A era das revoltas - Le Monde Diplomatique

FIM DO CICLO PARA A SOCIAL-DEMOCRACIA

A era das revoltas

por Serge Halimi
março 1, 2016
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Com o pano de fundo de uma persistente crise econômica na maior parte dos países ocidentais, a emergência de novas forças de contestação testemunha uma enorme impaciência política. Ela se transforma com frequência em revolta. E a esquerda governamental constitui cada vez mais um de seus alvos preferidosSerge Halimi

A impopularidade persistente dos dirigentes socialistas franceses não surge de uma exceção nacional que poderia ser imputada a números ruins do emprego ou à negação metódica dos principais ideais da esquerda. O esgotamento de um ciclo ideológico encarnado há vinte anos pela “terceira via” de Bill Clinton, Tony Blair, Felipe González, Dominique Strauss-Kahn e Gerhard Schröder se observa também nos Estados Unidos e na maioria dos outros países europeus.

No entanto, essa derrota de um social-liberalismo que por muito tempo foi triunfante não favorece exclusivamente forças situadas ainda mais à direita. Ela é acompanhada, há pouco tempo, pelo renascimento de uma corrente contestadora cujas ideias, pretendia-se, eram ultrapassadas, arcaicas, varridas pela globalização, a flexibilidade, as novas tecnologias (ler artigo de Thomas Frank na pág. 18). Dos campi norte-americanos às periferias de Londres, passando pelas municipalidades de Madri e Barcelona, essa esquerda descomplexada dispõe agora de uma continuidade política. E ousa por vezes designar seus inimigos: o controle do capital sobre os meios de produção, o poder da mídia e o poder excessivo da finança. Claro, os rebeldes ainda são um punhado de andorinhas no inverno. Mas em uma época em que a direita extrema ocupa frequentemente o papel de depositária de todas as revoltas, esse raio de esperança bem que poderia disputar com ela as próximas estações.

Decididamente, os sociais-liberais não têm sorte. Em meados de 2015, com o concurso de Angela Merkel, eles tinham submetido os dirigentes gregos do Syriza a um tiroteio a fim de obrigá-los a entrar num acordo. Assim, pensavam ter liquidado qualquer oposição pelo flanco esquerdo. Depois, golpe após golpe, emergiram Jeremy Corbyn – no Reino Unido – e Bernie Sanders – nos Estados Unidos. Mobilizando uma fração apreciável da juventude de seus países, eles reabilitaram ao mesmo tempo o combate político e algumas das aspirações anticapitalistas que a “terceira via” teve a vocação de enterrar.

A essa decepção acrescenta-se outra. Nunca os sociais-liberais tinham capitulado tão totalmente, tão irrevogavelmente, diante das reivindicações do patronato, com a ilusão de obter como retorno a criação de alguns empregos e um novo acordo sobre o poder. Fracasso mais uma vez: o patronato embolsou e a conjectura se degradou. Pior, enquanto a economia e a finança mundial afundam novamente, os principais dogmas neoliberais, adotados há trinta anos pelos sociais-liberais europeus, acabam de ser invalidados por seus arquitetos intelectuais de outrora.

Como a coisa foi feita na surdina, a direita, a esquerda liberal e a grande mídia puderam fingir que não notaram nada e continuar seguindo a estrela do pastor que guia seus passos a cada vez que tudo em volta delas fraqueja: para a crise do mercado, remédios de mercado.1 No entanto, a ineficiência de seus talismãs – redução de impostos e benefícios sociais, precariedade ainda maior, ampliação do livre-comércio – se tornou patente. E a desmistificação dos elementos centrais desse credo agora recrutaram inimigos internos.

Enfraquecer os sindicatos e desmantelar o direito trabalhista deveriam libertar o espírito de empresa e permitir a flexibilidade. Dois economistas do FMI admitiram recentemente que o resultado dessa política – por muito tempo defendida pela instituição – foi principalmente ampliar as desigualdades.2 Eis o que é incômodo no momento em que a questão de um apartheid social ocupa as mentes a ponto de os dirigentes ocidentais fingirem periodicamente que se preocupam com isso.

A desigualdade não é um mal, rebatem alguns liberais para os quais a “dispersão das rendas” encoraja a iniciativa, a inovação, o risco, o emprego. “Os jovens franceses devem ter vontade de se tornarem bilionários”, soltou um dia o ministro da Economia francês, Emmanuel Macron, retomando para si a velha promessa reaganiana de uma “maré crescente que levanta todos os barcos”. Sem se afastar muito das metáforas náuticas, esse postulado é, assim, chamado de “teoria do escoamento”.

E, no entanto, não há muita sorte nesse ponto também. Em 2015, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) calculou que o enriquecimento dos mais ricos (um grupo que conta ao menos com tantos intermediários parasitas quanto com “patrões empreendedores”) tinha comprometido “o crescimento econômico a longo prazo”, ao passo que, pelo contrário, uma melhoria da renda dos mais pobres o teria acelerado.3

Enfim, tinha recomendado Ronald Reagan, depois François Mitterrand, era preciso reduzir os impostos para fazer a economia crescer.4 Reivindicada solenemente por Hollande na coletiva de imprensa de 13 de novembro de 2012, essa “política da oferta” deveria ainda por cima favorecer o restabelecimento das contas públicas. Contudo, a revista semanal britânica The Economist, bíblia do liberalismo mundial, acaba de conceder, um pouco decepcionada, diga-se, que “as previsões de que a redução dos impostos geraria crescimento suficiente para se autofinanciar parecem um pouco irresponsáveis hoje”.5 Trinta anos de insistência neoliberal caindo por terra…

Contudo, nada disso, podemos adivinhar, dissuade os candidatos de direita às próximas eleições a apostar nisso. Por que eles se privariam de fazê-lo, na França, quando Hollande não para, ele também, de bajular os chefes de empresas? Além disso, quando o destino eleitoral de um presidente da República e de seu partido parece selado, apetites são aguçados. Sarkozy considera um “contrachoque fiscal” que compreenderia ao mesmo tempo uma queda de 10% do imposto de renda e a supressão daquele sobre as fortunas (ISF). François Fillon e Alain Juppé endossam essa última proposta, assim como a de uma redução maciça das despesas públicas – a despeito do desemprego em massa, das necessidades gritantes de equipamento nas redes de transporte da região de Ile-de-France (40% das vias e 30% dos interruptores têm mais de trinta anos) e das taxas de juros próximas de zero. Para alcançar seu objetivo, eles sugerem a supressão do emprego de funcionários públicos, a redução dos auxílios dirigidos aos desempregados e o não reembolso de algumas despesas médicas dos estrangeiros. Em suma, que se danem os arrependimentos dos escritórios neoliberais quando eles não correspondem ao interesse dos privilegiados e às “receitas” às quais o social-liberalismo em si está vinculado.

A recusa das preconizações heréticas se torna ainda mais imperativa porque a maldição dos especialistas também atinge o coração do sistema, o ponto de convergência extremo entre liberais de direita e de esquerda: a ideologia do livre-comércio. Foi dito que as perdas de emprego ligadas ao comércio internacional em um setor seriam compensadas pelo surgimento (ou o crescimento) de outras atividades mais produtivas. Contudo, mesmo esse princípio fundador do liberalismo econômico (a teoria das vantagens comparativas e da especialização internacional) vacila. A concorrência dos produtos chineses no mercado norte-americano teria, assim, provocado a perda de 2,5 milhões de empregos nos Estados Unidos; um dado repetido por Sanders, que parece apreciar a ideia de dinamitar por dentro seções inteiras da ideologia de seu partido.

Ele condena ao mesmo tempo o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), ratificado em 1993 e defendido sucessivamente pelos presidentes Clinton e Bush, e o Acordo de Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), assinado em 4 de fevereiro de 2016 pelo presidente Obama com o aval da maioria dos eleitos republicanos do Congresso. Imaginando talvez que os norte-americanos já tivessem esquecido as promessas mentirosas do Nafta, o secretário de Estado, John Kerry, acaba de sugerir que o TPP criará 650 mil empregos nos Estados Unidos.6

Enquanto isso, no front da conjuntura internacional, o céu se fecha, o que raramente é promissor para os dirigentes. Em 2007-2008, a queda dos bancos se explicava pelo desmoronamento de seus ativos imóveis; hoje, sua superexposição no setor petroleiro os ameaça dos mesmos inconvenientes. E com eles muitos países que são reféns desses bancos, incluindo os Estados onde, teoricamente, a esquerda está no poder.

Isso porque, por mais que desagrade àqueles que acreditaram em Hollande em 2012, “o mundo da finança” nunca encontrou “um verdadeiro adversário” na chefia do Estado, e sim homens apressados em servi-lo. Não há necessidade de que a direita esteja nos negócios para que estes controlem os ministros-chave (Macron). Os bancos ou os fundos especulativos recrutam inclusive antigos dirigentes socialistas em seus conselhos de administração (Blair, Schröder, Strauss-Kahn), sem por isso negligenciar o financiamento das campanhas dos candidatos democratas, como a de Hillary Clinton neste momento.

O que significam essas imposturas políticas, essa insistência no erro? E o que isso anuncia? Que o social-liberalismo esgotou a força que lhe foi conferida por sua aliança com as classes dirigentes. Mais poderosas do que nunca, estas têm menos necessidade de intermediários para impor seus interesses. Porém, simultaneamente, as conivências entre antigos socialistas e novos ricos, cada vez mais perceptível, irritam as populações que sofrem suas consequências e pagam por elas. Hillary Clinton defendeu a abolição feita por seu marido da fronteira entre atividades bancárias e especulativas, uma decisão que contribuiu para a crise financeira de 2007-2008.7 Ela estava, então, menos sorridente do que de costume quando Sanders soltou: “Quando crianças são pegas com maconha, são fichadas pela polícia. Mas, quando um alto executivo de Wall Street destrói a economia, nada acontece com ele. É isso o poder, é isso a corrupção, é isso que precisa mudar nos Estados Unidos. Três de nossos quatro principais bancos são hoje mais poderosos do que quando nós os socorremos porque eles já eram too big to fail [grandes demais para quebrar]. É preciso rachá-los! Eles são economicamente poderosos demais, eles são politicamente poderosos demais”.8 Entendemos por que logo após as eleições primárias de New Hampshire, onde Sanders e Trump saíram vitoriosos, um analista financeiro ficou preocupado: “Depois do que houve ontem à noite, os investidores não podem excluir a hipótese de uma saída eleitoral extrema que provocaria grandes riscos para o mercado financeiro”.9

Um candidato democrata que pretende “quebrar bancos”, um republicano que ameaça a China e o México de uma guerra comercial: eis quem deve, de fato, parecer “extremo” nos Estados Unidos. Dá para imaginar que, instruída por sua própria experiência em deslocamentos industriais (outsourcing), na diminuição do poder de compra, no custo crescente dos estudos superiores, uma parte importante da população norte-americana opera brutalmente o esvaziamento de trinta anos de pedagogia da globalização. Na companhia de milhões de jovens que não sofreram a lavagem cerebral da Guerra Fria, eles manifestam seu entusiasmo por um candidato que condena a “classe dos bilionários”, jura dinamitar o modo de financiamento das campanhas políticas e até mesmo… se proclama socialista!10

Essa impaciência, esse desejo de combater uma “esquerda” que capitulou sobre quase tudo se encontra também na Europa. Na Espanha, o Partido Socialista, descreditado pelas baronias locais e os escândalos de corrupção, acaba de registrar o pior resultado de sua história, enquanto os contestadores do Podemos surgiam na cena social e política. O bipartidarismo foi destruído, o jogo se abriu. E em Madri, Barcelona, Zaragoza, prefeituras que transbordam imaginação se opõem às expulsões, atacam os bancos, remunicipalizam seus serviços, dão início a uma auditoria da dívida.

A derrota eleitoral dos trabalhistas britânicos em maio passado também não foi acompanhada, como era costume em casos desse tipo, de um cansaço à direita. O blairismo foi, ao contrário, repudiado pelos militantes, cujo número dobrou e cujos efetivos também são, agora, aqueles de todos os outros partidos reunidos. A eleição de Corbyn demonstrou o desejo de preservar a identidade trabalhista de uma formação que tinha quase que totalmente se desligado dela.11 Como Sanders, o novo dirigente do Labour abre mão dos artifícios da comunicação, expressando-se longamente durante encontros à antiga, sem temer fustigar a grande mídia, que o odeia. Ninguém questiona sua sinceridade quando ele detalha suas ideias, sua filosofia, mais preocupado em mudar radicalmente a orientação dos termos do debate político em seu país do que em ganhar as próximas eleições a qualquer custo.

“Hoje”, lembra Jean-Claude Trichet, ex-diretor do Banco da França, depois do Banco Central Europeu, “nós temos um quase consenso no seio das grandes sensibilidades políticas de governo sobre ao menos três pontos: nossas despesas públicas devem diminuir, nossa economia ainda é muito rígida e nós não somos competitivos o suficiente”.12 Se o “quase consenso” dos dirigentes salta aos olhos, seus resultados também. Trichet é claramente incapaz de compreender, mas aqueles que os recusam são cada vez mais numerosos. Nada é concedido a eles. Assim, depois de ter subjugado a Grécia, a União Europeia visa agora Portugal. “Na cabeça de uma frágil coalizão”, considera Le Figaro, “Antônio Costa, o chefe do governo socialista, prometeu a seu aliado comunista e aos portugueses, esgotados por anos de recessão, aliviar a compressão da austeridade. Salvo que os fiadores de Bruxelas do pacto de estabilidade são surdos para esses pedidos. Sob a pressão europeia, principalmente do guarda alemão e dos mercados, o governo português teve de rever sua postura.”13

Por outro lado, quando o governo conservador de David Cameron exigiu que seus “parceiros europeus” protegessem os interesses da City dos efeitos da moeda única e que Londres reduzisse os auxílios sociais devidos aos trabalhadores migrantes membros da União Europeia, a “postura” britânica não teve de ser revista. E os sociais-democratas do Velho Continente, Hollande em primeiro lugar, endossaram essa “preferência nacional”, as transgressões das regras comuns. Há mais de trinta anos todos proclamam, no entanto, que “a prioridade é a Europa social”…14

Entre tais governantes e a esquerda, o divórcio está consumado. Dá para observar nas urnas, dá para observar nas ruas. O status quo e seus homens são rejeitados, seu espaço político se reduz. A certeza de que esse sistema se tornou irreformável, que as desigualdades só podem aumentar, que as crises não ensinarão nada se infunde agora na sociedade. E o acúmulo de negações, que marca em quase todas as áreas o fim de mandato do presidente francês, adquire quase um valor pedagógico. Pois todo mundo já imagina o sentimento de desespero que gelaria o país no dia seguinte de uma eventual reeleição de Hollande, ou de uma vitória de Sarkozy.

Em tal configuração geral, a opção pelo risco se torna tentadora, a menos que reserve a iniciativa e a vantagem aos seus piores adversários. O terrorismo e a guerra mantêm uma aparência de coesão nacional, mas a desclassificação social e a retratação do futuro não se casarão bem com a estabilidade política por muito tempo. É isso que expressam à sua maneira as novas figuras da esquerda. Seu caminhar é seguro, seu destino é incerto. Mas os pontos de mudança histórica constituem precisamente esses momentos em que é preciso agir em vez de sofrer, se mexer em vez de esperar.

Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).



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