A mão invisível de Adam Smith
A mão invisível, a lei de Say e o equilíbrio geral se dissolvem quando deixam de ser uma abstração teórica
O conceito de mão invisível, formulado por Adam Smith (1723-1790) no livro clássico A riqueza das nações (1776), citado apenas uma única vez, tornou-se uma das metáforas mais conhecidas da teoria econômica, sendo suficiente para sintetizar que o laissez-faire geraria prosperidade, riqueza e bem-estar da sociedade. Destarte, essa metáfora, tão poderosa quanto a força de Hermes, formou, e ainda forma, toda uma legião de economistas liberais.
Smith, que é um autor pouco lido, muito citado e mal interpretado, como descreveu Giovanni Arrighi (1937-2009) em seu livro Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI (2008), argumenta que os indivíduos ao buscarem satisfazer seus próprios interesses individuais, acabam promovendo o bem-estar coletivo e a eficiência na alocação de recursos. Para Smith, cada indivíduo, ao decidir onde investir, o que produzir e como consumir, busca maximizar seus ganhos pessoais. Por exemplo: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse”.
Do ponto de vista filosófico, a metáfora da mão invisível não surge isolada, não caiu do céu como a maça que atraída pela gravidade atingiu a cabeça de Isaac Newton (1643-1727). A base de seu argumento já fora exposta de forma contundente por Bernard Mandeville (1670-1733) na Fábula das abelhas, publicada entre 1714-1729. Além disso, em A teoria dos sentimentos morais (1759), Smith já discutia como os indivíduos, movidos por paixões e interesses particulares, eram moderados pelo sentimento de simpatia e pelo julgamento moral. A ordem social, portanto, resultaria de uma combinação entre o auto-interesse econômico e os laços ético-sociais que orientam a convivência humana.
A mão invisível, que aparece pela primeira em A teoria dos sentimentos morais, depois em A riqueza das nações e, por ultimo, em História da Astronomia, primeiro livro da coleção Ensaios sobre temas filosóficos (1795), na economia política, significa o livre mercado, no qual os preços e a concorrência funcionam como mecanismos reguladores, dispensando uma intervenção estatal, ou melhor, sugere um papel mínimo para o Estado na economia. A competição estimula a inovação, reduz custos e amplia a oferta de bens e serviços, beneficiando consumidores e promovendo crescimento econômico.
Esse raciocínio se articula com outro pilar teórico, a lei de Say formulada por Jean-Baptiste Say (1767-1832) no início do século XIX. Segundo Say, a oferta cria sua própria demanda. A premissa é simples: a produção de bens e serviços gera renda suficiente para absorver essa mesma produção, tornando impossível uma crise de superprodução. Essa ideia, de que os mercados tendem ao equilíbrio de forma natural, é corroborada por outros conceitos da economia neoclássica, como o equilíbrio geral de Léon Walras (1834-1910) e o teorema da eficiência de Pareto de Vilfredo Pareto (1848-1923). Juntos, eles formam a base teórica para a crença de que os mercados, deixados a si mesmos, podem alocar recursos de forma ideal.
Posteriormente, economistas como William Stanley Jevons (1835-1882) e Alfred Marshall (1842-1924), buscaram demonstrar matematicamente como esse modelo funciona. Marshall, considerado um dos fundadores da economia neoclássica, integrava análises microeconômicas detalhadas com uma perspectiva prática de mercado, destacando-se pelo conceito de elasticidade-preço da demanda, que mede como a quantidade demandada responde a variações nos preços. Ele também enfatizava que a eficiência do mercado depende de condições aproximadas à concorrência perfeita, mas reconhecia que fatores institucionais e sociais poderiam influenciar a alocação de recursos. Marshall reforça a ideia de Smith de que os mercados competitivos, quando bem estruturados, conduzem a uma distribuição eficiente de bens e serviços, ainda que com atenção às limitações reais da economia.

Entretanto, a interpretação da mão invisível não pode ser feita sem um olhar cético, uma dúvida fundamental que nos impede de aceitá-la como uma verdade absoluta. É justamente essa postura de questionamento que nos leva a usar a dialética hegeliana como uma ferramenta de análise para o pensamento econômico. Podemos ver a própria teoria da mão invisível como uma tese. A afirmação de que o auto-interesse individual e a concorrência, operando num mercado livre, levam de forma espontânea à prosperidade e ao bem-estar coletivo. A realidade nos apresenta a antítese. O livre mercado, por si só, não gera apenas prosperidade. Ele também produz crises, desigualdade e exploração do trabalho. Da luta entre essa tese e a antítese surge uma síntese. A mão invisível não é descartada, mas é reinterpretada dentro de um contexto mais complexo. A síntese reconhece o poder do mercado e do auto-interesse para gerar riqueza, mas também entende a necessidade de instituições, regulação e políticas sociais para “corrigir” suas contradições, se é que é possível.
Em essência, a dialética hegeliana atua como um motor de progresso intelectual. Assim, Karl Marx (1818-1883) produziu a crítica à economia política em sua obra O capital (1867). Se para Smith a busca por auto-interesse levava à prosperidade criando ordem, Marx não via “progressão harmoniosa”, mas sim a luta de classes entre a burguesia e trabalhadores, sendo a luta de classes o motor do progresso histórico. Marx também via a mão invisível como uma ilusão ideológica. Além do mais, o mercado, em vez de ser uma esfera de trocas justas como sugerido por Smith, é um sistema de exploração onde os capitalistas se apropriam do valor do trabalho dos operários, gerando lucro e mais-valia. Em suma, o mercado é uma contradição em processo e o Estado um instrumento de controle de classe usado pela burguesia para manter sua hegemonia e proteger a propriedade privada.
Assim com Marx, outro autor que desconstruiu os postulados da economia clássica foi John Maynard Keynes (1883-1946) na Teoria geral do emprego do juro e da moeda (1936). Como o principal crítico da teoria clássica no século XX, Keynes argumentou que essa visão que surgira com Smith, depois David Ricardo (1772-1823) e mais tarde com os economistas neoclássicos, que incluem Jevons, Carl Menger (1840-1921), Walras e Marshall era inconsistente, especialmente em tempos de crise como a Grande Depressão de 1929. Em tempos de crise ou recessão, o mercado, por si só, é incapaz de se corrigir. É nesse ponto que o Estado deve intervir minimizando os efeitos das recessões e garantindo o pleno emprego. O Estado, para Keynes, deve ser o maestro que conduz a orquestra, e não um mero espectador.
Partindo do princípio que os “erros” não têm como perdurar na passagem do tempo de Chronos, a mão invisível, que é uma espécie de lei universal para os economistas afiliados à corrente liberal, não pode ser uma verdade universal e absoluta, tal como são as leis da física, por exemplo, a gravidade de Newton, a relatividade geral de Albert Einstein (1879-1955) ou mesmo as leis de Johannes Kepler (1751-1630).
Da mesma forma que Nicolau Copérnico (1473-1543) e Galileu Galilei (1564-1642) estabeleceram o modelo heliocêntrico questionando o modelo geocêntrico de Aristóteles (384 a.c-322 a.c) e Cláudio Ptolomeu (entre 90-168), Marx e Keynes questionaram as premissas clássicas, abrindo espaço no debate para uma nova interpretação econômica. Isto é, na economia, o comportamento humano é complexo e imprevisível. Não existe equilíbrio geral entre oferta e demanda no mesmo sentido que existe a lei da atração gravitacional, a curvatura do tecido do espaço-tempo devido à presença de massa e energia e a lei das órbitas elípticas. A oferta e a demanda são influenciadas por fatores sociais, econômicos, culturais, psicológicos e políticos que não se encaixam em uma equação, um modelo matemático e/ou estatístico, ainda mais que a economia capitalista é uma constante contradição em processo que se dilata e retrai no tempo e no espaço conforme se dão as relações econômicas de poder.
Partindo da negação dos postulados da economia clássica e neoclássica, não existe um estado de repouso. A economia está sempre em fluxo e refluxo. A tecnologia avança, as preferências dos consumidores mudam, o capital se move e se transforma, e as crises surgem. Nenhuma lei econômica pode prever com total certeza quando uma bolha vai estourar ou como um evento geopolítico vai impactar o mercado. A incerteza é a única constante. Portanto, assim como as leis da física se desfazem no horizonte de eventos de um buraco negro, por exemplo, de Sagittarius-A* que se encontra no centro de nossa galáxia, a mão invisível, a lei de Say e o equilíbrio geral se dissolvem quando deixam de ser uma abstração teórica, da mesma forma que múons se transformam em partículas de menor massa.
Indo um pouco mais além, tal como o telescópio de Galileu revelou as fragilidades na filosofia clássica de Aristóteles e Ptolomeu, Marx e Keynes expuseram as fragilidades da mão invisível, a fraqueza da lei de Say e a vulnerabilidade do equilíbrio geral, abalando verdades absolutas e mostrando que os pensamentos econômicos podiam e deviam ser questionados. Muito embora o liberalismo ainda seja um pilar tão estabelecido quanto foi o modelo geocêntrico no passado.
Juliano Giassi Goularti é doutor pelo Instituto de Economia da Unicamp.

