A Guatemala esqueceu Jacobo Arbenz? - Le Monde Diplomatique

GOLPE DE ESTADO EMBLEMÁTICO DO INTERVENCIONISMO DOS EUA

A Guatemala esqueceu Jacobo Arbenz?

por Michael Faujour
3 de junho de 2014
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Para os revolucionários latino-americanos, o golpe que derrubou o presidente Jacobo Arbenz em junho de 1954 ilustra a recusa de Washington em tolerar as mais modestas reformas em seu “quintal”. Presente durante o putsch, Che Guevara recordaria o episódio na Revolução Cubana… Mas do que se lembra a população do país?Michael Faujour

O cemitério da capital da Guatemala localiza-se entre dois abscessos de miséria. Em meio a um mosaico de estelas em tons pastel – azul, amarelo, verde –, imponentes sepulturas abrigam os restos mortais de incontáveis oligarcas e ditadores. O lugar também é a última morada de um homem associado à esperança de ruptura na história sangrenta deste pequeno país da América Central: Jacobo Arbenz Guzmán, segundo presidente de uma “Primavera Guatemalteca” que durante dez anos trabalhou para virar a página da pobreza e do feudalismo (ver boxe). Um descanso eterno bem vigiado, no entanto: a 20 metros, uma placa comemorativa saúda o “mártir anticomunista” Carlos Castillo Armas, que no dia 27 de junho de 1954 liderou o golpe de Estado que derrubou Arbenz, forçando-o ao exílio.
Foi preciso esperar 24 anos após sua morte para que as cinzas do ex-presidente fossem repatriadas, por iniciativa da Universidade de San Carlos (Usac), e uma homenagem oficial lhe fosse oferecida. Estudantes projetaram o mausoléu: uma pirâmide de três faces, simbolizando as três maiores realizações de sua presidência (a estrada do Atlântico, a reforma elétrica e a reforma agrária). Em 19 de outubro de 1995, puxado por cavalos, o caixão percorreu a cidade.1 À sua passagem, centenas de pessoas aproximaram-se. Em seguida, ignorando o protocolo, dezenas de cidadãos entraram no Palácio Nacional. Alguns tomaram a urna para carregar em seus ombros o “soldado do povo” e conduzi-lo até a sala de recepção preparada para o velório.

 

Memória contra memória

As organizações estudantis, de onde partiu a operação, ficaram surpresas com esse aparente fervor, que não haviam previsto. Mas a historiadora Betzabé Alonzo Santizo minimiza sua amplitude. Segundo ela, a situação explica-se sobretudo pela curiosidade dos transeuntes… Membro ativo da Comissão do Centenário do Nascimento de Arbenz, formada em outubro de 2012, a historiadora faz um balanço amargo das comemorações que ajudou a organizar. Teria a memória do ex-presidente caído no esquecimento e na indiferença para a maioria dos cidadãos? Nossas tentativas de sondar, aleatoriamente, o conhecimento dos guatemaltecos sobre Arbenz, nas ruas da capital e da cidade de Quetzaltenango, parecem confirmar essa hipótese. Mas não a explicam.

“Aqui”, indica o jornalista Manuel Vela Castañeda, “a lembrança de Arbenz incomoda.” À direita, é claro, mas também à esquerda. “Nenhuma guerrilha usou seu nome para batizar uma frente de operações militares.” Essa constatação converge com a do ex-secretário-geral da presidência de Arbenz: Jaime Díaz Rozzotto acredita que o presidente deposto gozou do “raro privilégio de unir contra si […] a direita ultramontana (fascismo contemporâneo), a direita liberal, a transnacional United Fruit Company, o Departamento de Estado norte-americano, o bipartidarismo yankee, o reformismo latino-americano (radicais, passando pela democracia cristã ou o equivalente à social-democracia europeia) e até o foquismo guerrilheiro (partidários dos focos revolucionários rurais)”.2

Com apenas dois deputados no Congresso, de 58, a União Revolucionária Nacional Guatemalteca (URNG-Maiz) continua sendo o principal partido de esquerda do país.3 Em suas instalações figuram um grande mural revolucionário, imagens do ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez, de Ernesto “Che” Guevara, de Raúl e Fidel Castro, e um poema em memória do comandante Rolando Morán.4 Mas nem a menor evocação de Arbenz… Para Héctor Muila, ex-guerrilheiro e secretário-geral do partido de 2004 a 2013, o erro do ex-presidente foi deixar-se influenciar pelo Partido Comunista e recusar-se a armar o povo para “defender a Revolução”, em 1954. Essa avaliação é semelhante à de Ernesto “Che” Guevara, que esteve na Guatemala durante o golpe de Estado e tirou do episódio suas próprias conclusões estratégicas.

Em meio aos visitantes do domingo, famílias de falecidos e vendedores de lanche que povoam os corredores do cemitério, Betzabé explica essa falta de interesse pela história da esquerda guatemalteca: décadas de caça aos “comunistas” teriam forçado ao exílio aqueles que carregavam essa memória, “sem poder transmiti-la”. “É o que explica, em parte, que a esquerda seja quase inexistente aqui”, diz. “Muitos deixaram o país; outros, também numerosos, morreram durante o conflito armado”, o mais longo e sangrento da América Central (1960-1996).

No nível universitário, a pesquisa memorial só tomou alguma envergadura no final dos anos 2000, seguindo “duas interpretações claramente opostas”, observa Castañeda. Uma, mais favorável ao ex-presidente, desenvolve-se na Usac, onde permanece confinada. A outra, claramente hostil, vem da Universidade Francisco Marroquín (UFM), lar do neoliberalismo guatemalteco, de temível vigor.5 Seu campusé habitado pelos pensadores liberais. Ali encontramos a Praça Adam Smith, a biblioteca Ludwig von Mises, a sala Carl Menger e os auditórios Friedrich Hayek e Milton Friedman. Uma escultura de Atlas homenageia a romancista libertária Ayn Rand.

A respeito do golpe de Estado de 1954, dois autores da Marroquín se destacam: Carlos Sabino, com La historia silenciada, publicado em 2008, e Ramiro Ordoñez Jonama, cujo Un sueño de primavera foi publicado em 2012.6 Os trabalhos ressaltam a violência e a corrupção que teriam marcado a década revolucionária, como se tais características fossem intrinsecamente ligadas ao projeto político de Arbenz. Essa visão da história apaga a propaganda anticomunista da Igreja e da imprensa, a oposição da oligarquia, da Central Intelligence Agency (CIA) e das ditaduras da região e as conspirações militares… Inclinados a denunciar a história “oficial” e “dominante” da Usac, esses historiadores ignoram a força da UFM. Desde sua fundação, em 1971, essa universidade forneceu a elite neoliberal do país. E conta com importantes conexões na imprensa e no mundo político.

Uma nova situação se estabeleceu a partir de 2011, quando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) participou da elaboração de um acordo entre o Estado guatemalteco e a família do ex-presidente. Esta exigiu, além de indenizações pela espoliação de seus bens após o golpe, diversas ações para reabilitar a memória de Arbenz, entre elas o perdão oficial do Estado.

O presidente Álvaro Colom, sobrinho de um mártir do conflito armado, rebatizou a estrada do Atlântico com o nome de seu criador, assim como uma sala do Museu Nacional de História. Uma série de selos postais foi estampada com sua efígie. Mas essas medidas ainda são pouco em comparação com o grande número de locais públicos e bustos homenageando Jorge Ubico (1931-1944) e Justo Rufino Barrios (1873-1885), dois caudilhos racistas que serviram amplamente aos interesses da oligarquia.

Teoricamente, os jovens guatemaltecos conhecem Arbenz no penúltimo e, principalmente, no último ano do ensino fundamental. O período é aprofundado no primeiro ano do colégio. A consulta de vários livros didáticos7 revela um tratamento honesto e, na maioria das vezes, bastante completo da década revolucionária. Eles explicam, por exemplo, os antecedentes que levaram ao golpe de Estado, as ações e os desafios do período revolucionário (na escala do país, da América Central e do mundo). Também tratam do papel dos Estados Unidos em muitas deposições de governantes e guerras civis na região. O problema: essas obras não têm nada de oficial, pois não há um livro comum para todos os estudantes da República. Na maioria das vezes, eles simplesmente não têm livro.

É por isso que o acordo amigável com a família inclui a “revisão” do currículo nacional (Currículo Nacional Base) e prevê a distribuição de um documento de Orientación Curricularaos professores do ensino médio público, com o objetivo de ajudá-los a recuperar a memória de Arbenz. Mas é difícil medir o impacto disso: apenas quatro em cada dez crianças concluíram o ensino fundamental em 2010, segundo a Unicef.8 A questão do conteúdo dos livros didáticos parece, assim, de menor importância.

De acordo com o intelectual septuagenário José Antonio Móbil, há duas Guatemalas: a da cidade e a do campo. Uma fratura particularmente demarcada na questão da memória e da política: “A população rural sabe mais sobre Arbenz que a urbana”, garante. “A população da cidade esqueceu tudo.” Esse fenômeno pode ser explicado pela sobrevivência de uma história transmitida oralmente, de geração em geração, nas áreas submetidas à reforma agrária. Parece que esse tipo de coisa não se esquece…

Um fato que passou relativamente despercebido na atualidade sugere que a memória Arbenz não está morta. Em agosto de 2012, uma operação foi montada, na zona 5 da capital, para remover uma ocupação ilegal com mais de cem famílias que levava o nome do ex-presidente.9 Seu nome continua, portanto, a simbolizar um ideal de justiça social. Como resume Herbert Loarca Moreira, professor de Economia em Quetzaltenango, “é uma referência histórica que vem lembrar que ‘isso’ é possível”.

BOX
A Primavera Guatemalteca

 

No dia 20 de outubro de 1944, jovens militares guatemaltecos, portando as aspirações das classes média e alta da capital, puseram fim a doze anos de uma ditadura feroz. A “Revolução de Outubro”, termo que se refere, por extensão, à década que se seguiu, assinala, segundo o historiador Sergio Tischler Visquerra, “o fim do Estado-finca”,1 ou seja, um Estado a serviço dos interesses privados de latifundiários e empresas estrangeiras, incluindo a United Fruit Company (UFC).

A junta revolucionária e depois a presidência de Juan José Arévalo, que começou em 15 de março de 1945, lançaram um vasto processo de institucionalização e democratização, com duas contribuições fundamentais. Em 1947, o código do trabalho aboliu a servidão regulamentada pela lei desde o final do século XIX. Em 1949, o Instituto Guatemalteco do Seguro Social passou a garantir serviços gratuitos aos cidadãos.

Jacobo Arbenz Guzmán chegou ao poder em 1951. Seu objetivo era “modernizar” a Guatemala. Ele queria primeiro colocar “o país no caminho do capitalismo” e em seguida transformar “uma nação dependente de economia semicolonial em um país economicamente independente”.2 Para a Guatemala da época, era muito. O projeto implicava a proteção e expansão do mercado interno, o estabelecimento de uma economia mista, a industrialização, o lançamento de grandes projetos e a luta contra os monopólios norte-americanos. A criação de uma “Estrada do Atlântico” aboliu o monopólio do frete, detido pela empresa ferroviária International Railways of Central America, pertencente à UFC. Mas o projeto prioritário de Arbenz continuava sendo a reforma agrária, que deveria ajudar a desenvolver o mercado interno. O Decreto n. 900 de 1952 lançou oficialmente suas bases. O Estado desapropriou as terras não exploradas pelo preço fraudulentamente declarado ao fisco – normalmente inferior ao preço real – e as distribuiu em usufruto vitalício. Um projeto como esse logo despertou a preocupação da CIA e da UFC… (M.F.)

 

Michael Faujour é jornalista na Guatemala.



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