O jornalismo que me levou ao cuidado
Entre a escuta e a palavra, uma jornalista descobre que o cuidado também floresce no silêncio – no gesto simples de estar junto
Eu ainda estava em aula quando o celular vibrou. Passava das cinco horas da tarde de terça-feira. O corpo pedia pausa, o dia já se despedia pela janela, e eu tentava encerrar mais uma conversa sobre o tema que segue me acompanhando em pesquisa: o cuidado. Quando se acredita em algo, ele se infiltra em tudo – nas falas, nos intervalos, até no cansaço.
A mensagem era de uma agência: precisavam de uma profissional para um atendimento no Hospital das Clínicas. Li rápido, respirei e respondi “sim”. Não sabia o caso, tampouco o paciente. Mas há decisões que não precisam de tempo – apenas disponibilidade.
Tenho vivido nesse entrelugar: o jornalismo e o cuidado. No primeiro, aprendi a ouvir histórias. No segundo, a sustentá-las com presença. É nessa travessia que encontro sentido: entre a palavra e o gesto, entre o contar e o cuidar.
O encontro
O paciente se chamava “Luiz”. Jornalista, como eu. Nome conhecido nas redações do Brasil, com trajetória sólida na editoria de arte. Quando cheguei, estava ao lado da esposa, uma mulher de voz calma, firme mesmo em dias difíceis. O quarto não era silencioso, ainda assim havia ali uma mistura de espera e esperança.
“Luiz” havia sofrido um AVC. Sua voz saía em fragmentos – sons breves, hesitantes, mas cheios de intenção. Ele buscava as palavras como quem tenta abrir um caminho encoberto de névoa. Cada som, um esforço. Cada esforço, uma afirmação de vida.
Sentei-me perto e deixei o tempo ficar mais lento. O som dos aparelhos se misturava à respiração. A comunicação acontecia sem pressa, e sem a necessidade de muitas palavras.
A escuta como ponte
Foi ali que percebi: o jornalismo continua me atravessando. Mesmo longe das redações, sigo ouvindo histórias, agora de outro modo. Sem perguntas, sem microfone, apenas com atenção.
Luiz tentava se expressar com o que conseguia emitir, e eu aprendia um idioma novo: o da pausa, do esforço, da tentativa. Cada emissão era um sinal de resistência, uma notícia nascida do próprio corpo.
Acostumada ao peso das palavras, descobri que o silêncio também comunica – muitas vezes, com mais verdade.
Comunicar é cuidar

Naquele quarto, compreendi que comunicar também é cuidar. A linguagem está no que se diz, mas também no que se sustenta com o olhar, com a escuta e com o tempo oferecido ao outro.
O jornalismo me ensinou a narrar o mundo. O cuidado, a permanecer nele. Às vezes, a maior história é essa: a persistência que se revela nos gestos simples.
Luiz mostrou que, mesmo quando a voz falha, a comunicação continua. E eu aprendi que cuidar é permanecer, mesmo quando não há o que dizer.
O depois
Nosso encontro não terminou naquela terça-feira. Aos poucos, estreitamos a relação, e eu segui acompanhando sua história.
Vi a evolução: a voz retornando, o olhar mais firme, os movimentos retomando o corpo antes tão imóvel. A reabilitação era lenta, mas cheia de força e vontade.
Quem vive esse processo de perto sabe: o cuidado também é uma forma de esperança. E quem se permite estar ali, sentindo e acompanhando, se emociona com cada pequena conquista.
Entre o jornalismo e o cuidado, sigo nesse território comum: o da escuta.
É ali que as histórias nascem, crescem e se transformam.
É ali que o humano acontece.
Sigo narrando.
Luiz é um nome fictício, utilizado para preservar a privacidade do paciente.
Clécia Rocha é jornalista e ativista dos cuidados paliativos, e estuda a comunicação como ferramenta de cuidado. Seu trabalho explora a escuta, a presença e as formas sutis de comunicação que atravessam as experiências humanas. Entre o jornalismo e a prática do cuidar, dedica-se a narrar histórias onde a palavra e o silêncio se encontram.

