A frieza do cotidiano e a morte da empatia
A incapacidade de reconhecer no outro um ser em sofrimento
Estava no prédio ambulatorial do Hospital das Clínicas de São Paulo, uma das maiores referências em medicina e cuidado do país, aguardando alguns minutos para uma visita. Era 17 de outubro, véspera do Dia do Médico.
Enquanto esperava, um jovem rapaz, visivelmente abalado, começou a bradar em desespero. Dizia que a filha havia morrido e que, além da dor da perda, enfrentava agora a frieza e a burocracia do local para conseguir retirar o corpo e realizar o sepultamento.
O problema, percebi, não era apenas a burocracia – inevitável em certos contextos –, mas a maneira fria e distante com que uma senhora, apresentada como coordenadora do setor, lidava com a dor daquele pai. Faltava humanidade. Faltava empatia.
A cena me atravessou profundamente. A frieza e o descaso, em vez de amenizarem o sofrimento, o tornavam ainda mais cruel. Em vez de acolhimento, havia rigidez. Em vez de compaixão, indiferença. E ali, diante de uma dor tão exposta, parecia que o humano havia se ausentado do humano.
Enquanto o rapaz gritava, a coordenadora se manteve inerte, insensível, até que – sem uma palavra de consolo – deixou o local. Minutos depois, uma de suas funcionárias subalternas apareceu e, com simplicidade e empatia, apresentou a solução que o rapaz tanto precisava.

Não foi a burocracia que desumanizou aquela cena, mas a ausência de sensibilidade. A incapacidade de reconhecer no outro um ser em sofrimento.
Fiquei pensando se o que presenciei não seria a materialização do que o filósofo Achille Mbembe define como necropolítica – a política da morte, em que as estruturas sociais e institucionais passam a decidir quem é digno de cuidado e quem pode ser descartado.
Naquele instante, a dor do rapaz parecia invisível diante do peso dos protocolos e da rigidez de uma máquina que, há muito, parece ter desaprendido a sentir.
Saí dali assustada, um pouco mexida, mas também grata por ainda me indignar. Porque o dia em que eu achar normal assistir a um homem implorando por dignidade e sendo recebido com indiferença, terei perdido algo essencial: a minha humanidade.
A cena me pareceu um quadro realista pintado com as cores mais frias possíveis – daqueles que nos obrigam a encarar o que preferiríamos não ver. Nenhum roteiro, nenhum ensaio. Apenas a vida, em sua forma mais dura, mostrando o quanto ainda precisamos reaprender a sentir.
E pensar que tudo isso aconteceu em um lugar que simboliza o cuidado, justamente na véspera do Dia do Médico.
Nos dias em que escolho cuidar, é quando as narrativas mais duras se descortinam – e é preciso dar voz a quem a sociedade insiste em tornar invisível.
Clécia Rocha é jornalista, natural de Feira de Santana, Bahia, que pesquisa a comunicação como ferramenta de cuidado. Ativista dedicada aos cuidados paliativos, une sensibilidade e compromisso social em suas narrativas. Qualificada como cuidadora de idosos, atua na interface entre comunicação, direitos humanos e cuidado, buscando dar voz às histórias invisíveis e fortalecer o protagonismo humano em contextos de vulnerabilidade.

