A juventude de Myanmar desafia a Junta Militar - Le Monde Diplomatique

APÓS O GOLPE, UMA MOBILIZAÇÃO DETERMINADA, PORÉM FRÁGIL

A juventude de Myanmar desafia a Junta Militar

Edição 164 | Myanmar
por Christine Chaumeau
1 de março de 2021
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Com medo de perder seus privilégios, os militares de Myanmar tiraram do poder e prenderam os dirigentes eleitos. Aung San Suu Kyi está sendo processada pela “importação ilegal de walkie-talkies” e por “desrespeito à lei sobre desastres naturais”. Três semanas após o golpe e apesar da repressão, a população continua a se manifestar em todo o país

“Depois dos calafrios de medo que nos assaltam à noite, nossas esperanças renascem de manhã.” Neste 14 de fevereiro de 2021, Lamin Oo, produtor de cinema de Myanmar, justapôs em sua conta no Twitter a fotografia de uma manifestação contra a ditadura e um vídeo com homens armados de bastões que se aproveitam da escuridão para semear o caos em um bairro de Rangum, capital econômica do país. Objetivo dos desordeiros: aterrorizar e desanimar os que participam da mobilização contra o golpe de Estado de 1º de fevereiro. Dias antes, a Junta Militar libertou mais de 20 mil prisioneiros comuns – uma manobra que lembra aos habitantes do país a sublevação de 1988. Na época, criminosos soltos pelas ruas também instalaram o reinado do terror, justificando assim a intervenção brutal das Forças Armadas e o banho de sangue.

Em milhares de contas no Twitter, as mesmas hashtags: “A Junta ataca”, “Salvem Myanmar”. Um grito de socorro contra os militares que, às 3 horas da manhã de 1º de fevereiro, fizeram voar pelos ares as esperanças suscitadas há dez anos pela transição democrática. A prisão dos dirigentes eleitos, entre os quais Aung San Suu Kyi, chefe de Estado, e vários membros de seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND), pôs fim à partilha do poder entre civis e militares,1 ignorando o voto da população que reelegeu triunfalmente a LND no pleito de novembro. Das 1.117 cadeiras em disputa2, a legenda conquistou 920, 61% a mais que cinco anos atrás e 82% do total. O Partido da União para a Solidariedade e o Desenvolvimento, fundado pelo ex-general Thein Sein, obteve 71 cadeiras, 117 a menos e apenas 6,4% dos eleitos. Esse fracasso só pode ter sido provocado pela fraude, assegura o Exército, que justifica assim sua tomada do poder.

Camisa verde, galões, divisas, olhar fixo: o comandante do Exército, Min Aung Hlaing, nomeado chefe do Conselho de Administração do Estado, nova instância que dirige o país, apareceu na cadeia de televisão do Exército tendo ao fundo, como única decoração, a bandeira do país. Uma imagem anacrônica. Oito dias após o golpe de Estado, ele se dirigiu diretamente ao povo pela primeira vez e tentou convencê-lo. Garantiu que tomou o poder nos termos da Constituição e que novas eleições serão convocadas ao fim de um ano de estado de emergência. Prometeu que essa Junta será “diferente” dos regimes militares anteriores, pois aspira a uma “democracia disciplinada”. Um de seus predecessores, o general Than Shwe (líder do país de abril de 1992 a março de 2011), também falava em democracia “florescente e disciplinada”…

 

“Como nas histórias de minha mãe”

Na rua e na internet, a mobilização cresce. “Um povo de 54 milhões de pessoas contra 500 mil homens”, resume Aung Kyaw Moe, diretor do Centro para a Integração Social, referindo-se aos efetivos do Tatmadaw, o Exército de Myanmar. “Unidos contra a ditadura” é a palavra de ordem dos manifestantes; funcionários, bancários, membros do pessoal da saúde, professores, advogados e estudantes vão se juntando, cada dia mais numerosos, a um movimento de desobediência civil de amplitude inédita. Em 14 de fevereiro, a rede ferroviária estava parada e o aeroporto não tinha funcionários para garantir todas as atividades. Clínicas e hospitais fecharam as portas, sem seus assalariados que protestavam contra a tomada ilegal do poder. Isso em plena pandemia de Covid-19 – mas que fazer? A urgência é outra. A população não quer perder o gostinho de liberdade que saboreou.

Quem tem de 10 a 30 anos cresceu em um país aberto, conectado pela internet com o resto do mundo. “Nossos olhos e espíritos despertaram, principalmente graças às redes sociais”, declarou a jovem militante Thinzar Shunlei Yi, que depois do golpe de Estado vive escondida. As pessoas acompanharam as eleições norte-americanas, viram as manifestações em Hong Kong, avaliaram a diferença entre o que vivenciavam e as histórias de repressão contadas por seus pais.

São lembranças do medo do arbítrio, das prisões noturnas, da vigilância generalizada, da brutalidade do Exército. Contam-lhes também do golpe de 1962, quando o Tatmadaw derrubou o governo eleito em nome da unidade nacional, e de 1990, quando os militares não reconheceram o resultado da eleição, vencida pelo principal partido de oposição, a LND. “É difícil descrever o que senti ao acordar no dia 1º de fevereiro. Uma tristeza profunda, uma raiva imensa. Como se estivesse andando para trás”, explica um ensaísta,3 ex-preso político por sua participação no levante contra os militares no verão de 1988. “Estou furioso”, ecoou um jovem operário que saiu às ruas de Rangum para protestar. “O que está acontecendo reproduz o que minha mãe me contou quando eu era criança”, lamenta uma moça.

Após tomar o poder, o ambicioso Min Aung Hlaing desdenhou o lento processo iniciado no começo dos anos 2000 por seus predecessores para permitir o retorno progressivo à democracia e tirar o país do isolamento internacional. A Constituição de 2008, escrita pelo próprio Exército, assegura às Forças Armadas o controle de três ministérios-chave: Defesa, Interior e Fronteiras. Além disso, ele tem reservada uma minoria de bloqueio no Parlamento de 25% das cadeiras. Uma coisa, contudo, assusta o general: essas garantias constitucionais foram inoperantes diante dos distúrbios sociais e econômicos de uma sociedade aberta para o mundo. Com efeito, o país que ele pretende governar sozinho, “sem a tela para o mundo que lhe oferecia Aung San Suu Kyi”, segundo Thet Win, da ONG Sinergia, que prega o diálogo inter-religioso, não tem nada a ver com o de 2010.

Após décadas de isolamento, o degelo político foi seguido pela suspensão das sanções econômicas. Em dez anos, o número de pobres caiu pela metade, embora 24,8% da população ainda viva abaixo da linha de pobreza.4 Antes da pandemia de Covid-19, o crescimento anual chegou a 7%. “Myanmar era um eldorado para os investidores”, lembra-se um banqueiro que participou da criação de duas instituições financeiras. Contudo, explica ele, por causa das políticas liberais do governo de Suu Kyi, os conglomerados do Exército “sofreram muito com a abertura à concorrência. Não tinham clientes cativos como antes”. Empresários e analistas concordam num ponto: “Nesses últimos dez anos, os generais continuaram a viver numa bolha, longe de todo contato com estrangeiros, principalmente os ocidentais. Acham que encarnam uma espécie de excepcionalismo intrínseco ao país”.

Descompasso com a sociedade, sobretudo com os jovens. “Nossa geração não se dobrará”, repetem os que cresceram usando as redes sociais. No Facebook e no Twitter, um dia após o golpe, eles passaram a difundir palavras de ordem, cartazes, desenhos, fotografias, como uma maneira de galvanizar seu movimento e conjurar o medo. Para evocar o mundo em que a Junta quer mergulhá-los, fazem alusões a The Purge ou Black Mirror, séries que mostram universos distópicos. Como entre os contestadores tailandeses,5 o gesto de três dedos erguidos, em referência à obra de ficção científica Jogos vorazes, tornou-se sinal de união contra a Junta. “Não saímos às ruas pela LND ou por Aung San Suu Kyi. Este movimento é transversal, vai além de seu símbolo. Trata-se de uma mobilização de toda a sociedade para acabar com a ingerência do Exército na política. Queremos uma Constituição plenamente democrática”, declara Thinzar Shunlei Yi. Uma artista concorda, entusiasmada pelo que viu nas passeatas de Rangum: famílias, pessoas muito jovens, ricos e não tão ricos. Mesmo os moradores de um imóvel onde vivem parentes de militares aderiram. Embora, em 8 de fevereiro, tenham sido proclamadas a lei marcial e a proibição de reuniões com mais de cinco pessoas, os manifestantes se comunicam. Comitês de cidadãos se organizam para proteger a vizinhança das prisões noturnas.

Durante os quinze dias que se seguiram ao golpe de Estado, as redes sociais permitiram ao movimento de desobediência civil articular a luta tanto na rua como on-line – ainda que, em 3 de fevereiro, o Exército tenha pedido aos provedores a suspensão do Facebook, onde circulam as informações indispensáveis. Mais da metade deles tem conta no Facebook; há dez anos, somente 2% da população possuía celular.6 Para ludibriar a censura, é preciso instalar um VPN (rede virtual privada), como os chineses e os vietnamitas. Os mais novos mostram aos mais velhos como se equipar. “A força desses aparelhos permite que nos organizemos, mas eles são muito frágeis. O Exército pode cortar a internet a qualquer momento”, esclarece Thinzar Shunlei Yi.

Esse combate contra o Exército, o inimigo comum, se inspira em uma consciência coletiva de longo prazo? A desunião envenena o país desde sua criação em 1947. As tensões entre a etnia majoritária bamar e as outras, que representam um terço da população, marcam o ritmo da história da inatingível “União do Myanmar” – nome oficial do país. Uma divisão alimentada pelos militares, que se apresentam como a garantia de uma unidade fantasma. Há setenta anos, não cessam os combates entre o Tatmadaw e os exércitos locais das minorias étnicas nos estados kachin, shan, rakhine etc., notadamente em torno da gestão dos recursos naturais.7

Promovendo em 2015 a conferência de Panglong II, que reuniu o Exército, o governo e os representantes dessas etnias, Suu Kyi prometera assegurar uma representação mais equilibrada dos diversos componentes do país. As discussões se arrastaram. O Exército e a LND, dominados pelos bamares, partilham a mesma visão das minorias: “Elementos desestabilizadores que enfraquecem o poder central”, resume a analista Carine Jaquet. Suu Kyi chegou a defender o Exército e seu país, perante a Corte Internacional de Justiça de Haia, das acusações de limpeza étnica praticada contra os rohingyas, de confissão muçulmana, enquanto os bamares são budistas. Em 2016 e 2017, mais de 700 mil deles fugiram para Bangladesh diante de uma violenta campanha orquestrada pelo Tatmadaw em represália ao ataque desfechado a postos de fronteira pelo Exército de Salvaguarda dos Rohingyas. Convencida pelo discurso de ódio que os nacionalistas budistas e o Exército disseminaram na internet, a maioria da população apoiou o general Min Aung Hlaing e a chefe de Estado. Esta conquistou uma imensa popularidade, que explica também o sucesso de seu partido nas eleições.

Três semanas depois do golpe, a população de Myanmar se mantém nas ruas protestando contra o governo militar (Crédito: Stringer/Reuters)
Europa “estuda sanções”

Hoje, no ímpeto de mobilização contra a Junta, as desculpas se multiplicam. As pessoas lamentam não ter tido mais sensibilidade para com a sorte dos rohingyas, ainda ontem considerados inimigos. O mais urgente, assegura o diretor do Centro para a Integridade Social, é afastar o Exército antes de pensar em obter alguma coesão: “Por ora, devemos nos mobilizar contra os militares. É uma questão de princípio, pois o governo legítimo da LND foi derrubado”.

Que farão os países estrangeiros? Os Estados Unidos congelaram os bens do governo de Myanmar. Outras sanções contra os interesses econômicos do Exército estão oficialmente em estudo. “Os investidores estrangeiros a quem dou consultoria estão revendo suas opções”, revela um analista em estratégia, sem poder ser mais preciso. A China, maior parceira comercial, contentou-se com mencionar uma “mudança de governo” e prossegue com seus pequenos e grandes negócios. O Japão, que vem em segundo lugar, condenou o golpe de Estado, mas o ministro da Defesa, Nakayama Yasuhide, advertiu: “Se sustarmos [a parceria com o Exército], suas relações com as Forças Armadas chinesas se fortalecerão e ele se afastará ainda mais das nações livres, como os Estados Unidos, o Japão e o Reino Unido”.8 Várias empresas japonesas, como a Suzuki e a cervejaria Kirin, ainda assim interromperam suas atividades. Mas nada de paralisar o projeto Kaladan, de construção de infraestruturas de transporte multimodal, encabeçado por Tóquio e Nova Déli, garantiu o ministro das Relações Exteriores indiano, Subrahmanyan Jaishankar.9 Quanto à Europa, por enquanto se limitou a “estudar sanções”, nas palavras de Jean-Yves Le Drian, ministro europeu e das Relações Exteriores francês.10

Enquanto isso, em Rangum e na capital, Naypyidaw, os tanques tomaram posição em diversos bairros. Horas depois, na noite de 14 para 15 de fevereiro, a internet foi finalmente cortada. As últimas mensagens recebidas informavam a prisão de cinco jornalistas no estado kachin, em Myitkyna. Quando o dia vai amanhecer de novo em Myanmar?

 

*Christine Chaumeau é jornalista.

 

1 Ver “L’icône de la démocratie birmane ménage les militaires” [O ícone da democracia de Myanmar poupa os militares], Le Monde Diplomatique, jan. 2017.

2 Em 8 de novembro de 2020, a população votou para a Assembleia da União, que compreende duas casas (Câmara dos Deputados e Câmara das Nacionalidades), e para as assembleias dos Estados e das regiões.

3 Quase todas as pessoas entrevistadas preferiram conservar o anonimato por medo da repressão.

4 “Poverty data: Myanmar” [Dados da pobreza: Myanmar], Banque Asiatique de Développement, 2017. Disponível em: www.adb.org.

5 Ver Eugénie Mérieau, “En Thaïlande, les jeunes face à la monarchie et à l’armée” [Na Tailândia, os jovens enfrentam a monarquia e o Exército], Le Monde Diplomatique, jan. 2021. Disponível em: www.monde-diplomatique.fr.

6 “Myanmar Telecommunications Sector” [Setor de Telecomunicações de Myanmar], Yangon Stock Exchange, 30 jul. 2018. Disponível em: https://ysx-mm.com.

7 Ver, sobretudo, Renaud Egreteau, “Désunion nationale en Birmanie” [Desunião nacional em Myanmar], e André Boucaud e Louis Boucaud, “Plus de cent trente minorités” [Mais de 130 minorias], Le Monde Diplomatique, respectivamente dez. 2012 e nov. 2009.

8 “Japan defense official warns Myanmar coup could increase China’s influence in region” [Oficial de defesa japonês adverte que o golpe em Myanmar pode fortalecer a influência da China na região], Reuters, 2 fev. 2021.

9 Rahul Karmakar, “India-Myanmar Kaladan project in final stages: Jaishankar” [Projeto Kaladan da Índia-Myanmar em fase final: Jaishankar], The Hindu, Nova Déli, 15 fev. 2021.

10 “Birmanie: l’UE devra ‘envisager’ des sanctions si l’état d’urgence n’est pas levé, selon Jean-Yves Le Drian” [Myanmar: a UE deverá “estudar” sanções caso o estado de emergência não seja suspenso, segundo Jean-Yves Le Drian], Le Figaro (com AFP), Paris, 3 fev. 2021.



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