Quando já não se trata de curar
Cuidar é um ato profundamente humano – e inevitavelmente político

Cuidar é um ato profundamente humano – e inevitavelmente político
Entre a escuta e a palavra, uma jornalista descobre que o cuidado também floresce no silêncio – no gesto simples de estar junto
A incapacidade de reconhecer no outro um ser em sofrimento
Com o abandono por parte dos genitores, na esmagadora maioria das vezes, a responsabilidade e a obrigação pelo cuidado dos filhos recaem sobre as mulheres — muitas vezes, as próprias mães, mas não apenas elas. Avós, tias, primas, irmãs e toda uma rede feminina podem acabar assumindo mais esse dever, frequentemente tratado por muitos como uma escolha natural, quando, na realidade, está longe disso. Em média, quase um milhão de certidões de nascimento registram apenas o nome da mãe. Mas o que esse dado nos revela?
A comunicação, quando orientada pela empatia, não apenas transmite informação — ela cria vínculos, alivia angústias e devolve sentido à existência
Do ponto de vista de duas mulheres negras como nós, que são mães solo desde a adolescência, a roda do cuidado foi evidenciada desde muito cedo
Supor que há uma afinidade maior entre as mulheres e o cuidado é um dos grandes engodos que buscam essencializar os trabalhos domésticos e de cuidado, a ponto de os julgarem como naturalmente femininos
O cuidado com o outro é tratado como algo subalterno, sem valor. Apesar de o mundo não funcionar sem esse tipo de trabalho. Em muitos casos, o labor das mulheres não passa de servidão seja na intimidade de suas famílias ou junto das famílias dos empregadores
Cuidar é o oposto de desrespeitar, humilhar e desautorizar. Se Lula quer ultrapassar a retórica hobbesiana sem depender do humanismo cirandeiro, precisa mostrar como políticas públicas geram respeito, evitar vender sustos de desenvolvimento que se transformam em humilhação social e reverter o exercício do poder encarcerador em autoridade simbólica minimamente libertária
Em entrevista, a deputada federal eleita Sônia Guajajara (Psol-SP) comenta as expectativas com o novo governo, analisa o legado deixado pela gestão anterior e destaca a agenda de lutas dos povos indígenas e o papel dos movimentos sociais na construção de uma sociedade que valorize a vida, o meio ambiente e as pessoas
Em tese, estamos todos de acordo que os programas de governo se baseiem em fortalecer a cidadania e a democracia. Mas nem todos concordam, na prática, que essa é uma via de mão dupla. Se o governo deve, por obrigação, cuidar da população, esta também precisa cuidar do governo escolhido pelo voto da maioria
A mesma perspectiva que embasou o colonialismo – de estupros, assassinatos, destruição da natureza, roubos e apagamento de memórias – perdura até hoje. Essa perspectiva corrobora a repetição de um modo de vida e produção que a médio e longo prazos não significam outra coisa senão a morte – e coletiva. É o esgotamento como premissa