ASCENSÃO DO RENMINBI

A gradual internacionalização da moeda chinesa

A ascensão do renminbi reflete não apenas a força econômica da China, mas também mudanças estruturais na ordem internacional

Por décadas, a economia mundial tem girado em torno de uma única moeda hegemônica. Desde a Conferência de Bretton Woods, em 1944, o dólar americano consolidou-se como a principal referência do sistema monetário internacional, substituindo a libra esterlina e refletindo a supremacia econômica, militar e financeira dos Estados Unidos. Mesmo após o fim do padrão-ouro, em 1973, a moeda americana manteve sua centralidade nas finanças globais. Hoje, porém, uma mudança lenta, quase imperceptível no curto prazo, começa a ganhar forma: a ascensão do renminbi (RMB), a moeda chinesa, como alternativa parcial ao domínio do dólar, sobretudo entre os países que buscam desdolarizar suas economias.

Essa transformação resulta de uma estratégia deliberada de Pequim para ampliar o uso internacional de sua moeda, contudo sem abrir mão do controle estatal sobre a economia. Em outras palavras, a China busca uma internacionalização “com características chinesas”, combinando integração externa com forte supervisão doméstica. A questão central não é se o RMB substituirá o dólar – algo muito improvável no horizonte próximo –, mas até que ponto poderá reduzir a dependência global da moeda americana.

O predomínio do dólar reflete uma assimetria estrutural. O país emissor da moeda-chave pode financiar déficits com mais facilidade, influenciar fluxos financeiros internacionais e aplicar sanções econômicas com eficácia. Já as economias com moedas periféricas enfrentam maior volatilidade cambial, custos elevados de financiamento externo e menor autonomia na política econômica.

A China ocupa posição singular nesse cenário. Embora ainda seja considerada uma economia em desenvolvimento e não emita uma moeda central, possui a segunda maior economia do mundo, enorme capacidade produtiva, forte presença no comércio internacional e reservas cambiais gigantescas. O Estado desempenha papel decisivo na gestão macroeconômica, com controles sobre fluxos de capitais e intervenções no mercado cambial.

Essa combinação reduz vulnerabilidades externas, mas também limita a plena internacionalização do RMB. Para que uma moeda se torne global, normalmente é necessário liberalizar mercados financeiros e permitir livre circulação de capitais, algo que a China evita por receio de crises especulativas e perda de autonomia doméstica.

O processo de internacionalização do renminbi teve início após a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001. A estratégia “Going Global” incentivou empresas chinesas a investir no exterior, ampliando fluxos comerciais e financeiros em RMB. Paralelamente, foram criados mecanismos controlados para atrair capital estrangeiro, como o programa “Qualified Foreign Institutional Investor” (QFII), que permitiu a participação de investidores selecionados no mercado doméstico.

Pequim também desenvolveu mercados “offshore” – sobretudo em Hong Kong – para operações financeiras em RMB fora do território continental. Esses centros possibilitaram a emissão de títulos e a realização de transações internacionais na moeda chinesa sem expor integralmente a economia doméstica à volatilidade externa típica de economias emergentes, criando uma base institucional para sua circulação global.

A crise financeira internacional de 2008 marcou um ponto de inflexão decisivo. O colapso de grandes instituições ocidentais revelou fragilidades do sistema centrado no dólar e intensificou a percepção de risco global. Para a China, tornou-se evidente a necessidade de reduzir custos de transação e riscos cambiais associados ao uso da moeda americana.

O Banco Popular da China passou, então, a firmar acordos bilaterais de swap cambial com diversos países, permitindo que parceiros comerciais utilizassem RMB diretamente. Programas de liquidação de comércio exterior na moeda chinesa foram ampliados, e títulos denominados em RMB começaram a ser emitidos em mercados internacionais. Gradualmente, o RMB deixou de atuar apenas como uma moeda doméstica para assumir funções internacionais de pagamento e financiamento, ainda que de maneira limitada.

Um marco simbólico ocorreu em 2016, quando o Fundo Monetário Internacional incluiu o RMB na cesta de moedas que compõem os Direitos Especiais de Saque (SDR), ao lado do dólar, euro, iene e libra. Embora não tenha transformado o renminbi em moeda dominante, o reconhecimento consolidou sua legitimidade internacional.

Nos anos recentes, fatores geopolíticos aceleraram essa tendência. A pandemia de COVID-19 demonstrou a resiliência relativa da economia chinesa, que foi a única grande potência a registrar crescimento em 2020, reforçando a confiança internacional na estabilidade do RMB.

Ao mesmo tempo, a expansão do grupo BRICS e o incentivo ao uso de moedas locais nas transações comerciais impulsionaram a agenda de desdolarização, especialmente entre países do Sul Global. Assim, a busca por maior autonomia financeira tornou-se ainda mais relevante diante da crescente fragmentação geopolítica.

Outro fator decisivo são as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos a países como Irã e Rússia. Ao restringir o acesso ao sistema financeiro baseado no dólar, essas medidas estimulam a procura por mecanismos alternativos de pagamento e, em várias dessas transações, o RMB surge como opção viável.

moeda chinesa
Crédito: N509FZ/Wikimedia Commons

A Rússia ampliou significativamente o uso da moeda chinesa após as sanções decorrentes do conflito com a Ucrânia. Negociações energéticas entre China e países do Golfo também passaram a considerar pagamentos em RMB, alimentando a ideia de um possível “petroyuan”. Adicionalmente, a expansão de acordos de swap e linhas de liquidez reforça o papel da moeda chinesa como instrumento de financiamento e reserva em diversas regiões.

Um dos aspectos mais inovadores da estratégia de internacionalização chinesa é o desenvolvimento do e-CNY, a versão digital do renminbi, emitida diretamente pelo banco central. A moeda digital poderá facilitar pagamentos internacionais, reduzir custos e contornar intermediários tradicionais, além de aumentar a eficiência das transações. Projetos de cooperação com outros bancos centrais indicam que a China busca posicionar-se na vanguarda da transformação digital das finanças globais.

Apesar desses avanços, o domínio do dólar permanece amplo. A moeda americana continua liderando pagamentos globais, financiamento comercial e reservas internacionais com larga margem. O RMB apresenta crescimento consistente, mas ainda distante da liderança.

De fato, nos últimos anos, a moeda chinesa chegou à quarta posição entre as mais utilizadas em pagamentos internacionais, tornando-a mais próxima das moedas centrais. No financiamento comercial, sua participação aproxima-se da do euro, embora continue muito abaixo da posição do dólar.

Em síntese, bancos centrais vêm aumentando lentamente a proporção de reservas denominadas em RMB, investidores institucionais ampliam sua exposição e a emissão de títulos em RMB fora da China cresce, especialmente em Hong Kong e outros centros asiáticos. Esses sinais indicam que a moeda chinesa vem consolidando espaço como alternativa parcial.

Muitos analistas descrevem o RMB como uma moeda suplementar: um instrumento que complementa, sem substituir, o sistema monetário vigente. Esse papel é particularmente relevante para países que desejam reduzir a dependência do dólar sem romper com a ordem financeira internacional.

Transformações na hierarquia monetária global costumam ocorrer ao longo de décadas. A ascensão do próprio dólar foi gradual após o declínio britânico no início do século XX. A profundidade dos mercados financeiros americanos e a inércia institucional tornam improvável qualquer substituição rápida.

Além disso, a China enfrenta dilemas internos importantes. Para tornar o RMB plenamente global, seria necessário liberalizar o sistema financeiro e abrir completamente a conta de capitais, medidas que poderiam reduzir o controle estatal e aumentar a exposição a crises financeiras. Por isso, Pequim adota uma estratégia cautelosa, expandindo o uso internacional da moeda sem comprometer sua autonomia doméstica.

O resultado mais provável não é o surgimento de um novo “imperador monetário”, mas um sistema mais fragmentado e multipolar. O dólar continuará central no futuro próximo, mas dividirá espaço com outras moedas – entre as quais o RMB – em determinadas regiões e tipos de transação.

Em última análise, a ascensão do renminbi reflete não apenas a força econômica da China, mas também mudanças estruturais na ordem internacional. Cada acordo comercial em moedas locais, cada linha de swap assinada e cada iniciativa de pagamento digital transfronteiriço representam avanços incrementais nessa direção.

O processo é lento, porém cumulativo. Como mostram os grandes movimentos da história monetária mundial, transformações profundas raramente ocorrem de forma abrupta. Elas se constroem gradualmente – exatamente como a internacionalização do RMB parece fazer no início do século XXI.

 

Júlia Leal é pesquisadora associada do FINDE/UFF.

Luiz Fernando de Paula é professor do Instituto de Economia da UFRJ.

Bianca Orsi é professora do Departamento de Economia da Universidade de Leeds.

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