CUIDAR É SUSTENTAR A NARRATIVA DE ALGUÉM ATÉ O FIM

Quando já não se trata de curar

Cuidar é um ato profundamente humano  e inevitavelmente político  

A qualidade da travessia como compromisso ético 

Tratava-se de um homem de 86 anos que, após uma ida aparentemente simples ao hospital, recebeu o diagnóstico de neoplasia em metástase. A palavra costuma produzir um efeito imediato: o mundo encolhe, a família paralisa, instala-se a sensação de que nada mais pode ser feito. 

Essa é, talvez, uma das maiores distorções da nossa cultura médica. Confundimos ausência de cura com ausência de responsabilidade. 

Havia o que fazer. E foi feito. 

Antes mesmo do encontro presencial, conversei com familiares. Uma sobrinha, depois o filho, depois outra sobrinha. Aprendi no jornalismo que a escuta começa antes da presença física. Ela se revela nas pausas, na respiração, na maneira como o nome do doente é pronunciado. Ali havia algo fundamental: vínculo. E onde há vínculo, há responsabilidade. 

Sempre entendi a narrativa como um gesto ético. Ao ingressar no campo dos cuidados paliativos, compreendi que cuidar também o é. Ambos exigem atenção radical ao outro. Ambos recusam a superficialidade. Ambos se opõem à redução de uma vida a um dado clínico. 

Crédito: PxHere

No hospital, encontrei um homem lúcido, consciente da gravidade de sua condição. Ao lado dele, a esposa com quem dividira 61 anos de história. Sua presença não era negação da realidade, mas permanência diante dela. Havia ali uma forma de coragem silenciosa que nenhum protocolo é capaz de prescrever. 

Ele sabia que não se tratava de cura. Sabia dos limites. Mas compreendia também que ainda havia escolhas possíveis. E é precisamente nesse ponto que meu ativismo pelos cuidados paliativos ganha concretude. 

Defendo publicamente que cuidados paliativos não representam desistência, mas uma forma mais exigente de compromisso. Não são abandono terapêutico, mas redefinição de objetivos. São controle rigoroso de sintomas, decisões compartilhadas, respeito às vontades, escuta qualificada. São a recusa em reduzir alguém ao próprio diagnóstico. 

Cuidar é sustentar a narrativa de alguém até o fim. É assegurar que uma biografia não seja abruptamente interrompida por um laudo. É reconhecer que, mesmo quando o corpo se fragiliza, a história permanece em curso. 

Em determinado momento, ele expressou um desejo simples e imenso: pedir perdão à esposa. Organizou-se uma chamada de vídeo. Não houve discursos longos. Houve reconhecimento. Houve verdade. Houve humanidade. 

Ela o perdoou. 

A partir dali, algo se reorganizou. A voz começou a falhar. As palavras rarearam. O corpo passou a expressar o que já não era possível verbalizar. A respiração mudou de ritmo. O silêncio adquiriu densidade. 

Na madrugada de um sábado, o processo se completou. 

Eu estava presente – como profissional e como testemunha. Era também o dia do meu aniversário. Enquanto a vida, em mim, avançava mais um ano, a dele se encerrava. Não houve celebração. Houve a consciência nítida de que existência é convivência permanente entre começos e despedidas. 

Reconheço: foi um privilégio acompanhar aquele desfecho. 

Não porque a morte seja desejável, mas porque testemunhar alguém organizar sua partida com lucidez, reconciliação e amparo revela o que o cuidado pode ser quando praticado com ética e responsabilidade. 

Nem todos têm acesso a essa possibilidade. Nem todos contam com equipes preparadas para compreender que a qualidade da travessia importa tanto quanto a extensão do tempo. 

Há batalhas que não dizem respeito a vencer a morte, mas a honrar a vida até o último instante. 

Naquele quarto havia relação, história, família, amor. 

A vida não venceu a doença. 

Mas venceu o silêncio entre dois corações. 

E isso também é vitória. 

Por isso insisto: cuidar é um ato profundamente humano – e inevitavelmente político. Narrar esse cuidado é impedir que ele permaneça invisível. 

Aprendi, ao longo dessa travessia, que cuidar é narrar até o fim. 

E narrar é recusar que uma vida termine em silêncio. 

 

Clécia Rocha é jornalista e ativista dos cuidados paliativos, e estuda a comunicação como dispositivo de cuidado. Seu trabalho explora a escuta, a presença e as formas sutis de comunicação que atravessam as experiências humanas. Entre o jornalismo e a prática do cuidar, dedica-se a narrar histórias onde a palavra e o silêncio se encontram. 

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