A estratégia da comoção - Le Monde Diplomatique

TREMER EM VEZ DE REFLETIR

A estratégia da comoção

por Anne-Cécile Robert
fevereiro 4, 2016
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Do entretenimento ao noticiário, passando pelos discursos políticos, o recurso à comoção tornou-se uma figura impositiva da vida pública. Se as emoções, positivas ou negativas, enriquecem a existência, elas também impõem formidáveis desafios à democracia, uma vez que substituem a reflexãoAnne-Cécile Robert

A democracia reage como uma rã. Se jogada em uma panela de água fervente, salta para fora imediatamente; porém, se colocada na panela com a água ainda fria, a fogo lento, deixa-se cozinhar. De forma análoga, diversos fenômenos “cozinham” insidiosamente as democracias, ao contrário do efeito que produz um golpe de Estado, com seus militares e a prisão dos opositores. Assim como o inocente borbulhar da água que ferve a rã, os desgastes ocasionados aparecem somente com a justaposição de eventos dramáticos. Os combustíveis que alimentam o fogo sob a panela foram abundantemente descritos.1 Por outro lado, pouco se analisa o papel da invasão do espaço social pela emoção. Os meios de comunicação contribuem muito para isso, sem que se reflita o suficiente sobre quanto esse fenômeno pode ser destrutivo para a democracia e a capacidade crítica.

Basta digitar “A emoção é grande” em um motor de busca on-line para ver desfilar uma infinidade de notícias com esse mote, de fatos banais aos atentados sangrentos em Paris e Beirute. Dessa forma, “a emoção é grande” no mundo após os ataques de 13 de novembro de 2015 na capital francesa, assim como foi algum tempo antes, em Petit-Palais-et-Cornemps, após o acidente de ônibus que custou a vida de 43 pessoas (FranceTVinfo, 24 out. 2015); em Calais, na ocasião da demolição dos edifícios do velho hospital (France 3, 20 nov. 2015); ou ainda em Épinac, cidade de origem de Claudia Priest, sequestrada na África central no início de 2015 (Journal de Saône-et-Loire, edição d’Autun, 21 jan. 2015). A “comoção também foi grande” no fim do ano “para Brigitte, enfim locatária de um apartamento que ela pôde mobiliar graças aos clubes de serviço de Mont-doré” (Les Nouvelles Calédoniennes, 6 jan. 2016).

 

Poderíamos prolongar ao infinito uma lista de exemplos que não se traduz em nenhuma hierarquia para além do ressentimento real ou suposto de populações e daqueles que as observam. Os meios de comunicação não são os únicos a tocar o acordeão emocional. Líderes políticos também o fazem, notadamente quando se trata de mascarar sua impotência ou justificar, como se fossem fatalidades, as medidas que tomam – como no caso de questões migratórias, em que a precaução oratória lança explicações enviesadas sobre a impotência europeia em lidar com elas. De François Fillon, deputado do partido Les Républicains, ao primeiro-ministro Manuel Valls, “insuportável” foi sem dúvida o termo mais usado para qualificar a imagem do pequeno refugiado sírio Aylan Kurdi, sem vida em uma praia da Turquia, em 2 de setembro de 2015, antes da decisão de não fazer nada em relação às fontes do desespero migratório. Em um registro menos trágico, os comentaristas ressaltaram “a emoção” do ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, na ocasião em que selou, com lágrimas na voz, um acordo frágil ao fim da 21ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP 21), em Paris.2 Finalmente, diante dos prefeitos da França, no dia 8 de novembro de 2015, o presidente François Hollande teve um lapso revelador: evocou “os atentados que ensanguentaram a França”.

 

Multidões mudas na passeata branca

Escudo de impotência ou covardia política, o recurso da emoção pode ter consequências dramáticas imediatas. Assim, o advogado de Loïc Sécher, Éric Dupond-Moretti, qualificou de “fiasco”, provocado pela “ditadura da emoção”, o erro judiciário do qual seu cliente foi vítima. Prefeito de uma pequena comunidade, médico, Sécher havia sido acusado de abuso sexual por seu neto. Após anos de prisão, finalmente se viu inocentado pelo testemunho do garoto, que hoje, com 20 anos, reconheceu ter inventado a história. Como no caso de Outreau, a justiça encontrou grandes dificuldades em reverter uma decisão equivocada, tomada em função de relatos tão imaginários quanto espetaculares e da preocupação, bem legítima, de proteger as crianças contra maus-tratos. As simplificações midiáticas, o culto do “tempo real” e as redes sociais não encorajam a serenidade nesses casos delicados.3

Para além do simples acidente político-midiático, a emoção se torna um dos maiores propulsores da expressão social e da decodificação dos acontecimentos. Até mesmo os executivos de empresas são incitados a utilizar sua “inteligência emocional” como ferramenta de gestão, enquanto seus assalariados podem recorrer a ela para obter um aumento.4 Um dos símbolos mais visíveis da invasão do espaço público pela emoção é o fenômeno crescente das “passeatas brancas” contra a violência. Na maioria das vezes espontâneas, acontecem logo após um acidente ou crime particularmente hediondo e reúnem multidões às vezes imensas para a escala das cidades ou vilarejos por onde passam. A primeira delas foi realizada na Bélgica, em 1996, quando o pedófilo Marc Dutroux foi preso, e são ditas “brancas” porque remetem à não violência, ao ideal de paz. Expressam a indignação diante de atos tão insuportáveis quanto incompreensíveis.

 

Nenhuma palavra de ordem ou reivindicação acompanha esses protestos. Multidões deliberadamente mudas se reúnem, em geral com um cortejo de crianças na frente – símbolos de inocência e também de futuro, que muitas vezes carregam velas. O filósofo Christophe Godin vê essas manifestações como a expressão de uma “crise da sociedade”, caracterizada pelo “império das emoções”, cuja prática da passeata branca “lhe dá um eco considerável”.5 Essas procissões dos novos tempos valorizam e tornam onipresente a figura da vítima, que nesse momento é cheia de virtudes e a quem se rende homenagem absoluta, sem questionamentos, por um processo de empatia. “Poderia ser eu”, repetem significativamente as pessoas interrogadas sobre um acontecimento trágico ou criminal. Toda catástrofe é acompanhada, assim, do deslocamento teatral de células psicológicas. Os processos da Corte Penal Internacional preveem atualmente espaços para a palavra de vítimas, sem ligação com as necessidades de manifestação da verdade em um caso nem questionamentos sobre os choques prejudiciais à serenidade das deliberações que esses testemunhos espetaculares e inúteis podem provocar.

O culto à vítima encontrou na França uma ilustração sintomática no projeto – finalmente abandonado – de transferência de Alfred Dreyfus para o Panteão, objeto de uma campanha antissemita de rara violência nos anos 1890. Não se confunde aqui vítima e herói? O capitão apenas sucumbiu dolorosamente aos acontecimentos; em nenhum momento agiu de forma a distinguir-se. Ao contrário, o tenente coronel Georges Piquart, demitido do Ministério da Guerra e expulso do Exército por ter denunciado o complô armado contra Dreyfus, poderia beneficiar-se perfeitamente da atenção menos exigente dos que definem o Panteão, e juntar-se a Émile Zola.

Outro exemplo de confusão entre vítima e herói: a escolha de homenagear as vítimas dos atentados de Paris na Cour des Invalides, lugar pensado por Luís XIV em reverência aos soldados feridos nas frentes de batalha. A cerimônia deu um grande espaço à emoção, colocada em cena diante das câmeras. O psicólogo Jacques Cosnier define uma sociedade “patófila”, que venera doenças.6 A filósofa Catherine Kinzler se inquieta, por sua vez, com a “ditadura aviltante da afetividade”.7

A emoção coloca um desafio considerável à democracia porque se trata, por natureza, de um fenômeno que põe o cidadão em posição passiva. Ele reage em vez de agir e se aferra ao ressentimento em lugar da razão. São os acontecimentos que o motivam, não seu pensamento crítico. As passeatas brancas não têm consequências práticas. A justiça permanece sem meios, a sociedade continua a se decompor. Além disso, ainda não se ouviu falar de nenhuma passeata branca pelo suicídio de um desempregado ou o assassinato de um fiscal do trabalho. “A emoção é sofrida, não podemos sair a seu favor, ela se esgota em si mesma, mas não podemos pará-la”, escrevia Jean-Paul Sartre. “Quando, com as vias obstruídas, a consciência se lança no mundo mágico da emoção, ela se lança de forma integral e se degrada […]. A consciência que se torna muda se parece com a consciência que adormece.”8

À “estratégia do choque”9 decodificada por Naomi Klein, deveria se acrescentar a “estratégia da emoção”? A classe dirigente se aproveitaria para despolitizar os debates e manter os cidadãos nessa situação infantil de dominação pelos efeitos. A emoção abole a distância entre sujeito e objeto, impede o recuo necessário para o pensamento e priva o cidadão do tempo da reflexão e do debate. “A emoção se impõe no imediatismo, em sua totalidade”, explica Claude-Jean Lenoir, ex-presidente do círculo Condorcet de Ferney-Voltaire. “Ela se impõe a ponto de transformar qualquer consciência em emoção. A emoção permanece o inimigo radical da razão: ela não tenta compreender, ela ‘se ressente’. Esse estado contemporâneo se deve também à influência e emergência das redes sociais. Distância? Nenhuma! Tuitamos, curtimos adoidado. O senso crítico, a cultura, a pesquisa da verdade se degradam cada vez mais. Analisamos, julgamos, executamos, divulgamos: é o que se ressente, em que se acredita – sem saber.”

A valorização da emoção constitui, assim, um terreno favorável ao aliciamento guerreiro de filósofos midiáticos sempre prontos a apoiar uma guerra “humanitária”, como um Bernard-Henri Lévy em relação à expedição da Líbia em 2011. Mas também um terreno mais cotidianamente favorável aos mecanismos do storytelling10 e às falsas evidências do populismo. Em seu famoso discurso em Dacar, em 2008, Nicolas Sarkozy afirmou: “Eu acredito nessa necessidade de crer em vez de compreender, de se ressentir em vez de refletir, de estar em harmonia em vez de em batalha…”. Mais adiante, sua ministra da Economia, Christine Lagarde, também convidaria os franceses a “agir em vez de refletir”.

No entanto, as passeatas brancas preenchem também um vazio deixado pelas formas coletivas de ação, como o sindicalismo e a militância política. Não é menos significativo que o fenômeno tenha nascido na Bélgica, em um momento de decomposição do Estado central e onde a desindustrialização teve consequências devastadoras no tecido social. Diante dos sofrimentos e crenças em relação ao futuro, a emoção reumaniza, se opõe ao cinismo e faz bem. E alivia mais quando compartilhada, como em uma passeata branca ou uma cerimônia nos Invalides. Extirpa brevemente o sentimento pesado da impotência por uma comunhão certamente algo primitiva. “Um telespectador em sua casa comovido com um crime ou com o massacre do Charlie Hebdo está só”, explica Godin. “A passeata branca permite que ele compartilhe sua emoção. O fenômeno é evidentemente social e ao mesmo tempo muito equivocado.”11 Nesse sentido, a emoção expressa nessas ocasiões não poderia ser traduzida por um desejo confuso de “(re)fazer a sociedade”, de restabelecer os laços sociais?

 

Questionada sobre a ausência de processos revolucionários em uma França carregada de regressão social e política, a historiadora Sophie Wahnich explica que a Revolução de 1789 pode ser analisada como o ápice de um longo processo de politização da sociedade, empreendido no seio das assembleias comunais do Antigo Regime. Os franceses adquiriram o hábito de refletir primeiro sobre acontecimentos locais e perpetuaram esse hábito nos acontecimentos ligados à convocação dos Estados gerais no ano de 1789.12 A dificuldade da crise política atual também se deve ao fato de que esse espaço público desapareceu progressivamente – o que torna ainda mais difícil as tentativas de refundação organizacional da esquerda.

Se a passeata branca de certa forma é o estado primário do tecido político, a perspectiva muda. Assim, ela é “implicitamente política”, segundo Godin, que a enxerga como uma recriminação não dita contra o poder público que “não protege mais”. Aquela primeira passeata na Bélgica também teve como objetivo protestar contra a negligência da polícia e da justiça na perseguição de um criminoso que havia escapado da prisão. Para contribuir com a reconstrução da democracia, esse processo deveria prolongar no tempo os laços sociais constituídos pela emoção e progressivamente levá-los à politização.

A metáfora do início do presente artigo encontra eco em Voltaire, que conta a história de duas rãs que caem em uma tigela de leite. A primeira se põe a rezar sem se mexer, afunda e termina por se afogar. A segunda se debate tanto que o leite se transforma em manteiga. Basta agora se apoiar no elemento sólido para saltar para fora da tigela.

Anne-Cécile Robert é jornalista e autora, com Jean Christophe Servant, de Afriques, années zéro (Nantes, L’Atlante, 2008).



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