A música na era da velocidade: reflexões sobre consumo e experiência
Você já se perguntou como é a sua relação com os produtos artísticos e culturais na contemporaneidade? Será que ela se tornou mais dinâmica, veloz e, por que não, superficial?
Se analisarmos os desdobramentos das últimas três décadas, veremos um movimento acelerado de transformações tecnológicas e culturais. Tendências surgem e desaparecem em um intervalo muito curto quando comparadas a outros momentos históricos. O que antes se mantinha por gerações agora se dissolve em poucos anos – às vezes até em meses. Vivemos na “sociedade líquida”, conforme teorizou o sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017), um período histórico cujo vetor dominante é o da velocidade. Práticas culturais cotidianas como ler um livro ou um jornal, assistir a um filme ou ouvir um álbum de música, continuam nos informando, entretendo e alimentando nosso repertório, mas já não são as mesmas experiências de outrora. Hoje essas práticas aparecem fragmentadas, sintetizadas nas linguagens do ciberespaço, distantes do formato que nos provocava o desejo de mergulho profundo. A competição entre plataformas e conteúdos se tornou desproporcional. Todos disputam pela nossa atenção – que, paradoxalmente, parece ser de todos e de ninguém ao mesmo tempo. Vivemos um período fascinante e complexo, na mesma proporção.

Não quero soar saudosista. Sou fascinado pelas soluções digitais e reconheço o quanto elas facilitam nossas vidas. Contudo, como lembra o pensador Edgar Morin (que nasceu em 1921 e continua produzindo), precisamos escapar da armadilha do pensamento binário: não se trata de julgar as transformações como apenas positivas ou negativas, mas de praticar o que ele chama de pensamento complexo.
É nesse espírito que convido o leitor a refletir sobre o caso da música – uma expressão artística fugidia, noturna, de contornos indefinidos e de inapreensível imaterialidade. Características que, segundo o filósofo francês Vladimir Jankélévitch (1903-1985), se conectam ao inefável, ou seja, àquilo que é intangível, que está relacionado ao transcendente. Para Schopenhauer (1788-1860), a música não expressa ideias ou conceitos, mas a própria Vontade, essência universal e metafísica de todas as coisas. Não à toa, as artes sonoras sempre ocuparam um lugar de destaque no pensamento do filósofo.
Se pararmos para pensar, diferentemente de um quadro que podemos contemplar por longos minutos ou de um poema que permanece diante de nossos olhos enquanto quisermos, a música escapa no instante em que a ouvimos. Ao falarmos dela, ela já passou. Talvez por isso, sua materialidade tenha sido tão valorizada ao longo do século XX.
Os discos de vinil são exemplo emblemático. Para além da função sonora, eles condensavam um universo estético: capas elaboradas que traduzem visualmente o conceito das músicas, encartes com letras e imagens, sequências pensadas como narrativas coesas. Era um convite ao mergulho integral na obra.
Sempre buscamos, de algum modo, dar corpo à experiência musical. Após o reinado dos vinis, o fenômeno do downsizing levou ao surgimento de mídias mais compactas, como o CD. Pequeno, portátil, moderno, cabia na mochila, no carro ou no discman. Uma versão mais tecnológica do que já fazíamos com as fitas K7, mas agora com maior dinamismo e fidelidade sonora.
Em seguida vieram os mp3 players, que inauguraram uma nova forma de consumo. Ao permitir que criássemos nossas próprias listas, a lógica do álbum começou a perder força. A experiência musical se individualizou, fragmentando-se em canções avulsas. O tempo correu ainda mais rápido até chegarmos à era do streaming, em que plataformas e algoritmos não apenas oferecem acesso ilimitado, mas também ditam, em grande medida, o que vamos ouvir.
Não se trata de negar as vantagens desse modelo. Hoje, temos ao alcance da mão discografias inteiras de praticamente todos os artistas que já gravaram. O mesmo vale para filmes e séries, com plataformas que democratizaram o acesso a conteúdos antes restritos. O ponto é outro: até que ponto essa abundância de opções, mediada por algoritmos, não torna nossas relações mais superficiais?
Talvez seja justamente essa superficialidade que explique o surpreendente retorno do vinil. Ele nos devolve um diálogo mais próximo, quase ritualístico com a música: retirar o disco da capa, colocar na vitrola, ouvir o chiado característico, observar o encarte, acompanhar a sequência pensada pelo artista. Trata-se de desacelerar para resgatar uma experiência estética mais densa.
Aqui, a reflexão do filósofo da linguagem Ludwig Wittgenstein (1889-1951) se mostra útil. Em sua noção de ver aspectos, ele nos lembra que, diante de um mesmo objeto, podemos enxergar diferentes perspectivas. O objeto não muda; o que muda é o olhar. Assim também é com a música: ela se abre a múltiplas formas de fruição.
Alguns a escutam como pano de fundo para atividades diárias. Outros, com fones de ouvido, mergulham em melodias e harmonias. Há quem explore playlists com canções de artistas variados, e há quem prefira a imersão no vinil, interagindo intensamente com capas e letras. Nenhum desses modos é superior. Como diria Wittgenstein, há uma forma de ouvir – e há outra forma de ouvir.
O que me interessa sublinhar é a complexidade dessa arte tão profundamente entrelaçada às nossas memórias afetivas e às nossas histórias de vida. Não há problema em consumir música em um ambiente midiático hiperdinâmico e supersaturado de estímulos, desde que não nos esqueçamos do impacto transformador que ela possui.
Que possamos, de vez em quando, nos debruçar sobre um álbum inteiro. Há discos conceituais belíssimos que dialogam com literatura e poesia, pedindo nossa atenção integral. Que criemos momentos de descompressão, desacelerando o tempo orgânico da escuta, sem deixá-lo ser ditado apenas pela lógica dos algoritmos.
Mesmo em meio à rotina acelerada, com smartphones sempre à mão, podemos abrir nosso serviço de streaming favorito e nos entregar à contemplação de uma obra. Não importa o formato: vinil, CD, mp3 ou playlist. O essencial é cultivar o espaço para que a música continue sendo aquilo que sempre foi – uma das experiências mais intensas de habitar o mundo.
Daniel Pala Abeche é professor universitário e pesquisador, atuando na Escola de Belas Artes da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Doutor em Filosofia, pesquisa e escreve sobre filosofia da linguagem, cultura, artes, semiótica, estéticas e poéticas. Autor de “Música, estética e linguagem em Wittgenstein”, publicado pela PUCPRESS.

