VIVEMOS UMA ERA DE PARADOXOS TECNOLÓGICOS

Mouseion e o sonhar de olhos bem abertos

O que isso tudo tem a ver com a IA e nosso tempo atual?

As cartas foram colocadas na mesa, os dados lançados, e agora nos cabe jogar com eles, mesmo que se afirme, como disse Albert Einstein a Niels Bohr, que ‘Deus não joga dados com o Universo’. Bohr, um dos maiores nomes da física quântica, era opositor da física determinística defendida por Einstein, sustentando que certos eventos no nível subatômico ocorrem de forma aleatória e imprevisível por natureza.

Já fomos superados no xadrez, em 1997, pelo Deep Blue, supercomputador desenvolvido pela IBM, derrotando Garry Kasparov, então campeão mundial. Em 2016, chegou a vez de outra IA vencer o melhor jogador do mundo em Go: o AlphaGo desenvolvido pelo DeepMind (Google), derrotou o campeão sul-coreano Lee Sedol. O detalhe é que esse jogo não demanda apenas de força bruta, mas de uma combinação de fatores como intuição, padrões e leitura de tabuleiro – e assim vemos a rápida evolução tecnológica de máquina programadas para sistemas que aprendem sozinhos (AlphaGo Zero).

Vivemos uma era de paradoxos tecnológicos. Nunca estivemos tão conectados e tão isolados, tão informados e tão confusos, tão otimizados e tão exaustos. A filosofia contemporânea, especialmente o realismo especulativo, tenta escapar desse impasse através da abstração – construindo catedrais conceituais sobre o real em vez de mergulhar nele.

Enquanto isso, lidamos com outros tantos paradoxos como a IA, a mais disruptiva das tecnologias e como criação do ser humano refletiria algo próprio deste, o que era qualificado nas tragédias gregas de Sófocles – reza a lenda, para o oráculo de Delfos, o segundo homem considerado mais sábio da época, perdendo apenas para Sócrates – como um verdadeiro assombro, o assombro dos assombros, já que é capaz das mais maravilhosas coisas e das mais terríveis. Isto é, a IA também seria, sob tal ótica, um verdadeiro “pharmacon”, veneno ou remédio a depender da dose, e talvez a solução, a saída, como costuma dizer nosso grande Mestre Willis Santiago Guerra Filho, seja pela entrada, de onde começamos. É precisamente neste ponto que gostaríamos de destacar novamente a importância da análise interdisciplinar, holística e crítica, retomando os antigos gregos para servir de inspiração.

A ideia é nos apropriarmos de algumas iniciativas que marcaram a história, afinal, se diz que todo novo e importante conhecimento se faz nos ombros de gigantes. Diante da necessidade da revalorização desta forma de conhecimento mais lento, não voltado apenas ao curto prazo, que demanda tempo para maturação, a Filosofia, desde a crise da mesma, e do desafio lançado há quase 200 anos por Karl Marx, de que os filósofos não fazem nada além de interpretar o mundo e que precisamos mudá-lo. E é daí que entendemos que para enfrentar alguns desafios se faz necessário voltar alguns passos, para depois avançar melhor e com mais rapidez. Com isso, não pensamos apenas na célebre proposta estratégica de Lênin, mas também no “passo atrás”, recomendado por Heidegger, diante do avanço da técnica, para não nos entregarmos ingenuamente a ela, como também para vê-la melhor, com o distanciamento, de olhos bem aberto.

Na antiguidade clássica dos gregos tínhamos os conhecidos Liceu, de Aristóteles e a Academia de Platão, aquele voltado mais à pesquisa empírica, abordagem prática e sistematização do conhecimento, e a última mais a uma forma elitizada, com foco na educação física e metafísica. Mas, o que gostaríamos de destacar aqui é uma terceira não tão conhecida Escola de conhecimento – o MUSEION de Alexandria, no Egito.

O Museion (ou Mouseion) de Alexandria foi uma das instituições mais influentes da Antiguidade, fundado no início do século III a.C. e dedicado às nove Musas gregas – deusas das artes e do conhecimento. Era um verdadeiro hub de conhecimentos interdisciplinar, funcionando como centro de pesquisa e ensino, parte da famosa Biblioteca de Alexandria, integrando ciência, filosofia e filologia, juntando teoria e prática, já que viam não somente o cérebro, mas também o corpo como fundamentais a serem cultivados. Seu propósito principal era atrair os maiores eruditos do mundo e para isso estava aberto a diversos intelectuais de diversas regiões e culturas, e uma das mais famosas foi Hipátia de Alexandria, uma das figuras mais proeminentes da Antiguidade tardia, reconhecida como filósofa neoplatônica, matemática, astrônoma e educadora. Já em nosso tempo, o exemplo de Mouseion foi dado por Aby Warburg e sua biblioteca, do que resultou seu monumental Atlas Mnemosyne, “inventário de vestígios da Antiguidade que contribuíram, na época do Renascimento, para forjar o estilo da representação da vida em movimento”, nas palavras de seu autor (Atlas Mnemosyne, Introdução) – o que nos evoca sua “vida póstuma” (Nachleben), para empregar um conceito central deste instigante autor na arte contemporânea por excelência que é o cinema.

Mas o que isso tudo tem a ver com a IA e nosso tempo atual, vocês podem estar se perguntando?

Primeiramente, traz uma reflexão acerca do papel da educação e dos professores e sua valorização em tal época, a exemplo do Museion, que oferecia aos scholars salários elevados, moradia gratuita, isenção de impostos e refeições coletivas, criando um ambiente propício para a inovação. Estima-se que abrigava mais de 100 eruditos em seu auge, tornando-se um hub cosmopolita que fundia tradições gregas com influências orientais. Enquanto isso, nos tempos atuais é comum ouvirmos a pergunta quando mencionamos que somos professores, sobretudo em áreas da importância do Direito e da Medicina: mas qual sua ocupação principal? Depois, temos, com certa razão, o questionamento das novas gerações do sentido de um diploma universitário, tempo dispendido e nenhuma garantia de emprego no futuro.

Do que se trata é de repensamos também o papel da imaginação e a busca de um letramento imaginal – evocando com o termo o desenvolvimento de concepção preciosa da filosofia mística muçulmana devidas a Henry Corbin –, indo além do letramento digital, que teria um foco mais no teor tecnológico, pois precisamos de ambos para estarmos preparados para o futuro do trabalho com a IA, já que nesta 4ª. Revolução industrial com a chamada 6ª onda da inovação, parece que o simples treinamento e cursos de curta duração não seriam satisfatórios.

Crédito: Engin_Akyurt/Pixabay

E, por outro lado, também cabe a reflexão de que talvez estejamos tentando curar feridas profundas com um band-aid, ou seja, muitos dos problemas que talvez tentamos mitigar com a IA são estruturais, a exemplo dos chavões vamos inovar o pensamento, vamos investir em IA na educação para ter personalização do ensino, vamos ter a IA para ter com isso uma sociedade mais solidária, assim nos encaminhando para o que Kai Fu Lee utopicamente denomina “sociedade da abundância”. Ocorre que enquanto pensamos em personalização, eficiência, produtividade, pessoas morrem de fome, sem ter água potável, o número de concentração de riqueza do mundo aumenta, o gap entre países ricos e pobres aumenta, e o impacto ambiental segue a mesma sorte, com o relógio Doomsday clock marcando 89 segundos para a meia-noite, em 2025. Tal relógio traz um aviso preocupante e nada distópico, pois bem fundamentado e emitido por diversas das mentes mais brilhantes do mundo, no sentido de que estamos navegando em águas extremamente perigosas devido às nossas próprias ações (e inações). Ainda, países saem do Acordo de Paris, e o slogan do presidente da mais rica nação do mundo ocidental é “Make America Great Again”, sob o qual conjugou mais um outro, anteriormente utilizado pelo Partido Republicado, em 2008, e que se relaciona à temática da IA: “Drill, Baby, Drill!” (Perfure, Baby, Perfure!), significando, em linhas gerais, a rejeição de políticas ambientais, e a negação ou minimização das mudanças climáticas.

A prioridade é o lucro em detrimento da transição para energias renováveis. Ou seja, parece que ainda estamos focando apenas no curto prazo e em um jogo de soma zero, não olhando para a sustentabilidade como uma medida pró-inovação. Portanto, como diz Luciano Floridi em uma entrevista que realizei, utilizando-se de uma expressão popular brasileira, já que ele é casado com uma brasileira: “o buraco é mais embaixo”. Não estamos ainda olhando para o tal metron dos gregos, a tal proporcionalidade, a justa medida, ligada a sophrosyne, a moderação, o que seria fundamental para evitar o pior dos males para os gregos, a hybris, o excesso.

De certa forma, o mesmo se aplica à medicina ocidental, que sofre de certa miopia, egocentrismo ou pensamento enviesado. Em geral, não vê o ser humano como um todo, baseando-se mais em resultados de exames. Muitas vezes, sequer se realiza uma anamnese completa, limitando-se a prescrever medicamentos que combatem sintomas, sem tratar a raiz dos problemas, apenas mitigando seus efeitos.

Mas, onde está o perigo também está a salvação, como dizia o poeta Friedrich Hölderlin (“Wo aber Gefahr ist, wächst / Das Rettende auch”) inspirando Martin Heidegger, no século XX, no texto “A Questão da Técnica” – como símbolo do pensamento do limiar: o perigo da técnica moderna carrega em si a possibilidade de salvação.

A partir de tal chave, podemos com Michel Serres pensar que todo ato comunicativo é atravessado por ruídos, por um “terceiro” que impede a neutralidade da transmissão (Anges, 1993). Esse “terceiro” é o próprio anjo, um anjo técnico (ou da técnica): não apenas transporta, mas transforma a mensagem. No caso da inteligência artificial generativa, como GPTs ou difusores de imagens, estamos diante de uma concretização desse anjo: ao receber uma entrada textual, a IA não devolve a mesma mensagem, mas uma transfiguração imprevisível, sempre excedente, marcada por lapsos, desvios, invenções. Aqui, o anjo técnico se manifesta como mediador criativo, onde o ruído (bias, alucinação, erro) não é mera falha, mas condição da própria interlocução. Do ponto de vista crítico, isso exige reconhecer que o que chamamos “erro algorítmico” é também espaço imaginal: ruído que abre à interpretação, à crítica, à poesia. Tomando como inspiração igualmente Vilém Flusser, que recomendava a postura de se jogar com as novas tecnologias, e hoje como se fala tanto em gamificação, talvez possamos associar tais ideias no sentido de uma tarefa crítica que iria então preservar o anjo técnico em sua potência inoperosa, nos termos benjamin-agambenianos, resgatando-o como espaço de liberdade e imaginação.

O que me parece mais revolucionário nessa perspectiva, por não ser reativa, mas proativa, sobretudo, é como ela oferece uma terceira via genuína: nem tecnofobia nem tecnofilia (dataismo), mas uma ética da configuração técnica, uma filosofia que respira com o presente, e recupera o pensamento corpóreo. Em vez de fugir para abstrações ou nostalgias, ele abraça a complexidade do momento tecnológico atual e pergunta: como extrair vida, intensidade e liberdade dessa situação?

Reconhecemos estar diante de uma nova forma de produção de conhecimento que conecta intuição humana e processamento algorítmico em sínteses inéditas. Os sistemas de IA demonstraram capacidade de detectar inconsistências, transitar entre disciplinas diversas e articular conexões conceituais que ampliam o alcance do raciocínio humano.

Então, mais do que nunca caberia a questão central de como usar a tecnologia, não de forma a nos substituir, mas colaborar, não representando daí o abandono da responsabilidade intelectual humana, mas sua expansão através de novas formas de mediação técnica.

A pergunta que fica – e que talvez seja a pergunta do nosso tempo – é se conseguiremos infrarealizar nossas próprias ferramentas intelectuais, no sentido de deixar de ser apenas filosofia e se tornar forma de vida. Quando o conceito se torna gesto, a crítica se torna tática, a utopia se torna laboratório.

O convite está feito. Agora é experimentar. O desafio está lançado: despertar a criatividade diante dos desafios globais.

As crises, rupturas e desconexões que se aceleram em escala nacional e global e evidenciam o quanto é urgente nos tornarmos mais inventivos, empáticos e criativos em tudo o que fazemos. A capacidade de pensar e agir de forma criativa é um antídoto poderoso, pois torna o impossível possível, e este passa a ser visto não como obstáculo, mas apenas como um ponto de vista. E com isso, a criatividade pode nos ajudar a imaginar como sociedade em uma construção coletiva a configurar um futuro mais alegre, artístico, significativo e equitativo.

Cultivar a criatividade em larga escala exige expertise que transcenda os limites tradicionais das disciplinas, e com isso enfrentamos o problema de que no Brasil temos mais inovação incremental e menos disruptiva, talvez não tenhamos mais fugas dos cérebros com a revalorização das Universidades e da pesquisa científica, e talvez tenhamos uma nova perspectiva em futuras publicações de Papers científicos – pois como apontou a revista Nature e a Revista USP (Dossiê IA e pesquisa científica) os artigos triplicaram em 10 anos mas não os papers de ruptura, ou que trazem inovação no pensamento. E um papel central da tecnologia e

da IA também nos parece ser no sentido de desenvolvimento de novas ferramentas, métodos e experiências que inspirem e apoiem o pensamento criativo, a expressão criativa e a computação criativa – permitindo que pessoas de todas as origens desenvolvam e compartilhem suas ideias, explorem novas possibilidades e contribuam para mudanças significativas no mundo.

 

Paola Cantarini Guerra é jurista, Professora Universitária e Pesquisadora Sênior em Inteligência Artificial.

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