DESAPARECIMENTO DA BRASILEIRA JULIANA MARINS

A morte de Juliana Marins e a urgência de um sistema nacional de resgate

A defesa da vida humana exige mais do que bravura individual: exige planejamento, investimento e vontade política

A comoção causada pela morte da brasileira Juliana Marins, em circunstâncias ainda não completamente esclarecidas, poderia ser mais um episódio trágico fadado ao esquecimento rápido. Contudo, o caso ressoa mais profundamente por lançar luz sobre um tema negligenciado no debate público: a (in)capacidade do Estado brasileiro em promover operações de resgate eficazes, rápidas e tecnicamente sustentadas — tanto dentro quanto fora do território nacional. 

O debate público tende a operar em dicotomias pouco úteis: ou se celebra o heroísmo das equipes de resgate, ou se denuncia a omissão do Estado. Poucas vezes se analisa estruturalmente o que o Brasil tem, o que falta, e como se situa no mundo em desenvolvimento. Essa é a tarefa que se impõe. 

Crédito: Reprodução/Redes sociais

Capacidades reais e o mito da ausência total 

Não se pode ignorar que o Brasil dispõe de uma malha nacional de resposta a emergências que o distingue de grande parte dos países da periferia global. Em termos comparativos, está mais próximo de países intermediários com vocação institucional, como México e África do Sul, do que de realidades marcadas pela completa ausência de coordenação civil-militar. 

O Corpo de Bombeiros Militar — presente em todos os estados da Federação — representa uma estrutura única na América Latina, com formação técnica regular, protocolos de atuação e razoável presença territorial. Ao lado disso, estruturas como o Serviço de Busca e Salvamento (SAR) da Força Aérea, o apoio da Marinha em áreas costeiras e fluviais e a atuação da Defesa Civil nacional, ainda que subfinanciada, constituem uma rede que, apesar das deficiências, funciona em situações de catástrofe. 

Comparativamente, basta observar o caso da Indonésia, país que, como o Brasil, é marcado por grandes dimensões territoriais, biodiversidade, áreas remotas e múltiplos desastres naturais. Lá, o sistema de busca e salvamento (BASARNAS) sofre de graves limitações logísticas, com equipamentos defasados, escassa presença aérea e falhas recorrentes na articulação com governos locais. Operações em regiões como Papua ou ilhas periféricas podem levar dias para serem iniciadas, e a população local recorre frequentemente a esforços comunitários improvisados. A mortalidade em enchentes e terremotos reflete essa fragilidade sistêmica. 

O Brasil, por sua vez, respondeu com celeridade e organização relativa a desastres como os de Petrópolis (2022), Brumadinho (2019) e Mariana (2015), embora sem garantir justiça ou reparação às vítimas — outra face do mesmo problema: o abismo entre resposta emergencial e política pública contínua. 

Limites e contrastes com os modelos do Norte Global 

O mérito relativo do Brasil não o coloca, porém, no rol dos países com sistemas avançados de resgate. A comparação com nações europeias ou asiáticas de alta capacidade evidencia a distância entre o que se faz e o que seria necessário. 

Na Suíça, por exemplo, as equipes de resgate alpino operam com mapeamento satelital e drones com sensores térmicos integrados ao exército. No Japão, há protocolos nacionais de evacuação testados periodicamente com toda a população, além de integração entre inteligência artificial, big data e meteorologia. Na Alemanha, centros de comando descentralizados acionam múltiplas forças em minutos, com articulação entre municípios e instâncias federais. 

O Brasil, por outro lado, carece de uma estrutura sistemicamente integrada, que una bombeiros, Forças Armadas, polícias, Defesa Civil, Anatel, agências meteorológicas e institutos de geociências (além de outros). O que existe são ilhas de excelência que operam em silos, com capacidade reduzida para mobilização coordenada em tempo real. 

O que está em jogo: soberania, cidadania e dignidade 

A defesa da vida humana exige mais do que bravura individual: exige planejamento, investimento e vontade política. A soberania estatal não se exerce apenas nas fronteiras, mas na capacidade de responder aos riscos contemporâneos com tecnologia, ciência e integração interinstitucional. 

O Brasil tem recursos humanos, experiência acumulada e capacidade técnica para construir uma política nacional de resgate compatível com seu tamanho, sua geografia e sua democracia. O que falta é transformar essa capacidade latente em projeto de Estado, com orçamento, plano plurianual e cooperação federativa. 

Mais do que um clamor momentâneo, a dor da família de Juliana Marins deve se tornar pressão organizada por mudanças estruturais. Afinal, um país que deseja se afirmar internacionalmente não pode aceitar que o desaparecimento de seus cidadãos — em trilhas, enchentes ou soterramentos — seja tratado como acaso ou tragédia natural. É, sobretudo, um fracasso político evitável. 

 

Roberta Melo é professora de Relações Internacionais da FMU e analista de Política Externa e Defesa. Doutora e Mestre em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e graduada em Relações Internacionais (FMU). 

Danilo Sorato é professor de História e Relações Internacionais. Doutor em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do Laboratório de Política Externa Brasileira (LEPEB/UFF) e Pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFF/UFPel).  Escreveu diversos artigos acadêmicos e jornalísticos sobre as relações internacionais do Brasil, em especial os governos Temer, Bolsonaro e Lula. 

Fontes: 

UNIÃO EUROPEIA. Search and rescue. Publicado em 12 de maio de 2025. Disponível em: Search and rescue – European Commission. Acesso em: 07 jul. 2025. 

G1. ‘Quando acontecer um acidente, não culpe os socorristas’, posta Agência Nacional de Busca e Resgate da Indonésia. G1, Publicado em 25 de junho de 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/06/25/quando-acontecer-um-acidente-nao-culpe-os-socorristas-posta-agencia-nacional-de-busca-e-resgate-da-indonesia.ghtml. Acesso em: 07 jul. 2025. 

Centre for Public Impact. J-Alert: disaster warning technology in Japan. Publicado em 30 de março de 2016. Disponível em: https://centreforpublicimpact.org/public-impact-fundamentals/j-alert-disaster-warning-technology-in-japan/. Acesso em: 07 jul. 2025.  

SWIN. Drones suíços se especializam em resgate. Swissinfo, Publicado em 06 de dezembro de 2020. Disponível em: https://www.swissinfo.ch/por/ciencia/drones-su%C3%AD%C3%A7os-se-especializam-em-resgate/46186828. Acesso em: 07 jul. 2025.  

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