A mídia em guerra contra Bernie Sanders - Le Monde Diplomatique

“UMA ESCOLHA MUITO DIFÍCIL”?

A mídia em guerra contra Bernie Sanders

por Julie Hollar
28 de fevereiro de 2020
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Os bons resultados de Bernie Sanders, defensor de um “socialismo democrático”, no início das primárias presidenciais dos Estados Unidos semearam consternação no establishment do Partido Democrata, que luta agora para impulsionar um candidato bem mais moderado. Tarefa para a qual podem contar com a hostilidade da grande mídia contra Sanders

Desde o início das primárias presidenciais do Partido Democrata, o pânico tomou conta das principais mídias dos Estados Unidos. No New York Times, o economista e cronista Paul Krugman reinaugurou uma prática bem ao gosto do público, criada em 2016 e que consiste em igualar o candidato “democrata-socialista” Bernie Sanders a Donald Trump.1

Os republicanos neoconservadores, partidários de guerras imperialistas e do “tudo, menos Trump” – uma espécie em processo de extinção –, parecem tão inquietos quanto os democratas conservadores ou centristas. “Bernie não pode ganhar”, escreveu David Frum, em tom de súplica, no jornal The Atlantic (27 jan. 2020). “A campanha ‘à moda de Trump’ de Bernie Sanders é desastrosa para os democratas”, lamentou Jennifer Rubin, do Washington Post (27 jan. 2020).

O think tank blairista Third Way, financiado por Wall Street,2 também fez de tudo, com o apoio da imprensa, para frear a ascensão de Sanders. Assim, enviou uma “advertência” aos eleitores de Iowa: “Por causa da negligência dos meios de comunicação, vocês não viram uma análise real do passado e das ideias perigosas do candidato que encabeça as pesquisas”.3 Segue-se uma longa lista de ataques que Trump poderia utilizar contra Sanders – lista montada com facilidade pelos membros desse think tank, que partilham com os republicanos muitas críticas ao candidato democrata, em especial pelo fato de ele se dizer socialista e sugerir um programa de seguridade social, em substituição à assistência privada (“Medicare para todos”), o que seria impopular.4 A mídia desenrolou para eles um tapete vermelho. O Washington Post reservou ao Third Way uma página da seção “opiniões” para que ele possa defender sua tese segundo a qual “o programa de Bernie Sanders o torna virtualmente inelegível” (15 jan. 2020). O USA Today também lhe abriu as portas: “Os democratas brincam com fogo ao apoiarem Bernie Sanders. Suas ideias podem assustar os eleitores moderados, que farão pender a balança” (29 jan. 2020). O think tank contribuiu igualmente para o último bombardeio de artigos centristas, assinados por Rahm Emanuel, ex-consultor do círculo mais próximo de Barack Obama na Casa Branca, ou por James Carville,5 estrategista da vitoriosa campanha eleitoral de Bill Clinton em 1992. Fontes do establishment fazem afirmações sem fundamento, que os jornalistas reproduzem sem comentários. Encontramos frequentemente a ideia de que Sanders teria se furtado às críticas e ao exame rigoroso de seus adversários e dos jornalistas. “Já é tempo de os democratas acordarem e a mídia começar a fazer seu trabalho de oposição a um sério candidato à investidura”, declarou Matt Bennett, do Third Way.6 No Politico, ele chega a dizer: “[A mídia] o deixa causar estragos impunemente. Permite que se esquive das perguntas difíceis”.7

Foto: Jeanne Menjoulet
“Camisas pardas”

Esse tipo de conclusão, porém, não é aceito unanimemente nem no seio das redações. O Washington Post publicou no mesmo dia dois artigos com conclusões opostas: “Bernie Sanders enfrenta a ofensiva de seus rivais” e “Os rivais de Sanders não conseguem segurá-lo” (26 jan. 2020). No segundo, David Weigel observa que algumas críticas não tiveram grande impacto: muitos eleitores “ficaram impassíveis” quando Joseph Biden e a senadora moderada do Minnesota Amy Klobuchar acusaram Sanders de “comprometer a herança de Obama”. E Weigel completou, desolado: “Todos os rivais de Sanders se esforçam, talvez a pedido de eleitores inquietos, para informar como financiarão seus projetos sem estourar o orçamento. A Sanders ninguém pergunta isso. Ele passa meses nas prefeituras pedindo aos eleitores que lhe falem de seus problemas, de suas despesas com saúde, de suas dívidas de educação, e explica que só a injustiça das políticas econômicas provoca todos esses problemas”.

Como observou David Sessions, “a ideia de que Sanders caminha para uma vitória inequívoca nas primárias e ninguém lhe faz perguntas sobre seu orçamento ou sua elegibilidade é um vestígio das primárias de 2016, quando Hillary Clinton e seus partidários se irritavam com a permanência dele na corrida pela candidatura democrata. Diziam que a popularidade de Sanders era apenas uma miragem, em razão da ausência de análises críticas” (The New Republic, 28 jan. 2020). Na verdade, o candidato já foi alvo de atenção contínua e de uma hostilidade midiática sem freios há quatro anos, por ocasião da última primária democrata que o opunha a Hillary Clinton.8

Outro ângulo de ataque consiste em desacreditar sua campanha, alegando que seus partidários são principalmente homens brancos sexistas e muito agressivos nas redes sociais. Essa crítica, nascida também durante a campanha de 2016, persiste apesar de sua falta de fundamentos, que são meramente anedóticos. Com efeito, os jornalistas, como todos, ou quase todos, sabem que a internet está cheia dos mais variados discursos de ódio, que não provêm unicamente de um pequeno subgrupo dos partidários do senador de Vermont. “Toda opinião polêmica expressa na internet”, lembrava em 2016 o jornalista Glenn Greenwald, “como a lançada contra figuras do Partido Democrata da estatura de Hillary Clinton e Barack Obama, provocará inevitavelmente um dilúvio de cólera e injúrias… Alegar que os comportamentos insultuosos ou misóginos são típicos dos simpatizantes de Sanders não passa de mentira e manipulação” (The Intercept, 31 jan. 2016). Um estudo divulgado em março de 2016 mostrou que os partidários de Sanders eram vistos como menos “agressivos e ameaçadores na internet” (16%) que os de Hillary Clinton (30%) – e bem menos que os de Trump (57%).9

Mas as mídias não largam o osso. Em 27 de janeiro último, o New York Times acusou na primeira página: “Bernie Sanders e seu exército da internet: no início da campanha de 2020, o senador de Vermont lembrou a seus simpatizantes que condenava comportamentos agressivos. Alguém tem culpa se muitos deles não o escutam?” (27 jan. 2020). Segundo o jornal, o candidato teria alimentado o “veneno” em seus apoiadores. Em destaque, declarações como: “Não vou aos Hamptons [zona de lazer onde se esbalda a burguesia de Nova York] para levantar fundos junto a bilionários”.

Alguns dias antes, o Daily Beast (22 jan. 2020) publicava em manchete: “Os jovens do sexo masculino partidários de Bernie são desordeiros e arrogantes. Prejudicam a campanha de Sanders”. No mesmo tom, a NBC News identificava-os com os militantes pró-Trump: “Têm em comum uma tática infame: os tuiteiros de Bernie se arvoram dos verdadeiros progressistas da internet, mas suas táticas de assédio são tudo menos progressistas” (19 jan. 2020).

Esses artigos tendenciosos denunciam sem distinção ameaças de morte e exemplos de insultos que na verdade não existem. Assim, o New York Times concluiu sua acusação com a seguinte “prova”: “Vocês, milionários, devem entender que muitos de nós precisamos realmente da vitória de Bernie Sanders nesta eleição presidencial”, publicou um adepto de Sanders. “Não aceitaremos ficar quietos.” Ou, a propósito de algumas cadeiras derrubadas durante uma reunião em Nevada: “Parece que a violência foi evitada, mas houve algumas brigas sem consequência”. Chuck Todd, responsável editorial da rede NBC News, chegou a comparar os militantes de Sanders aos “camisas pardas”, a SA nazista (MSNBC, 10 fev. 2020).

Hillary Clinton também desceu à arena, armada até os dentes. Ao Hollywood Reporter (21 jan. 2020), que lhe perguntou se ela apoiaria Sanders caso o senador fosse o candidato escolhido, deu a entender que faria de tudo para se opor a semelhante eventualidade: “Não direi nada por enquanto. Estamos ainda numa fase muito turbulenta das primárias. Direi apenas que não se trata só dele, mas da cultura que o cerca. De sua equipe. De seus apoiadores. Os internautas que o defendem e seus ataques incessantes a muitos adversários, em particular às mulheres… Penso que não convém cometer de novo o mesmo erro, o de fazer campanha insultando e agredindo. Talvez ele queria permanecer longe disso; talvez não saiba o que faz sua equipe de campanha e seus apoiadores; ou talvez lhes pisque o olho e os instigue a atacar Kamala [Harris, a senadora da Califórnia que renunciou à sua candidatura] ou Elizabeth [Warren]… Acho que esse é um comportamento a levar em conta na hora de tomar uma decisão”. Imediatamente, no Washington Post, Jennifer Rubin se apossou dessa citação para dizer que Sanders dispunha de uma “máquina de guerra” nutrida por uma “misoginia mal disfarçada” que “voltava para assombrá-lo” (21 jan. 2020).

A verdadeira “máquina de guerra” não é a máquina imaginária instalada pelo senador de Vermont para derrubar seus oponentes, e sim a montada pela elite democrata que, com seus inumeráveis recursos midiáticos, pretende eliminá-lo. Sem sucesso, por enquanto.

 

Julie Hollar é jornalista do Extra!, revista do observatório da mídia norte-americano Fairness and Accuracy in Reporting (FAIR), na qual foi publicada em 30 de janeiro uma versão desta artigo.

 

1 Julie Hollar, “Corporate media equate Sanders to Trump – because for them, Sanders is the bigger threat” [A mídia corporativa compara Sanders a Trump – porque, para ela, Sanders é a ameaça maior], Fairness and Accuracy in Reporting (FAIR), 24 jan. 2020. Disponível em: https://fair.org.

2 Elias Isquith, “Third Way senior vice-president admits majority of think tank’s funding comes from Wall Street” [Vice-presidente sênior do Third Way admite que a maior parte do financiamento do think tank vem de Wall Street], Salon, 12 dez. 2013, salon.com.

3 Jonathan Cowan, “A warning: Why team Trump has called Bernie Sanders their ‘ideal’ opponent” [Advertência: por que a equipe de Trump chamou Bernie Sanders de seu adversário “ideal”?], Third Way, Washington, DC, 28 jan. 2020. Disponível em: www.thirdway.org.

4 Lauren Gambino, “‘An existential threat’: Bernie Sanders faces mounting opposition from moderate Democrats” [Uma “ameaça existencial”: Bernie Sanders enfrenta cada vez mais oposição dos democratas moderados], The Guardian, Londres, 21 jun. 2019.

5 Howard Kurtz, “Lurching left: Are Democrats blowing their chance to beat Trump?” [A esquerda balança: os democratas estão perdendo a chance de derrotar Trump?], Fox News, 2 jul. 2020. Disponível em: www.foxnews.com.

6 Alex Seitz-Wald, “‘Oh my God, Sanders can win’: Democrats grapple with Bernie surge in Iowa” [“Meu Deus, Sanders pode vencer!”: democratas às voltas com a disparada de Bernie em Iowa], NBC News, 27 jan. 2020. Disponível em: www.nbcnews.com.

7 Natasha Korecki, “‘They let him get away with murder’: Dems tormented over how to stop Bernie” [“Deixaram-no sair impune do crime”: democratas atormentados com como parar Bernie], Politico, 27 jan. 2020. Disponível em: www.politico.com.

8 Adam Johnson, “The myth that Sanders hasn’t been criticized won’t go away” [A lenda de que Sanders não foi criticado persiste], FAIR, 25 maio 2016.

9 “Is social media empowering or silencing political expression in the United States? [A rede social está fortalecendo ou silenciando a expressão política nos Estados Unidos?], Lincoln Park Strategies, Rad Campaign e Craig Newmark Philanthropies, maio 2016. Disponível em: http://onlineharassmentdata.org.



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