A mobilização popular, as redes sociais e a justiça no Brasil
O que motiva uma pessoa a se pronunciar para defender – ou combater – um assunto nas redes sociais?
Acontecimentos recentes em nosso país revelam uma verdade sobre a pressão popular: ela tem contribuído significativamente para a busca pela justiça.
Com uma população superior a 213 milhões de habitantes no Brasil, segundo dados do IBGE, é possível afirmar que, embora a grande maioria não possua expertise técnica para analisar processos judiciários, os movimentos sociais refletem de forma positiva em casos de crimes que poderiam ficar sem a devida penalidade.
O caso do piloto e empresário de 19 anos, detido após causar lesão corporal gravíssima contra um adolescente por causa de um chiclete, chamou a atenção nas redes sociais. Inicialmente, ele foi solto pagando a fiança de R$ 24.315,00, enquanto a vítima permanecia internada em estado grave. A mídia divulgou imagens da agressão e ressaltou o estado crítico do jovem, o que encorajou outras vítimas a denunciarem o agressor. Sete dias após o ocorrido e em virtude de novas denúncias, a justiça decretou a prisão preventiva do suspeito para a investigação de mais quatro crimes de agressão.

Outro caso de grande repercussão foi o do gari Laudemir, de 44 anos, brutalmente assassinado durante o expediente pelo simples fato de estar trabalhando. O assassino confesso, um empresário casado com uma delegada de polícia, irritou-se por ter de aguardar o término da coleta de lixo na rua, já que o caminhão impedia a passagem de veículos. Após a discussão, ele atirou no gari e fugiu sem prestar socorro, sendo preso horas depois em uma academia. A mobilização nas redes sociais e na mídia foi decisiva para evitar a concessão de benefícios ao acusado; além disso, a família da vítima recebeu representação jurídica gratuita e o caso foi levado a júri popular.
O chocante episódio dos adolescentes suspeitos de agredir o cão comunitário “Orelha”, ocasionando sua morte, reforça a pressão popular como garantidora da justiça. Os envolvidos pertencem a famílias com recursos financeiros e contatos que poderiam influenciar o desfecho do caso, seja pela exclusão de provas ou ameaça a testemunhas, mas a exposição midiática reforça a certeza de que o crime não ficará impune. Como reflexo, as empresas das famílias tiveram seus nomes divulgados e perderam parceiros comerciais.
Esses fatos ocorreram no Distrito Federal, em Minas Gerais e em Santa Catarina, mas as mobilizações ecoaram em todo o Brasil, ganhando visibilidade internacional e apoio de figuras públicas, como famosos e políticos.
Embora não exista verdade absoluta nos fatos, uma vez que nem os direitos fundamentais garantidos pela Constituição são absolutos, uma certeza permanece: quando a sociedade se une, a busca pela justiça progride.
Vanessa Carvalho é gestora pública e especialista em assessoria pública municipal.


Parabéns por sua publicação. A pressão popular tem feito a diferença em muitos casos.