A indiferença como forma de governo - Le Monde Diplomatique Brasil

BOLSONARO E A PANDEMIA

A indiferença como forma de governo

por Jelson Oliveira
8 de fevereiro de 2021
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A indiferença põe em xeque a razão de ser da própria política, como arte de governar para o bem de todos

O princípio básico da vida pública é o interesse e o compromisso com o bem do próximo, principalmente os mais vulneráveis. A finalidade do Estado se revela, assim, na proteção e na defesa social, tarefa que é assumida pelo governo, a quem cabe, provisoriamente, fazer o que estiver a seu alcance para garantir a vida dos cidadãos, oferecendo-lhes oportunidade de saúde, educação e bem-estar geral. O nome disso é responsabilidade e ela é o núcleo central da política.

Tais princípios vêm sendo cotidianamente violados pelo presidente brasileiro, que escolheu (provavelmente por letargia) a indiferença como forma de governo. Seu riso insosso e suas piadas enfadonhas e hostis, seus gestos e sua inércia diante da pandemia são parte de um projeto que torna o Estado brasileiro insensível à dor de seus cidadãos. Com Bolsonaro, o desdém torna-se a regra que solapa as bases da verdadeira política e faz da indiferença de todos em relação a todos uma versão piorada da guerra de todos contra todos. Se a hostilidade já era um mal maior, a indiferença é ainda mais grave porque ela fere os princípios da precaução, do cuidado e da proteção que deram, até hoje, razão de existir ao próprio Estado. Se não for para cuidar e proteger, garantindo igualdade de acesso aos bens públicos, para que Estado? A indiferença é o oposto da política.

O presidente Jair Bolsonaro (Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

As piadas, o riso e o escárnio do atual presidente frente às vítimas da Covid-19 formam uma parte nefasta desse projeto necropolítico (a outra é a violência instalada e a morte explícita, cotidiana). Sem um único gesto verdadeiro de solidariedade ou de pesar, Bolsonaro destrói o Estado por dentro, minando aquilo que tem sido, ao longo dos séculos, as cláusulas pétreas da civilização. Sem empatia e sem assumir a responsabilidade que é sua, ele nos conduz à barbárie, com a perversidade dos piores malfeitores. Em suas declarações e gestos, dá mau exemplo e incentiva as mesmas práticas, contagiando seus correligionários e agravando o cenário propício à maior exaustão ética e política de nossa história: a situação segundo a qual brasileiros e brasileiras celebram seu egoísmo em festas e praias, ironizando o coronavírus e todas as suas vítimas, all inclusive. Essa gente, tão acostumada às adorações da ignorância, à idolatria do fútil e ao proselitismo mentiroso, é cúmplice do crime de ter matado o futuro, apegada que está ao presente sem temporalidade que, como sugeriu Hans Jonas, é um sintoma do niilismo de nossa cultura, cujo produto final é a total irresponsabilidade, traduzida em frases como: “comamos e bebamos, porque logo morreremos”, “tô saindo e tô vivendo, tem gente que não sai e tá morrendo” ou a infame “pode me entubar”, gritada durante o réveillon.

Tudo isso nos coloca diante de uma crise civilizatória sem precedentes. A indiferença é corrosiva. Ela nega o valor da alteridade, da racionalidade, da justiça e da tolerância, princípios básicos da vida comum. A indiferença desfaz os laços que ligam os cidadãos uns aos outros e põe por terra o altruísmo e a compaixão, amplamente valorizados pela nossa tradição. A indiferença, por isso, põe em xeque a razão de ser da própria política, como arte de governar para o bem de todos.

Em Brasília, com frases, gestos e omissões, o atual governo entrega o país a deus dará e ao abandono que afeta aquela que é a nossa maior urgência, o combate à pandemia. Mas isso não é tudo. Com o atual governo, vemos tomar corpo, desde dentro, causas tão abjetas como a tortura, a miséria, a violência doméstica, o estupro, o feminicídio, a homofobia, a xenofobia, a destruição de tudo. Ri-se dos mortos que ainda esfriam nos hospitais, ri-se das mulheres estupradas, das florestas queimadas, das milhões de toras amazônicas transportadas rio abaixo, das vítimas das balas perdidas e de cada um dos que morrem de Covid-19. E enquanto isso, dá-se de ombros, veste-se alguma camiseta com lema bíblico, ganha-se benção de pastores e brinda-se com jogadores de futebol ou empresários da cafonice, que vivem a serviço da desinformação e do desprezo pela dor alheia. Tudo devidamente sacramentado pelo desdém.

Demos razão a George Shaw, para quem “o maior pecado para com os nossos semelhantes, não é odiá-los mas sim tratá-los com indiferença”. Só um Deus para ter piedade! Enquanto isso, todos sabemos o que deve ser feito.

Jelson Oliveira é professor de Filosofia (PUC/PR)



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