A função social da leitura e da literatura para crianças e jovens - Le Monde Diplomatique

EDUCANDO O MEDIADOR

A função social da leitura e da literatura para crianças e jovens

por Dolores Prades
1 de outubro de 2011
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A experiência de ler uma obra literária conduz a criança e o jovem a compreender melhor as relações humanas e os contextos sociais nos quais se desenvolvem, abrindo caminhos para a compreensão do mundo e do outroDolores Prades

Apesar de não compartilhar das visões que atribuem um caráter redentor à leitura, acredito que em países como o Brasil, onde a desigualdade social é gritante e o consequente acesso à leitura também, dedicar-se à formação de leitores é uma ação de intervenção política das mais sérias e comprometidas. Se não garante por si mesma nenhuma salvação, uma vez que não possui nenhum sentido absoluto, ela pode, sim, garantir a democratização do acesso à cultura. Porém, a leitura é também e, primordialmente, garantia para uma efetiva inserção da grande maioria da população num mercado de trabalho competitivo e capaz de fazer frente às exigências de um mundo global em crise.

Daí a importância dos mediadores de leitura – responsáveis pela promoção e pela formação de novos leitores – e a urgência de ampliar esse contingente, formando cada vez mais novos quadros que levem os livros aonde não existem. O que temos hoje é uma rede de ações, muitas delas iniciativas pessoais, espontâneas, que, somadas aos mediadores “profissionais” – professores, bibliotecários, editores, livreiros, pais e familiares, responsáveis pela promoção da leitura e pela elevação do nível leitor do país – constituem os militantes da leitura.

A ausência de uma cultura letrada, a familiaridade quase nula da grande maioria com a leitura, torna o trabalho de mediação uma atividade a ser pensada e reforçada. São muitas as questões que têm implicação direta com a forma de realizar esse trabalho. Desde refletir sobre o sentido da própria mediação, que pode ter inúmeros significados, como mediar leituras, iniciar leitores, promover contato inicial com livros etc., até pensar no cerne da própria mediação como ponte entre o livro e o leitor, o que pressupõe uma concepção de leitura. Afinal, de que estamos falando? De uma leitura literária ou de uma leitura instrumental?

Pensando a leitura como leituras, em seu caráter múltiplo e diverso, como ato social e histórico, ativo, transformador e íntimo, o que temos é um leitor ativo, que interage com o texto de acordo com suas sensibilidades, seus desejos, suas inquietudes, como espelhamento da diversidade humana. Identificar esse leitor, ter claro ao que aspiramos, é certamente um primeiro passo facilitador do trabalho de mediação, pois clarifica e delimita o reduzido campo de interferência. Quando muito, essas ações podem ser responsáveis pela iniciação a uma prática leitora, uma vez que o que prevalece é a diversidade dos leitores. Não há, portanto, modelos aplicáveis, receitas a seguir, dado o descarte de toda homogeneização ou imposição de qualquer ordem quando se pensa na relação entre autor e leitor.

O perfil desse mediador reflexivo e consciente pressupõe sensibilidade leitora. Todo mediador deve ser leitor, e a formação de mediadores passa necessariamente por esse processo. Formar leitores não é uma técnica, mas resultado de uma longa familiaridade com o universo do livro, de inserção na cultura letrada, de histórico de leitura responsável pela construção de referências e critérios de avaliação, escolhas e preferências próprios. Somente um afinado leitor pode contagiar com o gosto pela leitura, transformá-la em atividade vital e tornar indispensável para o outro o convívio com os livros e a leitura.

Falar em formação de leitores também remete a um tipo de leitura específica – a leitura literária –, transgressora, livre e capaz de romper as barreiras do cotidiano e conduzir a mundos e universos novos. Só a literatura possui essa chave. O efeito da experiência iniciadora pode ser altamente significativo quando se trata de jovens leitores que, como esponjas, absorvem, sem preconceitos e livremente, tudo. A experiência de uma obra literária conduz a criança e o jovem a compreender melhor as relações humanas e os contextos sociais nos quais se desenvolvem, abrindo caminhos para a compreensão do mundo e do outro.

São muitas as iniciativas que indicam como a prática da leitura e o livro, quando disponibilizado, constituem elementos aglutinadores e de interesse não apenas para crianças e jovens. A questão é fascinar esse leitor, fazê-lo cúmplice e parceiro. O Grupo Fiandeiras, formado por sete jovens moradores das comunidades do Real Parque e do Jardim Panorama, na zona sudoeste da cidade de São Paulo, é um bom exemplo. Reunidos originalmente em torno da construção de uma biblioteca comunitária, eles encontraram na promoção da leitura o caminho para resistir e se fortalecer diante da violência das ameaças constantes de despejo de todos os moradores da região. Criaram o projeto “Quando as leituras e as artes sobem a viela…”, para, nos fins de semana, carregando caixas de livros, percorrer becos e vielas fazendo mediação de leitura e promovendo saraus para os membros dessas comunidades. A melhor resposta para a regularidade e dedicação do Grupo Fiandeiras é o envolvimento das crianças, dos jovens e dos adultos. Esses mediadores que se comprometeram espontaneamente com a leitura são hoje um exemplo de prática de mediação e do resultado humanizador que essa atividade pode promover.

E, assim como esses mediadores diretos, todos os responsáveis pela produção e circulação dos livros para crianças e jovens (do editor ao livreiro) devem apostar na inteligência desse leitor, em sua diversidade, na importância do texto literário. Tarefa que não é fácil, pois significa rever fórmulas de sucesso; contrariar mediadores tradicionais adeptos de uma leitura instrumental, funcional; sobrepor preconceitos e concepções nem sempre de acordo com as expectativas e os desejos das crianças e dos jovens.

Pensar nesse conjunto de questões, promover reflexões e intercâmbio de práticas como exemplos e enfatizar essa diversidade e amplitude, esse enorme leque de possibilidades em contraposição a esquemas fechados e modelos de procedimentos perante um leitor imaginário, estimulam alguns passos largos na longa caminhada da formação de leitores.

Afinal, cabe a nós, adultos, como disse Todorov, “transmitir às novas gerações essa herança frágil, mas de alcance universal da literatura, essas palavras que nos ajudam a viver melhor”.

*Dolores Prades é consultora editorial, professora e socióloga, com doutorado em História Econômica pela USP. Há doze anos trabalha com leitura e literatura para crianças e jovens. Atua também como curadora dos seminários Conversas ao Pé da Página (www.conversapepagina.com.br), mantém uma coluna quinzenal no PublishNews e é membro do comitê editorial da Revista EMÍLIA ( www.revistaemilia.com.br )

Revista EMÍLIA
Dirigida a um público adulto amplo, a Revista EMÍLIA (www.revistaemilia.
com.br) dialoga com todos aqueles que se interessam pela formação de leitores e que são mediadores de leitura: pais, professores, educadores, bibliotecários,promotores de leitura e especialistas.
EMÍLIA também se destina àqueles que tornam possíveis a criação,
a produção e a divulgação de livros para crianças e jovens: autores, ilustradores, editores, livreiros, jornalistas, críticos e estudiosos. A revista vem ocupar um espaço fundamental para o amadurecimento da reflexão, discussão e debate em torno da leitura e da literatura para crianças e jovens.

 



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