O volume e liquidez desse dinheiro o torna um componente fundamental da economia global.

Um artigo publicado no New York Times em 25 de agosto de 2012 revela essa nova face do crime organizado:

“As máfias de hoje são organizações globais. Elas operam em todos os lugares, falam múltiplos idiomas, formam alianças transoceânicas e joint-ventures e fazem seus investimentos exatamente como qualquer companhia multinacional 5.”

E, como qualquer empresa multinacional, as máfias, o narcotráfico e outras formas de crime organizado não deixam passar os negócios mais lucrativos para fazerem seus investimentos. Mark Duffield, em seu livro Governança global e as novas guerras, cuja primeira edição é de 2001, já alertava sobre a expansão dos negócios legais do crime organizado para as empresas de biotecnologia:

“Como a lavagem de dinheiro é um bom exemplo de uma atividade em rede, as técnicas que são usadas e os meios pelos quais o dinheiro sujo é integrado na economia legal continuarão a se adaptar e mudar. Analistas da Britain’s National Criminal Intelligence Service […] afirmam que a tecnologia da informação e a biotecnologia estão abrindo áreas para o futuro investimento criminoso6 (grifos nossos).

Com essa breve digressão, pretendemos apenas dizer que o risco apontado pelo especialista consultado pela Nature com relação às pesquisas com vírus não é apenas no caso das informações “mudarem de mãos”. Trata-se de um risco altíssimo nas próprias mãos em que atualmente se encontram.

As advertências, porém, nunca foram suficientes para que se estabelecessem restrições às pesquisas com modificações de vírus – a maioria patrocinada pelas indústrias de farmácia e biotecnologia ou realizada em seus próprios laboratórios. Em maio de 2009, o Journal of Virology, trouxe um artigo intitulado “Infecção experimental de porcos com o vírus humano da pandemia da gripe de 1918”, que relatava a modificação em laboratório do vírus 1918 A(H1N1), “ressuscitado” em 2005, para infectá-lo em porcos e estudar seus efeitos7. Um caso de hibridização e modificação de um vírus tremendamente letal.

A edição de 2 de dezembro de 2011 da revista Science publicou um artigo cujo título era “Estudos controvertidos dão asas a um vírus mortal da gripe8. O autor explica que “o vírus é uma cepa do H5N1 da gripe aviária que foi modificado geneticamente e agora é facilmente transmitido entre furões, os animais cuja resposta à gripe é mais semelhante à do ser humano.”

Os pesquisadores acreditavam que se o vírus modificado “surgisse na natureza ou fossem liberados, poderiam desencadear uma pandemia de gripe, muito provavelmente com muitos milhões de mortes”. Mas justificavam o risco alegando que caso as mesmas mudanças, conseguidas às duras penas em laboratório, acontecessem “naturalmente” a pesquisa já ofereceria o conhecimento necessário para se “preparar as contramedidas”. Mais uma vez, o experimento provocou críticas veementes de parte da comunidade científica.

Além dos riscos apontados por virologistas, especialistas em biossegurança e outros membros da comunidade científica, há um artigo que comprova a “similaridade” entre o vírus 2009 A(H1N1), que causou a pandemia de gripe suína em 2009, e o vírus reconstruído em laboratório 1918 A(H1N1) – o mesmo vírus da gripe espanhola reconstruído em 2005 e posteriormente modificado para infectar porcos, conforme artigo citado acima. A pesquisa foi publicada também pela Science em julho de 2009 e seu título era “Características antigênicas e genéticas do vírus da gripe de origem suína 2009 A(H1N1) circulando entre humanos9. Os autores atestam que o vírus que causou a pandemia de 2009 “mostrou ser antigenicamente altamente similar ao recém reconstruído vírus 1918 A(H1N1)”.

O fato de o vírus da gripe suína que se espalhou em 2009 ser “altamente similar” a um vírus criado em laboratório em 2005 e posteriormente modificado para infectar porcos deveria ter, pelo menos, levantado a discussão e investigação sobre se os riscos apontados por virologistas e especialistas em biossegurança teriam se tornado reais. Se era uma hipótese possível e cientificamente assentada, por que descartá-la? Certamente, essa suspeita traria novamente ao debate os limites para os experimentos que criam em laboratório vírus quimeras com alto poder de infecção.

Uma discussão desse tipo poderia estabelecer freios e controles por parte de governos e sociedade sobre a busca frenética por conhecimentos que geram lucros bilionários para as indústrias que realizam ou financiam tais pesquisas. Consequentemente, qualquer suspeita de que microrganismos infecciosos criados em laboratório pudessem estar na origem do surgimento de novas doenças ou pandemias entraria em rota de colisão com interesses econômicos poderosíssimos, cujo capital sustenta laboratórios, financia institutos, patrocina pesquisas e do qual depende a sobrevivência de boa parte dos cientistas e publicações especializadas10.

Seja por essa razão ou não, o fato é que as revistas científicas mais importantes e os cientistas envolvidos nessas pesquisas preferem acreditar em coincidências ou usar o mesmo e repetido argumento que o próprio autor do referido artigo sustenta: que tal similaridade pode indicar que ambos os vírus “compartilham um antecessor comum”. Tal explicação evolutiva, que é usada para organismos vivos com reprodução sexuada, não possui nenhum sentido quando se trata de micro-organismos não-vivos como os vírus, que são inertes em estado livre e não se reproduzem sexualmente. Não se pode falar em ancestralidade comum quando se trata de organismos como os vírus.

O experimento que mais nos interessa na presente discussão foi publicado em uma edição da revista Nature de 12 de dezembro de 2015, cujo título era “Vírus de morcego manipulado em laboratório suscita debate sobre pesquisas arriscadas 11”. O artigo trouxe algumas informações muito interessantes, que convém citar: “Os pesquisadores criaram um vírus quimérico feito com uma proteína de superfície SHC014 e o núcleo de um vírus SARS que foi adaptado para crescer em ratos e imitar a doença humana. A quimera infectou células respiratórias humanas – provando que a proteína de superfície SHC014 é a estrutura necessária para se unir a um receptor chave nas células e infectá-las.”

O vírus Sars é um tipo de coronavírus que causou a síndrome respiratória aguda grave (SARS, na sigla em inglês) e que hoje se tornou mais conhecido por causa da pandemia causada pelo SARS-CoV-2. A pesquisa reforça a afirmação que fizemos anteriormente de que a criação de vírus híbridos de animal e humano é uma tarefa laboriosa, levada a cabo em laboratórios, e que não ocorre naturalmente. Revela também que as inúmeras advertências de membros da comunidade científica sobre a gravidade e altíssima probabilidade dos riscos não detiveram o afã das indústrias para realizar ou patrocinar pesquisas que lhes rendessem patentes, vacinas e outras contramedidas que poderiam ser comercializadas.

Os riscos relacionados a experimentos que produzem modificações em vírus já eram bastante conhecidos e, mais uma vez, recolocaram o debate sobre sua validade. O mesmo artigo da Nature que noticiava as experiências com coronavírus fazia menção à objeção de membros da comunidade científica à realização dessas pesquisas levadas a cabo pela indústria farmacêutica e de biotecnologia:

Outros virologistas, porém, questionam se a informação obtida a partir desse experimento justifica o risco potencial. Embora a extensão de qualquer risco seja difícil de avaliar, Simon Wain-Hobson, virologista do Instituto Pasteur de Paris, afirma que os pesquisadores criaram um novo vírus que “cresce notavelmente bem” em células humanas. ‘Se o vírus escapasse, ninguém poderia predizer a sua trajetória’, disse.”

Devemos sublinhar o fato de que se tratava de um experimento de hibridização com o coronavírus do morcego – mais especificamente do morcego-de-ferradura da China – e um vírus humano Sars adaptado para infectar ratos e imitar a doença humana. A quimera mostrou-se capaz de infectar células respiratórias humanas.

Mais uma vez podemos nos perguntar: por que e para que esses experimentos continuaram a ser realizados? A resposta dos pesquisadores é sempre a mesma: é preciso estudá-los para que se um dia surgirem na natureza já se tenham os conhecimentos necessários para a produção de vacinas e outras contramedidas. Mas é preciso enfatizar o paradoxo: se as pesquisas revelam por si próprias como é difícil e complexo a fabricação intencional de quimeras em laboratórios, por que insistem no argumento de que elas podem surgir espontaneamente na natureza? Pode-se dar como exemplo os casos da Sars, Mers, gripe aviária, gripe suína e Covid-19, todos decorrentes de vírus que saltaram a barreira específica. Mas tais surtos e pandemias seriam decorrentes de fenômenos naturais ou são já as consequências previstas por aqueles que nos advertiam sobre o perigo da manipulação de vírus em laboratórios?

A suposição bastante difundida de que novos vírus se formaram pelo fato de alguém se alimentar de animais contaminados desconsidera totalmente o conjunto de barreiras que impede a infecção de um vírus específico em um hospedeiro de outra espécie. É incrível como a simplicidade das supostas explicações contrastam com a complexidade real do mundo microbiológico que não é desconhecida pela ciência!

Vivemos hoje a pior pandemia mundial desde 1918, causada por um tipo mutante de coronavírus. O Sars-Cov-2 é um vírus híbrido que possui sequências genéticas de morcego, pangolim e humano, com alta capacidade de infecção em células humanas. Ou seja, assim como as quimeras criadas em laboratório, o Sars-Cov-2 é um vírus híbrido de três espécies animais distintas e que sofreu modificação nas proteínas de superfície e se tornou capaz de penetrar células humanas. A quantidade de mutações aleatórias necessárias para que uma hibridização dessa magnitude ocorra naturalmente e o conjunto de barreiras que precisariam ser transpostas para o salto entre espécies tornam sua origem natural extremamente improvável. Não se trata apenas de uma suposição: o conhecimento científico disponível leva a essa conclusão.

A tragédia que se espalha pelo mundo, gerando centenas de milhares de mortes e que tende a continuar se espalhando com todos seus efeitos catastróficos na vida individual e social, não poderia também ser entendida como a comprovação dos riscos mencionados pelo virologista Wain-Hobson no último artigo da Nature que citamos? Para nós, não é nada científico, e sequer sensato, continuar acreditando que tudo não passe de uma “mera coincidência” entre o que se faz com muito esforço em laboratórios e o que aparece espontaneamente na natureza.

Não é razoável pensar que os resultados obtidos em experimentos pelo esforço intencional de cientistas, para os quais se necessita uma tecnologia bastante avançada, ocorreram simultaneamente e por mero acaso na natureza. Tanto a história natural quanto o conhecimento científico a respeito dos vírus nos dão razão para não acreditar na hipótese de uma origem espontânea de vírus híbridos que saltam de animais para o ser humano.

Aceitar a hipótese de “coincidência” seria crer que ao mesmo tempo em que cientistas se esforçam em laboratórios de alta tecnologia para criar vírus híbridos e modificar as proteínas de superfície que os tornam capazes de penetrar células de espécies diferentes, rompendo uma barreira bem estabelecida pela evolução, a natureza “brincasse” de produzir espontaneamente resultados semelhantes e no mesmo curto período de tempo. Por isso, precisamos refletir melhor sobre as razões que levam revistas conceituadas a se apressarem em defender com tanta ânsia, sem ainda terem certeza e de maneira nada rigorosa, a hipótese de uma origem natural ou fortuita, que, para nós, soa pouco científica.

Com o alastramento da pandemia do novo coronavírus e a possibilidade do ressurgimento do debate sobre os riscos dos experimentos com vírus, os editores da Nature inseriram, em março de 2020, uma nota ao artigo de 2005, na qual se lê: “Fomos advertidos de que essa história tem sido utilizada como base para teorias não verificadas de que o novo coronavírus causador da Covid-19 foi produzido em laboratório. Não há evidência de que isso seja verdade; cientistas acreditam que um animal é a fonte mais provável do coronavírus.”

A nota resume-se a isso. Nenhuma referência a quais cientistas “acreditam”, a quais artigos tornam a hipótese da origem animal “mais provável” etc. Se algum cientista, por mais renomado que seja, submeter um artigo para a Nature cuja fundamentação das conclusões se baseie apenas em afirmações como “cientistas acreditam”, “é mais provável que” etc. sem nenhuma fonte que as corrobore; ou um artigo para negar categoricamente uma hipótese apenas com a afirmação de que “não há evidência de que isso seja verdade”, mesmo havendo inúmeras razões bem estabelecidas na ciência para se supor que seja, o artigo seria imediatamente recusado pelo conselho editorial. Não só na Nature como em qualquer revista científica que se preze, pois não se faz ciência fundada apenas em suposições.

É correto dizer que “não há evidência de que isso seja verdade”. Porém, tampouco há evidências de que não seja ou que comprovem a origem natural. Por que, então, se são hipóteses possíveis no estrito debate da ciência, a pressa e insistência em se negar uma delas antes de qualquer investigação detalhada – principalmente quando a hipótese defendida é, em termos científicos, a menos provável? 

Para reforçar ainda mais a apressada recusa de se admitir uma origem laboratorial, mesmo que acidental, do novo coronavírus, a mesma Nature publicou um artigo em março de 2020 em que os autores concluem que o SARS-CoV-2 “não é um vírus obtido em laboratório ou manipulado de propósito12”. Esse foi um daqueles pouquíssimos artigos de revistas especializadas que conseguem ampla divulgação na grande mídia e nas redes sociais digitais. Foi apresentado como uma prova definitiva da origem natural do novo coronavírus.

Porém, quem se der ao trabalho de ler o artigo, verá que sua categórica negação é inferida de possibilidades e opiniões de cientistas, não de conclusões de pesquisas. Embora a conclusão tenha sido redigida em tom de negação categórica, no corpo do texto os autores usam apenas expressões como “é improvável que o SARS-Cov-2 tenha surgido por manipulação em laboratório relacionada a coronavírus…”; “é possível que…”; “é também provável…”; “nós acreditamos que…”. O conteúdo do artigo pode, no máximo, apresentar outras hipóteses (para nós questionáveis) sobre a origem do novo coronavírus, mas não nega, em absoluto, a possibilidade de sua origem em experimentos de laboratório.

Até aqui não falamos de intenção ou planos para se produzir uma pandemia. Mas o artigo de 2020 se preocupa em negar a “intencionalidade” de uma origem laboratorial, e isso é interessante. Primeiro porque usa a falácia do falso dilema mencionada no início do presente artigo, pois coloca sutilmente a hipótese da criação “proposital” do vírus como única contraposição possível à da origem natural. E mesmo ela não é refutada pelo artigo como se poderia imaginar.

O artigo foi usado para se lançar todas as suspeitas possíveis de uma origem não natural ao limbo de teorias conspiratórias. E isso nos levanta outra questão: por que uma revista tão conceituada como a Nature se ocuparia com tanto vigor a se contrapor a teorias conspiratórias? Seria como uma prestigiosa revista científica de astrofísica se ocupar em negar, com artigos científicos, a “teoria” da Terra Plana. E não há revistas científicas preocupadas com o terraplanismo…

Talvez os autores (e a revista) tenham algo mais a defender. Na melhor das hipóteses, a continuidade de suas pesquisas. A pior hipótese pode ser encontrada nas “declarações éticas” do artigo que aponta que um dos autores é “co-fundador da Zalgen Labs, uma empresa [privada] de biotecnologia que desenvolve contramedidas para vírus emergentes 13”. A possibilidade de se colocar em debate os riscos das pesquisas acima mencionadas seria um grande obstáculo para os negócios de sua empresa e de todas que atuam no ramo – que, além de terem seus próprios laboratórios, direcionam vultosas quantias em dinheiro para pesquisas, bolsas, publicações especializadas, patrocínios a institutos de pesquisa, eventos científicos, equipamentos para laboratórios etc., inclusive para pesquisas feitas em universidades.

Conclusão

As informações aqui reunidas são suficientes para que os leitores tirem suas próprias conclusões. O que pretendemos colocar em discussão é a necessidade de se pensar também os aspectos científico e ecológico da pandemia de 2020 e evitar que eles sejam manipulados por interesses e ocultados pela falácia do falso dilema.

Não foi nosso propósito fazer nenhuma acusação que não pudesse ser comprovada, embora a postura crítica com relação à submissão da ciência aos interesses de grandes corporações, cujo capital provém das mais variadas fontes, possa – e deva – gerar suspeitas que merecem investigação. Não é necessário aderir a fantasias conspiratórias a respeito de um submundo desconhecido da ciência. O próprio mundo conhecido (em seus bastidores) já nos traz abundantes questionamentos mais sérios, que acabamos não fazendo por causa da guerra de narrativas que tem dominado as discussões.

A pandemia da Covid-19 precisa trazer ao debate, além das questões relacionadas à economia, política e sociedade, o papel social da ciência, seu sequestro pela indústria e a submissão de seus conhecimentos aos interesses de mercado. Assim como também deveria chamar-nos a atenção para a maneira como as empresas de biotecnologia vêm interferindo nos fenômenos naturais, cuja configuração foi moldada por bilhões de anos de evolução, e sobre os riscos que isso representa para a humanidade.

A concepção ecológica com a qual as ciências biológicas aplicadas trabalham é reducionista e não leva em conta que o ecossistema é uma totalidade complexa, na qual pequenas alterações podem ter resultados imprevisíveis e de grandes consequências. Seja por intenção ou acidente, os riscos da manipulação de vírus por engenharia genética apenas por interesses comerciais, sem que se tenha claro o papel dos micro-organismos na rede de manutenção da vida, são extraordinariamente grandes. E não há ganho possível que justifique a ausência de controle sobre o que se faz nesses laboratórios.

A reflexão crítica que aqui propusemos tem por base a diferença entre a ciência, como forma de conhecimento, e a aplicação dos conhecimentos científicos em tecnologias a serviço de megacorporações empresariais.

Entendemos que, em tempos de negacionismo fanático, é preciso realmente defender a ciência como conhecimento válido e como uma das maiores conquistas da razão humana. Porém, isso não significa a defesa acrítica de qualquer pesquisador, publicação, experimento ou laboratório. Uma afirmação que recebe o carimbo da ciência “oficial” não se torna, apenas por isso, verdadeira e inquestionável. Principalmente quando a dimensão mercadológica da pesquisa tem retirado da ciência todo o seu sentido original de conhecimento sobre o mundo natural para convertê-la em mera força produtiva.

Quando confundimos a ciência com o seu uso a serviço de interesses, acabamos por reforçar ainda mais o controle que que as empresas de fármacos e biotecnologia – e todas que utilizam conhecimento científico natural de ponta para conseguir seus lucros – têm sobre a vida e a natureza. Precisamos defender a ciência, porém sem perder a criticidade a respeito de seu papel social.

 

Maurício Abdalla é filósofo, professor de Filosofia das Ciências da Universidade Federal do Espírito Santo e autor do livro La crisis latente del darwinismo (Cauac Editorial), dentre outros. Máximo Sandín é biólogo, professor aposentado do departamento de Biologia da Universidad Autónoma de Madrid e autor do livro Pensando la evoución, pensando la vida (Cauac Editorial), dentre outros. Ambos são coautores do livro Darwin, el sapo y la charca (Cauac Editorial).

1 Sobre as funções dos vírus na natureza consultar SANDIN, M. Covid-19: sobre vírus, asesinos y estratégias. Disponível em http://www.somosbacteriasyvirus.com/covid19.pdf (Website do autor).

2  Parrish, C.R. Et al. Cross-Species Virus Transmission and the Emergence of New Epidemic Diseases. Microbiology and molecularbiology reviews. 2008 Sep;72(3):457-70. Disponível em https://mmbr.asm.org/content/72/3/457.

3  Note-se que todos os exemplos que usamos foram extraídos de publicações científicas renomadas.

4 The 1918 flu virus is resurrected. Nature. 437, 794–795 (2005). Disponível em https://www.nature.com/articles/437794a.

5 SAVIANO, Roberto. “Where the mob keeps its money”. The New York Times. 25/08/2012. Disponível em https://www.nytimes.com/2012/08/26/opinion/sunday/where-the-mob-keeps-its-money.html

6  DUFFIELD, Mark. Global governance and the new wars: the merging of development and security. Londres: New York: Zed Books, 2014. p. 84.

7  Weingartl, Hana M. et al. Experimental infection of pigs with the human 1918 pandemic influenza virus. Journal of Virology. Apr 2009, 83 (9) 4287-4296. Disponível em https://jvi.asm.org/content/83/9/4287.

8  ENSERINK, Martin. Controversial studies give a deadly flu vírus wings. Science 02 Dec 2011: Vol. 334, (6060): 1192-1193. Disponível em https://science.sciencemag.org/content/334/6060/1192.

9 GARTEN, Rebecca J. et al. Antigenic and genetic characteristics of swine-origin 2009 A(H1N1) influenza viruses circulating in humans Science. 10 Jul 2009; 325(5937):197-201. Disponível em https://science.sciencemag.org/content/325/5937/197.

10  Recordamos aos leitores ao episódio que ficou conhecido como “Séralini Affair”. Trata-se do caso de um importante biólogo molecular francês, Gilles-Eric Séralini, cujo estudo publicado em 2012 pela revista Food and Chemical Toxicology atestava a alta toxidade do milho transgênico e cultivado com Roundup em ratos alimentados com o cereal geneticamente modificado. Vítima de uma forte campanha de difamação e descrédito por parte de colegas e da gigante Monsanto, Séraline viu seu estudo ser retirado da revista em função das pressões das grandes corporações cujos lucros dependem dos transgênicos. O biólogo e sua pesquisa sofreram forte campanha de difamação na mídia, por meio de jornalismo científico e pesquisadores bancados pela indústria de biotecnologia, instados a escreverem artigos contestando o estudo do pesquisador francês. O mesmo artigo, porém, foi republicado em 2014 pela revista Environmental Sciences Europe, adquirindo novamente validade científica. Sobre o caso, consultar: FAGAN, J., TRAAVIK, T. & BØHN, T. The Seralini affair: degeneration of Science to Re-Science? Environ Sci Eur 27, 19 (2015). Disponível em https://enveurope.springeropen.com/articles/10.1186/s12302-015-0049-2. Outras fontes de consulta: https://www.lavaca.org/notas/la-mafia-toxica-entrevista-con-gilles-eric-seralini-biologo-frances/; https://aspta.org.br/2012/10/06/seralini-e-ciencia-carta-aberta/.

11  BUTLER, Dacan. Engineered bat virus stirs debate over risky research. Nature. 12 nov. 2005. Disponível em https://www.nature.com/news/engineered-bat-virus-stirs-debate-over-risky-research-1.18787.

12  ANDERSEN, K.G., RAMBAUT, A., LIPKIN, W.I. et al. The proximal origin of SARS-CoV-2. Nature Medicin 26, 450–452 (2020).

13 https://www.zalgen.com/

 



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