A face conservadora da tecnologia da informação -

Feminismo transnacionais

A face conservadora da tecnologia da informação: predomínio branco e masculino

por Tatiele Souza
9 de julho de 2020
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Por que há, na área de tecnologia, tão poucas mulheres e homens negros e tão poucas mulheres brancas? Embora tal questão seja pertinente, parto de outra, qual seja: por que essa área tem mantido o predomínio branco e masculino? Confira mais um artigo da série especial Feminismos Transnacionais

Seria redundância destacar o grande valor das tecnologias da informação na contemporaneidade. Seu espantoso alcance nas diversas esferas sociais, numa velocidade nunca vista, tem viabilizado intensas mudanças, sobretudo em tempos de pandemia e de distanciamento social. Menos suscetível a variações, mais homogênea e, arrisco, conservadora, está a composição das pessoas responsáveis pela sua produção e criação, marcada pela alta presença de homens brancos e, em anos recentes, por um fenômeno curioso: a redução da participação de mulheres em nível nacional e internacional.

Na contramão de uma igualdade de gênero e numa trajetória de acentuação da desigualdade, os últimos censos brasileiros revelaram crescimento da presença masculina de 77% para 79% entre 2000 e 2010 nas ocupações relacionadas à tecnologia da informação no país. Dados mais recentes corroboram esse cenário, como o estudo da Softex, que, ao analisar o mercado de trabalho formal, constatou redução da participação feminina, em que as mulheres contabilizaram apenas 20% das trabalhadoras em 2017.

No mesmo caminho da questão de gênero, o cenário sobre a questão racial não é animador e pode ser caracterizado pela acentuada presença de pessoas brancas, sendo 87% em 2000 e 79% em 2010. Essa redução de 8% nesse período conduziu uma redistribuição que articula raça e gênero. Assim, houve um incremento de homens negros, ainda que baixo, passando de 11%, em 2000, para 17%  em 2010. O mesmo não pode ser observado quanto às mulheres negras, que eram 3% em 2000 e passaram para 4% na década posterior.  Essas poucas alterações ratificam um cenário de desigualdade que articula raça e gênero no campo.

A primeira pergunta feita, diante de um quadro como esse, é: por que há, nessa área, tão poucas mulheres e homens negros e tão poucas mulheres brancas? Embora tal questão seja pertinente, parto de outra, qual seja: por que essa área tem mantido o predomínio branco e masculino?

Alterar a pergunta sobre o porquê de tão poucas e poucos para o que mantém um grupo em maioria por tanto tempo pode contribuir para visibilizar o modo como determinadas tecnologias têm sido acionadas para repelir determinados grupos, configurando lugares e não lugares ocupados na estrutura social.

Patrick Amoy/Unsplash
A configuração dos espaços de poder

 Os estudos das mulheres e das relações de gênero já evidenciaram como a construção cultural e social, a partir  das supostas diferenças sexuais, erigiram um mundo binarizado, por meio do qual se atribuía às mulheres a esfera privada e as características associadas ao cuidado e à emoção e, ao homens, a esfera pública, a objetividade e a racionalidade. Aí está também a divisão do poder e do trabalho, associada ao domínio masculino, como bem apresentado nos estudos sobre divisão sexual do trabalho realizados por Danièle Kergoat e Helena Hirata.

Vale enfatizar que a construção dessa binariedade e do acesso aos lugares de poder é marcada por processos de universalização do “ser mulher” e do “ser homem”, que não têm correspondência na prática, seja porque as pessoas são dotadas de todos os atributos mencionados no parágrafo anterior, seja porque tais características foram construídas de modo racializado, ao passo que mulheres negras sempre trabalharam em áreas associadas ao universo masculino, em trabalhos que exigiam força e perigo,  assim como aos homens negros os espaços de decisão, poder e racionalidade foram negados, como apontam diversos estudos interseccionais – destaco aqui o livro “Mulheres, classe e raça”, de Angela Davis, e “E eu não sou uma mulher”, escrito por bell hooks.

 

Apagando as contribuições

 A história do desenvolvimento da informática configura um lugar privilegiado para compreender o modo como a divisão sexual do trabalho e uma estrutura racializada podem se configurar em uma área.

Importa enfatizar que, no início, quando essa área apresentava-se como campo “esotérico”, marcada pela ausência de estereótipos, entre 1950 e 1980, havia uma presença marcante de mulheres, sobretudo brancas. A redução da participação feminina acentua-se na mesma velocidade em que a área consolida-se e conquista prestígio econômico e social, erigindo-se estereótipos e identidades públicas associadas ao universo masculino e à cultura geek, como apontam as pesquisadoras Abbate e Hayes (2010).

Ada Lovelace, considerada primeira mulher programadora da história, Katherine Johnson, mulher negra, figura central nos progressos realizados pela Nasa para a chegada à lua e exploração espacial, além das diversas mulheres matemáticas, que contribuíram para o desenvolvimento do primeiro computador eletrônico, Eniac, são alguns exemplos da relevância das mulheres nesse campo. Há várias outras invisibilizadas ao longo da história – alguns desses nomes estão disponíveis no artigo “Mulheres na informática, quais foram as pioneiras?” e no livro “Gender codes: why woman are living computing”.

Se muitos são os componentes que explicam a homogeneidade de um grupo no campo da tecnologia da informação, destaco aqui a importância de se pensar as imagens públicas e a construção de estereótipos na produção, na reprodução e na acentuação das desigualdades.

Desigualdade em números, desigualdade na difusão de imagens de gênero e de raça

O modo como a sociedade representa os ideais de feminilidade e de masculinidade e do que é ser pessoa branca e negra contribui para a construção de estereótipos, os quais orientam formas de se relacionar e controlam o modo como os espaços são ocupados nas diversas esferas sociais, inclusive no mercado de trabalho, o que torna a análise do perfil profissional uma dimensão relevante para se compreender o predomínio masculino e branco na área.

Em minha pesquisa, após analisar 393 matérias relacionadas ao trabalho, à carreira e à profissão no campo da TI, em duas revistas e em um site, entre 1980 e 2014, identifiquei uma distribuição que escancara a homogeneidade premente na área. As imagens de homens brancos foram veiculadas 75,5 vezes mais que as imagens de mulheres negras, 50,5 vezes mais que a de homens negros e três vezes mais que a de mulheres brancas.

Empreender análises dessa ordem envolve, além de quantificar as imagens, compreender a forma como a linguagem é construída, como as imagens são dispostas e o público ao qual essas imagens se direcionam. Isso feito, a constatação é a de que, apesar de mudanças no perfil de profissional, ao longo do período analisado, permaneceu inalterada  a  difusão de um conjunto de imagens positivas, associadas ao universo branco e masculino,  ratificadas na difusão de uma linguagem androcêntrica e no  modo como as imagens e os temas foram difundidos.

A construção de um padrão racista pôde ser observado na invisibilidade e no ofuscamento das imagens de pessoas negras que, em sua maioria, não estavam dispostas como protagonistas ou em enquadramentos centralizados, mas em imagens de grupos de pessoas, buscando simbolizar a diversidade, uma situação que perpetua a desigualdade racial e alimenta imagens que nos fazem “naturalizar” a baixa presença de pessoas negras nos espaços sociais. Essa construção também invisibiliza a diversidade dos corpos pretos e realça a diversidade dos corpos brancos, como já observado por Kátia da Costa no capítulo de livro intitulado “De quando a pluralidade revela a invisibilidade”. Essa situação é similar na retratação da presença das mulheres, em sua maioria brancas, associadas a matérias cujo tema central remetia a “mulheres e tecnologia”. Na ausência do referido tema, a falta de enquadramento, de centralização e de foco dava o tom.

A única figura veiculada de modo pleno associada a exemplos de sucesso, de modelos de profissionais e de empreendedores, desassociada de “nichos” específicos, devidamente enquadrados e centralizados, era a masculina e branca.

O quadro apresentado ilumina as respostas aos questionamentos realizados no início do texto. O controle das imagens nas revistas e nos sites da área de TI analisadas, marcadas pela predominância masculina e branca, a mesma presente nas estatísticas oficiais, configura uma importante tecnologia orientada para manter a hegemonia e afastar os demais grupos. Patrícia Hill Collins demonstrou muito bem, com o conceito de imagens de controle, o modo como os estereótipos negativos sobre as mulheres negras são utilizados para manter as relações de dominação e opressão.

Há uma intersecção entre as relações de gênero e de raça na produção e na reprodução da ocupação de trabalho nesse campo.  O grupo que incorpora de forma plena o padrão ideal de profissional, branco e masculino, constitui-se como maioria; por outro lado, o grupo que não incorpora nenhum dos marcadores que permitem uma discriminação positiva, qual seja, as mulheres negras, são minoria. Disputando a segunda e terceira posição, longe de uma paridade, estão os grupos que possuem um dos marcadores sociais, raça, no caso dos homens negros, e gênero, no caso das mulheres brancas.

 

Uma orquestra

Importa dizer que há outras dimensões que formam uma orquestra poderosa na produção da homogeneidade na área. As barreiras visíveis e invisíveis que impedem determinados grupos de acessarem o campo da tecnologia são de ordem de gênero e de raça, como apontamos aqui, mas também relacionam-se à questão de classe social, na medida em que ultrapassam a esfera do trabalho e têm raízes históricas e sociais. A pandemia escancarou, para quem ainda não estava atenta, a desigualdade social em nosso país, expressa na dificuldade de se manter em casa, sem acesso à renda, na dificuldade de manter os estudos, sem acesso à internet, a computadores, a livros e a condições básicas de moradia, situação em que os grupos mais vulneráveis constituem a população que não está enquadrada na homogeneidade do campo.

Do mesmo modo em que há uma orquestra produzindo tais desigualdades e mantendo esse padrão masculino e branco, também exige-se uma orquestra para seu rompimento. É importante desconstruir os estereótipos de gênero no campo profissional, marcados pela excessiva valorização do universo masculino e branco. É relevante uma mudança no âmbito educacional, ainda marcado por uma cultura machista, que mantém estereótipos e teima em não valorizar a potência das alunas para as áreas de exatas e de ciências.  Também é exigido um olhar antirracista dando as condições para que estudantes negros e negras sejam reconhecidos/as, visibilizados/as, valorizadas/os e acionadas/os para participar das áreas. Além disso, exige-se criar condições adequadas de acesso à tecnologia e a possibilidades de estudo, que só podem ser realizadas ao se demandar condições econômicas adequadas.

Vale enfatizar que há um conjunto de iniciativas em nosso país que tem fomentado ambientes mais equitativos, nas diversas partes do Brasil e nos ambientes virtuais. Muitos desenvolvidos em instituições públicas de ensino, destaco aqui, o projeto ADAS, realizado no Instituto de Informática na Universidade Federal de Goiás, associado ao programa Meninas digitais, da Sociedade Brasileira de Computação – SBC; o projeto Cientistas Formosas, executado no Instituto Federal de Goiás, Campus Formosa, e os diversos  núcleos de estudos e pesquisas em Gênero e Diversidade e Afro-Brasileiros e Indígenas empenhados na promoção de ambientes educacionais mais equitativos presentes em escolas, institutos federais e universidades.

Sem nenhuma intenção de esgotar essa discussão, não é possível falar das boas iniciativas para mudar esse panorama, sem falar em Ana Carolina da Hora, Nina da Hora, Cientista da Computação, que tem afirmado a importância da descolonização dos saberes, apresentando as contribuições de cientistas do continente africano para os diversos campos do saber, especialmente, para a tecnologia.  Apoiar tais iniciativas, participar dos eventos promovidos, entender que não é um problema das mulheres ou das pessoas negras são atitudes essenciais para mudar esse panorama desigual, seja no mercado de trabalho em tecnologia da informação, nas instituições educacionais ou em qualquer outra esfera da nossa sociedade.

Tatiele Souza é professora de Sociologia no IFG. Doutora em Sociologia pela UFG. Seus estudos e pesquisas concentram-se na área de Sociologia do Trabalho, com ênfase em temas relacionados à identidade, gênero, tecnologia e desigualdades no trabalho.

 

 

 

 

Referências

ABBATE, JANET. Popular Images of Computing and Women’s Historical Expriences. In: MISA, Thomas J. Gender Codes: Why Women Are leaving Computing. Hoboken, New Jersey: John Wiley & Sons, Inc., Hoboken, 2010.

COSTA, Kátia Regina Rebello da. De quando a pluralidade revela a invisibilidade. In:

BORGESR, Roberto; BORGES, Rosane (Orgs.). Mídia e racismo. Brasília: ABPN, 2012.

COLLINS, Patrícia Hill. Pensamento Feminista Negro.

HAYES, Caroline Clarke. Computer Science: The incredible shrinking Woman. In: MISA, Thomas J. Gender Codes: Why Women Are leaving Computing. Hoboken, New Jersey: John Wiley & Sons, Inc., Hoboken, 20 10.

HIRATA, Helena. KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, p. 595-609, set./dez. 2007.

 

 



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